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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina |
Lição 6 – A TERRA DEPOIS DO DILÚVIO |
Elias Brasil de Souza
Professor de Antigo Testamento no SALT-IAENE
Cachoeira, BA
O dilúvio desfigurou a criação original desde Adão e purificou a Terra para um nova criação a partir de Noé. Há paralelos muito interessantes entre os mundos antediluviano e pós-diluviano. Nota-se que a seqüência de restauração da terra após o dilúvio segue, em linhas gerais, a seqüência dos atos criativos relatados em Gênesis 1. Adicionalmente, percebem-se também interessantes paralelos entre Adão, o pai do mundo antediluviano, e Noé, o pai do mundo pós-diluviano.
O relato do dilúvio contém várias expressões reminiscentes de Gênesis 1, tais como "vento"/"espírito," "águas," "terra seca," sugerindo que o processo de restauração da Terra, após aquela catástrofe, foi uma nova criação. Nota-se uma correspondência geral entre a progressão dos seis dias de criação em Gênesis 1 e o delineamento da nova criação em Gênesis 8, como indicado abaixo.
Primeiro Dia |
1:2 |
"Terra," "abismo," "Espírito" (rûah), "" |
| 8:1b-2a |
"vento" (rûah), "terra," "abismo" |
|
| Segundo Dia |
1:7-8 8:2b |
"águas," "céus" |
| "céus" |
||
| Terceiro Dia |
1:9 |
"água," "e apareça a porção seca" |
| 8:3-5 |
"água," "apareceram os cimos dos montes." |
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Quarto Dia |
Não é necessária a recriação dos luminares |
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| Quinto Dia |
1:20 |
"aves" "sob (al pnê) o firmamento dos céus." |
| 8:7-8 |
"corvo," "pomba" "da superfície (al pnê) da terra" |
|
| Sexto Dia |
1:24 |
"animais domésticos, répteis e animais selváticos" |
| 8:17 |
"animais," "aves," "gado" "réptil" |
|
| 1:26 |
"homem," "imagem" |
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| 9:6 |
"imagem," "homem" |
O sumário das pessoas e animais desembarcando em Gênesis 8:17-19, com a exortação divina: "Sejam fecundos e... se multipliquem" nos remete para o quinto e sexto dias da criação (1:20-22, 24-25, 28-30). A arca de Noé e os animais são o mundo de Adão retomado (veja-se Gn 9:1-7). Ambos os relatos são estruturados em seqüência cronológica. Gênesis 1 tem seus sete "dias", e Gênesis 8 marca os pontos estratégicos do secamento das águas datando sua progressão em "ano,""mês" e "dia," até sua conclusão (8:13-14). O uso repetido dos números sete e dez em Gênesis 8 reflete o mesmo padrão numérico de Gênesis 1:1–2:3. Os três movimentos da salvação concedida por Deus incluem (1) o refluxo do dilúvio de águas (8:1b-5), (2) o secamento da Terra (8: 6-14) e (3) o desembarque (8:15-19). Cada fase conduz logicamente à seguinte, ocorrendo uma metódica inversão da seqüência anterior de embarque, chuva e inundação, aniquilando tudo o que possuía "fôlego de vida" (Gn 7:22). A descrição das águas retrocedendo domina a primeira fase (Gn 8:1b-5), na qual quatro vezes o texto hebraico afirma que as águas "baixaram" (Gn 8:1b), "escoando continuamente" (Gn 8:3a), e "minguando" (Gn 8:5). O centro da narrativa (Gn 8: 6-14) reitera que a Terra "estava seca" (Gn 8:13 e 14). Esse recuo culmina no último movimento (Gn 8:15-19), contendo a ordem divina, "sai"(Gn 8:16) e "faze sair" (Gn 8:17), correspondendo a "Noé saiu" (Gn 8:18), e "também saíram da arca todos os animais" (Gn 8:19). Deus dá ordens ao vento, às águas e aos habitantes da arca; todos obedecem.
