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Bíblia e felicidade |
Ozeas Caldas Moura
Doutor em Teologia Bíblica
Verso para memorizar: "O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância" (Jo 10:10).
Introdução
Segundo o Dicionário Aurélio (p. 885), felicidade é "qualidade ou estado de feliz; ventura, contentamento". Mas o que faria alguém feliz ou o que lhe traria contentamento? Segundo as propagandas, é feliz ou tem felicidade aquele que TEM alguma coisa ou produto. Os hedonistas pregam a busca do prazer como meio de se conseguir felicidade e, ao contrário destes, a filosofia budista ensina que tem felicidade aquele que consegue vencer todos os desejos, pois estes são vistos como fonte de inquietação e infelicidade.
Mas o que tem a Bíblia a dizer sobre o assunto da felicidade? Pode alguém ser feliz, mesmo vivendo em um mundo mau e egoísta? Onde estaria a fonte da felicidade?
I – Vida em abundância
A palavra abundância, no original grego (périsson), é derivada do verbo perisséuo, cujo significado é ser mais que suficiente, sobrar, exceder, ser fora do comum.
O que, seria, então, uma felicidade "comum", pretendida pelos que não levam em conta Deus e Sua Palavra? Seria a do tipo TER algo, desfrutar o máximo de prazeres – até aqueles que prejudicam o próprio corpo e também o próximo, sem se importar com as conseqüências. Seria ter uma alegria "sem responsabilidade". Note que Deus deseja que sejamos felizes, e há até uma ordem divina nesse sentido: "Alegra-te... e recreie-se o teu coração; anda pelos caminhos que satisfazem ao teu coração e agradam aos teus olhos." Parece uma ordem "permissiva" demais, não é? No entanto, essa impressão é corrigida ainda no mesmo verso, que termina com a advertência: "Sabe, porém, que de todas estas coisas Deus te pedirá contas." Felicidade pretendida apenas no TER e no PRAZER é, como disse Jesus, um "ladrão", que acaba por "roubar" a verdadeira alegria, "matar" o altruísmo, e "destruir" a perspectiva da vida eterna, pois, se concentra apenas no "aqui e agora", deixando de lado os valores eternos e a vida por vir.
Jesus, ao contrário, promete vida "em abundância", plena, "fora do comum", que "sobra" ou "excede". E ela começa quando a pessoa descobre, através da Bíblia, que "Deus amou o mundo de tal maneira que deu Seu Filho Único, para todo o que nEle crê não pereça, mas tenha vida sem fim" (Jo 3:16 – tradução própria), e aceita esse Enviado de Deus como seu Senhor e Salvador. Com Jesus, a vida adquire significado (o conhecimento de onde veio o ser humano, por que está aqui e para onde vai). Nele, o crente encontra forças para enfrentar os problemas, entendendo que tudo o que Ele permite "coopera para o bem daqueles que amam a Deus" (Rm 8:28). Nesse caso, a felicidade estaria em SER um seguidor de Cristo, que tudo fez e faz para que o ser humano seja feliz aqui (na medida do possível, pois está no meio de um mundo mau) e, afinal, desfrute a felicidade plena na pátria celestial, onde o mal não mais existirá.
II - Regozijo no Senhor
Em Levítico 23:40 é mencionada a Festa dos Tabernáculos, quando, durante sete dias, o povo devia "se alegrar perante o Senhor". Também deviam "se alegrar em tudo", quando fossem oferecer sacrifícios perante o Senhor (Dt 12:7).
O que tem a ver o Senhor com a felicidade? Tudo! Pense num deus irado, quase sempre de mau humor, vingativo e pronto a castigar os desobedientes (como eram e ainda são vistos os deuses pagãos). Você teria prazer em cultuá-lo e servi-lo? Com certeza, não. Mas, por outro lado, ao ver um Deus justo mas amoroso, a ponto de Se encarnar e viver entre os seres humanos e, finalmente, dar Sua vida para que a raça humana possa ter vida eterna, qual seria sua reação a esse Deus? Certamente, sua resposta seria de amor a quem tanto amor demonstrou e ainda demonstra. Pense ainda, nas promessas divinas, contidas na Bíblia, que afirmam que Deus sempre estará conosco (por exemplo, Mt 28:20: "Eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século"), e aquelas que nos asseguram que estamos aqui "apenas de passagem", que este não é o nosso mundo definitivo, mas que a verdadeira pátria que nos aguarda "está nos Céus" (Fp 3:20). Como pode alguém ter um Deus assim e, com tais promessas, ser infeliz?
