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Adão e Eva: O ideal planejado |
Profa. Meibel Mello Guedes
Especialista em Assessoramento Familiar
Mestre em Educação
Toda a narração da criação no primeiro capítulo de Gênesis é caracterizada por uma admirável sobriedade. Sem palavras complicadas, enumera os atos da criação por meio dos quais, passo a passo, Deus prepara o cenário para a vida humana. Tudo o que Deus faz é bom, porque se adapta perfeitamente ao propósito divino. E tudo aponta para um clímax que dá sentido a cada ato que precede a criação do homem e da mulher no sexto dia. Também os animais (com exceção dos peixes e das aves) correspondem ao sexto dia, o que põe em destaque a identificação do homem com o reino animal. Nem por isso, a criação do ser humano deixa de ser um ato especial de Deus.
Isto se percebe no contraste entre a forma verbal no versículo 24: "Produza a terra seres viventes" e a que aparece no versículo 26: "Façamos o homem à Nossa imagem, conforme a Nossa semelhança." Deus dialoga consigo mesmo e projeta criar o homem à sua própria imagem. Isso coloca a humanidade numa categoria distinta entre todos os seres criados: apresenta o seu caráter distintamente humano.
Ao lermos o livro de Gênesis, encontramos a primeira história de amor na Bíblia, que teve início na criação deste mundo. Deus, o Criador, fazendo seres à Sua imagem e semelhança, portanto, seres parecidos com Ele. Entende-se que Deus deixou algo de Si mesmo no ser humano, o que lhe dá uma dignidade pessoal. Ser feito parecido com Deus significa também que Criador e criatura participam de uma relação específica, como Pai e filho. Nesta condição, a relação entre Deus e o homem está mediada pela confiança (Gn 1:28-29) e pela aceitação (Gn 1:31). Ao entrar nessa relação, o objetivo de Deus era que o homem se realizasse e tivesse vida. Em Gênesis 1:26 e 27, encontramos o conceito bíblico da pessoa humana e de seu valor: homem e mulher feitos à imagem e semelhança de Deus. Esse conceito marca toda a diferença no que diz respeito à percepção da conduta e realização do ser humano.
Deve-se destacar também que Gênesis 26–28 não deixa lugar a dúvidas acerca da identidade dos dois membros do binômio como imagem de Deus e de sua vocação conjunta no mundo. As três verdades fundamentais para relação homem-mulher estão resumidas em poucas palavras:
Em primeiro lugar, o homem criado por Deus não é assexuado nem andrógino, mas o ser o humano masculino e o ser humano feminino. Em segundo lugar, tanto o homem como a mulher são criados à imagem de Deus. A dignidade humana dos dois deriva de sua semelhança com Deus. A imagem de Deus está na própria essência de seu ser, de maneira que nem mesmo o pecado pode destruí-la.
Em terceiro lugar, tanto o homem como a mulher recebem as tarefas de reprodução e mordomia da criação. Deus chama os dois a compartilhar a missão comum de representá-Lo no mundo. Ele também abençoa a ambos quando diz: "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a Terra e sujeitai-a, dominai..." Como imagem de Deus, ambos compartilham uma humanidade e uma vocação comuns ao mundo. A dependência mútua dos sexos forma parte da própria estrutura da história humana. Nenhum dos dois pode cumprir a função do homem sem a contribuição de sua contraparte. Homem e mulher realizam-se igualmente como seres humanos, na medida em que exercem essa função em obediência a Deus e em estreita colaboração mútua.
A primeira história de amor
A primeira história de amor não fala de sentimentos, mas de necessidade. O ser criado pela própria mão de Deus precisava de uma companheira, um ser igual a ele, com quem ele pudesse compartilhar a beleza de um jardim criado para que eles vivessem felizes.
Deus tinha criado o homem como um ser individual. Como trabalhador, ele precisava cuidar da terra e cultivá-la. Porém, logo ficou bem visível que ele não podia viver sozinho. Seria muito triste para ele enfrentar a solidão. Afinal de contas, os animais tinham suas companheiras. Ele precisava de outro ser ao seu lado, alguém semelhante a ele, que o completasse e que fosse responsável como ele. Podiam os animais ajudá-lo? Ele olhou ao redor, a cada um, dando os seus nomes, porém nenhum deles podia lhe servir de companhia. E assim, Deus criou a mulher. Ela era parente bem próxima do homem.