Há correspondências adicionais entre os mundos antediluviano e pós-diluviano que merecem ser observadas. Notemos que (1) ambos os mundos foram criados do caos aquático em atos muito paralelos. (2) Tanto Adão como Noé estão intimamente associados à imagem de Deus. No relato de Adão, a imagem de Deus funciona como base da identidade humana; na de Noé, serve de base de proteção (Gn 1:27; 5:1-3). (3) Adão e Noé dominam sobre os animais. Adão, ao dar nome (2:19); Noé, ao preservar (7:15). (4) Deus repete quase palavra por palavra a ordem para crescer, multiplicar e encher a Terra (Gn 1:28-30//9:1-7). (5) Tanto Adão quanto Noé cultivam o solo (Gn 3:17-19//9:20). (6) Ambos seguem um padrão similar no pecado: Adão, ao comer; Noé, ao beber (Gn 3:6//9:21). (7) O pecado de ambos resulta em vergonhosa nudez (Gn 3:7//9:21), relacionada com "conhecimento" (Gn 3:5//; 9:24), sendo vestidos/cobertos por outro (Gn 3:21//9:23). (8) Ambos tiveram três filhos explicitamente mencionados por nome (Gn 4:1-2, 25//6:10). (9) Como resultado do pecado de Adão, a maldição atinge toda a humanidade. Como resultado do pecado de Noé, há uma maldição sobre Cam. (10) Entre os três filhos de cada um deles, há julgamento, esperança e divisão entre seguidores de Deus e seguidores da serpente.
O Significado do Sangue
Em Gênesis 9:4-6, encontram-se duas instruções divinas dadas a Noé e sua família. Essas leis foram concedidas no contexto da aliança universal de Deus com toda a humanidade e, portanto, são princípios que transcendem limitações étnicas, geográficas ou temporais. A primeira instrução exclui o sangue da dieta do ser humano. "Carne, porém, com sua vida, isto é, com seu sangue, não comereis." (Gn 9:4). Essa proibição era, entre outras coisas, proteção contra a crueldade e lembrança do sacrifício de animais nos quais o sangue, como portador de vida, era sagrado. Deus previu que o ser humano facilmente cairia vítima de convicções supersticiosas e achou que, participando do fluido vital de animais, fortaleceria ou prolongaria sua própria força vital. Por estas e, provavelmente, outras razões ainda obscuras para nós, o consumo de carne com sangue era absolutamente proibido. Os apóstolos entenderam que esta proibição permanecia em vigor na Era Cristã. Eles chamaram a atenção dos crentes gentios-cristãos para essa proibição, porque, antes da conversão, esses novos conversos costumavam comer carne com sangue (At 15: 20 e 29)" (SDABC Vol. 1 pág. 263).
A outra instrução, também relacionada com o sangue, enfatiza o respeito à vida humana. Sangue é essencial para a vida: enquanto ele flui em um corpo, há vida, mas sangue fora do corpo indica perda da vida. Porque Deus é vida e deve ser reconhecido como soberano sobre a vida e a morte, sangue fora do corpo é uma questão muito séria. A maioria das referências a sangue encontradas no Antigo Testamento refere-se a sangue fora do corpo e, portanto, está freqüentemente associada à morte (violenta) (ALEXANDER, 2001). Assim, a pena capital se fundamenta na verdade de que todos os seres humanos são criados à imagem de Deus, o que os distingue das demais criaturas vivas. Como disse Calvino, ninguém pode ferir seu irmão, sem ferir o próprio Deus. A ofensa não é contra a vítima, contra sua família nem contra a sociedade (embora todos sejam afetados), mas contra o próprio Deus. A vida humana é tão valiosa – por ser portadora da imagem de Deus – que Deus exige compensação pelo derramamento de sangue não apenas de assassinos humanos, mas também de animais. "Certamente, requererei o vosso sangue, o sangue da vossa vida; de todo animal o requererei, como também da mão do homem, sim, da mão do próximo de cada um requererei a vida do homem. Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem" (Gn 9.5-6).
O Pecado de Cam
Era um ancião com mais de 600 anos de idade, e não um jovem imaturo, que caiu em pecado e vergonha. O texto hebraico sugere que Noé se descobriu deliberadamente de maneira vergonhosa; intemperança e impureza andam juntas. Alguns desculpam Noé, sugerindo que as novas condições climáticas da terra pós-diluviana facilitaram a fermentação de vinho, e que Noé não sabia o que estava fazendo. Mas a Bíblia não desculpa pecados. Este foi o terceiro fracasso por parte da humanidade. O ser humano tinha desobedecido no Éden, resultando em sua expulsão do jardim; havia corrompido a Terra, resultando no dilúvio; e agora, o cabeça da nova humanidade se havia embebedado de forma despudorada! Para piorar as coisas: Cam "vendo a nudez do pai, fê-lo saber, fora, a seus dois irmãos" (Gn 9:22).
