Este Comentário (completo) também é oferecido com uma formatação mais adequada para imprimir. Use seu processador de textos (de preferência MS/Word). Para leitura em Palm, você tem duas opções: o arquivo doc (padrão) lido pela maioria dos programas de leitura para Palm, e o arquivo em formato iSilo, que mantém as formatações do texto original.

Download do programa iSilo

Download do programa Acrobat Reader

Arquivo para Word

Arquivo para Palm, formato doc

Arquivo para Palm, formato iSilo

Arquivo formato PDF

CasaNet

Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina
1º Trimestre de 2007


LIÇÃO 11 - "O CAMINHO DO VENTO"

Ruben Aguilar, PhD
Professor de Teologia no UNASP


Uma das características da sabedoria de Salomão evidenciava-se na virtude de distinguir o bem do mal, conforme atesta o relato bíblico. Mas outro aspecto distintivo dessa qua-lidade era a capacidade de armazenar conhecimentos sobre os diversos seres e fenômenos da natureza, a ponto de ser admira-do pelos mais insignes homens de ciência daquela época. Mesmo assim, e apesar desse vasto conhecimento que repre-sentava um sinal de grandeza, Salomão reconheceu sua peque-nez ao comparar seu saber com os mistérios da sabedoria cria-dora de Deus. Nessa comparação, usando linguagem figurada, o “Pregador” procura transmitir o nível de ignorância do saber humano em relação à ciência Divina. Então, utilizando o recur-so gramatical do grau, ele afirma: “Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, ... também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas” (Ec 11:5).

Num mundo de alta tecnologia e de domínio de recur-sos da sofisticada eletrônica, pareceria difícil confirmar a afir-mação de Salomão. Na atualidade, o homem conta com o au-xílio de anemômetros, anemoscópios e outros aparelhos sutis, fazendo parecer que o “caminho dos ventos” já está traçado em cartógrafos específicos. Especialistas em meteorologia ou em eólica são capazes de identificar os ventos pela sua origem, intensidade, velocidade e direção. Mas como eles mesmos afirmam, toda previsão é uma tentativa de estimar as caracte-rísticas e, sobretudo, os efeitos dos ventos. Qual é o “caminho do vento”? Só Deus o sabe.

A insinuação de Salomão em relação ao “caminho do vento” não era unicamente uma tentativa superficial de compa-rar o conhecimento do homem com o saber de Deus. Mais do que isso, era reconhecer que só Deus sabe o futuro da existên-cia de cada pessoa. Com essa visão, o autor do texto deseja exortar os jovens a considerar a vida futura. Sua alocução faz referência direta à alegria como principal característica dessa fase da vida da pessoa humana. Nessa expressão, a alegria deve ser entendida como manifestação de felicidade.

A proposta salomônica de gozar a vida na fase da ju-ventude inclui a escolha da real e única forma de felicidade que concede méritos de enfrentar o juízo eterno. Essa classe de felicidade é aquela que segue as orientações e princípios divi-nos de vida, com projeções para a vida eterna. Uma dessas orientações, o autor aponta como exemplo, é a prática da soli-dariedade com os menos favorecidos. O autor sugere o desem-penho dessa prática com palavras que representam a idéia que ele mesmo deseja plasmar. Assim, a frase determina lançar “o pão para as águas”. Esse ato, garante o autor, terá conseqüência positivas.

Com a apresentação alegórica sobre a prática da solida-riedade, Salomão pretende estimular e ampliar outras ativida-des que conduzam à obtenção dos mesmos resultados. A tarefa, no entanto, não é fácil. Há obstáculos representados por “nu-vens”, “árvores caídas”, “trevas”; mas... há também um sus-pense. O autor, nesse momento, conduz a mente dos seus ou-vintes para o poder auxiliador de Deus. Deseja que sejam con-sideradas as “obras de Deus”, clara demonstração do Seu po-der. Com essa ajuda, a juventude será um estágio em que as práticas de vida serão meritórias e, em tom familiar, exorta a não omitir esse poder e nem esquecer que: “de todas estas coi-sas, Deus te pedirá contas” (Ec 11:9).

