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A BÍBLIA PARA HOJE |
Acesso ao Comentário da lição 1 - A voz do Céu
Amin A. Rodor Th.D.
Professor de Teologia no UNASP
INTRODUÇÃO GERAL
Apesar dos avanços humanos nas áreas da ciência, descobertas e tecnologia, há muita dúvida ao nosso redor. Diz-se que 94% de todos os cientistas conhecidos estão vivendo hoje e, contudo, os problemas básicos da existência não estão sendo resolvidos. Convivemos com a incerteza acerca da vida, sua origem, propósito e destino. Incerteza acerca da morte e do que é certo ou errado. Incerteza, ainda, acerca de Deus e do que crer a respeito dEle. Muitos adotam uma atitude de dúvida sistemática como uma afilosofia, um estilo de vida. Estes são os chamados agnósticos, que julgam não haver base para se saber sobre Deus e as questões espirituais. Os cristãos, porém, não apenas crêem que Deus existe, mas como conseqüência direta dessa convicção, crêem que Deus não nos deixou em trevas acerca dEle. Deus existe, Deus Se comunica! Isto é, se Deus como Criador de todas as coisas, a realidade final, a única fonte de vida, verdade e harmonia, o infalível Legislador, cujas leis espirituais, morais e físicas governam o mundo, sim, se Ele existe, então é apenas lógico esperar que Ele se manifeste de várias formas para estabelecer contato com Suas criaturas.
Necessidade da Revelação
Por definição, Deus é inacessível. Sua onipotência, eternidade e absoluta perfeição, essencialmente O colocam muito além de nossa mente limitada. As Escrituras apresentam um aparente dilema a respeito da inacessibilidade de Deus. Por um lado, Ele é incompreensível e inalcançável ao homem, como sugerido em vários textos bíblicos. Em Jó 11:7 estão as perguntas retóricas: "Alcançarás os caminhos de Deus? Chegarás à perfeição do Todo-poderoso?" Essas questões sugerem uma resposta negativa. Isaías 55:9 afirma que "Assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os Meus caminhos mais altos que os vossos caminhos, e Meus pensamentos mais altos que os vossos pensamentos". I Timóteo 6:15-16 diz: [o Deus] "bendito e único Soberano, o Rei dos reis e o Senhor dos senhores; o único que possui imortalidade, que habita em luz inacessível..." Isaías 45:15 declara: "Verdadeiramente, Tu és Deus misterioso..." Estes textos, e uma quantidade de outros, indicam que o homem não poderia nunca encontrar Deus através dos seus métodos regulares de pesquisas, indução, dedução, lógica ou experimentos. Para encontrar Deus por si mesmo, o homem deveria ser como o próprio Deus.
Por outro lado, as Escrituras também afirmam que o Deus inescrutável e insondável, que excede os limites humanos, deve ser conhecido. João 17:3 afirma: "E a vida eterna é esta: que Te conheçam..." Esse conhecimento não é visto apenas como algo recomendável, opcional, um luxo dispensável, ou uma curiosidade interessante. O conhecimento de Deus nas Escrituras é apresentado como algo vital, indispensável e insubstituível, do qual depende a própria vida eterna. Oséias 6:3 coloca tal necessidade em forma imperativa: "Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor..." Assim, a convergência destes textos sugere um paradoxo. De um lado, as Escrituras insistem em declarar que Deus é incompreensível e inescrutável. Por lado, afirmam que Ele deve ser conhecido, sendo este conhecimento dEle um requisito de absoluta necessidade para a salvação.
O paradoxo é resolvido pela revelação, ou seja, o Deus que não pode ser encontrado pelo homem deixado sozinho, por nenhum dos seus métodos de busca, graciosamente revela-Se, dá-Se a conhecer. Pela própria etimologia da palavra, revelar significa "afastar o véu" (re + velo). Ao Se revelar, Deus afasta o véu de mistério que O cerca. Assim, a parede de separação é derrubada e somos introduzidos à intimidade e à presença do Eterno. II Coríntios 2:9 e 10, enfatiza: "nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano... Deus no-lo revelou." Seus mistérios, incompreensíveis doutra forma, Seus planos e Sua vontade são partilhados pelo próprio Deus, através da Revelação.
