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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina
1º Trimestre de 2007


LIÇÃO 11 - "UNGÜENTOS E MOSCAS MORTAS"

Ruben Aguilar, PhD
Professor de Teologia no UNASP

O capítulo 10 do livro de Eclesiastes é uma mostra da efetiva mudança, por parte do seu autor, dos meios convenientemente dispostos para chegar ao fim proposto. Não mais há necessidade de expor, como nos primeiros capítulos, temas sobre o subjetivismo da existência que precisam de um esforço racional para captar seu significado. Claramente o autor considera desnecessário seguir na linha da ortodoxia para mergulhar decididamente na corrente da ortopraxia.

No desejo de estabelecer normas práticas de vida projetadas para a vida eterna, Salomão não esgota seu cabedal de experiências adquiridas, que ele mesmo descreve com a habilidade de um pintor literário que mistura as cores das palavras para editar em pequenas frases proverbiais os quadros da vida prática. O autor, no entanto, parece sentir que o tempo da missão que lhe fora incumbida está prestes a terminar. Gostaria de ser mais claro, de explicar em detalhes e delongas a sua intenção.

Como isso não é possível, ele faz uso de figuras extraídas do cotidiano para representar uma idéia relacionada com o comportamento humano. Dessa maneira, o capítulo 10 de Eclesiastes apresenta uma variada e colorida exposição de alegorias.

A diversidade de frases do presente capítulo de Eclesiastes, elaboradas no padrão estrutural dos provérbios, permite uma sistematização simples em quatro temas gerais. O “Pregador” inicia seus conselhos procurando advertir que a dignidade de uma pessoa pode ruir por simples desacerto, como o efeito nocivo de uma mosca morta sobre o concentrado aromático de um perfume.

O segundo grupo de conselhos é uma dedução natural do primeiro, porém o simbolismo que deseja representar está mais relacionado com a ativida-de que com o caráter da pessoa. Salomão não hesita em advertir quanto aos cuidados profissionais que cada pessoa deveria manter ao ilustrando-o com os perigos do “encantador de serpentes”. A esta altura, perto do fim do discurso do “Pregador”, a diferença de conceito atribuída ao sábio e ao tolo é absoluta. Mesmo assim, Salomão dá outras características comportamentais e destaca principalmente “o coração do tolo”. No último grupo desses provérbios, o rei de Israel não deixa de relembrar os delitos de opressão e injustiça praticados no seu governo; e em dupla atitude racional de contrição e acusação, denuncia que ainda há “mais mal” para ser banido.

Moscas mortas

Disse o “pregador”: “Qual a mosca morta faz o ungüento do perfumador exalar mau cheiro, assim é para a sabedoria e a honra um pouco de estultí-cia” (Ec 10:1).

É possível que, para o mundo moderno, essa alegoria não justifique a aplicação e o simbolismo que se deseja representar. O elevado nível de tec-nologia alcançado em quase todas as áreas permite mudar e até eliminar fenômenos naturais, mediante o uso de materiais e instrumentos elaborados tecni-camente. Na indústria química, por exemplo, são produzidas substâncias solúveis em água, com alto grau de volatilização, emitindo gases leves de elevado poder de reação que eliminam certos odores naturais. São as substâncias da enorme variedade da linha de perfumes, lavandas e desodorantes. Essas substân-cias em geral reagem mediante reações de oxi-redução com gases sulfurados, aminados e outros, os quais naturalmente são caracterizados pelo seu cheiro desagradável e nauseante.

O poder desodorizador de qualquer aromatizante praticamente elimina o mau cheiro provocado por uma mosca morta. Mas não devemos esquecer que o provérbio foi elaborado na base da técnica exígua dos tempos do Antigo Testamento. Sem o conhecimento da química moderna, os concentrados aromáticos eram produzidos com técnicas manuais dispendiosas e demoradas e ainda mediante a aplicação de receitas secretas, sem aditivos artificiais como os estabilizantes. Então, a presença seguida de morte de um simples inseto provocava a emissão de gases pútridos, inutilizando o perfume.

