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Lição 10 – "TUDO QUANTO TE VIER À MÃO" |
Ruben Aguilar PhD
Professor de Teologia no UNASP
A divisão dos livros da Bíblia em capítulos foi uma obra realizada por Estevão Langton, clérigo francês, conceituado professor na celebrada Universidade de Paris, nos anos de 1210. Pela utilidade que presta ao estudo da Bíblia, por cumprir dessa forma as qualidades de uso conforme à finalidade à qual se destina, e por seguir determinado grau de perfeição, a obra foi merecedora de considerações de louvor, segundo opinião geral. No entanto, esse trabalho não deixa de oferecer algumas dificuldades ao estudo da Bíblia por capítulos. Um exemplo dessa dificuldade encontramos ao estudar o capítulo 9 do livro de Eclesiastes, pela diversidade de assuntos tratados e a inserção de versos que corresponderiam a capítulos anexos. Mesmo assim, nesse capítulo se vislumbra o tema da justificação pela fé, embora numa visão panorâmica de alvorecer.
A relação Deus-homem pode ser tratada teologicamente mediante a aplicação de duas qualidades: a suficiência e a eficiência. A parte de Deus, desde a criação até a redenção, é uma atividade plena, suficiente para o cumprimento do propósito divino em relação ao homem. A eficiência, ou seja, a qualidade que produz o efeito esperado é a parte determinada pela atividade do homem. No caso específico do ministério de Cristo, o sacrifício na cruz é suficiente para operar a redenção do homem. Nada mais há para realizar em favor de alguém para o cumprimento dessa função. Mas, se o homem não aceitar esse sacrifício compensatório e não viver obedecendo às implicações dessa aceitação, torna ineficiente a cruz de Cristo; anula os méritos adquiridos.
No esforço de representar suas idéias por meio de palavras no conteúdo do capítulo 9 de Eclesiastes, o rei Salomão esboça em traços gerais, com linhas um tanto tênues, porém suscetíveis de desenvolvimento, a figura doutrinária da justiça de Deus. Ele afirma que, por atributo inerente à Sua natureza, toda a Divindade controla a existência do Universo e a vida, e as obras dos homens estão "nas mãos de Deus". Essa afirmação caracteriza a suficiência da ação divina para processar o ato da salvação humana.
Não há outra coisa a fazer, nem alternativa a apresentar. Diante dessa realidade, há "um só destino" final para a vida terrena do homem, impossível de iludir: a morte. Para que o trabalho redentor de Deus tenha o cunho da eficiência, é necessária a atuação humana. Então, o rei Salomão apela ao entendimento dos seus ouvintes ou leitores, estimulando-os numa verbalização quase pessoal, ao agir por fé: "Tudo quanto te vier à mão para fazer" seja feito com dedicação e decoro. Esse apelo é fundamentado no argumento que expõe uma causa racional, o momento da própria existência: porque "agora é o dia da salvação".
Nas mãos de Deus
O verso 1 do capítulo 9 de Eclesiastes é uma projeção ideológica do sentido negativista expresso pelo autor no verso anterior, em relação ao nível cognitivo ao qual o homem pode alcançar seu futuro. Salomão afirma: "O homem não conhece nem o amor nem o ódio..." (Ec 9:1). Essa sentença está anexada à anterior: "Os justos e os sábios, e as suas obras, estão nas mãos de Deus" (v. cit), com a qual formam uma estrutura de sentido dependente, mas funcionalmente separada.
Ao analisarmos a estrutura dessas frases, verificamos que o sentido da primeira depende da segunda. Essa relação conduz o leitor a interpretar que a ignorância do ser humano quanto ao seu futuro o torna dependente do poder sobrenatural. O homem que desconhece até os arcanos dos próprios sentimentos, como o amor e o ódio, não tem condições seguras para sequer tatear nas paragens deste mundo. Nem os justos nem os sábios estão livres da imposição natural que caracteriza esse estado; no entanto para eles, o autor acende a chama das promessas divinas e ilumina-lhes a vida com a luz da esperança, afirmando estarem protegidos "nas mãos de Deus". Não estão imunes às adversidades desta vida, mas fortalecidos para resisti-las.
