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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina
4º Trimestre de 2006


Lição 12 – DA PRISÃO AO PALÁCIO

Elias Brasil de Souza
Professor de Antigo Testamento no SALT-IAENE
Cachoeira, BA

Gênesis 37-50, a última seção principal do livro de Gênesis, é conhecida como a história de José; e com razão, uma vez que envolve, principalmente, as aventuras e desventuras de José, o filho predileto de Jacó. Ao mesmo tempo, o texto anuncia que "esta é a história de Jacó" (Gn 37:2), e conclui fazendo referência às promessas que Deus "jurou dar a Abraão, a Isaque e a Jacó" (Gn 50:24). Isto significa que, apesar de todo o foco em José, o leitor tem que pensar fundamentalmente em termos corporativos/coletivos; esta história narra o surgimento da família de Jacó/Israel como Israel, o povo de Deus (FRETHEIM, 1994, pág. 592).

José, o Sonhador

José foi honrado por Jacó, que lhe deu uma túnica ricamente ornamentada, provavelmente uma túnica multicor. A palavra hebraica para "túnica multicor" ocorre em 2Sm 13:18, onde a expressão se refere às vestes de uma princesa. Isto parece significar que Jacó considerava José superior aos demais filhos, com a intenção de lhe conceder tudo ou uma porção maior da herança. Pois José era o primogênito de Raquel, a esposa amada de Jacó (Gn 30:22-24). Jacó deveria ter se lembrado do que o favoritismo paterno/materno faz a uma família. Por favoritismo, o próprio Jacó fora forçado a separar-se da mãe (Gn 27:1–28:5), e agora o favoritismo separaria José de Jacó (Gn 37:5-11).
Deus parece ter confirmado a preferência de Jacó, através de dois sonhos. A revelação de Deus ocorria de diferentes maneiras no Antigo Testamento. Ele usava sonhos quando seu povo estava de partida ou fora da terra, ou seja, em terras de pagãos. Anos antes, em um sonho, Deus havia anunciado a Abraão a escravidão egípcia (Gn 15:13); Em um sonho, Deus prometera proteção e prosperidade a Jacó em sua curta estada com Labão (Gn 28:12 e 15); e por dois sonhos predisse que José governaria sobre sua família.

Assim, "vendo, pois, seus irmãos que o pai o amava mais que a todos os outros filhos, odiavam-no e já não lhe podiam falar pacificamente. Teve José um sonho e o relatou a seus irmãos; por isso o odiaram ainda mais" (Gn 37:4-5). O relato bíblico prossegue observando que "seus irmãos lhe tinham ciúmes; o pai, no entanto, considerava o caso consigo mesmo" (Gn 37:11). Jacó sabia como Deus trabalha; ele estava atento, pois o Deus que escolhera o mais jovem poderia declarar Sua escolha com antecedência por um oráculo ou um sonho.
A cena do primeiro sonho era agrícola: "Atávamos feixes no campo, e eis que o meu feixe se levantou e ficou em pé; e os vossos feixes o rodeavam e se inclinavam perante o meu" (Gn 37:7). Sugere-se que José haveria de exercer autoridade sobre seus irmãos (veja-se Gn 42:1-3). A cena do segundo sonho era celeste (v. 9). O Sol, a Lua e 11 estrelas se curvaram diante de José. Nos tempos antigos estes símbolos astronômicos representavam governantes. O sonho, então, simbolicamente, prenunciava a elevação de José sobre toda a casa de Jacó (o pai de José, o Sol; a mãe dele, a Lua; os 11 irmãos dele, as estrelas, v. 10). Há um problema aparente neste segundo sonho, pois parece indicar que Raquel ainda estava viva. Um estudioso da Bíblia sugeriu que "provavelmente a ‘Lua’ do sonho era Lia, agora, sem dúvida, a esposa principal de Jacó, e referida como "‘tua mãe’" (Gn 37:10) em sua repreensão a José, porque esta era a única designação conveniente quando ele a estava incluindo junto com todos os irmãos de José" (GIBSON, 1981, pág. 230).

