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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina |
LIÇÃO 11 - "O CAMINHO DO VENTO" |
Ruben
Aguilar, PhD
Professor de Teologia no UNASP
Uma das características da sabedoria de Salomão evidenciava-se
na virtude de distinguir o bem do mal, conforme atesta o relato bíblico.
Mas outro aspecto distintivo dessa qua-lidade era a capacidade de armazenar
conhecimentos sobre os diversos seres e fenômenos da natureza, a ponto
de ser admira-do pelos mais insignes homens de ciência daquela época.
Mesmo assim, e apesar desse vasto conhecimento que repre-sentava um sinal de
grandeza, Salomão reconheceu sua peque-nez ao comparar seu saber com
os mistérios da sabedoria cria-dora de Deus. Nessa comparação,
usando linguagem figurada, o “Pregador” procura transmitir o nível
de ignorância do saber humano em relação à ciência
Divina. Então, utilizando o recur-so gramatical do grau, ele afirma:
“Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, ... também
não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas” (Ec 11:5).
Num mundo de alta tecnologia e de domínio de recur-sos da sofisticada
eletrônica, pareceria difícil confirmar a afir-mação
de Salomão. Na atualidade, o homem conta com o au-xílio de anemômetros,
anemoscópios e outros aparelhos sutis, fazendo parecer que o “caminho
dos ventos” já está traçado em cartógrafos
específicos. Especialistas em meteorologia ou em eólica são
capazes de identificar os ventos pela sua origem, intensidade, velocidade e
direção. Mas como eles mesmos afirmam, toda previsão é
uma tentativa de estimar as caracte-rísticas e, sobretudo, os efeitos
dos ventos. Qual é o “caminho do vento”? Só Deus o
sabe.
A insinuação de Salomão em relação ao “caminho
do vento” não era unicamente uma tentativa superficial de compa-rar
o conhecimento do homem com o saber de Deus. Mais do que isso, era reconhecer
que só Deus sabe o futuro da existên-cia de cada pessoa. Com essa
visão, o autor do texto deseja exortar os jovens a considerar a vida
futura. Sua alocução faz referência direta à alegria
como principal característica dessa fase da vida da pessoa humana. Nessa
expressão, a alegria deve ser entendida como manifestação
de felicidade.
A proposta salomônica de gozar a vida na fase da ju-ventude inclui a escolha
da real e única forma de felicidade que concede méritos de enfrentar
o juízo eterno. Essa classe de felicidade é aquela que segue as
orientações e princípios divi-nos de vida, com projeções
para a vida eterna. Uma dessas orientações, o autor aponta como
exemplo, é a prática da soli-dariedade com os menos favorecidos.
O autor sugere o desem-penho dessa prática com palavras que representam
a idéia que ele mesmo deseja plasmar. Assim, a frase determina lançar
“o pão para as águas”. Esse ato, garante o autor,
terá conseqüência positivas.
Com a apresentação alegórica sobre a prática da
solida-riedade, Salomão pretende estimular e ampliar outras ativida-des
que conduzam à obtenção dos mesmos resultados. A tarefa,
no entanto, não é fácil. Há obstáculos representados
por “nu-vens”, “árvores caídas”, “trevas”;
mas... há também um sus-pense. O autor, nesse momento, conduz
a mente dos seus ou-vintes para o poder auxiliador de Deus. Deseja que sejam
con-sideradas as “obras de Deus”, clara demonstração
do Seu po-der. Com essa ajuda, a juventude será um estágio em
que as práticas de vida serão meritórias e, em tom familiar,
exorta a não omitir esse poder e nem esquecer que: “de todas estas
coi-sas, Deus te pedirá contas” (Ec 11:9).
Lançando o pão
“Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de
muitos dias o acharás” (Ec 11:1). Essa frase parece ter sido popular
em nações do Antigo Oriente Médio. Foram encontra-dos alguns
“tabletes” de argila com escrita cuneiforme, onde aparece uma versão
semelhante àquela expressa no verso apre-sentado. Considerando a popularidade
da frase no ambiente daquela época, a mesma sentença pode ser
interpretada como referência à diversidade de atividades promovidas
pelo ho-mem, as quais dão seus resultados depois de vários dias.
