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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina |
Lição 8 – FÉ E FRAQUEZA |
Elias Brasil de Souza
Professor de Antigo Testamento no SALT-IAENE
Cachoeira, BA
Abraão, Sara e Hagar
As promessas de Deus demandam uma persistência que muitas vezes contradiz a lógica da racionalidade humana, pois exigem aceitação de uma oferta divina que os dados do presente não podem substanciar. Por exemplo, Abraão abandonou as bem regadas e férteis terras da Mesopotâmia para viver em uma terra que não era a melhor e mais fértil entre as terras do antigo Oriente Próximo. Antes, do ponto de vista humano, era de qualidade inferior. Nota-se que logo após a chegada de Abraão à terra da promessa, houve uma fome, e o patriarca precisou partir para o Egito em busca de mantimento. Como expressa o texto bíblico: "Havia fome naquela terra; desceu, pois, Abrão ao Egito, para aí ficar, porquanto era grande a fome na terra" (Gn 12:10). Mais tarde, quanto Abraão e Ló tiveram que se separar, Ló escolheu "a campina do Jordão, que era toda bem regada... como o jardim do Senhor, como a terra do Egito" (Gn 13:10). (Seria a terra da promessa um "presente de grego?!).
Porém, as promessas de Deus a Abraão não incluíram apenas uma terra de qualidade humanamente duvidosa, mas também uma esposa que envelhecera sem dar filhos a Abraão. Assim, à promessa de uma numerosa descendência, contrapunha-se uma esposa estéril. Diante deste quadro, humanamente sem esperança, Sara sugeriu que Abraão deveria ter um filho através de Hagar, a serva egípcia de Sara. Nas culturas do antigo Oriente Próximo, uma esposa estéril poderia escolher uma escrava e entregá-la ao marido. O filho nascido à escrava seria considerado filho da esposa.
A sugestão de Sara foi aceita por Abraão e o resultado daquela iniciativa humana foi o nascimento de Ismael, pondo diante do patriarca a tentação de confiar no fruto de suas próprias obras em, vez de aguardar o cumprimento da promessa. As dificuldades que Abraão passou a enfrentar, como resultado do triângulo familiar que se formara emergem claramente no decorrer da narrativa bíblica. Hagar, entregue a Abraão pela própria Sara, começou a sentir-se superior a sua senhora. Sara, tomada por inveja e ressentimento da serva grávida, leva sua queixa a Abraão, responsabilizando-o por seu infortúnio. "Eu te dei a minha serva para a possuíres; ela, porém, vendo que concebeu, desprezou-me. Julgue o Senhor entre mim e ti" (Gn 16:5).
Sobre este episódio, Ellen White declara o seguinte: "Lisonjeada pela honra de sua nova posição como esposa de Abraão, e esperando ser a mãe da grande nação que dele descenderia, Hagar se tornou orgulhosa, jactanciosa, e tratou sua senhora com desprezo. Ciúmes recíprocos perturbavam a paz do lar que fora feliz. Obrigado a escutar as queixas de ambas, Abraão inutilmente se esforçou por estabelecer de novo a harmonia. Se bem que fosse pelos rogos encarecidos de Sara que ele desposara Hagar, ela o censurava agora como o faltoso. Desejava banir sua rival; mas Abraão recusou-se a consentir nisto; pois Hagar seria mãe de seu filho, como ele ansiosamente esperava, o filho da promessa. Ela era serva de Sara, contudo; e ele a deixou ainda sob o domínio de sua senhora. O espírito altivo de Hagar não tolerava a aspereza que sua própria insolência provocara" (Patriarcas e Profetas, pág. 145). É interessante notar que o parágrafo 146 do Código de Hamurabi (código de leis mesopotâmico datado do segundo milênio a.C.), prescreve que "se a escrava aspirar a igualar status de sua senhora – por ter dado à luz uma criança – a senhora não a venderá, (mas) pode colocar nela a marca de escrava e a contá-la com os escravos." Assim, em consonância com seu direito legal, "Sara humilhou-a, e ela fugiu de sua presença" (Gn 16:6), levando no ventre o filho de Abraão.