A representação simbólica que Salomão insere nessa alegoria, não poderia ser melhor construída para representar a dificuldade de estruturar uma personalidade laureada com o diadema da sabedoria e da honra, com o denodo, dedicação e esmero de um perfumista. E o “Pregador” continua seu propó-sito ao representar com a figura de um inseto comum, um ato inadequado, inominado, que inutiliza a grandeza da personalidade adquirida com elevado sa-crifício.

Além da simples representação dos símbolos alegóricos desse provérbio, deve-se notar certa proporcionalidade do efeito em relação à causa. Se o perfume é simples, de pouco valor devido ao seu aroma quase imperceptível, a decomposição causada por um inseto putrefato não provocará dano sensível. Mas se esse efeito nocivo ocorrer num perfume de elevado valor, certamente o dano provocará grande dispêndio. A representação é clara quando se aplica a uma personalidade de elevada dignidade, de qualidade moral reconhecida, no qual um desacerto pode provocar um efeito negativo de maiores proporções.

O encantador de serpentes

“Se a cobra morder antes de estar encantada, então remédio nenhum haverá no mais hábil encantador” (Ec 10:11).

Esse provérbio salomônico é repetido em versões modernas de diferentes grupos étnicos e sociais, com a intenção de advertir contra os perigos de cultivar maus hábitos e proceder de forma desregrada. Alguns aforismos semelhantes, extraídos da sabedoria popular, são: “quem cria corvos, perderá os olhos”; “ quem brinca com fogo, está sujeito a se queimar”; “quem faz o mal, não espere o bem”; da sabedoria bíblica: “... tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6:7).

O rei Salomão, ao compor a seqüência de provérbios relativos ao tema, faz uso do conhecimento das atividades sociais da sua nação, e procura ad-vertir seus ouvintes e leitores sobre os perigos de viver sem o juízo aguçado, sem a prudência solidificada, sem a atenção concentrada, em tudo quanto se faz. Os resultados, se forem funestos, não estarão limitados unicamente a um efeito de conseqüências terrenas, mas poderão ter efeitos para a eternidade.

No propósito deliberadamente traçado, Salomão procura abranger todos os tipos de procedimento individual. Como se fosse o ponto concêntrico das varetas de um leque, menciona alguns provérbios na esperança de que seus significados possam atingir uma variedade maior de atividades comportamentais humanas. Assim, ele descreve a figura do cavador de fossas, o demolidor de muros, o trabalhador de canteiro de pedras, o rachador de lenha, o encantador de serpentes, sem esquecer que todo trabalho deve ser executado com a ferramenta bem preparada.

A observação de Salomão sobre as atividades que aparecem nesses provérbios lhe permite emitir conselhos para que seus ouvintes sejam preserva-dos dos perigos dos hábitos que afetam a vida moral e, ainda mais, quando é preservada a sua rotina de prática, como se nenhum mal pudesse ocorrer. O “Pregador” sabe bem que o cavador de fossas pode nela cair; o demolidor de muros pode ser atacado por uma cobra; o rachador de pedras pode ser ferido por uma lasca; igualmente o lenhador, por uma lasca de madeira; o encantador de serpentes, atacado pelo próprio ofídio. Em outras palavras Salomão nos adverte a não cultivarmos tendências que possam afetar outras pessoas, como a inveja, o egoísmo, a maledicência, o rancor, o engano, o ciúme etc.; pois seus efeitos podem afetar a própria pessoa.

O coração do tolo

Para o rei de Israel, finalmente, só existem duas classes bem definidas de pessoas, caracterizadas pela sua relação com Deus: os sábios e os tolos. Os sábios são aqueles que comungam com Deus, sabem diferenciar o bem do mal e vivem na esperança de receber a vida eterna. Os tolos são pessoas de ca-racterísticas opostas e identificados por seus procedimentos carentes de piedade ou espiritualidade. Para referir-se ao tipo de procedimento dos tolos, Salo-mão utiliza o vocábulo hebraico sekel, traduzido por “estultícia”, ou falta de “piedade”. Outro significado desse termo é: “estupidez” ou “loucura”.