Lançando o pão

“Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás” (Ec 11:1). Essa frase parece ter sido popular em nações do Antigo Oriente Médio. Foram encontra-dos alguns “tabletes” de argila com escrita cuneiforme, onde aparece uma versão semelhante àquela expressa no verso apre-sentado. Considerando a popularidade da frase no ambiente daquela época, a mesma sentença pode ser interpretada como referência à diversidade de atividades promovidas pelo ho-mem, as quais dão seus resultados depois de vários dias. A extensão dos dias de espera deve-se à necessidade de vencer os obstáculos, as tribulações da vida, representadas pelas águas. Se é esse o pensamento do autor de Eclesiastes, podemos infe-rir que ele não estava interessado em detalhes sobre a execução de práticas isoladas. Seu interesse era considerar a vida como um todo, ou seja, toda atividade humana está relacionada com outras e não independente delas; ao menos não deve assim ser considerada. A interdependência de atividades permite que o ser humano, como um todo, alcance finalmente o resultado esperado.

Conforme o parecer de muitos comentaristas bíblicos, outra forma de interpretar essa frase é reconhecer que o autor pretende estimular a prática da “caridade” ou manifestar soli-dariedade para com os que precisam. A palavra básica para assumir tal interpretação é “pão”. Em todas as línguas e em todas as épocas, o sustento ou fator alimentício, sempre foi representado por esse produto, comum em qualquer núcleo social ou familiar do planeta. A voz imperativa que dá início a essa frase: “Lança”, tem a finalidade de chamar a atenção à importância dessa prática.

A parte final da frase do verso que consideramos dá certeza do efeito de reciprocidade sobre o ato realizado. Passa-rá um determinado número de dias, tempo não definido, mas, finalmente, o “pão” lançado será recuperado. Isso significa que a generosidade é sempre retribuída. Mas a retribuição de um ato de caridade, quando executada para um necessitado, não é realizada com a participação de duas pessoas: o doador e o beneficiado. A caridade executada seguindo o mandato divino é um ato de retribuição que envolve a participação de Deus. O “pão”, objeto do ato de caridade, segue um roteiro triangular: O doador dá o beneficio para o necessitado; este retribui esse favor com ações de graças para Deus; finalmente o Ser Divino devolve o “pão” ao doador, em grande medida.

Uma última orientação na prática da caridade é encon-trada no verso seguinte: “Reparte com sete e ainda com oito...” (Ec 11:2). Na numerologia bíblica, a seqüência de números indica plenitude ou totalidade. Assim, o autor recomenda prati-car a caridade com todo objeto disponível e para todos.

Nuvens, chuva e destino

“Estando as nuvens cheias, derramam aguaceiro sobre a terra ...” (Ec 11:3). A frase, embora concisa, não pode ter outro significado mais claro que as dificuldades da vida, desde os problemas particulares até as grandes calamidades de efeito coletivo. Salomão estimula essa interpretação e amplia a se-mântica dessas palavras ao manifestar o plano inexorável da natureza afetada pelo pecado. Então, ele afirma: “Caindo a árvore,... no lugar onde cair, ali ficará” (v. cit.). Essa sentença revela que as dificuldades podem ser de tal magnitude que para o homem é impossível removê-las.

Se as dificuldades da vida ostentam o caráter de estabi-lidade, poderá a ciência removê-las dando solução a todo pro-blema? O rei de Israel elimina essa esperança ao relatar o nível de conhecimento alcançado pelo homem. Mesmo após 30 sé-culos desde a época em que Salomão escrevia essas palavras, a ciência do homem ainda não sabe qual é “o caminho do vento” e explicitamente expõe sua ignorância diante do saber Divino. Essa condição faz com que o conhecimento alcançado pelo homem, obviamente declare sua incapacidade de remover as “arvores caídas” das dificuldades sociais.