Se dependesse das partes humanas envolvidas, Abraão, Sara e Hagar, tudo ficaria como estava. Deus, porém, interveio naquela situação. O anjo do Senhor veio ao encontro de Hagar no caminho de Sur, localidade situada ao sul de Canaã, na rota para o Egito, através da península do Sinai. (É possível que Hagar estivesse voltando para o Egito, sua terra!) Encontrando Hagar, o anjo lhe dirigiu a palavra quatro vezes: "E disse-lhe" (v. 8); "Então, lhe disse o Anjo do Senhor" (v. 9); "Disse-lhe mais o Anjo do Senhor" (v. 10); "Disse-lhe ainda o Anjo do Senhor" (v. 11). As quatro intervenções do anjo culminam no verso 11 com o anúncio de nascimento de Ismael: "Disse-lhe mais o Anjo do Senhor: Multiplicarei sobremodo a tua descendência, de maneira que, por numerosa, não será contada. Disse-lhe ainda o Anjo do Senhor: Concebeste e darás à luz um filho, a quem chamarás Ismael, porque o Senhor te acudiu na tua aflição. Ele será, entre os homens, como um jumento selvagem; a sua mão será contra todos, e a mão de todos, contra ele; e habitará fronteiro a todos os seus irmãos" (Gn 16:10-12). Percebe-se que embora Ismael não fosse o filho da promessa, antes representasse o esforço humano para alcançar a promessa, ele também recebeu uma bênção. Foi uma bênção vigorosa, que incluía numerosa descendência, porém distinta da bênção que Deus tencionava dar a Abraão. Foi uma bênção para estar em outro lugar, fora da terra prometida, vivendo por seus próprios recursos.
Anos mais tarde, quando Isaque já havia nascido, outra crise emergiue no triângulo familiar de Abraão. Sara notou que Ismael caçoava de seu filho e, ofendida, exigiu que ele fosse banido, juntamente com sua mãe (Gn 21:10). Mais uma vez, Abrão foi "oprimido por mágoa indizível, quando despediu Hagar e seu filho". – Patriarcas e Profetas, pág. 147.
A experiência de Abraão com Hagar e Ismael demonstra o alto preço a ser pago por aqueles que se afastam do ideal de Deus para o matrimônio. Como Ellen White afirmou, "a instrução proporcionada a Abraão, no tocante à santidade da relação matrimonial, deve ser uma lição para todos os tempos. Declara que os direitos e a felicidade desta relação devem ser cuidadosamente zelados, mesmo com grande sacrifício. Sara era a única esposa legítima de Abraão. Seus direitos como esposa e mãe, nenhuma outra pessoa tinha a prerrogativa de partilhar" (Patriarcas e Profetas, pág. 147). Ao tomar outra mulher, Abraão violara a aliança matrimonial, o vínculo de relacionamento humano mais sagrado e profundo, instituído por Deus no Éden. Como disse Ellen White, "Deus havia chamado Abraão para ser o pai dos fiéis, e sua vida devia ser um exemplo de fé para as gerações subseqüentes. Mas sua fé não tinha sido perfeita." (Patriarcas e Profetas, pág. 147). Contudo, apesar das fraquezas mencionadas acima, Deus, em Sua graça, continuou trabalhando com Abraão, pois "onde abundou o pecado, superabundou a graça" (Rm 5:20).
Renovação da Aliança
A renovação da aliança com Abraão relatada em Gênesis 17 incluiu alguns aspectos não abordados anteriormente. Houve mudança de nomes. O patriarca, que até aquele momento se chamava Abrão, passou a chamar-se Abraão. Sua mulher, que até então era conhecida como Sarai, passou a chamar-se Sara. Nota-se também que o rito da circuncisão foi instituído como o sinal do concerto.
A mudança de nome do patriarca era crucial. O nome Abrão (Gn 17:5), significando "pai exaltado," apontava retrospectivamente para o passado, para Terá (11:27). Mas em hebraico, o nome Abraão interpreta-se como "pai de uma multidão" e aponta para o futuro, quando nações surgiriam de Abraão (17:4-5). Pode-se imaginar alguém recebendo um nome como este aos noventa e nove anos de idade (a idade de Abraão quando recebeu esta promessa)?!
Deus também anunciou que Sarai seria chamada Sara. Este nome novo, envolvendo apenas uma pequena mudança na pronúncia, significa "princesa," e aponta muito apropriadamente para aquela cuja semente produziria reis (Gn 17:16). Ouvindo isto, Abraão riu-se, porque parecia incrível que uma mulher de noventa anos pudesse dar à luz um filho. Abraão pensava que a semente prometida seria através de Ismael. Mas o novo nome de Sarai, que passou a chamar-se Sara, era uma lembrança perpétua de que as promessas de Deus incluíam a participação da esposa do patriarca. Assim, o novo nome de Abraão e de sua esposa eram uma garantia de que Deus estava no controle da promessa e que a palavra divina não falharia.
