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CasaNet

Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina
1º Trimestre de 2007


Lição 1 – Ascensão e queda da casa de Salomão

Ruben Aguilar PhD
Professor de Teologia no UNASP

Eclesiastes ou o Livro do "Pregador"

No presente trimestre, as lições da Escola Sabatina focalizam os ensinamentos do livro de Eclesiastes.

Antes de emitir enunciados interpretativos do conteúdo do livro em referência, considero ser de utilidade para o estudioso conhecer algumas peculiaridades que envolvem a autenticidade e a trajetória histórica da preservação do texto.

O nome Eclesiastes é uma derivação fonética do termo grego Ekklesiastes, que aparece como título do livro na versão grega do Antigo Testamento, denominada Septuaginta. Por sua vez, esse termo encontra sua raiz no vocábulo: ekklesia; que tem o sentido de reunião ou assembléia. Na Bíblia hebraica, aparece o termo Qohelet, cuja raiz encontra-se na seqüência das consoantes: Q, H, L, cuja primeira acepção é reunião ou ajuntamento de pessoas. Nas formas verbais, essas consoantes dão o sentido de reunir, juntar; dessa maneira, o termo substantivado Qohelet, pode significar aquele que reúne uma assembléia para falar-lhe; ou seja, o pregador.

A inclusão do livro de Eclesiastes, "o pregador", no Cânon das Sagradas Escrituras foi debatida por muitos séculos. O Código Samaritano, do período pré-cristão, não inclui os livros classificados como Hagiografos, entre os quais encontra-se o Eclesiastes. Os judeus do período intertestamentário não aceitavam os Hagiografos, principalmente os "cinco rolos" (Cantares, Rute, Lamentações, Eclesiastes e Ester), por considerarem que os autores da Septuaginta incluíram vários livros (referência aos apócrifos), sem contar com a devida autoridade que a canonicidade requer.

A expressão assertiva de Jesus, encontrada em Lucas 24:44, outorga autoridade canônica dos Hagiografos. Neste texto se lê: "Importava se cumprisse tudo o que de Mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos". A palavra Salmos deve ser entendida como uma referência aos Hagiografos, pois era o nome original pelo qual era conhecido; segundo a declaração de Filo de Alexandria, no seu texto De Vita Contemplativa, pág. 25, os judeus residentes em Alexandria e que falavam grego decidiram o impasse na célebre reunião denominada: "Sínodo de Jamnia" ou de "Jabneh", realizada no ano 90 d.C. incluindo no Cânon das Escrituras Sagradas os Hagiografos, entre eles, o livro de Eclesiastes. Mesmo assim, durante os primeiros cinco séculos da era cristã, a disputa sobre a canonicidade de alguns livros (Ezequiel, Cantares, Provérbios, Eclesiastes e Ester), ainda motivava polêmicos debates, no ambiente judeu.

Os Massoretas, judeus tradicionalistas que divulgaram as Sagradas Escrituras entre os séculos VI a X, sempre consideraram o livro de Eclesiastes, dentro do Cânon do antigo Testamento. A atual Bíblia hebraica, que é baseada no texto completo encontrado em Leningrado (Codex Leningradensis), apresenta uma nota esclarecedora no livro de Eclesiastes, mencionando que a cópia foi feita por Aaron Ben Mosheh Ben Asher, descendente da notável família de judeus massoretas.

Em relação à autoria do livro de Eclesiastes, um grupo de teólogos e eruditos modernos, utilizando os parâmetros da assim chamada "alta crítica", negam que o texto tenha sido escrito por Salomão, no fim do século X a.C.; afirmando que as características lingüisticas, estilo literário, relação histórico-ambiental, apontam para uma autoria de período posterior, sugerindo diversas datas, como o ano 250 a.C. Outros argumentos propostos são que o livro não menciona o nome de Jeová; não faz nenhuma referência à Lei Divina e é omisso ao relacionar o povo de Israel como nação vigente.

O fato de a tradução grega chamada Septuaginta, realizada durante o governo de Ptolomeu II Philadelfo, entre os anos 285 a 246 a.C., incluir o livro de Eclesiastes indica que cópias do livro já existiam muito tempo antes. Entre os chamados rolos do Mar Morto, foram encontrados na caverna 4 de Qumram, fragmentos do livro de Eclesiastes, datados possivelmente no terceiro século a.C. os quais, sem dúvida, foram cópias de textos anteriores a essa data. Esses achados provam que o texto não teria sido escrito nos anos 250 a.C. senão muito tempo antes.