III - Alegria em família
Sendo a família uma criação divina, deveria proporcionar felicidade aos seus componentes. É verdade que o pecado prejudicou enormemente a família. Tão logo pecou, Adão, que devia ser tão carinhoso com Eva, acusou-a de ter sido a causa de seu pecado, com as duras e secas palavras: "A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi" (Gn 3:12). Note que ele não disse: "Minha esposa", mas "a mulher que me deste". Mas o pecado não acabou com a família. Com a graça de Deus, mesmo seres pecadores podem almejar felicidade nesta vida (claro que não se trata da felicidade plena, do tipo que experimentam os que não pecaram), mas felicidade possível, dentro das limitações próprias daqueles que compõem a família.
E por onde começaria a felicidade em família? Certamente, é pelo amor a Deus e à Sua Palavra. O amor divino no coração se torna uma fonte que jorra para os outros, especialmente para os familiares. É nesse sentido que o apóstolo João afirma: "Amados, amemo-nos uns aos outros porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor. ... Nós amamos porque Ele nos amou primeiro" (1Jo 4:7, 8 e 19).
Sendo a Lei de Deus uma transcrição de Seu caráter, seu resumo é o amor (Lc 10:26 e 27). Os quatro primeiros mandamentos tratam do amor a Deus, e os seis últimos, do amor ao próximo, que inclui os membros da família (e quem estaria mais próximo de nós, senão nosso pai e nossa mãe, nossos irmãos e irmãs?). Note que dos dez preceitos, os seis últimos têm em maior ou menor grau relação com os membros da família: o quinto, de maneira direta, ordena honrar pai e mãe (honrar o nome da família, mas também honrar os pais com assistência afetiva e até financeira, se for o caso). O sexto fala de "não matar". Matamos, não só quando tiramos a vida física de alguém, mas também quando causamos desgostos aos membros da família, quando os tratamos com palavras duras e descorteses, quando os ignoramos ou os abandonamos quando poderíamos fazer algo para ajudá-los. O sétimo mandamento ("Não adulterarás") tem que ver com o respeito que deve haver entre os cônjuges (quanta infelicidade familiar poderia ser evitada se esse mandamento fosse seguido por todos!). O oitavo, "Não furtarás", ensina o respeito ao que é do outro. Se há um lugar em que deve haver honestidade em todos os sentidos, esse lugar é o lar. Geralmente, pequenas desonestidades no lar (para com os pais ou irmãos) acabam por levar alguém ao roubo quando se torna adulto. O nono ordena "não dizer falso testemunho contra o próximo". O lar deve ser um lugar em que impere a verdade. Desde pequenos, os filhos devem ser ensinados a ser honestos e verdadeiros em tudo que fizerem ou falarem. Finalmente, o décimo ("Não cobiçarás") ensina o princípio do trabalho honesto, antídoto contra a cobiça. Se os pais forem pessoas afeitas ao trabalho e conseguirem transmitir isso aos filhos, terão deixado a eles uma herança maravilhosa!
IV - Felicidade diferente da mundana
No início deste comentário, foi mencionado que as pessoas sem Deus buscam a felicidade nas coisas ou no prazer. Amam as coisas e usam as pessoas, quando o contrário é o que deveria ser feito: Amar as pessoas e usar as coisas. Felicidade no TER e no SENTIR é passageira: dura somente o tempo em que se tem as coisas e se sente o prazer. Lembramo-nos, aqui, de Moisés que, "quando já homem feito, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado; porquanto considerou o opróbrio de Cristo por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o galardão" (Hb 11: 24-26). Percebe que o texto de Hebreus fala que o pecado dá prazer? Só que se trata de prazer "transitório". Dura por algum tempo e depois, fica o vazio que vai clamar por mais prazer, e nunca se satisfará plenamente.
A felicidade que Cristo oferece não depende, necessariamente, de coisas ou prazeres (não que seja pecado ter coisas e sentir prazer lícito). Ela permanece mesmo quando as coisas se vão e, em vez de prazer, se sente dores (no caso de pessoas extremamente enfermas, mas que demonstram uma paz que não pode ser compreendida por quem não tem fé em Deus). É a do tipo sentida por um mártir – que pode morrer cantando (como aconteceu com João Huss, que foi queimado na fogueira por sua fé).
Conclusão
Um conhecido hino diz que "é prazer servir a Cristo, nesta vida terreal, enche a vida de louvores, de alegria divinal". E isto é real. Alguém pode ter muito ou pouco, desfrutar ou não de saúde, ter muitos ou poucos amigos, mas quem tem Cristo tem tudo. Quando há o perigo de as coisas faltarem, ele sabe que "O Senhor é seu pastor e nada lhe faltará", que "uma mesa lhe será preparada mesmo em face de inimigos" (Sl 23:1 e 5), e que, mesmo no "vale da sombra da morte", Deus estará com ele (Sl 23: 4), e se os amigos faltarem, ele pode contar com a "bondade e a misericórdia" divinas.