Afinal, em que consistiu o pecado de Cam para que seu filho, Canaã, recebesse maldição tão severa? Vejamos algumas explicações. (1) Em algumas partes do Pentateuco, desonrar o próprio pai significa dormir com a mulher do pai (Lv 18:7; 20:11; Dt 27:20). Assim, foi sugerido que Cam era culpado de incesto, e que Canaã era resultado desse relacionamento. Mas as ações de Sem e Jafé em Gênesis 9:23, e o fato de Canaã já existir quando o episódio ocorreu, torna essa sugestão improvável. (2) Levítico 20:17 usa a expressão "descobrir a nudez" como eufemismo para relações sexuais incestuosas. Isso tem levado alguns a sugerir que o pecado de Cam consistiu em algum tipo de atividade homossexual com seu pai. Porém, esse ponto de vista é improvável, devido a significativas diferenças de linguagem entre o texto de Gênesis 9 e Levítico 18. (3) Com base no texto bíblico de Gênesis 9:22, "ver a nudez" indica uma atitude de contemplação desrespeitosa de Cam, ao ver que seu pai estava nu. Notemos que não foi Cam quem descobriu seu pai, mas foi o próprio Noé quem se descobriu (o verbo está na voz reflexiva). Assim, o pecado de Cam provavelmente consistiu em zombar de seu pai, convidando outros para olharem para aquele insólito espetáculo. Tal zombaria estava em clara oposição ao mandamento de honrar pai e mãe. Tal atitude foi demonstração de imaturidade e irresponsabilidade. Em vez de sentir tristeza pela conduta imprópria do pai, Cam sentiu prazer em espalhar a notícia.
Ao recobrar-se da embriaguez e tomar conhecimento do que seu filho Cam fizera, Noé proferiu uma maldição sobre Canaã, filho de Cam. Os eruditos explicam isto da seguinte maneira: (1) É provável que Canaã estivesse envolvido no incidente junto com o pai. Orígenes menciona a tradição de que foi Canaã que primeiro viu a nudez de Noé e foi chamar Cam. (2) A maldição de Noé não é uma expressão de ressentimento, mas uma profecia do que aconteceria aos descendentes de Canaã. Como esclareceu Ellen White, "a profecia de Noé não foi uma manifestação arbitrária de ira ou uma declaração de favor. Ela não fixou o caráter e destino de seus filhos. Mas mostrou qual seria o resultado da conduta de vida que cada um havia escolhido, e o caráter que tinham desenvolvido. Era uma expressão do propósito de Deus para com eles e sua posteridade, em vista de seu próprio caráter e conduta. Em regra, os filhos herdam as disposições e tendências dos pais, e imitam-lhes o exemplo, de modo que os pecados dos pais são praticados pelos filhos de geração em geração. Assim, a vileza e irreverência de Cam foram reproduzidas em sua posteridade, acarretando-lhe maldição por muitas gerações" – Patriarcas e Profetas, pág. 118).
Para finalizar esta seção, notemos que o relato sobre a maldição de Canaã tem sido arbitrariamente aplicado à África negra, e assim, utilizado como instrumento para justificar a escravidão e os preconceitos raciais. Alguns escravagistas chegaram ao absurdo de sugerir que Deus ordenou a escravidão da raça negra. Em relação a isso, observemos que foi Canaã, não Cam, que foi amaldiçoado (Gn 9:25). Assim, estender essa maldição a todos os descendentes de Cam viola o sentido explícito do relato bíblico. Torna-se evidente que essa maldição não se aplica à raça negra mas, sim, aos futuros inimigos de Israel, os canaaneus, notáveis por sua corrupção sexual. Levítico 18:2-23, por exemplo, identifica várias práticas sexuais ilícitas com os pecados dos cananeus. Assim, a maldição sobre Canaã não se pronuncia como punição por causa do pecado de Cam, seu pai. Antes, consititui-se em oráculo profético contra um futuro inimigo do povo de Deus, algo plenamente atestado pela história posterior dos canaaneus. Nota-se que a maldição sobre Canaã, não possui contornos raciais. Os cananeus recebem a maldição profética, não por serem uma raça diferente, mas por causa de sua depravação moral e dos deuses a quem adoravam. Não nos esqueçamos de Raabe, a mulher cananéia, que foi integrada ao povo de Deus.
Portanto, a maldição de Canaã deve ser interpretada dentro do contexto do Antigo Testamento e identificada como a vitória dos israelitas sobre os cananeus, habitantes da terra prometida. É totalmente errado aplicar esta maldição à África negra, a africanos ou afro-descendentes.