A extensão dos dias de espera deve-se à necessidade de vencer
os obstáculos, as tribulações da vida, representadas pelas
águas. Se é esse o pensamento do autor de Eclesiastes, podemos
infe-rir que ele não estava interessado em detalhes sobre a execução
de práticas isoladas. Seu interesse era considerar a vida como um todo,
ou seja, toda atividade humana está relacionada com outras e não
independente delas; ao menos não deve assim ser considerada. A interdependência
de atividades permite que o ser humano, como um todo, alcance finalmente o resultado
esperado.
Conforme o parecer de muitos comentaristas bíblicos, outra forma de interpretar
essa frase é reconhecer que o autor pretende estimular a prática
da “caridade” ou manifestar soli-dariedade para com os que precisam.
A palavra básica para assumir tal interpretação é
“pão”. Em todas as línguas e em todas as épocas,
o sustento ou fator alimentício, sempre foi representado por esse produto,
comum em qualquer núcleo social ou familiar do planeta. A voz imperativa
que dá início a essa frase: “Lança”, tem a
finalidade de chamar a atenção à importância dessa
prática.
A parte final da frase do verso que consideramos dá certeza do efeito
de reciprocidade sobre o ato realizado. Passa-rá um determinado número
de dias, tempo não definido, mas, finalmente, o “pão”
lançado será recuperado. Isso significa que a generosidade é
sempre retribuída. Mas a retribuição de um ato de caridade,
quando executada para um necessitado, não é realizada com a participação
de duas pessoas: o doador e o beneficiado. A caridade executada seguindo o mandato
divino é um ato de retribuição que envolve a participação
de Deus. O “pão”, objeto do ato de caridade, segue um roteiro
triangular: O doador dá o beneficio para o necessitado; este retribui
esse favor com ações de graças para Deus; finalmente o
Ser Divino devolve o “pão” ao doador, em grande medida.
Uma última orientação na prática da caridade é
encon-trada no verso seguinte: “Reparte com sete e ainda com oito...”
(Ec 11:2). Na numerologia bíblica, a seqüência de números
indica plenitude ou totalidade. Assim, o autor recomenda prati-car a caridade
com todo objeto disponível e para todos.
Nuvens, chuva e destino
“Estando as nuvens cheias, derramam aguaceiro sobre a terra ...”
(Ec 11:3). A frase, embora concisa, não pode ter outro significado mais
claro que as dificuldades da vida, desde os problemas particulares até
as grandes calamidades de efeito coletivo. Salomão estimula essa interpretação
e amplia a se-mântica dessas palavras ao manifestar o plano inexorável
da natureza afetada pelo pecado. Então, ele afirma: “Caindo a árvore,...
no lugar onde cair, ali ficará” (v. cit.). Essa sentença
revela que as dificuldades podem ser de tal magnitude que para o homem é
impossível removê-las.
Se as dificuldades da vida ostentam o caráter de estabi-lidade, poderá
a ciência removê-las dando solução a todo pro-blema?
O rei de Israel elimina essa esperança ao relatar o nível de conhecimento
alcançado pelo homem. Mesmo após 30 sé-culos desde a época
em que Salomão escrevia essas palavras, a ciência do homem ainda
não sabe qual é “o caminho do vento” e explicitamente
expõe sua ignorância diante do saber Divino. Essa condição
faz com que o conhecimento alcançado pelo homem, obviamente declare sua
incapacidade de remover as “arvores caídas” das dificuldades
sociais.
Usando os recursos mais adequados da linguagem, Sa-lomão manifesta seu
desejo de que o espectro desse panorama não venha a traumatizar os homens,
principalmente os que buscam a verdadeira sabedoria. Para o “Pregador”,
esse é o momento propício de exortar a todos quanto a confiar
no poder de Deus. Bem sabe o rei de Israel que o homem investido com essa fé,
pode vencer; então, ele é encorajado a realizar suas atividades
apesar dos obstáculos, pois “quem somente observa o vento nunca
semeará, e o que olha para as nuvens, nunca segará” (Ec
11:4).