Revelação, Inspiração e Iluminação
Nas palavras de Atos 14:17, Deus "não deixou de dar testemunho de Si mesmo..." O contexto desta passagem é a revelação geral, vista primariamente naquilo que Deus fez. De fato, podemos ver algo de Deus na impressão digital que assina tudo o que Ele criou. Seus atos, apesar da desfiguração produzida pela queda, revelam algo do Seu Autor. Aspectos do Seu caráter, glória, inteligência e bondade, podem ser discernidos na complexidade, desígnio e beleza do mundo natural que nos cerca. Em um conhecido salmo, Davi reflete seu assombro diante da ordem criada: "Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de Suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a Terra, se faz ouvir a sua voz e as suas palavras, até aos confins do mundo..." (Sl 19:1-3). Contudo, uma vez que este livro foi aberto antes da queda do homem, ele não tem propósito soteriológico, isto é, dele não podemos alcançar conhecimento suficiente sobre Deus, para a salvação.
Deus se manifesta também através da revelação especial. Tal revelação alcança o seu clímax na pessoa do Senhor Jesus Cristo. Jesus é a Palavra encarnada (Jo 1:1). Ele é a face de Deus na história dos homens. Como parte desta revelação especial, entretanto, Deus deixou também um registro permanente, a Palavra escrita encontrada na Bíblia, as Escrituras Sagradas. A Bíblia, como Palavra de Deus, não apenas registra o que Ele disse através dos Seus instrumentos humanos, os profetas, mas também interpreta Seus atos. Deliberadamente, a Palavra de Deus se coloca à parte da filosofia e sabedoria humanas, sua lógica, suas máximas, opiniões e pontos de vista. Sendo que as Escrituras vêm a nós como os oráculos de Deus, elas falam com divina autoridade. A Bíblia é, portanto, mais que um best seller, ou apenas um fenômeno da literatura universal. Ela é a Palavra de Deus. Suas histórias, afirmações, narrativas e fatos são absolutamente confiáveis e seguros. Jesus Cristo colocou Seu imprimatur sobre as Escrituras. Ele não apenas as citou com freqüência; Ele as conhecia profundamente. Ele igualou aquilo que elas dizem ao que Deus diz. "As Escrituras não podem ser anuladas," foi o Seu veredicto final (Jo 10:35).
Quando, em geral, pensamos em "autoridade," o fazemos em termos de posição, função, recursos, educação, aparência, títulos, habilidades, ou símbolos exteriores do poder, que singularizam uma pessoa ou grupo. Em religião, tradições ou costumes religiosos usualmente são investidos de autoridade. Todas estas formas de autoridade, porem, são derivadas e temporárias. Em contraste, a autoridade divina não é derivada nem temporária. "Antes que os montes nascessem e se formassem a Terra e o mundo, de eternidade a eternidade, Tu és Deus", diz o salmista (Sl 90:2). A Palavra de Deus, sua relevância e permanência, como o seu próprio Autor, desconhecem qualquer tipo de ação limitadora. Tal autoridade, sobre a qual tempo e espaço não exercem qualquer efeito, está baseada na autoridade dAquele que fala através das suas páginas. "Seca-se a erva, cai a sua flor, mas a palavra de nosso Deus permanece para sempre" (Is 40:8).
A autoridade da Bíblia, portanto, está fundamentada na convicção de que Seu Autor fala através dos fenômenos da revelação e da inspiração. Na teologia cristã, revelação tem que ver com o fato de que a mensagem bíblica se origina não com profetas, como eles próprios indicaram, mas com o próprio Deus (2Pe 1:19 e 20). Como veremos durante este semestre, centenas de vezes os profetas empregaram expressões como: "Assim diz o Senhor," ou "Veio a mim a Palavra do Senhor". Elas indicam o próprio Deus como origem daquilo que eles comunicaram. Outra expressão comum é: "E veio a Palavra do Senhor a...." (Samuel, 1Sm 15:10; Natã, 2Sm 7:4; 1Cr 17:3; Gade, 2Sm 24:11; Salomão, 1Rs 6:11; Isaías, 2Rs 20:4; Jeremias, Jr 1:2, 4, 11,13; Ezequiel, Ez 1:3, 7:1, 12:1 etc).