Outro elemento importante na renovação da aliança descrita em Gênesis 17 consistiu na ordenança da circuncisão, rito aplicado a todos os descendentes masculinos que compartilhavam da promessa. O rito consistia em cortar o prepúcio, pele que cobre a glande do pênis, e praticava-se no oitavo dia de vida do menino. A circuncisão era a marca física de participação na aliança que Deus fez com Abraão e seus descendentes.
A circuncisão era difundida entre outros povos no antigo Oriente Próximo. Foi praticada pelos egípcios, pelos cananeus e por outros povos semitas – mas não pelos assírios, babilônios e filisteus – como rito de passagem. Mas, no contexto da aliança abraâmica, a circuncisão funcionava com novo significado, ao lembrar Abraão e seus descendentes da aliança perpétua com Deus (Gn 7:13). Através deste símbolo, Deus os impressionou de duas maneiras: Primeira, a impureza precisava ser removida. Ao serem circuncidados, eles reconheceriam isto e se lembrariam de que a impureza devia ser colocada de lado, especialmente no matrimônio. Segunda, a natureza humana não pode gerar a descendência prometida. O ser humano depende de Deus para produção e preservação da vida. Qualquer israelita que se recusasse a ser circuncidado seria "eliminado do seu povo" (Gn 17:14), por desobedecer ao mandamento de Deus.
Deve ser observado, porém, que a formalidade do sinal físico devia apontar para uma realidade interior, pois este rito simbolizava a prontidão em responder a Deus, definido como "circuncisão do coração" (Dt 10:16; Fp 3:3). Era considerado símbolo de separação, pureza e lealdade para com a aliança. Moisés disse que Deus circuncidaria os corações de Seu povo. "O Senhor, teu Deus, circuncidará o teu coração e o coração de tua descendência, para amares o Senhor, teu Deus, de todo o coração e de toda a tua alma, para que vivas" (Dt 30:6). E Paulo escreveu sobre a "circuncisão, a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus" (Rm 2:29). Por contraste, o incrédulo se define como aquele que possui um coração incircunciso (Jr 9:26; Ez 44:7-9).
Finalmente, deve ser lembrado que o Novo Testamento recorre à circuncisão como um tipo para explicar o significado do rito do batismo. "Nele, também fostes circuncidados, não por intermédio de mãos, mas no despojamento do corpo da carne, que é a circuncisão de Cristo, tendo sido sepultados, juntamente com Ele, no batismo, no qual igualmente fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que O ressuscitou dentre os mortos. E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com Ele, perdoando todos os nossos delitos" (Cl 2:11-13).
Sodoma e Gomorra
Antes do dia fatídico em que o juízo divino foi derramado sobre Sodoma e Gomorra, duas visitas são relatadas. A primeira foi a visita do Senhor e dois anjos a Abraão (Gn 18:1-21). Nessa visita, O Senhor reafirmou Sua aliança com o patriarca, prometendo-lhe um filho através de Sara. O Senhor também informou a Abraão sobre a destruição de Sodoma e Gomorra. Em harmonia com a justiça divina, já observada por ocasião do dilúvio e no episódio da torre de Babel, o propósito de Deus naquela visita incluía a realização de um juízo investigativo para avaliar a situação de Sodoma e Gomorra, antes de efetuar a destruição daquelas cidades. Infere-se tal investigação do seguinte texto: "Disse mais o Senhor: Com efeito, o clamor de Sodoma e Gomorra tem-se multiplicado, e o seu pecado se tem agravado muito. Descerei e verei se, de fato, o que têm praticado corresponde a esse clamor que é vindo até Mim; e, se assim não é, sabê-lo-ei."(Gn 18:20). Após este anúncio, os dois anjos que acompanhavam o Senhor partiram para realizar a segunda visita (Gn 19:1ss), desta vez a Ló em Sodoma.
