INFORMATIVO MUNDIAL DAS MISSÕES

Excomungado e desprezado

Isaiah Malek Garang
Pastor distrital de South Bor, Sudão

Quando um sacerdote se recusou a ajoelhar-se e receber o sinal da cruz na testa,
não podia imaginar quais seriam as conseqüências.

(Peça a um homem para apresentar este Informativo na primeira pessoa.)

O arcebispo convidado mal olhava para o sacerdote inclinado à sua frente, enquanto mergulhava o dedo em uma vasilha de cinzas e desenhava uma pequena cruz na testa do sacerdote. Era quarta-feira de cinzas, e nos sentíamos honrados com a visita desse líder da Igreja no sul do Sudão. Mas, quando chegou minha vez de ficar à sua frente e me ajoelhar, não consegui seguir adiante. Meus companheiros sacerdotes me incentivaram a me ajoelhar e receber a cruz, mas recusei. Em todos os meus anos como sacerdote, nunca tinha encontrado uma referência sobre esse ritual na Bíblia. E se não existia isso na Bíblia, senti que não devia fazer parte dele.

Excomunhão repentina

O arcebispo relatou minha atitude à Igreja, que adotou uma ação imediata. Em dois dias, outro sacerdote e eu fomos excomungados por nossa recusa em aceitar a cruz de cinzas. Dez anos de serviço dedicado à Igreja foram como pó sob nossos pés. Os líderes de 17 igrejas que eu havia atendido foram chamados e interrogados. Qualquer deles que demonstrasse lealdade para comigo era retirado de suas funções eclesiásticas. E o problema foi resolvido: 82 pessoas – desde líderes até simples membros – foram removidas das funções da Igreja ou do rol de membros.

Fiquei profundamente chocado. “O que eu tinha feito para minha igreja de tão ameaçador?”, pensei. Estava proibido, inclusive, de entrar na igreja que tinha pastoreado recentemente. Alguns membros temiam ser excomungados só pelo fato de serem vistos conversando comigo. Mas também ouvi pessoas insatisfeitas com o que estava acontecendo.

Buscando a verdade

Eu precisava saber a verdade sobre Deus, a verdade que tinha resultado na minha excomunhão. Passei longas horas estudando a Bíblia, procurando conhecer a verdade divina. Pouco tempo depois, Solomon, um primo distante, foi nos visitar. Conversando sobre temas espirituais, perguntei sobre suas crenças. Ele me contou que era adventista do sétimo dia. Mais tarde, fiquei matutando no que Solomon tinha dito sobre o sábado.

Já tinha ouvido antes sobre os guardadores do sábado, mas pensava que eram como os judeus e que não acreditavam em Jesus. Lembrei-me da época em que estava no seminário, quando perguntei ao sacerdote por que o dia de guarda tinha mudado do sábado para o domingo, e ele não dera uma resposta convincente. Alguns diziam que Jesus tinha feito a mudança, outros diziam que a mudança era em homenagem a Jesus, que tinha ressuscitado no domingo. Essas respostas me deixaram insatisfeito. De novo, a pergunta veio à minha mente: “Será que o sábado continua válido? Se for assim, por que a maioria dos cristãos guarda o domingo?”

Como não tinha permissão de entrar na igreja que tinha pastoreado, passava os domingos orando em casa. Algumas pessoas que tinham sido excomungadas achavam que a igreja estava cometendo um grande erro e se uniram a mim. Além do nosso grupo, oito grupos começaram a se reunir nas casas por toda a minha antiga paróquia.

A questão do sábado e do domingo continuou em minha mente... Eu sabia que algumas pessoas guardavam a sexta-feira, outras, o sábado ou o domingo. Enquanto estudava a Bíblia, encontrei muitas referências sobre o sábado, mas nenhuma sobre a sexta-feira ou o domingo como dia de guarda. Pedi aos membros de nosso pequeno grupo que estudassem e orassem por esse assunto. Finalmente, descobri que Deus nunca mudara o dia de guarda. Imediatamente, começamos a nos reunir no sábado, em lugar de domingo. Descobrimos também a admoestação de evitar comer alimentos impuros. Algumas pessoas de fora do grupo que souberam de nossas decisões nos rotularam de judeus.

A fé tem nome

Solomon percebeu as mudanças em minha vida e me desafiou a estudar as doutrinas adventistas do sétimo dia. Perguntava-me que diferenças poderiam existir entre o que descobrimos e os ensinos adventistas. Comecei a reunir-me com alguns líderes adventistas para aprender mais sobre suas crenças. Descobri que a igreja adventista na vila era um pouco distante da minha casa. Apresentei-me ao pastor e expliquei que queria aprender os ensinamentos de sua denominação.

Fiquei no vilarejo por três meses, estudando a Bíblia, os escritos de Ellen White e revisando as crenças fundamentais da Igreja. Tudo era maravilhoso! Era evidente que aquilo era o que meu ser estava buscando. Finalmente, pedi para ser batizado.

Durante a semana antes do meu batismo, fui forçado a reconsiderar continuamente minha decisão. Meu irmão me encorajou a deixar o país, fui convidado a me unir a uma igreja não denominacional e minha antiga igreja mandou uma mensagem pedindo que voltasse à minha posição sacerdotal.

Na noite anterior ao meu batismo, tive um sonho maravilhoso. Eu me vi em pé sobre um campo limpo e brilhante. Olhei para cima e vi uma escada que alcançava o Céu. Vi pessoas correndo de todas as partes e subindo a escada. Elas subiam a cantavam: “Não vamos deixar de seguir a Jesus, pois marchamos para o Céu”. A escada estava cheia de pessoas cantando essa música. Então, me vi subindo a escada. Acordei rapidamente e me sentei, perguntando se continuava vivo. Ajoelhei-me e agradeci a Deus a lição maravilhosa de coragem que Ele tinha me dado.

Nova vida, novo ministério

Fui batizado no rio, próximo à casa do pastor. Pouco tempo depois, pedi para trabalhar como voluntário na Missão Global. Alegrei-me com esse trabalho por três meses, mas percebi que precisava voltar para minha esposa e as pequenas congregações que tinha deixado para trás. Contei ao líder de minha equipe a decisão que havia tomado e expressei a esperança de que Deus trouxesse esses novos cristãos para a igreja, como havia feito comigo.

Voltei para casa e visitei os oito grupos que estavam se reunindo em minha antiga paróquia. Eles continuavam a se reunir no sábado e estavam ansiosos por ouvir sobre o que eu aprendera enquanto estivera distante. Muitos aceitaram a mensagem adventista e foram batizados, inclusive o sacerdote que tinha sido excomungado comigo. Minha esposa foi uma das primeiras a ser batizada. Sinto-me tão feliz em tê-la ao meu lado nesse novo ministério!

Como resultado da minha excomunhão, temos hoje cerca de 355 membros em 13 igrejas e grupos adventistas em minha região no sul do Sudão. Cuido de mais pessoas do que quando era sacerdote da minha antiga igreja.

Nosso trabalho não é fácil. Algumas de nossas igrejas foram derrubadas à noite, ficando apenas escombros. Mas, mesmo com esses acontecimentos, somos abençoados na reconstrução e convidamos os malfeitores a que se unam a nós nos cultos. É difícil penetrar em novas áreas, mas trabalhamos duramente e Deus nos abençoa.

Suas ofertas missionárias proverão literatura para espalhar o evangelho, fundos para a construção de igrejas e muito mais. Obrigado por ser nosso parceiro na finalização da obra que Deus tem para nós no sul do Sudão.


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