O homem olhou para mulher e a contemplou: "Esta combina comigo! Esta me entende! Ela será minha companheira para todas as horas. Não sentirei solidão, e juntos usufruiremos as delícias do belo Jardim!" De fato, nesse primeiro momento, poderíamos dizer que houve o amor à primeira vista. Até podemos imaginar o coração de Adão batendo mais forte, porque essa tem sido a reação das pessoas de hoje, quando encontram a pessoa amada.
"Não é bom que o homem esteja só" disse Alguém que jamais erra. Esse diagnóstico divino revela que há, dentro de nós, o espírito de grupo, isto é, o desejo de viver com os semelhantes em associações de amizade, amor, respeito e cooperação.
Mais intenso, ainda, é anseio de eleger um ser especial, para com ele conjugar os destinos para sempre, pelo compromisso do casamento.
A queda e a rejeição do plano de Deus
Ali tudo era tão belo e perfeito que Adão e Eva tinham tudo para viverem felizes, eternamente, mas o intruso do pecado entrou em cena e as conseqüências chegaram até nós.
A pureza e a inocência foram quebradas quando a serpente entrou em cena. Eva escolheu acreditar na mentira de Satanás. Ela era livre para escolher, para pôr sua vontade acima da vontade de Deus, e o fez. Quando ofereceu a Adão o fruto, ele também desobedeceu.
Paulo explicou que Eva foi enganada, mas Adão comeu o fruto desobedecendo conscientemente (2Co 11:3) O casal cheio de culpa escondeu-se de Deus. Quebraram não apenas seu relacionamento com Deus, mas também o relacionamento entre si e com todas as gerações futuras, além da natureza da qual deveriam dominar.
As conseqüências foram trágicas: Deus amaldiçoou a serpente e a terra por culpa do homem e profetizou tristeza, trabalho e morte.
A sentença recebida pelo homem e pela mulher, na hora da queda, afetou não só o relacionamento entre o casal, mas também a relação com Deus e com a própria natureza. Mas Deus nunca abandonou Seus filhos e, sem dúvida alguma, já havia planejado o resgate.
Assim como Satanás tentou o primeiro casal, ele continua sendo um intruso nas famílias para destruir a harmonia e a unidade familiar.
"Satanás está sempre pronto para tirar vantagem quando surge qualquer ponto controvertido, e pondo em movimento os objetáveis traços hereditários de caráter no marido e na mulher, procurará levar à separação os que uniram seus interesses em solene concerto diante de Deus. ... Se a lei de Deus é obedecida, o demônio da contenda será conservado fora do lar, e não ocorrerá separação de interesses, nem será permitida alienação das afeições." – O Lar Adventista, p.106.
Embora o pecado tenha deturpado o plano original divino para o casamento, pela fé no poder restaurador de Cristo, os casais podem experimentar a felicidade que Deus tinha em mente quando criou o primeiro par. Basta permanecer unidos pela fé em Jesus Cristo, cientes da obediência pelo amor, e estarão tão fortalecidos que o inimigo não encontrará espaço nesse relacionamento.
A voz de Eva é como um aviso vindo do início da história da humanidade a toda a mulher para que siga o caminho da obediência a Deus. É como uma mensagem de esperança quando a mulher falha: ela encontra justiça de Deus, mas também experimenta sua graça.
O amor continua, apesar da queda
Tudo o que se refere à relação entre um homem e uma mulher até nossos dias já foi estabelecido por Deus, desde o princípio do mundo: Eles se parecem mas são diferentes. Por necessitarem um do outro para viver, eles se procuram. E por serem diferentes, eles têm conflitos um com outro. Por trás desta história que iniciou na criação do mundo, nasceu o sentimento mais poderoso do universo que é o amor.
O amor deve ser expresso não só em palavras, mas em ação: "Muitos há que consideram a expressão de amor como uma fraqueza e mantêm uma reserva que repele aos outros. Este espírito detém a corrente de simpatia. O amor não pode existir por muito tempo sem se exprimir. Não permitais que o coração do que se acha ligado convosco pereça à míngua de bondade e simpatia. ... Dê cada um amor, em vez de exigi-lo. Cultive aquilo que tem em si de mais nobre, e esteja pronto a reconhecer as boas qualidades do outro." – O Lar Adventista, p. 107.
O amor matrimonial deve ser altruísta, abnegado, desprendido. Somente ele pode permear todos os aspectos que envolvem o relacionamento a dois.
"Quando os princípios divinos são reconhecidos e obedecidos nesta relação, o casamento é uma bênção; preserva a pureza e felicidade do gênero humano e provê as necessidades sociais do homem, eleva a natureza física, intelectual e moral". – Patriarcas e Profetas, p. 29, 30.