Na revelação, como mencionado, Deus afastou a pesada cortina que nos separava dEle, e revelou-Se, tornando conhecidas verdades sobre Ele mesmo, Seus desígnios, Seus propósitos e Sua vontade. Na Bíblia, é o próprio Deus quem fala aos homens. Nela, Deus vestido de Sua autoridade, Se coloca inteiramente dentro do alcance humano. É interessante observar que a atitude dos autores do Novo Testamento, em relação aos do Antigo Testamento é sempre expressa em termos de confiança e reverência. O Novo Testamento frequentemente usa as palavras "Deus disse" quando, de fato, são as Escrituras que dizem, ou, de outra maneira, menciona que "As Escrituras dizem", querendo dizer, "Deus diz". Em ambos os casos, o relacionamento entre Deus e as Escrituras é tal que a mesma autoridade é reconhecida como residindo em ambos. A expressão "Está escrito", "As Escrituras dizem" ou "Deus diz" são, portanto, sinônimas (veja Gn 2:24; 12:1-3; Êx 9:16; 20:12 e 21:17; Sl 2:1; 16:10; Is 55:3; Mt 15:4-6; 19:4, 5; At 4:24-24; 12:34, 35; Rm 9:17; Gl 3:8;). Em todas estas passagens, e em uma multidão de outras semelhantes, os escritores do Novo Testamento identificaram as Escrituras como a voz de Deus. Em sua carta aos Coríntios, Paulo declara que não foi ele (Paulo), mas o Senhor quem fez as afirmações aí mencionadas a respeito do casamento (1Co 7:10). Em outro lugar, o apóstolo diz: "Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei..." (11:23). Ou "Ora, ainda vos declaramos, por palavras do Senhor..." ( 1Ts 4:15).
Outro aspecto a ser observado em relação às verdades reveladas da Bíblia é que aqui não encontramos nada semelhante ao clássico "era uma vez", dos contos e das conhecidas histórias de ficção. O Deus eterno, Aquele que não muda, que falou no passado, continua falando no presente, por sua Palavra infalível. Para Jesus, a Palavra de Deus, é igual à verdade imutável: "A Tua Palavra é a verdade" (Jo 17:17). Devemos, ainda, notar que o caráter distintivo das Escrituras Sagradas, como a revelação de Deus, se manifesta no fato de que nelas encontramos as boas-novas de Jesus Cristo, do Seu amor absoluto, de Sua graça ilimitada, ausentes em qualquer livro considerado sagrado pelas "religiões comparadas." Como veículo das boas-novas do Evangelho, portanto, o propósito final da Palavra de Deus não é simplesmente comunicar informações, mas tornar-nos "sábios para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus" (2Tm 3:15).
Por outro lado, inspiração (2Tm 3:16), em sentido restrito, significa o fenômeno pelo qual Deus habilitou o profeta a comunicar de forma confiável e precisa o conteúdo da revelação. Assim, embora a inspiração das Escrituras não seja sinônimo de revelação, esta se apresenta intimamente relacionada com aquela. Inspiração é o impulso divino e a assistência pela qual a revelação previamente recebida possa ser própria e adequadamente transmitida e escrita. Seria um procedimento no mínimo curioso, se Deus falasse aos autores bíblicos, transmitisse a eles Suas verdades e mensagens, e então os abandonasse, para que comunicassem tais verdades de forma inadequada. O profeta precisava fazer mais do que comunicar. Ele devia comunicar de maneira confiável e, portanto, dependia de Deus, tanto para receber como para transmitir o que lhe era comunicado. Aqui estamos diante de um mistério extraordinariamente profundo, em que as palavras humanas se tornam a Palavra de Deus. Devido à inspiração, o produto da atividade dos autores bíblicos transcende aos poderes humanos e torna-se o veículo da autoridade divina. Ellen White observa:
"A união do divino e humano, manifestada em Cristo, existe igualmente na Bíblia. As verdades reveladas são todas ‘dadas por inspiração divina’, contudo, elas são expressas em palavras de homens e adaptadas às necessidades humanas. Assim, pode ser dito do Livro de Deus, como foi dito de Cristo: ‘A Palavra se fez carne e habitou entre nós’. E esse fato, longe de ser um argumento contra a Bíblia, deve fortalecer a fé nela como a Palavra de Deus." (5T 747).