Mas o recurso fidedigno para sugerir a autoria do livro é a afirmação encontrada no próprio texto no cap. 1:1, onde se lê: "Palavra do pregador, filho de Davi, rei de Jerusalém". Os adjetivos indicados claramente qualificam Salomão como autor desse texto. Essa assertiva ainda é reforçada no uso do pronome em primeira pessoa do singular do verso 12, do mesmo capítulo: "Eu, o pregador, venho sendo rei de Israel...", não dando lugar a outra identidade no concerto das personalidades da História.

A grandeza do governo de Salomão

O governo de Salomão era de prosperidade, conseqüência natural da administração progressista de seu pai, o rei Davi. No entanto, não se pode deixar de reconhecer que houve motivos baseados na política exterior que determinaram tal situação de prosperidade. Em termos gerais, as grandes nações e as de menor expressão viviam em ambiente sem pretensões de conquistas. O grande império assírio vivia atormentado por problemas internos que o impulsavam à procura de uma pacificação nacional. O último rei assírio que estimulava a expansão territorial foi Tukulti Ninurta I (1.248 – 1208 a.C.). Tomou Babilônia, destruiu seus muros e se tornou rei desse império. Mais adiante, reclamou honras divinas. Não contente com sua capital Ashur, fundou nas margens do rio Tigre, uma nova capital com o nome: Kar Tukulti Ninurta. Sua vida terminou quando o próprio filho o encerrou nessa cidade e lhe ateou fogo. Então, a Assíria entrou em decadência nos períodos do reinado de Davi e de Salomão.

O Egito era administrado por faraós da XXI dinastia (1.087 a 945 a.C.). As grandes conquistas e gigantescas construções que caracterizaram o período dos Ramésidas, já haviam passado. Agora, os egípcios viviam impassíveis, como se temessem uma ameaça externa. Foi nesse período que um dos faraós dessa dinastia deu sua filha em casamento a Salomão, com a tentativa de manter a paz.

Na Palestina, as ameaças internas de nações estabelecidas sumiram de maneira radical. Os Horitas retiraram-se à região norte, pelas montanhas do Taurus até alcançar o território da Capadócia. Os hititas, ou heteus, seguiram em fuga, ao norte da Mesopotâmia onde fundaram o estado Hatina, nos despojos do antigo império de Mitani. Alguns hititas ou heteus permaneceram em Israel na condição de servos.

Nesse ambiente livre de ameaças externas floresceu o reino de Salomão. No entanto, para manter essa afirmação, não se deve deixar de destacar os atributos pessoais de Salomão e os dons adquiridos pela sua dependência de Deus. A formação de Salomão no palácio real de Davi determinou o desenvolvimento de notáveis qualidades morais. Antes mesmo de ser coroado, seu pai destacou a sua "prudência" (1Rs 2:9) e "sabedoria" (1Rs 2:6). Assim que foi coroado, Salomão requereu de Deus "coração compreensivo para julgar... para que prudentemente discirna entre o bem e o mal..." (1Rs 3:9). Munido dessas qualidades, Salomão engrandeceu seu reino.

O prestígio pessoal de Salomão, não somente como excelente administrador, mas também como homem de grande saber e intelecto, era amplamente divulgado entre as nações estrangeiras, de onde partiam personalidades importantes para testemunhar da sabedoria do rei de Israel.

Sabedoria do mundo e sabedoria de Deus

A palavra sabedoria, utilizada por Paulo em I Coríntios 3:19 é a tradução do vocábulo grego sophia. Na época de Paulo, os cidadãos gregos faziam uso desse vocábulo para referir-se indistintamente à sabedoria popular e àquela que procede de uma realidade superior, sem avaliar sua natureza de ser falsa ou verdadeira. É por essa dupla conotação que Paulo tenta diferenciar uma da outra, especificando: "a sabedoria deste mundo".

Qual é a "sabedoria deste mundo"? A inferência possível, de acordo com o qualificativo dado por Paulo, é: a sabedoria originada na mente humana. Mas por que é contrária à sabedoria que procede de Deus? Para elucidarmos a razão dessa dualidade, precisamos obter maior compreensão do significado do vocábulo grego sophia, "sabedoria". Para tanto, verificaremos o significado desse termo, no pensamento grego; isto, sem pretender manter dependência dessa expressão cultural.