Não sabemos quanto tempo o primeiro casal esteve no Jardim do Éden, gozando os privilégios matrimoniais, mas é importante saber que Deus não mudou de idéia acerca do que pretende para Seus filhos em termos de felicidade a dois.
Como cristãos, sabemos que os poderes das trevas pretendem destruir os característicos divinos postos na instituição do casamento e fazer com que percamos de vista o relacionamento com Deus. O Senhor honra a relação matrimonial, considerando-a uma parte importante e muito especial da vida humana.
O relacionamento físico, intelectual e espiritual entre marido e esposa representa a comunhão com Cristo e a unidade perfeita do casal.
Expressando amor
Deus nos fez diferentes nas maneiras pelas quais damos e expressamos amor. Para a mulher, o amor se manifesta e intensifica por meio de expressão de ternura, palavras de apreço, delicadeza, comunicação aberta e companheirismo genuíno. O marido, por sua vez, sente-se atraído pela aparência física da esposa, a afetuosidade manifesta em coisas palpáveis como um gostoso jantar com seu prato preferido, elogios dela à sua capacidade de prover o lar; as declarações de valorização pessoal e profissional.
Ele gosta de olhar o rosto da amada, de deleitar-se com seus atributos físicos e espirituais, tocá-la, abraçá-la, ser amparado e acariciado. Não foi por acaso que Deus criou o sexo feminino e o masculino. Ele nos fez diferentes e, no entanto, muito semelhantes no sentido emocional e físico, para que pudéssemos deleitar-nos nas diferenças um do outro e alegrar-nos no que compartilhamos.
O que há de diferente, na realidade, é a maneira de pensar e de entrar em contato com o mundo exterior. Enquanto o homem utiliza a razão e procura raciocinar em torno de fatos, a mulher utiliza a intuição, procurando sentir a realidade. Mas, perante Deus, eles são iguais e, diante da família e da sociedade, eles têm funções diferentes.
A igualdade entre os dois não significa identidade; é igualdade no contexto de complementaridade mútua, que se estende para além do meramente fisiológico, incluindo o psicológico.
Os propósitos de Deus
Quando Deus estabeleceu o primeiro casal, Ele tinha vários propósitos. O propósito básico é a procriação. Deus criou o primeiro casal à Sua imagem e depois disse: "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei aterra e sujeitai-a" (Gn 1:28). A procriação também envolve o cuidado e educação adequada. Mas o casamento abrange muito mais do que a procriação (Gn 2:18-25). Ele tinha diversos motivos em mente.
Deus criou o casamento para que ambos, marido e esposa, tivessem companheirismo. A solidão foi a primeira coisa que Deus mencionou não ser boa. A solidão contradiz o propósito do ato criador de Deus. Deus fez o homem para viver com outros, e o primeiro outro foi a sua própria mulher.
Falando sobre o propósito de Deus para o marido e a mulher, Ellen White, em seu livro O Lar Adventista, diz: "Do homem, Deus fez a mulher, para ser-lhe companheira e ajudadora, para ser uma com ele, para alegrá-lo, encorajá-lo e abençoá-lo, sendo-lhe ele por sua vez um forte ajudador. Todos os que se casam com santo propósito – marido para conquistar as puras afeições do coração da esposa; a esposa para abrandar e aperfeiçoar o caráter do seu esposo e ser-lhe complemento – preenchem o propósito que Deus tem para eles." (p. 99)
Deus também planejou que, no casamento, houvesse afinidades. A mulher deveria ser uma auxiliadora que lhe fosse idônea (Gn 2:18). Em sentido muito real, a esposa é a realização da vida do marido. Um marido amoroso está disposto a dar tudo o que for necessário para tornar feliz a vida da esposa, valorizando e respeitando-a.
A mulher ajuda o homem a tornar completa a vida dele. Participa da sua vida, usufrui o companheirismo responsável. O companheirismo e a vida completa se originam da comunicação. À medida que duas pessoas compartilham suas experiências, seus sentimentos, suas emoções, a vida a dois passa ter mais significado.
Nenhum casal começa a vida matrimonial com a comunicação bem desenvolvida. Não é algo que venha pronto, mas sim, algo que deve ser cultivado todos os dias.
A comunicação para um relacionamento saudável.
Falar, ouvir, ler, escrever, são formas de comunicação. Passamos boa parte de nosso tempo de vida ouvindo, falando, tentando externar aos outros o que somos, pensamos e sentimos. Ao conversar, transmitimos sentimentos e emoções, esclarecemos dúvidas e procuramos ampliar nossos contatos.