Entrementes, o Senhor permaneceu com Abraão. À moda oriental, o patriarca passou a "pechinchar," não pela graça de Deus, mas pela justiça de Deus. Como poderia Deus destruir o justo com o ímpio? (No Calvário, Deus castigou o justo em lugar do ímpio.) Persistente e ternamente, Abraão "pechinchou" por Sodoma, reduzindo de cinqüenta para dez a quantidade necessária de justos para que a cidade fosse poupada (Gn 18:22-33). Assim, se houvesse dez justos naquela cidade, Deus pouparia a cidade inteira. Alguns estudiosos sugerem que Gênesis 19 indica que Ló tinha pelo menos duas filhas casadas (Gn 19:14) e duas filhas solteiras (Gn 19:30ss), com sua esposa e seus dois genros. Se esta interpretação for correta, conclui-se que havia um total de oito pessoas na família de Ló. Se Ló tivesse alcançado sua própria família, e o mínimo de dois vizinhos, Deus teria poupado toda uma cidade! Mas ele não preencheu nem mesmo este requisito.
Quando os dois anjos chegaram a Sodoma, encontraram Ló à entrada da cidade, o que sugere que Ló era uma pessoa influente. Afinal, era à entrada das cidades antigas que os anciãos e outras pessoas influentes se encontravam para resolver disputas e decidir assuntos relativos à administração. Ló convidou aqueles visitantes à sua própria casa para os livrar dos perversos habitantes daquela cidade. Porém, em seguida, a casa de Ló foi cercada por sodomitas, exigindo que os dois anjos lhes fossem entregues para propósitos sexuais. Em vão, Ló tentou argumentar com eles; chegou, até mesmo, a oferecer-lhes suas duas filhas virgens. A tragédia só foi evitada porque os anjos feriram aquela turba com cegueira. Em seguida, Ló ainda tentou convencer suas filhas casadas e seus esposos de que Sodoma estava condenada, mas eles não levaram a sério sua advertência.
A queda de Ló começou quando, ao separar-se Abraão, partiu em direção a Sodoma. A partir daquele momento, entrou em um declive deslizante que lhe trouxe funestas conseqüências. Notemos a progressão da queda trágica de Ló:
Finalmente, ele deu suas energias (Gn 19:1-11) e até suas próprias filhas (Gn 19: 8, 12-14, 30-38) para Sodoma.
Os dias finais de Ló foram cheios de trevas e pecado. Foi levado a cometer incesto em uma caverna. Ele abandonou uma tenda para morar em uma casa na cidade, e terminou em uma caverna, embriagado pelas próprias filhas. O resultado desse horrível episódio foram os moabitas e amonitas, os quais se tornaram inimigos do povo de Deus durante séculos.
Devemos estar seguros de que estamos em harmonia com Deus ao nos estabelecermos com nossa família. Ló escolheu o lugar errado e arruinou a si e a seus familiares. É interessante contrastar as duas visitas relatadas nos capítulos 18 e 19. O próprio Senhor visitou Abraão, mas só os anjos foram a Sodoma para visitar Ló. O Senhor trouxe uma mensagem de alegria para Abraão e Sara, mas os anjos levaram uma mensagem de julgamento para Ló. Abraão foi visitado de dia, porém, Ló o foi durante a noite. Abraão estava à porta de tenda, enquanto Ló estava à porta da cidade. Abraão tinha poder proveniente de Deus, mas Ló não teve influência nem mesmo sobre sua própria família. Abraão viu Sodoma ser destruída e não perdeu nada; Ló perdeu tudo (sua vida, porém, foi poupada). Abraão tornou-se portador de uma bênção universal, Ló trouxe dificuldades para o povo de Deus, representadas pelos amonitas e moabitas.
Obras Consultadas:
Brueggemann, Walter. Genesis. Interpretation, a Bible commentary for teaching and preaching. Atlanta: John Knox Press, 1982.
Carson, D. A. New Bible Commentary: 21st Century Edition. 4th ed. Leicester, England; Downers Grove, Ill., USA: Inter-Varsity Press, 1994.
Hallo, William W. and K. Lawson Younger. eds. Context of Scripture. Leiden; Boston: Brill, 2000.
Walvoord, John F., Roy B. Zuck and Dallas Theological Seminary. The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures. Wheaton, IL: Victor Books, 1983-c1985.
White, Ellen G. Patriarcas e Profetas.
Wiersbe, Warren W. Wiersbe's Expository Outlines on the New Testament. Wheaton, Ill.: Victor Books, 1997, c1992.
Willmington, H. L. Willmington's Bible Handbook. Wheaton, Ill.: Tyndale House Publishers, 1997.