Os irmãos de José, sentindo que ele se tornaria mais preeminente do que eles, encheram-se de inveja e ódio. Porém, a reação deles, em contraste com a honestidade e fidelidade de José, demonstrou por que Jacó o escolhera.

A escolha soberana de um líder, efetuada por Deus, suscita o ciúme daqueles que têm que se submeter. Em lugar de reconhecer a escolha de Deus, os irmãos de José começaram a urdir uma trama para destruí-lo. As ações deles, embora motivadas por convicções maldosas, acabaram contribuindo para a realização dos desígnios de Deus (ROSS, 1983, pág. 87).
Os irmãos de José encontraram uma ocasião para livrar-se dele, quando ele foi obedientemente até Dotan indagar sobre o seu bem-estar. Apesar do ódio de seus irmãos, José obedeceu aos desejos de seu pai. Da residência de Jacó no Vale de Hebrom (v. 14) até Siquém (v. 12) eram aproximadamente 75 km para o norte, e Dotan se localizava mais 22 km ao norte.
Quando José se aproximou de Dotan, seus irmãos conceberam um plano para matar aquele sonhador e assim impedir que seus sonhos se cumprissem. Algum tempo antes, eles haviam tramado a morte de muitos siquemitas para vingar o que o príncipe de Siquém havia feito a Diná, irmã deles. (34:24-29); agora, eles tramavam matar o próprio irmão!

Rúben, tentando ganhar tempo para restituir José a Jacó, persuadiu os irmãos a não cometerem tal crime, sugerindo que José fosse lançado vivo em uma cisterna, visto que planejava salvá-lo depois. "Chegando José a seus irmãos, tiraram a José a sua túnica, a túnica de várias cores, que trazia. E tomaram-no e lançaram-no na cova; porém a cova estava vazia, não havia água nela" (Gn 37:23 e 24, ARC). Judá incitou seus irmãos a venderem José aos ismaelitas que vinham de Gileade para o Egito. Os ismaelitas eram descendentes de Abraão mediante Hagar (Gn 16:15) e os midianitas (Gn 37:28) provinham de Abraão através de Quetura, sua concubina (Gn 25:2). O termo ismaelitas se tornou uma designação geral para as tribos do deserto, de forma que comerciantes midianitas também eram conhecidos como ismaelitas (ROSS, 1983, pág. 88).
José foi tratado severamente por seus irmãos; mas ao ser vendido por vinte siclos de prata e levado para o Egito, ele foi preservado vivo. O tema da trapaça aparece novamente na família de Jacó, que foi enganado mais uma vez – agora por seus próprios filhos! Os filhos imergiram a túnica de José no sangue de um cabrito para enganar o patriarca, levando-o a pensar que José fora devorado por algum animal feroz. Jacó lamentou grandemente a perda do filho amado, rasgando as vestes e vestindo-se de saco (rasgar as roupas e vestir-se de saco era sinal de aflição e lamentação). O relato bíblico nota que "levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas para o consolarem" (Gn 37:35). (Na linguagem bíblica as noras também eram chamadas de filhas; veja-se Rt 1:11 e 12). O patriarca recusou-se a ser confortado e assim todos compartilharam seu sofrimento por aquele pérfido ato.

Judá e Tamar

A história de Judá e Tamar (Gn 38) tem sido objeto de discussão entre os estudiosos da Bíblia. Por interromper, de certa forma, o fluxo natural da história de José, a narrativa de Judá e Tamar tem sido percebida como um elemento estranho no texto bíblico. Contudo, um exame detalhado desta narrativa revela que ela se insere naturalmente em seu contexto, revelando a ação justa e misericordiosa de Deus em favor de seus filhos. Três pontos merecem destaque (MATHEWSON, 1989):
Em primeiro lugar, nota-se o forte contraste entre o comportamento de Judá e o de José. Compare-se a estatura espiritual de José, paciência, confiança esperançosa no futuro com a independência e ousadia de Judá. Judá casou-se com uma cananita, ludibriou sua nora retardando o cumprimento do levirato e, finalmente, viúvo, utilizou-se de uma presumida prostituta para satisfazer seus desejos carnais. No fim resultou que a suposta prostituta era sua própria nora. Veja-se, por outro lado, o contraste entre a sensualidade de Judá e a abstinência de José. Ao vencer a tentação, José finalmente recebeu uma posição estratégica que lhe permitiu ser instrumento de Deus, trazendo seu pai e sua família para o Egito.