Mas, se em nosso relacionamento fora do lar, a comunicação é importante, dentro da família ela é a base para uma convivência mais saudável. Conversar é uma arte. Desenvolva-a sempre, levando em conta o interesse de seu cônjuge. Ao ouvir, demonstre interesse. Um bom ouvinte ouve e, depois que ouve, dá sua opinião, fala com voz agradável, suave e calma. Se nossas palavras forem confusas, dificilmente encontraremos quem nos queira ouvir. Quando falar, faça de forma positiva. Diga coisas agradáveis, sem críticas e outros elementos negativos. Mostre respeito e cortesia.
Quando estiver ouvindo, não tente adivinhar o que o outro esteja querendo dizer. Não faça da conversa um instrumento de ataque, exposição de mágoas e ofensas.
Para ser bom ouvinte, é necessário estar atento à linguagem das mãos, dos olhos, das expressões faciais, da postura. Tudo isso é importante na comunicação conjugal, mas a comunicação mais importante é ouvir com o coração.
O entendimento via diálogo é um exercício de percepção. É procurar ouvir e entender quando perceber que seu cônjuge está passando por problemas, ressentimentos, solidão e desânimo.
A comunicação do jardim do Éden, após a queda, foi seguida de acusação: Adão culpou Eva, e Eva culpou a serpente. Mas Adão, mesmo culpando Eva, preferiu manter o relacionamento com ela.
Nos dias de hoje, não temos serpentes sendo usadas por Satanás para arruinar o diálogo em nossos lares, mas Satanás usa outras táticas e uma porção de outras coisas que impedem um diálogo na família. Pode ser a televisão, o egoísmo, colocando os interesses pessoais acima da família, pode ser a própria vida profissional que absorve tanto tempo que a família fica em segundo plano.
Seja qual for o problema, pare e localize a serpente que está destruindo a comunicação de sua família.
No Reino de Deus somos um em Cristo
Hoje é o tempo do novo homem, o segundo Adão, por meio do qual Deus quer restaurar o propósito inicial da criação. A obra de Jesus Cristo, cumprida em Sua morte e ressurreição, dirige-se a toda raça humana.
Ele toca o ser humano, homem e mulher no próprio centro de sua personalidade e transforma todas as suas relações.
O apóstolo Paulo menciona o desaparecimento das divisões entre seres humanos, dizendo que não pode haver "judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gl3:28).
A idéia central é muito clara: a unidade da humanidade, baseada na criação, mas afetada pelo pecado, foi restaurada por Jesus Cristo. Portanto, as divisões raciais, sociais e sexuais que colocam alguns em situação de superioridade e outros em situação de inferioridade, perdem o significado.
De maneira surpreendente, Jesus Se atreveu a romper os cânones de Sua própria cultura e reconheceu a dignidade humana do sexo feminino. Jesus acabou com a maldição da queda, devolveu à mulher a nobreza que tinha perdido parcialmente e restituiu a bênção original da igualdade dos sexos na nova comunidade de seu Reino.
A exortação à mulher para que se submeta ao seu marido, como aquele que, no cumprimento do seu papel de cabeça, lhe oferece cuidado amoroso, não atribui à mulher o conceito de um ser inferior, mas o de um ser cuja natureza combina melhor com essa função no seio do matrimônio.
À medida que o marido se submete a Cristo, sua autoridade é transformada por Ele. Ele não impõe seus próprios sentimentos sobre a esposa a ponto de obscurecer os sentimentos dela. Ele não deve ser um ditador. O marido amoroso está disposto a dar tudo o que for necessário para tornar satisfatória a vida da esposa.
O amor dele é purificador. Jamais pede que a esposa faça algo que a rebaixe. Ele a ama por conveniência própria. Não considera a esposa um tipo de empregada que simplesmente cozinha, limpa a casa, dá-lhe nas mãos tudo o que ele precisa e educa os filhos. Mas vê a esposa como uma pessoa a quem deve valorizar e fortalecer. O amor do marido deve ser copiado do amor dedicado de Cristo. Ela desenvolve as atividades pertinentes à mulher porque se sente amada.
As famílias que desejam ser felizes devem eleger Deus como supremo Líder. Dele deve o casal procurar sabedoria, iluminação e amor.
O Criador designou que Adão devia ser o líder da família, e Eva, a idônea auxiliadora (Gn 2:28). A posição do Criador na organização do primeiro lar era que um complementaria o outro, mas não deveria ser superior ao outro e, sim, ambos teriam e assumiriam funções diferentes. Um completava o outro, e o casamento era um relacionamento de apoio interdependente.