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CasaNet

Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina
4º Trimestre de 2006


Lição 9 – O TRIUNFO DA FÉ

Elias Brasil de Souza
Professor de Antigo Testamento no SALT-IAENE
Cachoeira, BA

Os Tropeços de Abraão

Além da situação envolvendo o nascimento de Ismael, o relato bíblico menciona outras duas situações em que a confiança de Abraão no Deus das promessas vacilou. Em duas situações, o patriarca usou Sara para livrar-se de situações difíceis que, segundo sua maneira de ver, poderiam custar-lhe a vida. No Egito, ele usou uma meia-verdade, informando que Sara era sua irmã (Gn 12:10-20; veja-se 20:12-13); anos mais tarde, cometeu o mesmo pecado, repetindo aquela meia-verdade aos habitantes de Gerar (Gn 20:1-18). Se o medo dele no Egito (Gn 12:10-20) era compreensível, embora não justificado, como entender a repetição do mesmo erro em Gerar, uma cidade pequena no sudeste de Canaã (Gn 10:19)? Depois de desfrutar tal intimidade com Deus, como revelada em outros episódios, como explicar a atitude do patriarca de confiar em sua própria astúcia ao invés de recorrer à proteção divina?

A reação do rei de Gerar, quando descobriu que Sara era mulher de Abraão, revela uma atitude marcada por uma moralidade elevada. "Então, chamou Abimeleque a Abraão e lhe disse: Que é isso que nos fizeste? E em que pequei eu contra ti, para trazeres tamanho pecado sobre mim e sobre o meu reino? Tu me fizeste o que não se deve fazer" (Gn 20:9). Por ironia, neste episódio, o rei de Gerar revelou ter mais consciência do poder e das demandas éticas de Deus do que o próprio Abraão. A resposta de Abraão, por outro lado, revela falta de convicção na providência divina: "Respondeu Abraão: Eu dizia comigo mesmo: Certamente não há temor de Deus neste lugar, e eles me matarão por causa de minha mulher. Por outro lado, ela, de fato, é também minha irmã, filha de meu pai e não de minha mãe; e veio a ser minha mulher. Quando Deus me fez andar errante da casa de meu pai, eu disse a ela: Este favor me farás: em todo lugar em que entrarmos, dirás a meu respeito: Ele é meu irmão" (Gn 20:11-13). Nota-se que Abraão refere-se a sua jornada dizendo que Deus o "fez andar errante", tradução de um termo hebraico que denota um jornadear sem rumo, sem destino. O que Abraão queria dizer com isso? Seria uma expressão visando captar a simpatia de Abimeleque para com um itinerante angustiado? Ou o patriarca estaria revelando o que às vezes ele sentia ser o chamado de Deus – um vaguear sem rumo em direção a um futuro desconhecido?

Como resultado, nas duas situações (no Egito e em Gerar) Sara foi levada para o palácio para tornar-se esposa do monarca do lugar. (Isaque cometeu a mesma falha anos mais tarde, como relatado em Gn 26:1-11.) Assim, mais uma vez, a promessa corria o risco de falhar, devido à hesitação do patriarca, o qual temia mais os homens do que a Deus. A situação só foi revertida devido à intervenção divina que, com pragas e sonhos, revelou àqueles monarcas algo que o próprio Abraão deveria ter dito desde o início – que Sara era esposa do patriarca.

Uma análise detalhada da narrativa bíblica revela que o pecado do patriarca resultou de uma sucessão de equívocos. Primeiro, há um equívoco teológico: Abraão não incluiu Sara na promessa recebida. O patriarca entendeu que a promessa de uma numerosa descendência seria cumprida à parte de Sara. Isto o levou a pensar no início em Eliezer, seu servo, e depois, em Ismael, filho de Hagar, como portadores da linhagem prometida. Essa visão teológica distorcida levou Abraão a instrumentalizar sua esposa, usando-a como recurso para proteger a vida dele. Em segundo lugar, há um equívoco espiritual. O relacionamento de Abraão com Deus não se fortalecera a ponto de formar no patriarca a convicção de que o mesmo Deus que o chamara de Ur e lhe fizera promessas tão grandiosas era capaz de proteger sua vida. Em terceiro lugar, nota-se que os dois primeiros equívocos resultaram em uma distorção missiológica, pois o patriarca, chamado para a missão de ser uma bênção aos povos da terra, tornou-se maldição para aqueles dois reis.

