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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina |
LIÇÃO 11 - "UNGÜENTOS E MOSCAS MORTAS" |
Ruben
Aguilar, PhD
Professor de Teologia no UNASP
O capítulo 10 do livro de
Eclesiastes é uma mostra da efetiva mudança, por parte do seu
autor, dos meios convenientemente dispostos para chegar ao fim proposto. Não
mais há necessidade de expor, como nos primeiros capítulos, temas
sobre o subjetivismo da existência que precisam de um esforço racional
para captar seu significado. Claramente o autor considera desnecessário
seguir na linha da ortodoxia para mergulhar decididamente na corrente da ortopraxia.
No desejo de estabelecer normas práticas de vida projetadas para a vida
eterna, Salomão não esgota seu cabedal de experiências adquiridas,
que ele mesmo descreve com a habilidade de um pintor literário que mistura
as cores das palavras para editar em pequenas frases proverbiais os quadros
da vida prática. O autor, no entanto, parece sentir que o tempo da missão
que lhe fora incumbida está prestes a terminar. Gostaria de ser mais
claro, de explicar em detalhes e delongas a sua intenção.
Como isso não é possível, ele faz uso de figuras extraídas
do cotidiano para representar uma idéia relacionada com o comportamento
humano. Dessa maneira, o capítulo 10 de Eclesiastes apresenta uma variada
e colorida exposição de alegorias.
A diversidade de frases do presente capítulo de Eclesiastes, elaboradas
no padrão estrutural dos provérbios, permite uma sistematização
simples em quatro temas gerais. O “Pregador” inicia seus conselhos
procurando advertir que a dignidade de uma pessoa pode ruir por simples desacerto,
como o efeito nocivo de uma mosca morta sobre o concentrado aromático
de um perfume.
O segundo grupo de conselhos é uma dedução natural do primeiro,
porém o simbolismo que deseja representar está mais relacionado
com a ativida-de que com o caráter da pessoa. Salomão não
hesita em advertir quanto aos cuidados profissionais que cada pessoa deveria
manter ao ilustrando-o com os perigos do “encantador de serpentes”.
A esta altura, perto do fim do discurso do “Pregador”, a diferença
de conceito atribuída ao sábio e ao tolo é absoluta. Mesmo
assim, Salomão dá outras características comportamentais
e destaca principalmente “o coração do tolo”. No último
grupo desses provérbios, o rei de Israel não deixa de relembrar
os delitos de opressão e injustiça praticados no seu governo;
e em dupla atitude racional de contrição e acusação,
denuncia que ainda há “mais mal” para ser banido.
Moscas mortas
Disse o “pregador”: “Qual a mosca morta faz o ungüento
do perfumador exalar mau cheiro, assim é para a sabedoria e a honra um
pouco de estultí-cia” (Ec 10:1).
É possível que, para o mundo moderno, essa alegoria não
justifique a aplicação e o simbolismo que se deseja representar.
O elevado nível de tec-nologia alcançado em quase todas as áreas
permite mudar e até eliminar fenômenos naturais, mediante o uso
de materiais e instrumentos elaborados tecni-camente. Na indústria química,
por exemplo, são produzidas substâncias solúveis em água,
com alto grau de volatilização, emitindo gases leves de elevado
poder de reação que eliminam certos odores naturais. São
as substâncias da enorme variedade da linha de perfumes, lavandas e desodorantes.
Essas substân-cias em geral reagem mediante reações de oxi-redução
com gases sulfurados, aminados e outros, os quais naturalmente são caracterizados
pelo seu cheiro desagradável e nauseante.
O poder desodorizador de qualquer aromatizante praticamente elimina o mau cheiro
provocado por uma mosca morta. Mas não devemos esquecer que o provérbio
foi elaborado na base da técnica exígua dos tempos do Antigo Testamento.
Sem o conhecimento da química moderna, os concentrados aromáticos
eram produzidos com técnicas manuais dispendiosas e demoradas e ainda
mediante a aplicação de receitas secretas, sem aditivos artificiais
como os estabilizantes. Então, a presença seguida de morte de
um simples inseto provocava a emissão de gases pútridos, inutilizando
o perfume.
A representação simbólica que Salomão insere nessa
alegoria, não poderia ser melhor construída para representar a
dificuldade de estruturar uma personalidade laureada com o diadema da sabedoria
e da honra, com o denodo, dedicação e esmero de um perfumista.