O autor insiste no mesmo propósito declarando outro provérbio:
“Semeia pela manhã a tua semente e à tarde não repouses
a mão,...” (Ec 11:6). Essa frase pode indicar dedica-ção
ao trabalho, apesar dos obstáculos, mas pode referir-se também
a períodos da vida de uma pessoa. No antigo Israel, a manhã era
uma representação da juventude, e a tarde, da matu-ridade ou velhice.
Dias da tua mocidade
“Alegra-te, jovem, na tua juventude, e recreie-se o teu coração
nos dias da tua mocidade; anda pelos caminhos que satisfazem ao teu coração
e agradam aos teus olhos...” (Ecl 11:9). Essas frases, ditas em qualquer
período da história hu-mana, sempre terão o mesmo sentido.
A juventude é identifi-cada por uma manifestação emotiva
do ser: a alegria. Essa ale-gria se manifesta no coração, símbolo
central da existência humana, e lugar em que se originam todos os desejos
e aspira-ções.
Referindo-se ao jovem, no verso citado, Salomão usa o vocábulo
hebraico que mais se adequa ao propósito que deseja emitir. Esse vocábulo
é: bahur, que na conceituação hebraica dos tempos do A.T.
refere-se ao período da vida de uma pessoa entre a adolescência
e a maturidade. Nos textos bíblicos, o termo aparece registrado 45 vezes
e, na sua maioria, relacionado com o estado de solteiro. O jovem, bahur, é
caracterizado pela sua potencialidade tanto física como mental, e pode
suportar difíceis provas, quando testado. O jovem apresenta um ambiente
adequado para efetuar uma boa preparação para a vida. Isso significa
que as melhores qualidades de caráter podem ser impressas nesse período.
Outro sinal distintivo é a capacidade de revelar energia moral para enfrentar
os perigos. Em termos de religiosidade, bahur é a idade propícia
para assumir responsabilidades teologais, como o pecado. No livro Pirqué
Abbot, “Ditos dos Pais”, o jovem, bahur, pode casar aos 18 anos.
Pelas anteriores peculiaridades impostas ao bahur, “jo-vem”, Salomão
instiga os jovens, com palavras que soam como clara ironia, a realizar práticas
que devem ser encaradas como prescrição adequada. “Alegra-te,
jovem”, não é um convite a levar uma vida de liberalidade,
em busca do prazer sem limites. Ao contrário, com as qualidades do bahur,
alegrar-se significa experimentar a verdadeira felicidade, aquela que só
gera satis-fação, sem sentimentos de dor nem pesar de consciência.
Qual é a verdadeira felicidade? A resposta é complexa, pois, para
alguns, a felicidade está relacionada com a posse de bens materiais e
para outros, com a satisfação que os prazeres proporcionam. Ainda
para outros, a felicidade está relacionada com o desenvolvimento das
virtudes. Aristóteles identifica a felicidade com a realização
das melhores atividades, e uma dessas atividades é a sabedoria prática.
Isso significa que a felicidade tem estreita relação com o fazer.
Segundo Sto. Agostinho e Tomás de Aquino, o “fazer” produz
dois tipos de felicidade: a felicidade bestial que é o “fazer”
que proporciona satisfação temporal, e a felicidade eterna que
se experimenta com o “fazer” que toma posse do Absoluto.
Os conceitos sobre felicidade referidos no parágrafo anterior, embora
não sejam plenamente um ampliação ou re-flexo exato do
sentido de felicidade exposto por Salomão, au-xiliam na compreensão
da sentença final do texto: “sabe, po-rém, que de todas
estas coisas Deus te pedirá contas” (v. cit). Em outras palavras,
o rei de Israel apela aos jovens convidan-do-os a formar uma personalidade plena
de felicidade nos pa-drões divinos.
Ruben Aguilar PhD
Professor de Teologia
UNASP, Engenheiro Coelho, SP