A relação da loucura com a falta de espiritualidade aparece como uma das teorias que pretendem explicar a causa da loucura nas pessoas. Para Franz Kallman, a loucura é causada por fatores genéticos e ambientais. Para Sigmund Freud, a causa está nos impulsos reprimidos, principalmente de natu-reza sexual; para Alfred Adler, a causa é o complexo de inferioridade; para D. G. Jung, a causa da loucura é a perda do sentimento religioso.

Ao identificar os atos do tolo com a estultícia ou loucura, Salomão não pretende limitar esta categoria ao grupo de pessoas que vivem sob os efeitos de traumas mentais graves e, por isso, precisam de tratamento psiquiátrico intenso. Para o “Pregador”, o limite desse grupo de pessoas, os tolos, é maior. Abrange toda a população humana carente de espiritualidade, engloba todas as pessoas que de uma ou outra forma ocupam um lugar na gradação de trau-mas mentais, e sofrem desde uma simples neurose até as psicoses definidas.

O rei de Israel manifesta sua indignação ao constatar que o tolo, vivendo sob os efeitos de uma síndrome de loucura, é incapaz de raciocinar em favor do bem. Por isso, declara: “O coração do tolo está à sua esquerda” (Ec 10:2). É clara a representação que o autor faz do termo “coração”, relacionan-do-o com a mente. Cabe lembrar que o substantivo esquerda é uma derivação do vocábulo latino sinistra que envolve os significados de desgraça e fatali-dade; no aspecto moral, faz referência à malvadez e à insensatez, sujeitas a funestas conseqüências. Limitando a gama de significados da palavra “esquer-da”, especificamente no verso referido, Salomão identifica uma mente em desgraça espiritual, cujo futuro termina em fatalidade.

A linguagem franca de Salomão lhe permite assinalar outra peculiar e irracional atitude do tolo, quando este vai pelo caminho: “diz a todos que é tolo” (Ec 10:3). Se a estultícia é falta de espiritualidade, o tolo não sente constrangimento em declarar sua apatia para as coisas espirituais. As palavras de-bochadas da pessoa sem religião, com as quais o tolo pretende se destacar, contrariamente o afetam, pois “ os lábios do tolo o devoram” (Ec 10:12).

Mais mal

Os versos finais do capítulo 10 de Eclesiastes novamente fazem referência ao mal comum de toda sociedade e de todos os séculos: a injustiça social. Segundo o rei de Israel, esse tipo de injustiça começa na atitude desleal do governante. Seu comportamento é descrito como atuando com a mente de uma criança, então evoca o lamento: “Ai de ti, ó terra, cujo rei é uma criança” (Ec 10:16). Nessa sentida e comovida expressão do “Pregador”, a atitude infantil do rei é identificada como outra forma de loucura, pois a falta de espiritualidade leva o governante a agir com falta de maturidade, com ações irrefletidas e atos desleixados.

A injustiça social que se alastra em todos os setores se fortalece com o agravante de que seus promotores descuidam suas próprias responsabilida-des, deixando que a frouxidão moral estampe a marca do abandono e da indiferença. Então, Salomão exala um irreprimível lamento por essa situação: “Pela muita preguiça se enfraquece o teto, e pela frouxidão das mãos goteja a casa” (Ec 10:18). Quer dizer, a nação fica desprotegida.

Na seqüência de desgraças, o arrependido rei de Israel lembra que a indiferença vem acompanhada de comportamento desregrado: “Para rir se fa-zem convites, e o vinho alegra a vida, e por tudo o dinheiro responde” (Ec 10:19). Então, o “Pregador” conclui esse tema emitindo um conselho para quem sofre qualquer tipo de injustiça social. Não estimula a rebelião como forma real de reverter o desbotado quadro da injustiça, nem sequer emite alguma críti-ca contra os detentores de toda forma de poder, causadores desse anuviado ambiente de insatisfação. Ele pretende proteger os injustiçados de outros males.

Assim adverte: “Nem ainda no teu pensamento amaldiçoes ao rei, nem tão pouco no mais interior da tua recâmara amaldiçoes ao rico: porque as aves dos céus levariam a voz, e o que tem asas daria notícia da palavra” (Ec 10:20). É obvio que seu conselho final e definitivo é: confiar em Deus, o único Ser que executa juízo e justiça.