Em segundo lugar, o episódio envolvendo Judá e Tamar ensina que Deus realizaria Seus desígnios, ainda que tivesse que usar uma mulher cananita. A mão invisível de Deus estava no comando da História. Através de uma mulher cananita, Deus preservou a semente prometida aos primeiros pais no Jardim do Éden e, mais tarde, reiterada a Abraão. Um dos filhos de Judá e Tamar, Perez, tornou-se ancestral de Davi (Rt 4:12 e 18), e conseqüentemente do Messias, como delineado em Mateus 1:3.

Em terceiro lugar, a narrativa de Gênesis 38 mostra por que Deus precisava remover a família de Jacó para o Egito. Os eventos narrados em Gênesis 38 ilustram o perigo que ameaçava o povo de Deus, se este permanecesse em Canaã naquele momento. Finalmente, eles seriam absorvidos pela cultura dos cananitas e perderiam sua identidade. Assim, Gênesis 38 provê uma ligação importante entre Gênesis 15:13-16, a promessa a Abraão e seus descendentes de uma estada curta em uma terra estrangeira, e Gênesis 46, que registra a descida deles para o Egito. Assim, a história de Judá e Tamar esclarece a razão subjacente à promessa de Gênesis 15:13-16. Por causa da deterioração crescente entre os progenitores da nação de Israel, Deus teria que removê-los, por algum tempo, para o Egito.

José, o servo de Potifar

De acordo com WIERSBE (1993) Deus usou três disciplinas para preparar José para o alto posto que receberia no Egito: serviço, autocontrole e sofrimento. Quanto à disciplina do serviço, nota-se (39:1-6) que José trocou a "túnica de várias cores" pelas roupas de um criado na casa de Potifar, e Deus o forçou a aprender a trabalhar. Deste modo, ele aprendeu a humildade (1Pe 5:5 e 6) e a importância de obedecer a ordens. Por José ter sido fiel nas coisas pequenas, Deus o promoveu para maiores coisas (ver Pv 22:29 e 12:24).

Deus também aplicou a disciplina do autocontrole (Gn 39:7–18). A mãe de José era uma mulher bonita, e sem nenhuma dúvida o filho herdou-lhe as características (Gn 29:17). As mulheres egípcias eram conhecidas pela sua infidelidade, mas José não se rendeu. Deus estava testando José, pois se José não pudesse se controlar como criado, nunca poderia controlar os outros como governante. Ele poderia ter dito: "Ninguém saberá!" ou "Todos estão fazendo isso!" Mas, ao contrário, viveu para agradar a Deus e fez questão de não fazer nenhuma provisão para a carne (Rm 13:14). "Foge, outrossim, das paixões da mocidade. Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro, invocam o Senhor!" Paulo admoestou Timóteo (2Tm 2:22) – e foi o que José fez. Como disse um pregador: José perdeu a roupa, mas manteve o seu caráter. Muitos têm falhado nessa disciplina e Deus precisou colocá-los de lado (1Co 9:24-27; Pv 16:32; 25:28). Percebe-se ainda que José não apenas controlou as paixões, mas também controlou a língua. Ele não discutiu com os oficiais ou expôs a mentira que a esposa de Potifar estava espalhando sobre ele. O controle da língua é marca de maturidade espiritual (Tg 3).

