Arrancada do fogo

MARINE DOUNG
Estuda francês na Universidade Adventista Saleve em Collonges, França

Apesar de estar vivendo na França havia muito tempo, ela não se sentia em casa. Ansiava por uma amizade íntima e se perguntava se Deus era real.

A vida não era fácil para Marine

Ela estava com sete anos de idade quando o Khmer Vermelho tomou sua terra, no Camboja, e dividiu sua família. Marine foi separada de sua mãe e enviada para trabalhar nos campos com outras garotas. Elas trabalhavam desde o amanhecer até o pôr-do-sol plantando arroz, cuidando do gado e limpando a sujeira. Nunca tinham o suficiente para comer, e suas roupas dançavam em seus corpos magros.

Se uma das crianças não trabalhasse com a agilidade que os soldados desejavam, era punida na frente das outras. Marine sentia falta da mãe e temia que nunca mais a encontrasse. Certo dia, sua mãe apareceu no campo onde ela trabalhava. “A guerra acabou”, sussurrou para Marine, “venha comigo, vamos para casa.” Marine seguiu sua mãe e, em pouco tempo, estava com seus irmãos e irmãs. A pequena família voltou para seu vilarejo. Ela continuou trabalhando, mas agora a família estava reunida.

Deixando o Camboja

Certo dia, chegou uma carta de seu pai, contando que estava morando na França. Ele conseguiu um guia que levou a família para a Tailândia. Nessa viagem, tiveram que caminhar durante a noite toda e dormir na floresta. Era comum ouvir tiros próximos dali. Depois de caminhar durante uma semana, cruzaram a fronteira da Tailândia e chegaram ao campo de refugiados.

A família permaneceu no campo durante um ano, enquanto a mãe de Marine conseguia os documentos necessários para ir à França. Finalmente, a família toda tomou um avião para esse país. Marine tinha 14 anos de idade e não via seu pai desde criança. Será que ele a reconheceria? A família ficou em um centro de refugiados, esperando que o pai a buscasse. Certo dia, a mãe lhe apresentou um homem e disse gentilmente: “Este é seu pai”.

Marine olhou para o estranho que vinha em sua direção, mas não o reconheceu. O pai cumprimentou a família cordialmente e os ajudou a chegar ao apartamento que tinha alugado. Mas não ficou com eles. Marine quis saber por quê, e a mãe explicou:

– Seu pai deixou o Camboja antes da guerra, e não sabia se estávamos vivos ou mortos. Ele agora tem uma nova família.

A mãe de Marine encontrou um emprego, e as crianças se matricularam na escola. Em pouco tempo, a vida voltou à normalidade. Marine, seus irmãos e irmãs tinham que aprender francês antes que começasse o ano escolar. Marine estudou muito e logo alcançou os alunos de sua idade. Quando completou 17 anos, sentiu a necessidade de ajudar a mãe a cuidar das outras crianças. Por isso, em lugar de terminar o Ensino Médio, fez um curso de cabeleireira e encontrou emprego em um salão de beleza.

Procurando um significado

Mesmo depois de tantos anos vivendo na França, Marine continuava se sentindo um peixe fora d’água, como se não pertencesse àquele lugar. Percebia que algo fazia falta em sua vida, mas não sabia o que era. Embora a maioria de seus amigos não se interessasse por religião, Marine era muito curiosa sobre Deus. Ficava se perguntando se Deus realmente existia e, se existia, como seria Ele. Então, começou sua busca por Deus. Marine conheceu algumas pessoas que se diziam cristãs mas, ao visitar seu culto, percebeu que elas praticavam espiritismo e magia. Isso não era o que ela estava procurando.

Certo dia, Marine conheceu Sevan, uma mulher cambojana. Tornaram-se amigas e Sevan convidou Marine para jantar em sua casa. Quando sentaram para comer, Marine ficou surpresa quando Sevan inclinou a cabeça para orar.

– O que você está fazendo? – perguntou.

– Estou orando, agradecendo a Deus pela comida – Sevan respondeu.

Marine nunca tinha visto alguém orando antes da refeição. Enquanto comiam, ela fez muitas perguntas, e Sevan contou sobre Deus e sobre Sua Palavra, a Bíblia. Ela convidou Marine para freqüentar a Igreja Adventista do Sétimo Dia, no sábado. Marine aceitou. Assim que entraram na pequena igreja, os membros a cumprimentaram cordialmente e lhe deram as boas-vindas. O sermão do pastor tocou seu coração. Marine ganhou uma Bíblia e começou a ler. Aprendeu que Jesus era seu Salvador e percebeu que era aquilo o que estava procurando.

Uma prova de fé

Marine percebeu que os adventistas não trabalhavam aos sábados, mas passavam esse dia adorando a Deus. Ela nunca tinha ouvido falar sobre o sábado, mas percebeu que esse era um lindo dia memorial da criação de Deus, um dia que Deus desejava passar com Seus filhos. Marine desejava guardar o sábado todas as semanas, mas sabia que esse era o dia mais ocupado no salão em que trabalhava. Ela pediu a seus novos amigos que orassem para que ela pudesse ter o sábado livre.

O chefe de Marine recusou-se a dar o sábado livre, mas Marine se preparou para o batismo, esperando que Deus resolvesse a situação. Finalmente, seu chefe a liberou nos sábados e ela pôde ser batizada. Então, certo dia, seu chefe disse:

– Seus clientes estão perguntando por você no sábado. E os outros funcionários estão dizendo que não é justo liberar o sábado para você enquanto eles precisam trabalhar. Eles estão certos. Você deve voltar a trabalhar no sábado.

Quando ela disse que não poderia trabalhar no sábado, seu patrão decidiu colocá-la em meio-período.

Marine aceitou esse trabalho de meio-período, pois não tinha opção. Sua família começou a pensar que seu interesse por religião estava afetando seu trabalho. A pressão no trabalho aumentou e, finalmente, Marine foi despedida. Sua mãe ficou muito preocupada quando soube que Marine tinha perdido o emprego.

– Você desagradou seu patrão por causa de uma religião boba? – sua mãe disse. – Que tipo de Deus é esse que deixa você perder seu emprego?

Novo rumo

Marine não conseguia encontrar emprego e começou a ficar preocupada sobre como ajudaria sua mãe. Ela queria fazer a coisa certa. Sua mãe tinha sacrificado muito de sua vida para melhorar a dela. E agora, quando era a vez de ela apoiar a mãe, não conseguia. E para piorar, sua mãe não entendia como sua fé em Deus poderia ser mais importante que o emprego.

Durante esses meses difíceis, os amigos da igreja a encorajaram e ajudaram a permanecer firme na fé. Ela soube do Seminário Adventista em Collonges e se matriculou para estudar francês e fazer um curso de Teologia, para aprofundar seu conhecimento da Bíblia. Embora se sentisse triste por ficar tão longe de sua mãe, sentia que era esse o caminho indicado por Deus.

Marine deseja voltar ao Camboja para partilhar o amor de Deus com seu povo, que continua vivendo na escuridão.

– Eles têm pouca esperança, e precisam da Palavra de Deus como chuva num dia de sol causticante – diz.

Marine confia em que Deus está dirigindo sua vida. Não importa o que acontecerá no futuro. Nossas ofertas missionárias alcançarão pessoas que foram desalojadas pela guerra e por desastres naturais, e as ajudarão a compreender que têm um lar e uma família com o povo de Deus.


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