Usando os recursos mais adequados da linguagem, Sa-lomão manifesta seu desejo de que o espectro desse panorama não venha a traumatizar os homens, principalmente os que buscam a verdadeira sabedoria. Para o “Pregador”, esse é o momento propício de exortar a todos quanto a confiar no poder de Deus. Bem sabe o rei de Israel que o homem investido com essa fé, pode vencer; então, ele é encorajado a realizar suas atividades apesar dos obstáculos, pois “quem somente observa o vento nunca semeará, e o que olha para as nuvens, nunca segará” (Ec 11:4).

O autor insiste no mesmo propósito declarando outro provérbio: “Semeia pela manhã a tua semente e à tarde não repouses a mão,...” (Ec 11:6). Essa frase pode indicar dedica-ção ao trabalho, apesar dos obstáculos, mas pode referir-se também a períodos da vida de uma pessoa. No antigo Israel, a manhã era uma representação da juventude, e a tarde, da matu-ridade ou velhice.

Dias da tua mocidade

“Alegra-te, jovem, na tua juventude, e recreie-se o teu coração nos dias da tua mocidade; anda pelos caminhos que satisfazem ao teu coração e agradam aos teus olhos...” (Ecl 11:9). Essas frases, ditas em qualquer período da história hu-mana, sempre terão o mesmo sentido. A juventude é identifi-cada por uma manifestação emotiva do ser: a alegria. Essa ale-gria se manifesta no coração, símbolo central da existência humana, e lugar em que se originam todos os desejos e aspira-ções.

Referindo-se ao jovem, no verso citado, Salomão usa o vocábulo hebraico que mais se adequa ao propósito que deseja emitir. Esse vocábulo é: bahur, que na conceituação hebraica dos tempos do A.T. refere-se ao período da vida de uma pessoa entre a adolescência e a maturidade. Nos textos bíblicos, o termo aparece registrado 45 vezes e, na sua maioria, relacionado com o estado de solteiro. O jovem, bahur, é caracterizado pela sua potencialidade tanto física como mental, e pode suportar difíceis provas, quando testado. O jovem apresenta um ambiente adequado para efetuar uma boa preparação para a vida. Isso significa que as melhores qualidades de caráter podem ser impressas nesse período. Outro sinal distintivo é a capacidade de revelar energia moral para enfrentar os perigos. Em termos de religiosidade, bahur é a idade propícia para assumir responsabilidades teologais, como o pecado. No livro Pirqué Abbot, “Ditos dos Pais”, o jovem, bahur, pode casar aos 18 anos.

Pelas anteriores peculiaridades impostas ao bahur, “jo-vem”, Salomão instiga os jovens, com palavras que soam como clara ironia, a realizar práticas que devem ser encaradas como prescrição adequada. “Alegra-te, jovem”, não é um convite a levar uma vida de liberalidade, em busca do prazer sem limites. Ao contrário, com as qualidades do bahur, alegrar-se significa experimentar a verdadeira felicidade, aquela que só gera satis-fação, sem sentimentos de dor nem pesar de consciência.

Qual é a verdadeira felicidade? A resposta é complexa, pois, para alguns, a felicidade está relacionada com a posse de bens materiais e para outros, com a satisfação que os prazeres proporcionam. Ainda para outros, a felicidade está relacionada com o desenvolvimento das virtudes. Aristóteles identifica a felicidade com a realização das melhores atividades, e uma dessas atividades é a sabedoria prática. Isso significa que a felicidade tem estreita relação com o fazer. Segundo Sto. Agostinho e Tomás de Aquino, o “fazer” produz dois tipos de felicidade: a felicidade bestial que é o “fazer” que proporciona satisfação temporal, e a felicidade eterna que se experimenta com o “fazer” que toma posse do Absoluto.

Os conceitos sobre felicidade referidos no parágrafo anterior, embora não sejam plenamente um ampliação ou re-flexo exato do sentido de felicidade exposto por Salomão, au-xiliam na compreensão da sentença final do texto: “sabe, po-rém, que de todas estas coisas Deus te pedirá contas” (v. cit). Em outras palavras, o rei de Israel apela aos jovens convidan-do-os a formar uma personalidade plena de felicidade nos pa-drões divinos.

Ruben Aguilar PhD
Professor de Teologia
UNASP, Engenheiro Coelho, SP