A Torre de Babel
Rebelião. Deus tinha ordenado que a humanidade enchesse a Terra (Gn 9:1, 7 e 9), mas os seres humanos decidiram estabelecer-se na planície de Sinear, onde ficava situada Babilônia (Gn 10: 8-10). Esta era uma rebelião deliberada contra a Palavra de Deus. Eles partiram do "Oriente", o que sugere que eles estavam dando as costas para a luz. Aquela geração rebelde decidiu se unir para construir uma cidade e uma torre. Os propósitos daquela construção eram: (1) manter a unidade em oposição a Deus, e (2) fazer um nome (fama). Esta operação inteira é o prenúncio da oposição final dos seres humanos impenitentes (e de Satanás) contra Cristo, centrada na Babilônia de Apocalipse 17–18. Homens se unirão em uma igreja mundial e organização política mundial. Eles serão conduzidos pelo Anticristo e perseguirão o povo de Deus.
Julgamento. Deus conhecia os desígnios dos rebeldes construtores e os julgou. A divindade novamente deliberou entre si (veja-se Gn 1:26) e decidiu confundir os idiomas dos construtores da torre, tornando impossível o prosseguimento da obra. Este realmente era tanto um ato de clemência como de julgamento. Houvessem eles persistido em suas intenções, e um julgamento muito mais severo teria seguido. O nome "Babel", que na língua dos babilônios significa "portão de Deus", foi associado pelo autor bíblico ao verbo hebraico balal que significa "confundir". É uma apropriada descrição do juízo divino ao confundir a linguagem dos construtores. A ação de Deus aqui explica a origem dos idiomas da humanidade.
Mais tarde, no Pentecostes, há uma reversão de Babel, quando Deus intervém para produzir unidade espiritual entre os seguidores de Jesus. A intervenção divina no Pentecostes inverteu o julgamento de Babel, e os seguidores de Jesus podiam, então, falar em outras línguas e serem compreendidos. Era um grupo de pessoas que, como os construtores da torre de Babel, também queriam fazer um nome e realizar uma grande obra. Porém, ao contrário dos babelitas, eles queriam exaltar o nome de Jesus e realizar uma grande obra para Deus ao levar o evangelho a toda nação, tribo, língua e povo.
Estrutura Literária da Narrativa. A história da torre de Babel se organiza em uma estrutura invertida na qual a segunda metade da história repete as palavras e frases-chave da primeira metade em seqüência invertida, como notado abaixo.
A "em toda a Terra havia apenas uma linguagem" (v. 1)
B "ali" (v. 2)
C "e disseram uns aos outros" (v. 3)
D "Vinde, façamos tijolos" (v. 3)
E "Vinde, edifiquemos" (v. 4)
F "uma cidade e uma torre" (v. 4)
G "Então, desceu o SENHOR " (v. 5)
F "a cidade e a torre" (v. 5)
E "que os filhos dos homens edificavam" (v. 5)
D "vinde, desçamos e confundamos" (v. 7)
C "para que um não entenda a linguagem de outro." (v. 7)
B "dali " (v. 8)
A "a linguagem de toda a Terra " (v. 9)
Esta estrutura invertida, como se fosse uma imagem de espelho, revela um equilíbrio no qual os esforços humanos (vs. 1-4) são confrontados pela ação divina (vs. 6-9). O elemento central da estrutura literária (v. 5) é o ponto médio da história. Isto resulta em um padrão que mostra a inversão dos eventos da história, movendo-se da ação humana de construção à ação divina que deflagrou a desconstrução da cidade. A estrutura invertida do relato destaca o evento focal da descida de Deus (v. 5). É o alicerce no qual o destino das pessoas se inverte, funcionando, ao mesmo tempo, como a ironia da história. Apesar dos esforços monumentais dos construtores para alcançar "os céus" (v. 4), Deus desceu do Céu para testemunhar os frágeis esforços daqueles homens e mulheres (v. 5). A história de Babel demonstra que o orgulho humano resultou no castigo de Deus.
Referências:
Alexander, T. Desmond and Brian S. Rosner. New Dictionary of Biblical Theology. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2001.
Hays, J. Daniel. From Every People and Nation: A Biblical Theology of Race. Downers Grove, IL: Intervarsity, 2003.
Mathews, K. A. Vol. 1A, Gênesis 1-11:26. The New American Commentary. Nashville: Broadman and Holman Publishers, 1995.
Nichol, Francis D. The Seventh-day Adventist Bible Commentary, Volume 1, Review and Herald Publishing Association, 1978.
White, Ellen G. Patriarcas e Profetas.
Wiersbe, Warren W. Wiersbe's Expository Outlines on the Old Testament. Wheaton, IL: Victor Books, 1993.