Em consonância com as observações acima, deve-se notar também que a anuência de Abraão à sugestão de Sara para unir-se a Hagar resultou em terrível fardo sobre a serva egípcia. Logo após ter concebido, fugiu, grávida, para o deserto. Mais tarde, juntamente com seu filho, Hagar foi expulsa, da casa onde por vários anos servira. Assim, percebe-se que Hagar amargou as conseqüências de uma decisão cuja iniciativa não fora dela. Assim, também para Hagar, a missão abraâmica de ser uma bênção estava longe de se tornar uma realidade concreta.

Não obstante as imperfeições e falhas de Abraão, Deus não abandonou o patriarca. Note-se que mesmo diante daquela situação de fracasso, Deus ainda lhe conferiu a responsabilidade de interceder pelo rei de Gerar, de forma a reverter o julgamento divino. Abraão se dispôs a permitir que Deus aumentasse sua fé. Pequena como um "grão de mostarda", quase imperceptível em alguns momentos, a fé que tinha Abraão desenvolveu-se a ponto de o patriarca "vir a ser o pai de todos os que crêem" (Rm 4:11).

O Cumprimento da Promessa

Por muitos anos, Sara havia suportado o fardo de não ter filhos, um fardo muito pesado naquela cultura e naquele momento. O fracasso em produzir um herdeiro era uma grande calamidade para uma família no mundo antigo, pois significava o rompimento no padrão de herança e de linhagem, além de significar que não haveria ninguém para cuidar do casal na velhice. Muitos devem ter sorrido quando ouviram que o nome do marido de Sara era Abraão (= "pai de uma multidão"). Abraão era pai de apenas um filho, Ismael, o que estava muito longe de uma multidão; e Sara nunca tinha dado à luz. Mas, agora, os tempos de tristeza terminaram, e o casal se alegrava com a chegada do tão desejado filho.

Mas o nascimento daquela criança envolveu muito mais que alegria para o lar de Abraão e Sara, pois o nascimento de Isaque significou: (1) o cumprimento da promessa de Deus. Ao chamar Abraão, Deus prometeu fazer dele uma grande nação que abençoaria o mundo inteiro (Gn 12:1-3). Então, Ele prometeu repetidamente dar a terra de Canaã aos descendentes de Abraão (17:7) e multiplicá-los grandemente (13:15-17). Abraão seria pai da semente prometida (15:4), e Sara (não Hagar) seria a mãe (17:19; 18:9-15). O nascimento de Isaque nos lembra que Deus cumpre Suas promessas, à Sua maneira e ao Seu tempo. Apesar dos fracassos ocasionais daquele casal, Abraão e Sara creram em Deus; e Deus honrou-lhes a fé (Hb 11:8-11). O nascimento de Isaque também significou (2) a recompensa da paciência. Abraão e Sara tiveram que esperar vinte e cinco anos pelo nascimento de Isaque, porque "pela fé e pela longanimidade, herdam as promessas" (Hb 6:12; veja-se 10:36). Fé nas promessas de Deus não apenas resulta em bênçãos no fim, como também provê bênçãos durante o tempo de espera. Assim como os atletas olímpicos desenvolvem suas habilidades praticando com disciplina e afinco antes do grande evento, os filhos de Deus crescem em piedade e fé enquanto aguardam o cumprimento das promessas de Deus. A fé é uma viagem, e cada destino feliz é o começo de uma nova viagem. Quando Deus quer desenvolver nossa paciência, Ele nos dá promessas, nos envia provas, e pede para confiarmos nEle (Tg 1:1-8). O nascimento de Isaque foi certamente (3) a revelação do poder de Deus. Por esta razão, Deus esperou por tanto tempo: Ele queria que Abraão e Sara estivessem "mortos" de forma que o nascimento daquele filho fosse um milagre de Deus e não a realização da natureza humana (Rm 4:17-21). Abraão e Sara experimentaram o poder da ressurreição porque se entregaram a Deus e creram em Sua Palavra. A fé nas promessas de Deus libera o poder de Deus (Ef 3:20-21; Fl 3:10), "Porque para Deus não haverá impossíveis em todas as Suas promessas" (Lc 1:37). Finalmente, o nascimento de Isaque foi (4) um passo adiante na realização do propósito de Deus. A redenção futura de um mundo perdido repousava sobre um pequeno bebê! Isaque geraria Jacó, e Jacó daria ao mundo as doze tribos de Israel; e de Israel nasceria o Messias prometido. Através dos séculos, alguns "elos" vivos na corrente da promessa podem ter parecido insignificantes e fracos; mas eles ajudaram a cumprir os propósitos de Deus.