Para Aristóteles, sophia, "sabedoria", é identificada com a Filosofia Primeira ou "Metafísica". A "sabedoria" não está no mundo físico. Ela se torna real mediante a união de uma razão intuitiva (humana) com o conhecimento rigoroso daquilo que é superior ou que expressa seus princípios (divino). Platão, o filósofo que exalta o bem e o belo, sugere o conceito de "sabedoria" como uma virtude superior. Sábio é aquele que possui todas as condições necessárias para pronunciar juízos reflexivos e maduros.

Considerando essas asserções, inferimos que a sabedoria só existe num ambiente superior, além da natureza humana. Para adquirir sabedoria, o homem precisa buscá-la em Deus; pois há, neste processo, uma relação de íntima dependência. Na linguagem bíblica, esse conceito se expressa: "O temor do Senhor é a sabedoria" (Jó 28:28); "O temor do Senhor é o princípio da Sabedoria" (Sl 111:10). O homem, pela sua natureza, só pode gerar e adquirir conhecimento. É a prática das virtudes que diferencia o homem que só tem conhecimento do homem que tem sabedoria. O homem que tem conhecimento pode "saber" o que é a bondade; mas só o homem sábio é quem "pratica" a bondade; e, todos os outros frutos do Espírito.

Finalmente, a "sabedoria" que procede de Deus torna o homem prudente, justo e praticante das virtudes do Espírito. O homem com conhecimentos pode ser "sábio", se seus conhecimentos são utilizados para o bem. Não pode ser considerado "sábio" o homem cujos conhecimentos adquiridos são utilizados para o mal; pois Deus não está nele. Esta última condição é aquela que caracteriza a "sabedoria" do mundo.

O declínio do governo de Salomão

A grandeza do governo de Salomão entrou em declínio por causas políticas e causas morais ou por uma inter-relação entre as elas. Politicamente, Salomão tomou medidas que originaram inconformismo entre o povo de Israel. Elevou a carga tributária de seus súditos; dividiu o reino em 12 distritos, obrigando-os a contribuir durante um mês, cada ano, para a alimentação do palácio, estimado em 5.000 pessoas; aumentou a tributação dos comerciantes estrangeiros que atravessavam o território de Israel; gerou descontentamento e conseqüente ameaça das nações de Edom, Damasco e, posteriormente, do Egito; enfrentou sem solução a revolta de Jeroboão.

No campo da moralidade, duas atitudes do rei Salomão: a sensualidade e a idolatria, contribuíram para consolidar, de forma irreversível, o declínio de seu reino. Nos primeiros anos de governo, manifestou conivência com o povo que "oferecia sacrifícios sobre os altos" (1Rs 3:2). Seu casamento com a filha de Faraó não seria a primeira experiência no sentido de manter um harém numeroso com mulheres de várias etnias. O prestígio de seu reinado e os hábitos político-sociais daquela época, entre as nações do Oriente Médio, permitiam o permanente aumento de esposas e concubinas a perambular pelos corredores do palácio real.

As razões para um governante ou homem de prestígio, nobre e rico possuir muitas mulheres eram eventualmente uma obrigação de estado. Para manter a paz política entre nações, em geral, o governante do reino vencido oferecia sua filha em casamento ao governante vitorioso. Uma forma de consertar ou estreitar alianças políticas era consolidar esse ato através de casamentos. Muitos nobres da mesma nacionalidade ou estrangeiros davam mulheres aos governantes, a título de presente. Muitas mulheres, capturadas como prisioneiras, ocupavam as recâmaras do palácio, como troféus de guerra; moças e até crianças eram transferidas dos seus lares ao palácio, como forma incomum de pagamento de dívidas; em época de baixo índice demográfico, a posse de várias concubinas tornava possível a existência de um número elevado de descendentes. Nessas práticas, consideradas legais e adequadas à época, Salomão não seguiu a regra divina em relação ao casamento, mas obedeceu aos padrões da moralidade inescrupulosa de nações pagãs.

Essa falha de comportamento levou Salomão e seu reino ao declínio de poder e de comunhão com Deus. "Sendo já velho, suas mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses... Salomão seguiu Astarote, deusa dos sidônios, e Milcom, abominação dos amonitas, ... edificou Salomão um santuário a Quemos, abominação de Moabe ... e a Moloque, abominação dos filhos de Amom" (1Rs 11:4-7).