Finalmente, Deus não apenas revelou Sua Palavra, mas inspirou os profetas a transmiti-la corretamente, em suas próprias palavras e contexto cultural. Graciosamente, ele age num terceiro passo que tem que ver conosco, e é expresso no termo iluminação. A iluminação não atua no profeta, agindo como tal. Ela age naqueles que se aproximam da Palavra em fé. Este é o fenômeno pelo qual, através da ação do Espírito Santo, aquele que lê e que está numa atitude correta, passa a entender as verdades divinas. Segundo Paulo, "o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus," pois, "as coisas do Espírito... se discernem espiritualmente" (1Co 2:14). A negligência, incredulidade e rebelião humanos não apenas constituem um obstáculo à nossa compreensão, mas um obstáculo ao próprio Deus em Se comunicar conosco por Sua Palavra. Assim, uma atitude dócil e submissa diante da revelação é essencial para a nossa compreensão daquilo que Deus nos quer dizer pelo testemunho das Escrituras. Com os santos de todas as épocas, nós ouvimos a voz do Bom Pastor. As ovelhas não deixarão de reconhecer a voz do Filho de Deus nem os ensinos do Espírito Santo nas Escrituras. Seu significado será feito claro, indicando o caminho a seguir. Deus realmente vem a nós através de Sua Palavra, e esta, embora escrita há séculos, nunca envelhece nem se desatualiza. É como se ela tivesse sido escrita hoje pela manhã, para nós; como se a tinta ainda não estivesse seca. Ela nunca perde sua vitalidade e frescor, elevando-se, portanto, acima do tempo e espaço, e permanecendo para sempre atual.
Neste trimestre, temos a extraordinária oportunidade de estudar a mensagem da Bíblia Para Hoje. Se nos permitirmos ser instruídos, por disposição correta, pelo estudo diligente, sob a direção dAquele que fez da Palavra a Sua espada (Ef 6:17), poderemos ter tal Palavra reatualizada em nossa vida, recontextualizada em nosso coração. Dissemos inicialmente que, apesar dos muitos avanços científicos, convivemos hoje com a incerteza. Tal incerteza é, sobretudo, derivada da rejeição da Palavra de Deus. A revelação especial tem sido descartada como pertencendo a uma era em que prevaleceram a ignorância e a credulidade. O homem, em sua quase veneração pelo método científico, descartou-se de Deus e não encontrou nenhum substituto adequado para tomar Seu lugar. A questão central que nos confronta hoje é: sob que autoridade o significado da vida é feito claro? Autoridade interior, isto é, nós próprios? Ou autoridade exterior: Deus e Sua Palavra? As questões finais da vida só podem ser respondidas por Aquele que é o Autor da vida. E é em Sua Palavra que o Senhor nos oferece a chave explanatória para as nossas questões.
Querido professor da Escola Sabatina: Cada semana, você se levanta diante de uma pequena congregação, convivendo com as incertezas do mundo ao redor. Estude sua lição com dedicação. Devote-se à Palavra. Ore para que o Senhor o ilumine e capacite. Lembre-se: Nossa grande necessidade não é primariamente de domínio de técnicas quanto ao ensino (embora estas possam servir de grande auxílio), mas de domínio de convicções acerca de Deus e de Sua Palavra. Estude também as pessoas que estão diante de você, descubra como a Palavra de Deus se aplica a elas, e pode abençoá-las nas lutas da vida: o cerco de uma enfermidade, os traumas de uma separação ou divórcio, desemprego, depressão, tristezas, ansiedades; problemas gerados pelos descaminhos dos filhos, ou simplesmente as perplexidade resultantes do fato de que nascemos no planeta errado. Ore para que Deus o torne um instrumento dos Seus propósitos. Lembre-se ainda, que é Deus quem move montanhas, mas a oração move a Deus.
Finalmente, devemos levar em conta que os benefícios da Palavra de Deus não têm apenas uma dimensão individual. Eles têm também uma extensão corporativa, alcançando o próprio Corpo de Cristo, a Igreja. João Crisóstomo, considerado um dos maiores pregadores da Igreja oriental, comentando Efésios 6:13, observou que, como o nosso corpo, o corpo de Cristo, a Igreja, está sujeito a muitas enfermidades. Remédios, dieta apropriada, clima adequado e repouso ajudam a restaurar nossa saúde física. Mas como pode o Corpo de Cristo ser curado? Crisóstomo responde:
"Um único meio e cura única foi-nos dado... e este é o ensino da Palavra. Este é o melhor instrumento, a melhor dieta, o melhor clima. Está no lugar do remédio, da cauterização e da cirurgia, quer seja necessária para desinfetar ou amputar, este método deve ser utilizado. Sem a Palavra, nada mais dá resultado (Fant and Pinson, vol. I, págs. 108 e 109).
Acesso ao Comentário da lição 1 - A voz do Céu