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Ozeas Caldas Moura
Doutor em Teologia Bíblica
Editor Associado na Casa Publicadora Brasileira
Verso para memorizar: "Desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus" (2Tm 3:15).
Introdução
Livros são escritos e ficam em moda por algum tempo. Mas, não demora muito, suas idéias e afirmações são consideradas total ou parcialmente obsoletas. Tal não acontece com a Bíblia – um livro escrito há milênios (o primeiro, provavelmente Jó, escrito por Moisés, durante sua permanência em Midiã, por volta de 1480 a.C., e o último – o Evangelho de João, escrito perto do ano 100 d.C.). De Jó até hoje seriam uns 3.500 anos, e a Bíblia continua válida e atual. A razão para essa permanência e atualidade é o fato de que ela trata da situação humana, no que diz respeito à solução para o pecado, culpa, solidão, busca de sentido para a vida e outros sentimentos. Pode-se dizer que, fora o aspecto tecnológico e o acúmulo de saber, o ser humano não mudou muito de 3.500 anos para cá. Assim, a Bíblia, por tratar dos sentimentos humanos, ainda faz sentido e tem muito a oferecer ao leitor de hoje – e isso em todas as áreas da vida.
I - A fonte de sabedoria
Pode-se dizer que Deus não só "tem sabedoria", mas, que "Ele é a própria sabedoria". E, sendo Sua Palavra fruto daquilo que Ele quis revelar ao ser humano, deve-se vê-la como a sabedoria em forma escrita – fonte da qual todos deveriam beber, para aprender sobre o plano da salvação, e também como se conduzir na vida e tomar decisões. E, ao ser vista como a vontade divina para a conduta humana, a Bíblia torna-se, realmente, "lâmpada para os pés e luz para o caminho" (Sl 119:105). Todavia, não basta apenas conhecer seus sábios princípios (alguém pode fazer isso apenas por curiosidade intelectual), mas deve-se vê-los como autoritativos, e pautar a vida por eles.
II - Sabedoria social
Por natureza, somos seres sociáveis – em casa e também fora dela. E esse contato com outras pessoas nem sempre acontece de maneira tranqüila. Por isso, há necessidade de leis para normatizar os relacionamentos. E milhares delas foram, ou continuam sendo feitas, e a maioria quase absoluta acaba se tornando obsoleta com o passar do tempo.
É impressionante como a sabedoria divina idealizou dez breves princípios (os Dez Mandamentos) para regular toda a conduta humana, em todos os tempos, culturas e lugares. É uma Constituição que não precisa de emenda, nem seus "artigos" ficam obsoletos. É de se pensar o que poderia acontecer ao mundo se todas as nações adotassem os Dez Mandamentos. Certamente, haveria incríveis mudanças nos relacionamentos. As verbas para se manter cadeias com centenas e até milhares de presos, para a polícia e as demais forças armadas, poderiam muito bem ser aplicadas em serviços para a comunidade como saneamento básico, água tratada, escola gratuita e de boa qualidade para todos. Já imaginou um mundo em que todos descansassem no sábado, honrassem os pais e deles cuidassem, valorizassem e respeitassem a vida, o cônjuge e a propriedade alheia, falassem somente a verdade, e que tivessem a virtude do contentamento? Não seria o "Céu"? Por isso é que a vida eterna é chamada de "Céu", pois nela, todos obedecerão aos Dez Mandamentos, não por dever somente, mas por amor a Deus e ao semelhante.
III - Sabedoria no emprego
O trabalho foi "inventado" pelo próprio Deus: "Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar" (Gn 2:15). Adão foi "contratado" diretamente pelo Criador – dono de tudo o que existe.
Não sabemos por quanto tempo Adão agiu com sabedoria em seu trabalho de cultivar e guardar o jardim. Mas durante o tempo em que procedeu corretamente, foi feliz e sentiu-se realizado, recebendo a aprovação de Deus, que estava mais para "Pai" do que "patrão".
Mas um dia, Adão exorbitou em suas funções, e lançou mão nos bens do patrão, pegando algo que lhe estava proibido. E as conseqüências, todos conhecemos: descoberto seu delito, foi demitido. Mas não devia ficar ocioso. Deus arranjou-lhe novo emprego – bem diferente do aprazível trabalho do Éden. Agora, ele se cansaria ao lidar com uma terra não tão fértil como antes, com cardos e espinhos a lhe incomodar. Mas o trabalho ainda lhe seria uma bênção, pois enquanto estivesse trabalhando poderia se sentir útil e não teria tempo para pensar em fazer o mal. Esses mesmos benefícios do trabalho ainda estão disponíveis a todos os seus descendentes.