Comentando este episódio, Ellen White aconselha: "Se acalentássemos uma impressão habitual de que Deus vê e ouve tudo o que fazemos e dizemos, e conserva um registro fiel de nossas palavras e ações, e de que devemos deparar tudo isto, teríamos receio de pecar. Lembrem-se sempre os jovens de que, onde quer que estejam, e o que quer que façam, acham-se na presença de Deus. Parte alguma de nossa conduta escapa à observação. Não podemos ocultar nossos caminhos ao Altíssimo. As leis humanas, embora algumas vezes severas, são muitas vezes transgredidas sem que isto seja descoberto, e, portanto, impunemente. Não assim, porém, com a lei de Deus. A mais escura meia-noite não é cobertura para o criminoso. Ele pode julgar-se só, mas para cada ação há uma testemunha invisível. Os próprios motivos de seu coração estão patentes à inspeção divina. Cada ato, cada palavra, cada pensamento, é tão distintamente notado como se apenas houvesse uma pessoa no mundo inteiro, e a atenção do Céu nela estivesse centralizada." (WHITE, Patriarcas e Profetas, págs. 217 e 218).
Finalmente nota-se a disciplina do sofrimento (39:19-23). Em circunstâncias tão desfavoráveis, a fidelidade de José alcançou novamente o favor dos oficiais. "Mas o Senhor era com José", e isto foi a chave de seu sucesso (39:2, 5 e 21). José teve que sofrer como prisioneiro durante pelo menos dois anos, e provavelmente muito mais tempo. O Salmo 105:18 relata que "feriram-lhe os pés com grilhões; puseram-no a ferro." Isto ajudou a fazer dele um homem. É provável que Potifar fosse o capitão da guarda encarregado dos prisioneiros. De qualquer modo, ele cuidou para que José fosse posto na prisão do rei (Gn 39:20). Ellen White declarou que "houvesse Potifar acreditado na acusação feita pela esposa, contra José, e teria o jovem hebreu perdido a vida; mas a modéstia e correção que haviam uniformemente caracterizado sua conduta eram prova de sua inocência; e, contudo, para salvar a reputação da casa de seu senhor, foi entregue à vergonha e ao cativeiro" (WHITE, Patriarcas e Profetas, pág. 218). Pessoas que evitam o sofrimento têm dificuldade para desenvolver o caráter. Certamente, José aprendeu a paciência através do sofrimento (Tg 1:1-5) e desenvolveu fé mais profunda na Palavra de Deus (Hb 6:12). Este sofrimento não era agradável, mas era necessário, e um dia se transformou em glória.

José, o Intérprete de Sonhos

Lançado injustamente na prisão, José tinha tudo para fracassar. Sua fidelidade, porém, logo atraiu a atenção do carcereiro, que o encarregou de cuidar dos demais prisioneiros. Entre os companheiros de prisão, José encontrou o copeiro e o padeiro do rei, que ali estavam por haverem ofendido o monarca. Como o texto bíblico não menciona a natureza da ofensa, não é possível saber se aqueles funcionários reais foram acusados de alguma conspiração ou se a sua ofensa consistiu apenas em alguma negligência no exercício de seus deveres profissionais. A função de copeiro, especialmente, era muito importante e estratégica e requeria uma pessoa muito leal e de confiança. Pois cabia ao copeiro provar toda a comida e bebida do rei para impedir que o monarca fosse envenenado.
Na prisão, cada um daqueles dois homens teve um sonho, o qual foi fidedignamente interpretado por José. Como José havia predito, o copeiro foi restaurado à sua posição, enquanto que o padeiro foi executado. Havia muitos "manuais" de interpretações de sonhos nos tempos antigos, tanto no Egito como na Mesopotâmia. Acreditava-se que os deuses davam os sonhos, mas não sua interpretação. José, porém, não se valeu de qualquer "guia para interpretação de sonhos," mas consultou a Deus, recebendo revelação concernente ao seu significado. No entanto, ele interpretou o sonho consoante às linhas gerais da literatura mesopotâmica. Como na literatura mesopotâmica, ele infere as indicações de tempo baseado em um detalhe do sonho. Os símbolos contidos nos sonhos também são similares àqueles encontrados na literatura mesopotâmica. Um copo cheio, por exemplo, indicava fama e descendência. Carregar fruta sobre a cabeça sugeria sofrimento (MATTHEWS et al., 2000).