A relação das frases salomônicas, que destacamos nos parágrafos anteriores, permite também efetuar uma interpretação funcional atribuída gramaticalmente aos sujeitos envolvidos: Deus e o homem. Pelas limitações da sua própria natureza, e ainda afetado como conseqüência da transgressão, o homem vive no desconhecimento da vida futura. Isso não significa que sua existência não tenha sentido ou propósito final a ser alcançado. Ao afirmar que a vida e as obras dos justos e sábios estão "nas mãos de Deus", o autor reconhece que essas vidas seguem um destino cuja proposta é atribuída funcionalmente à Divindade. Essa interpretação não estabelece nenhuma base para o dogma da predestinação. É, antes de tudo, manifestação do determinismo, ou plano da existência da natureza criada, proposto por Deus.
A criação obedece ao plano estabelecido por Deus. Esse plano não determina unicamente a existência dos seres criados. Mais do que isso, determina todo o seu acontecer. Por isso, o profeta revela nos seus escritos a ação de Deus: "Como pensei, assim sucederá, e como determinei, assim se efetuará" (Is 14:24). Essa assertiva ainda é complementada com a advertência: "O Meu conselho será firme, e farei toda a Minha vontade" (Is 46:10). Essa versão profética identifica a suficiência do plano divino, mas, para ser efetiva, é necessário que o homem siga o conselho divino e obedeça à vontade divina. Assim, ele estará "nas mãos de Deus" até a eternidade.
Um só destino?
A palavra destino é um substantivo de difícil conceituação. No mundo físico, essa palavra pode identificar as reações provocadas por um estímulo, na relação causa-efeito; em virtude da aplicação de leis naturais inflexíveis, por exemplo: o destino de um objeto lançado ao espaço. No campo da Teologia, tratando especificamente da existência humana, a noção do termo é restrita, pois seu significado ultrapassa os limites da realidade presente e se projeta a um futuro indefinível, desconhecido para toda mente humana. Um significado, biblicamente errado, atribuído a essa palavra, é dado ao relacioná-la com o termo predestinação, cujo sentido é o de conceder destino antecipado a cada pessoa. Isso significaria que a vida de cada pessoa já foi programada para seguir indefectivelmente o desígnio divino, sem chance para mudança nenhuma, anulando no homem a sua capacidade de decisão ou livre arbítrio.
No contexto bíblico, o destino ou predestinação, como aparece em certas traduções, tem outras conotações. Essa palavra é tradução do vocábulo grego protesis, que aparece, por exemplo, na sentença: "havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas" (Ef. 1:11). O termo grego protesis faz referência ao plano divino estabelecido para a natureza criada; mais especificamente, em relação ao homem, indicando a intencionalidade do Criador para sua salvação. Outro vocábulo encontrado na língua original grega e traduzido por predestinação, é o termo prognosis. O uso desse vocábulo ocorre por exemplo na frase: "Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem do Seu Filho..." (Rm 8:29). O sentido mais adequado do termo grego prognosis é o de possuir conhecimento prévio de pessoas e eventos. Esse é um atributo de Deus, em que se ressalta a Sua intencionalidade de salvação, unicamente para quem aceita Seu chamado. Dessa maneira, não há um único destino para todos, pois o fim é de recompensa eterna para alguns, e de sentença condenatória, para outros.
Ao afirmar que "tudo sucede igualmente para todos..." (Ec 9:2), Salomão aponta a morte como único destino comum para todos. Essa afirmação é recurso de argumentação básica para a exposição que segue, pois o autor deseja despertar a mente dos seus leitores para a realidade da vida. Quando o homem ainda desfruta do dom excelso da existência, ele pode ouvir, aceitar, e seguir o destino, a protesis disposta por Deus para obter sua salvação. Os mortos estão desprovidos desse privilégio de conseqüências eternas. Estão inertes como a matéria inorgânica, "não sabem coisa nenhuma, nem tão pouco eles jamais tem recompensa" (Ec 9:5).