E o “Pregador” continua seu propó-sito ao representar com
a figura de um inseto comum, um ato inadequado, inominado, que inutiliza a grandeza
da personalidade adquirida com elevado sa-crifício.
Além da simples representação dos símbolos alegóricos
desse provérbio, deve-se notar certa proporcionalidade do efeito em relação
à causa. Se o perfume é simples, de pouco valor devido ao seu
aroma quase imperceptível, a decomposição causada por um
inseto putrefato não provocará dano sensível. Mas se esse
efeito nocivo ocorrer num perfume de elevado valor, certamente o dano provocará
grande dispêndio. A representação é clara quando
se aplica a uma personalidade de elevada dignidade, de qualidade moral reconhecida,
no qual um desacerto pode provocar um efeito negativo de maiores proporções.
O encantador de serpentes
“Se a cobra morder antes de estar encantada, então remédio
nenhum haverá no mais hábil encantador” (Ec 10:11).
Esse provérbio salomônico é repetido em versões modernas
de diferentes grupos étnicos e sociais, com a intenção
de advertir contra os perigos de cultivar maus hábitos e proceder de
forma desregrada. Alguns aforismos semelhantes, extraídos da sabedoria
popular, são: “quem cria corvos, perderá os olhos”;
“ quem brinca com fogo, está sujeito a se queimar”; “quem
faz o mal, não espere o bem”; da sabedoria bíblica: “...
tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6:7).
O rei Salomão, ao compor a seqüência de provérbios
relativos ao tema, faz uso do conhecimento das atividades sociais da sua nação,
e procura ad-vertir seus ouvintes e leitores sobre os perigos de viver sem o
juízo aguçado, sem a prudência solidificada, sem a atenção
concentrada, em tudo quanto se faz. Os resultados, se forem funestos, não
estarão limitados unicamente a um efeito de conseqüências
terrenas, mas poderão ter efeitos para a eternidade.
No propósito deliberadamente traçado, Salomão procura abranger
todos os tipos de procedimento individual. Como se fosse o ponto concêntrico
das varetas de um leque, menciona alguns provérbios na esperança
de que seus significados possam atingir uma variedade maior de atividades comportamentais
humanas. Assim, ele descreve a figura do cavador de fossas, o demolidor de muros,
o trabalhador de canteiro de pedras, o rachador de lenha, o encantador de serpentes,
sem esquecer que todo trabalho deve ser executado com a ferramenta bem preparada.
A observação de Salomão sobre as atividades que aparecem
nesses provérbios lhe permite emitir conselhos para que seus ouvintes
sejam preserva-dos dos perigos dos hábitos que afetam a vida moral e,
ainda mais, quando é preservada a sua rotina de prática, como
se nenhum mal pudesse ocorrer. O “Pregador” sabe bem que o cavador
de fossas pode nela cair; o demolidor de muros pode ser atacado por uma cobra;
o rachador de pedras pode ser ferido por uma lasca; igualmente o lenhador, por
uma lasca de madeira; o encantador de serpentes, atacado pelo próprio
ofídio. Em outras palavras Salomão nos adverte a não cultivarmos
tendências que possam afetar outras pessoas, como a inveja, o egoísmo,
a maledicência, o rancor, o engano, o ciúme etc.; pois seus efeitos
podem afetar a própria pessoa.
O coração do
tolo
Para o rei de Israel, finalmente, só existem duas classes bem definidas
de pessoas, caracterizadas pela sua relação com Deus: os sábios
e os tolos. Os sábios são aqueles que comungam com Deus, sabem
diferenciar o bem do mal e vivem na esperança de receber a vida eterna.
Os tolos são pessoas de ca-racterísticas opostas e identificados
por seus procedimentos carentes de piedade ou espiritualidade. Para referir-se
ao tipo de procedimento dos tolos, Salo-mão utiliza o vocábulo
hebraico sekel, traduzido por “estultícia”, ou falta de “piedade”.
Outro significado desse termo é: “estupidez” ou “loucura”.
A relação da loucura com a falta de espiritualidade aparece como
uma das teorias que pretendem explicar a causa da loucura nas pessoas. Para
Franz Kallman, a loucura é causada por fatores genéticos e ambientais.