Talvez você se pergunte se o que você faz é realmente importante para Deus e Sua obra neste mundo. Certamente o é, se você é fiel, confia na Palavra de Deus e faz Sua vontade. Da próxima vez que você se sentir derrotado/a e desanimado/a, lembre-se de Abraão e Sara; lembre-se de que fé e promessa vão juntas. Deus mantém e cumpre Suas promessas e lhe dá o poder de que você necessita para fazer o que Ele deseja. Não importa quanto tempo você tenha que esperar, confie em Deus para realizar Seus propósitos.

O Sacrifício de Isaque

Na "Escola da Fé" são necessários testes ocasionais, ou nunca saberemos onde estamos espiritualmente. Abraão foi submetido a alguns testes desde o início de sua trajetória quando saiu de Ur. O primeiro foi o "teste familiar," quando ele teve que deixar sua parentela e sair, pela fé, para uma terra desconhecida (Gn 11:27–12:5). A seguir, veio o "teste da coragem" no qual Abraão falhou por ter duvidado de Deus dizendo aos egípcios a meia-verdade (= mentira completa) de que Sara era sua irmã (Gn 12:10-20). Tendo voltado para Canaã, Abraão passou no "teste do companheirismo" quando deu prioridade a Ló na escolha das pastagens (Gn 13:5-18). Ele também passou no "teste da batalha" ao derrotar os reis mesopotâmios que haviam aprisionado Ló (Gn 14:1-16) e no "teste da riqueza", quando disse não à riqueza de Sodoma (Gn 14:17-24). Abraão, porém, foi reprovado no "teste da paternidade", quando Sara, impaciente com Deus, sugeriu que Abraão tivesse um filho com Hagar (Gn 16). E quando submetido novamente ao "teste da coragem," falhou dizendo em Gerar que Sara era sua irmã. Tempos depois, ao despedir Ismael, Abraão passou no "teste do adeus," embora de coração partido (Gn 21:14-21).

Finalmente, veio o exame final para avaliar com profundidade o relacionamento de Abraão com Deus. Como declarou Wiersbe, "nossa fé realmente não é testada até que Deus nos peça que suportemos o que parece insuportável, façamos o que parece ser irracional, e esperemos o que parece ser impossível. Assim foi com José na prisão, Moisés e Israel no Mar Vermelho, Davi na caverna, ou Jesus no Calvário. A lição é sempre a mesma: nós vivemos de promessas, não de explicações" (Wiersbe, 1991).

Assim era necessário que Abraão se submetesse ao "teste da entrega do único filho". Consideremos quão irrazoável era o pedido de Deus. Isaque era o filho único de Abraão e Sara, e o futuro da aliança repousava sobre ele. Isaque era fruto de um milagre, um presente de Deus para eles. Abraão e Sara amavam Isaque profundamente e tinham construído o futuro deles ao redor dele. Ao pedir que Abraão oferecesse seu filho, Deus estava testando a fé, a esperança e o amor de Abraão, e foi como se Deus estivesse para destruir a própria razão pela qual Abraão e Sara viviam. Contudo, havia um motivo por que este teste era necessário. De acordo com Ellen White, "Deus havia chamado Abraão para ser o pai dos fiéis, e sua vida devia ser um exemplo de fé para as gerações subseqüentes. Mas sua fé não tinha sido perfeita. Mostrara falta de confiança em Deus, ocultando o fato de que Sara era sua esposa, e novamente com o seu casamento com Hagar. Para que atingisse a mais elevada norma, Deus o sujeitou a outra prova, a mais severa que o homem jamais foi chamado a suportar. Em uma visão da noite foi-lhe determinado que se dirigisse à terra de Moriá, e ali oferecesse seu filho em holocausto sobre um monte que lhe seria mostrado." – Patriarcas e Profetas, pág.147.