Salomão ainda caracteriza o estado dos mortos usando o termo refa’im, para se referir a essa condição. Esse termo tem o significado de "espectro", "sem ação", "sem pensamento", "lânguido", e caracteriza um ser imerso na inércia das trevas. Em sentido contrário, a vida é uma condição em que é possível pensar, agir, lutar. O célebre autor latino, Cícero, evocava sua ambição futura exprimindo o seguinte: Dum anima est, spes esse dicitur, cuja tradução seria: "Diz-se que há esperança enquanto há vida".
Agora é o dia da salvação
A justificação pela fé é uma experiência que pode ser resumida em três estágios: Justificação, Santificação e Glorificação. O sacrifício de Cristo é de tal magnitude que seu qualificativo é de suficiência plena para possibilitar a execução do plano redentor. No entanto, a eficiência desse sacrifício é da competência da pessoa humana ao aceitar e seguir uma vida conseqüente.
O rei Salomão insere na sua alocução o efeito da aceitação humana ao plano redentor estabelecido pelo Criador: "pois já Deus Se agrada das tuas obras" (Ec 9:7). Isso significa que Deus já justificou o homem consciente e sábio, e manifesta Seu agrado e há alegria nos céus (Lc 15:10). O passo seguinte nesse processo é o de atingir os ideais da Santificação. É o estágio no qual a ação humana torna eficaz o sacrifício de Cristo. E o "Pregador" estimula seus ouvintes ou leitores à edificação de uma personalidade com ambições eternas, refletidas na qualidade das suas ações. Com esse propósito, ele sentencia: "Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças..." (Ec 9:10).
Com essas palavras, Salomão pretende inspirar na mente de cada pessoa uma reflexão sobre a qualidade dos seus atos. Ele é conciso mas magno no seu desejo. Ele é imperativo mas ponderado ao considerar as capacidades pessoais. Eleva o ambiente ao grau de solenidade, mas dá acesso aos vestígios de simplicidade. Finalmente, ele deseja que as pessoas cumpram suas responsabilidades com a maior eficiência possível, usando todas as suas forças, ou seja, todo o seu poder, todo o seu talento. A razão para tal advertência, com um claro sentimento de ansiedade, não pode ser outra senão ver com os olhos da realidade que o tempo é hoje: "Agora é o dia da salvação". "... Porque, na sepultura, para onde tu vais, não há obra, nem indústria, nem ciência, nem sabedoria alguma" (v. cit).
Nessa vontade de inspirar o processo de santificação dos seus ouvintes, o "Pregador" inicia uma ligeira lista de atitudes exemplares que devem ser praticadas; e o faz com seu estilo retórico em forma de provérbios. "Come com alegria o teu pão" (Ec 9:7); é uma advertência ao trabalho realizado com esmero e honestidade, pois não há maior satisfação ou alegria que desfrutar uma obra bem realizada. "Em todo tempo sejam alvos os teus vestidos" (Ec 9:8). Desde a transgressão de Adão, a nudez é uma representação de pecaminosidade que é coberta com uma vestimenta que representa o caráter. No processo da justificação, o traje que o justo usa são as vestes alvas da justiça de Cristo. A exortação do "Pregador" é a de viver uma vida de comunhão com o Criador, seguindo o exemplo e os ensinos do Mestre.
Disse o "Pregador": "Goza a vida com a mulher que amas" (Ec 9:9). Salomão aconselha manter a fidelidade conjugal com a única pessoa, com a qual reparte as bênçãos do casamento. Esse conselho não se limita a estabelecer simplesmente uma atitude prática. Mais do que isso, ele tem um simbolismo espiritual. Na Bíblia hebraica, a palavra usada para referir-se ao casamento é a mesma usada para evocar a aliança entre Deus e o homem: Berith. O uso desse termo na relação Deus-homem requer, por parte dos contraentes, a manifestação da virtude da fidelidade, em seu amplo sentido. Dessa maneira, a fidelidade conjugal não é somente a expressão de uma qualidade pessoal humana, mas é também o reflexo da fidelidade do homem para com seu Criador.
Na visão da eternidade, Salomão exclama que "... não é dos ligeiros a carreira, nem dos valentes a peleja, nem tão pouco dos sábios o pão..." (Ec 9:11); mas, de todos os que praticam o bem e são justos e sábios aos olhos de Deus; pois "melhor é a sabedoria do que a força" (Ec 9:16) para alcançar a eternidade.