O copeiro, restaurado à sua posição no palácio, esqueceu-se de José até que outro sonho, desta vez do próprio faraó, lembrou-lhe do prisioneiro. Alguns sonhos eram simples e fáceis, como o sonho de Jacó em Betel (Gn 28:10-22), mas nos casos em que o próprio rei sonhava, uma ênfase adicional era posta através da experiência de um sonho duplo. Há vários registros de sonhos na literatura médio-oriental, no qual um rei teve um sonho, duplo ou triplo, cuja interpretação requereu a intervenção de magos ou representantes de um deus. No relato de Gênesis, o faraó teve dois sonhos, ou um sonho duplo (sete vacas e sete espigas), indicando com redobrada ênfase a fome vindoura sobre o Egito. Ao fracassarem os adivinhadores e sábios do Egito na interpretação daquele sonho duplo, recorreu-se a José, que prontamente respondeu ao rei: "Então, lhe respondeu José: O sonho de Faraó é apenas um; Deus manifestou a Faraó o que há de fazer. As sete vacas boas serão sete anos; as sete espigas boas, também sete anos; o sonho é um só. As sete vacas magras e feias, que subiam após as primeiras, serão sete anos, bem como as sete espigas mirradas e crestadas do vento oriental serão sete anos de fome. Esta é a palavra, como acabo de dizer a Faraó, que Deus manifestou a Faraó que ele há de fazer. Eis aí vêm sete anos de grande abundância por toda a terra do Egito. Seguir-se-ão sete anos de fome, e toda aquela abundância será esquecida na terra do Egito, e a fome consumirá a terra; e não será lembrada a abundância na terra, em vista da fome que seguirá, porque será gravíssima. O sonho de Faraó foi dúplice, porque a coisa é estabelecida por Deus, e Deus Se apressa a fazê-la" (Gn 41:25-32). Ao receber uma interpretação tão simples e clara, o rei não teve dúvidas, promoveu aquele prisioneiro ao posto de governador de todo o Egito.

José, o governador do Egito

A descrição do cargo e a cerimônia de investidura de José detalhadas no texto bíblico sugerem que José recebeu a função de "Grão Vizir " ou "Supervisor das Propriedades Reais". Ambos os cargos aparecem em documentos egípcios (ver 1Rs 16:9; Is 22:15, 19-21, para uso deste título na posterior burocracia de Israel). Tal função é detalhada em pinturas de tumba egípcias, revelando a sucessão de eventos desde a concessão do título até a colocação das vestes e dos anéis na pessoa nomeada pelo faraó. José funciona de maneira semelhante ao "inspetor dos Silos do Alto e Baixo Egito". Biografias em tumbas egípcias e literatura do Egito fornecem ampla informação sobre os detalhes da vida dos funcionários do faraó. Não são incomuns relatos de funcionários que eram promovidos de uma condição humilde para posições elevadas de autoridade. (MATTHEWS et al., 2000).

O anel de sinete que o faraó deu a José era um anel com um selo usado para assinar documentos. Quando o selo era impresso sobre um documento de argila mole que depois endurecia, deixava a impressão indelével do selo do soberano e assim comunicava sua autoridade. O faraó também vestiu José com roupas de linho e pôs um colar de ouro no pescoço e o fez segundo em comando, inferior apenas a faraó, e o fez andar na segunda carruagem. Assim todas as pessoas podiam fazer homenagem a ele. Como símbolo do novo status de José, o faraó lhe deu uma esposa, Asenate, da família sacerdotal de On (uma cidade que era centro de adoração do Sol, localizada a dez km ao norte do Cairo, também conhecida como Heliópolis). Ele também deu a José um nome egípcio (Gn 41:45), Zafenate-Panéia, cujo significado é desconhecido. José tinha trinta anos quando foi empossado, treze anos após ter sido vendido por seus irmãos (37:2). A posição de José lhe deu oportunidade para viajar extensivamente pelo Egito (ROSS, 1983, pág. 93). O Salmo 105:16-22 fala da prisão, libertação e ascensão de José.