A Bíblia não só preconiza o trabalho como absolutamente indispensável ao ser humano, como também apresenta princípios para que alguém seja um bom trabalhador: bom uso do tempo (Parábola dos talentos – Mt 25:14-28), diligência ("A mão diligente dominará, mas a remissa será sujeita a trabalhos forçados" – Pv 12:24; "Vai ter com a formiga, ó preguiçoso..." – Pv 6:6), honestidade ("Não furtarás" – Êx 20:15), respeito à autoridade ("... a quem respeito, respeito; a quem honra, honra" – Rm 13:7) e trabalhar com boa vontade ("Servindo de boa vontade, como ao Senhor e não como a homem" – Ef 6:7).
IV - A Bíblia e as riquezas
A grande desigualdade na distribuição de renda na maioria dos países deve-se, principalmente, à ganância de alguns, em detrimento da miséria de milhões. No plano original, não deveria haver aqueles poucos que têm muito e muitos que têm pouco ou nada. Todos deveriam ter o suficiente para sua manutenção. Mas o pecado trouxe o egoísmo ao coração humano, e com ele o desejo de se ter cada vez mais, sem nunca se saciar. Tal é a situação presente do mundo, hoje. Realmente, "o amor ao dinheiro" acabou por tornar-se "a raiz de todos os males" (1Tm 6: 10).
O que tem a Bíblia a dizer sobre o dinheiro e as riquezas?
1. O dinheiro em si não é pecaminoso. Vários patriarcas foram ricos ("Era Abraão muito rico; possuía gado, prata e ouro" – Gn 13: 2; "Semeou Isaque naquela terra..., enriqueceu-se o homem, prosperou e ficou riquíssimo" – Gn 26: 12 e 13).
2. A falta de dinheiro pode levar alguém a cair na tentação de roubar (Pv 30: 8 e 9).
3. O problema não está no dinheiro em si (que, bem empregado, pode ser uma bênção a seu possuidor e aos que dele vierem a participar), mas no "amor ao dinheiro" (1Tm 6:10), ou seja, o insaciável desejo de acumulá-lo cada vez mais, sem desfrutá-lo nem ajudar outros.
4. O trabalho honesto é maneira bíblica de se ganhar o dinheiro necessário à manutenção própria, da família e de quem mais vier a precisar. Eis o conselho bíblico: "Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado" (Ef 4: 28). Jesus foi um exemplo de alguém que ganhava o sustento com trabalho honesto, sendo carpinteiro (Mc 6: 3) por cerca de 30 anos.
5. O local mais seguro para se guardar riquezas é o Céu, ou seja, fazer o máximo de bem com o dinheiro, pois se as entesourarmos aqui, elas podem ser roubadas ou perdidas (Mt 6: 19 e 20).
V - Liderando sabiamente
O assunto da liderança está em moda. Muitos livros foram e continuam sendo escritos sobre o assunto. Ocorre que, quando os lemos, vemos que seus mais "avançados" e "modernos" princípios ficam muito aquém dos princípios bíblicos, ou, no máximo, refletem o que a Bíblia já disse há milênios. Vejamos alguns princípios para uma boa liderança (e todos somos "líderes", seja em casa ou fora dela). O líder:
1. Deve ser o primeiro a ter espírito de serviço; grande é quem mais serve (Mt 20:25-28).
2. Não trabalha por meio de ameaças e nem faz acepção de pessoas (Ef 6:9); sua autoridade emana de seu exemplo em servir, e procura tratar a todos com respeito e justiça.
3. Deve ser diligente, servindo de exemplo na operosidade para todos os liderados (Rm 12:8).
4. É honesto e sensível às necessidades de seus liderados (Tg 5:4).
5. Põe-se no lugar do outro e pergunta: "Se fosse comigo, como gostaria de ser tratado?" (Lc 6:31).
Conclusão
O assunto principal da Bíblia é o Plano da Salvação. Mas nela encontramos princípios e orientações para todas as situações do viver diário. Conheçamo-los e pratiquemo-los. E isso resultará em uma existência mais suave, melhores relacionamentos e decisões mais acertadas com respeito às situações que a vida nos apresenta.