Para Sigmund Freud, a causa está nos impulsos reprimidos, principalmente
de natu-reza sexual; para Alfred Adler, a causa é o complexo de inferioridade;
para D. G. Jung, a causa da loucura é a perda do sentimento religioso.
Ao identificar os atos do tolo com a estultícia ou loucura, Salomão
não pretende limitar esta categoria ao grupo de pessoas que vivem sob
os efeitos de traumas mentais graves e, por isso, precisam de tratamento psiquiátrico
intenso. Para o “Pregador”, o limite desse grupo de pessoas, os
tolos, é maior. Abrange toda a população humana carente
de espiritualidade, engloba todas as pessoas que de uma ou outra forma ocupam
um lugar na gradação de trau-mas mentais, e sofrem desde uma simples
neurose até as psicoses definidas.
O rei de Israel manifesta sua indignação ao constatar que o tolo,
vivendo sob os efeitos de uma síndrome de loucura, é incapaz de
raciocinar em favor do bem. Por isso, declara: “O coração
do tolo está à sua esquerda” (Ec 10:2). É clara a
representação que o autor faz do termo “coração”,
relacionan-do-o com a mente. Cabe lembrar que o substantivo esquerda é
uma derivação do vocábulo latino sinistra que envolve os
significados de desgraça e fatali-dade; no aspecto moral, faz referência
à malvadez e à insensatez, sujeitas a funestas conseqüências.
Limitando a gama de significados da palavra “esquer-da”, especificamente
no verso referido, Salomão identifica uma mente em desgraça espiritual,
cujo futuro termina em fatalidade.
A linguagem franca de Salomão lhe permite assinalar outra peculiar e
irracional atitude do tolo, quando este vai pelo caminho: “diz a todos
que é tolo” (Ec 10:3). Se a estultícia é falta de
espiritualidade, o tolo não sente constrangimento em declarar sua apatia
para as coisas espirituais. As palavras de-bochadas da pessoa sem religião,
com as quais o tolo pretende se destacar, contrariamente o afetam, pois “
os lábios do tolo o devoram” (Ec 10:12).
Mais mal
Os versos finais do capítulo 10 de Eclesiastes novamente fazem referência
ao mal comum de toda sociedade e de todos os séculos: a injustiça
social. Segundo o rei de Israel, esse tipo de injustiça começa
na atitude desleal do governante. Seu comportamento é descrito como atuando
com a mente de uma criança, então evoca o lamento: “Ai de
ti, ó terra, cujo rei é uma criança” (Ec 10:16).
Nessa sentida e comovida expressão do “Pregador”, a atitude
infantil do rei é identificada como outra forma de loucura, pois a falta
de espiritualidade leva o governante a agir com falta de maturidade, com ações
irrefletidas e atos desleixados.
A injustiça social que se alastra em todos os setores se fortalece com
o agravante de que seus promotores descuidam suas próprias responsabilida-des,
deixando que a frouxidão moral estampe a marca do abandono e da indiferença.
Então, Salomão exala um irreprimível lamento por essa situação:
“Pela muita preguiça se enfraquece o teto, e pela frouxidão
das mãos goteja a casa” (Ec 10:18). Quer dizer, a nação
fica desprotegida.
Na seqüência de desgraças, o arrependido rei de Israel lembra
que a indiferença vem acompanhada de comportamento desregrado: “Para
rir se fa-zem convites, e o vinho alegra a vida, e por tudo o dinheiro responde”
(Ec 10:19). Então, o “Pregador” conclui esse tema emitindo
um conselho para quem sofre qualquer tipo de injustiça social. Não
estimula a rebelião como forma real de reverter o desbotado quadro da
injustiça, nem sequer emite alguma críti-ca contra os detentores
de toda forma de poder, causadores desse anuviado ambiente de insatisfação.
Ele pretende proteger os injustiçados de outros males.
Assim adverte: “Nem ainda no teu pensamento amaldiçoes ao rei,
nem tão pouco no mais interior da tua recâmara amaldiçoes
ao rico: porque as aves dos céus levariam a voz, e o que tem asas daria
notícia da palavra” (Ec 10:20). É obvio que seu conselho
final e definitivo é: confiar em Deus, o único Ser que executa
juízo e justiça.