Os sonhos do faraó começaram a se cumprir. A terra produziu abundantes colheitas por sete anos, e José armazenou o excedente em depósitos nas cidades egípcias, exercendo autoridade absoluta através da terra. Mas, apesar do sucesso, ele não abandonou sua herança israelita. Ele deu a seus dois filhos nomes hebreus. Manassés (esquecer), significando que Deus o tinha feito esquecer a miséria da separação de sua família. Efraim (frutífero) significando que Deus o havia tornado frutífero na terra de Egito. A sabedoria de José produziu frutos. Os sete anos de fartura foram realmente seguidos por sete anos de severa escassez, e os egípcios e povos de outras terras foram comprar grão nos armazéns do Egito. Finalmente, José estava no poder. Cumpria-se a revelação de Deus concedida a ele em sonhos no passado.

Chamado da prisão – servo de cativos, presa da ingratidão e da malignidade – José se demonstrou fiel à sua aliança com o Deus do Céu. E todo o Egito se maravilhou da sabedoria do homem a quem Deus instruíra. Faraó "fê-lo senhor da sua casa, e governador de toda a sua fazenda; para, a seu gosto, sujeitar os seus príncipes, e instruir os seus anciãos." (Sl 105:21 e 22). Não somente ao povo do Egito, mas a todas as nações ligadas com aquele poderoso reino, Deus Se manifestou por intermédio de José. Desejava torná-lo um portador de luz a todos os povos, e colocou-o como segundo no trono do maior império da Terra, a fim de que a iluminação celestial se estendesse por perto e por longe. Por sua sabedoria e justiça, pela pureza e benevolência de sua vida diária, por sua devoção aos interesses do povo – e esse povo, uma nação de idólatras – José foi representante de Cristo. Ele se tornou seu benfeitor, para quem todo o Egito, aquele povo gentio, se volvia com gratidão e louvor; e, por meio dele, todas as nações com quem estavam em contato deviam contemplar o amor de seu Criador e Redentor.

"Do calabouço, José foi elevado a governador sobre toda a terra do Egito. Era uma posição de alta honra e, contudo, assediada de dificuldades e perigo. Ninguém pode ficar a uma elevada altura, isento de perigo. Assim como a tempestade deixa ilesa a humilde flor do vale, ao mesmo tempo em que desarraiga a majestosa árvore no cimo da montanha, assim aqueles que têm mantido sua integridade na vida humilde podem ser arrastados ao abismo pelas tentações que assaltam o êxito e as honras mundanas. Mas o caráter de José resistiu de modo semelhante à prova da adversidade e da prosperidade. A mesma fidelidade que manifestou para com Deus quando estava na cela de prisioneiro, manifestou no palácio dos Faraós. Ele era ainda estrangeiro em terra gentílica, separado de seus parentes, adoradores de Deus; mas cria completamente que a mão divina lhe havia dirigido os passos, e com constante confiança em Deus desempenhava fielmente os deveres de seu cargo. Por meio de José, a atenção do rei e dos grandes homens do Egito foi dirigida ao verdadeiro Deus; e, embora se apegassem à sua idolatria, aprenderam a respeitar os princípios revelados na vida e caráter do adorador de Jeová" (WHITE, Patriarcas e Profetas, pág. 222).

REFERÊNCIAS

FRETHEIM, Terence E. "The Book of Genesis: Introduction, Commentary, and Reflections." In The New Interpreter"‘s Bible, ed. Leander e. Keck, 1:319-674. Nashville: Abingdon Press, 1994.

GIBSON, John C.L. Genesis : Volume 2. The Daily study Bible series. Louisville: Westminster John Knox Press, 1981.

MATHEWSON, Steven D. "An Exegetical Study of Genesis 38." Bibliotheca Sacra 146, no. 584 (1989): 373-92.

MATTHEWS, Victor Harold, Mark W. CHAVALAS and John H. WALTON. The IVP Bible Background Commentary: Old Testament. electronic ed. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2000.

ROSS, Allen O. "Genesis." The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures. Wheaton, IL: Victor Books, 1983.

WHITE, Ellen G. Patriarcas e Profetas. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 1997.

WHITE, Ellen G. Vidas que Falam (Meditações Matinais) Santo André: Casa Publicadora Brasileira, 1971.

WIERSBE, Warren W. Wiersbe‘s Expository Outlines on the Old Testament. Wheaton, IL: Victor Books, 1993.