Abraão ouviu a palavra de Deus e imediatamente obedeceu pela fé. Ele sabia que Deus nunca iria contradizer Sua palavra, assim, ele se apegou à promessa "por Isaque será chamada a tua descendência" (Gn 21:12). Abraão cria que até mesmo se Deus lhe permitisse sacrificar seu filho, Ele poderia ressuscitar Isaque dentre os mortos (Hb 11:17-19). Fé não exige explicações; fé descansa em promessas. Abraão disse aos dois criados: "Esperai aqui, com o jumento; eu e o rapaz iremos até lá e, havendo adorado, voltaremos para junto de vós" (Gn 22:5). Por crer em Deus, Abraão não tinha nenhuma intenção de retornar com um cadáver! Tem sido observado que Abraão creu em Deus e lhe obedeceu quando não sabia AONDE (Hb 11: 8), quando não sabia QUANDO (Hb 11:9-10, 13-16), quando ele não sabia COMO (Hb 11:11 e 12), e quando não sabia POR QUÊ (Hb 11:17-19). Assim, no momento do teste supremo, Abraão se dispôs a dar a Deus seu amado filho Isaque. E, após ter amarrado Isaque, quando se preparava para descer o cutelo e imolar seu filho em obediência à ordem de Deus, um anjo bradou do céu: "Abraão! Abraão! Ele respondeu: Eis-me aqui! Então, lhe disse: Não estendas a mão sobre o rapaz e nada lhe faças; pois agora sei que temes a Deus, porquanto não Me negaste o filho, o teu único filho" (Gn 22:11 e 12). Abraão não necessitava mais sacrificar seu filho, sua obediência havia demonstrado a autenticidade de sua fé. Um cordeiro foi oferecido como substituto de Isaque, e Abraão entrou para a história da salvação como o pai da fé.

Porém, há mais no sacrifício de Isaque do que o exemplo supremo de alguém que se comprometeu a obedecer totalmente a Deus (Hb 11:17-19). A experiência de Abraão no Monte Moriá revela um quadro do amor sacrifical de Deus. Assim como Abraão se dispôs a entregar seu único filho como sacrifício, assim o Pai não poupou o próprio Filho, entregando-O para salvar o mundo (Rm 8:32; Jo 3:16). Na submissão voluntária de Isaque a Abraão, percebe-se uma imagem do Filho, que disse: Pai "não se faça a Minha vontade, e sim a Tua" (Lc 22:42). O sacrifício de Isaque simbolizou o sacrifício de Cristo nos seguintes aspectos: (1) Isaque e Cristo são unigênitos. Isaque era o único filho de Abraão e Sara, embora Abraão também tivesse Ismael. A aliança com Abraão de fato incluía Sara. A infertilidade era o problema de Sara, não de Abraão. Ele teve outros filhos depois da morte dela (Gn 25:1-2). Assim, Deus superou a infertilidade de Sara miraculosamente para que ela se tornasse a mãe da descendência prometida. (2) Isaque devia morrer como um holocausto, sacrifício queimado. Cristo foi consumido inteiramente no sacrifício do calvário, da mesma maneira que um holocausto era consumido. (3) A provação de Abraão com Isaque durou três dias (Gn 22:4), da mesma maneira que a provação de Cristo durou três dias. (4) O Monte Moriá, onde Abraão devia oferecer Isaque, tornou-se o monte do templo de Jerusalém onde os sacrifícios haveriam de prefigurar o sacrifício de Cristo. (5) Isaque e Cristo levaram a lenha para seu respectivo sacrifício. (6) Isaque e Cristo sofreram em silêncio. (7) Isaque e Cristo seriam mortos pelos próprios pais, como experiência compartilhada. Cristo na verdade foi morto. (8). Abraão e Isaque não podiam ver uma saída. Cristo não pôde ver pelos portais da tumba, embora se apegasse ao Pai pela fé. (9). O que Abraão e Isaque fizeram resultou em bênçãos através das quais todas as nações seriam abençoadas. O que Cristo e o Pai fizeram proveu a bênção de vida eterna para todos os que crêem. (10) A atitude de Isaque revela obediência absoluta à vontade de seu pai. O sacrifício de Cristo demonstrou radical obediência à vontade do Pai. (11). A fé que tinham Abraão e Isaque os vindicou como os verdadeiros portadores da aliança. A fé de Cristo O vindicou como o iniciador da Nova Aliança.

Deve ser lembrado que o sacrifício de Isaque prefigurou o sacrifício de Cristo, que era a realidade suprema. Aliás, Isaque não morreu, um carneiro foi morto em seu lugar. Isaque representou a Cristo. Contudo, sacrifícios de animais como o daquele carneiro, e outros oferecidos no santuário/templo apontavam para Cristo, contudo, não proviam eficácia completa.

Referências: