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O crisol do Pastor |
Willian Oliveira
Pastor e psicólogo
Dir. do Ministério da Família da Associação Bahia
Introdução do Trimestre
"Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras" (1 Ts 4:18). Estas palavras, falando da volta de Cristo, indicam um dos elementos que se deve ter em conta toda vez que se estuda a palavra de Deus. A revelação de Deus, o conhecimento produzido a partir dela, jamais deve se desvincular de um aspecto prático ao ser humano. O conhecimento teológico não pode esquecer a sua dimensão vivencial. Se, de um lado, defendemos os princípios da Palavra de Deus, de outro, devemos lembrar-nos de tornar esses mesmos conceitos relevantes para aqueles a quem está dirigida a revelação: a humanidade.
A teologia não ignora o ser humano, antes oferece ensino, repreensão, correção, educação na justiça, com um objetivo: "A fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra" (2 Tm 3:17). "Esse abençoado livro lhe ensinará a ser honestos, temperantes em todas as coisas, modestos, diligentes, verdadeiros e retos. Seus conselhos, quando atendidos, o tornarão companheiro fiel da juventude, concedendo-lhe uma influência que sempre guiará para o alto, purificará o caráter; influência que afastará do pecado e o encaminhará para as veredas da justiça" (Ellen G. White, Minha Consagração Hoje [MM 1989], p. 160). Ainda acrescentaria a esta lista conforto, esperança, propósito e, tenho certeza disso, você ainda citaria outro sem-número de palavras a esta lista. Foi exatamente esta a experiência que tive ao entrar em contato com as palavras da lição deste trimestre. Um Deus que não está apenas interessado no que sei ou no que tenho, mas um Deus que está interessado em mim. Que está ao meu lado em todos os momentos e que tem uma resposta para as grandes angústias que nos cercam. Enfim, mais que um conjunto de meros conhecimentos, a lição deste trimestre é o convite para uma renovada experiência com Deus, dirigida a um povo que se prepara para o encontro com Cristo.
Creio que estas lições serão uma oportunidade singular para o enriquecimento da experiência cristã em nossas igrejas (de fato, estas palavras parecem sugerir uma grande expectativa e, de fato, assim vejo). Como pastor e psicólogo, por diversas ocasiões, tenho entrado em contato com o sofrimento, a desesperança, o vazio existencial e a tristeza profunda que as circunstâncias da vida ou mesmo decisões equivocadas da própria pessoa ou de outros têm infligido sobre cada ser humano. "Onde estava Deus?", "Não consigo ouvir a Sua voz", "Minha vida não vale a pena", "Ninguém se importa comigo", são apenas alguns dos brados que têm se repetido ao longo de minha experiência e, creio, o estudo deste trimestre poderá oferecer alento e força para passarmos por estes momentos.
Em seu último discurso aos discípulos antes da crucifixão, Jesus apontou: "No mundo, passais por aflições; mas tende bem ânimo; Eu venci o mundo" (Jo 16:33). Este é um mundo de aflições. De fato, aqui não é o nosso lugar. O projeto original de Deus foi deturpado pelo pecado. Queiramos ou não, um dia passaremos por aflições. A questão não é por que estas coisas acontecem, mas o que a revelação me oferece para que eu mantenha o ânimo quando acontecerem. Este é o desejo de Cristo para o Seu povo e o meu desejo para você, sua família e sua classe ao longo deste trimestre.
Lição 1 – O crisol do pastor
"O Senhor é o meu Pastor" (Sl 23:1). O autor não faz preâmbulos para explicar de onde veio o pastor ou sua origem, ou um tratado de quem ele é. Nas páginas da revelação, esta é uma figura comparável às primeiras palavras de Gênesis "No princípio, criou Deus..." (1:1). A linguagem aqui é: eu conheço o Pastor naquilo em que me relaciono com Ele. A ovelha pode não conhecer muita coisa sobre quem é o pastor, mas conhece sua voz e o segue. Há uma grande lacuna entre quem é o pastor e a capacidade da ovelha em conhecê-lo em sua plenitude. Ela sabe que ele a protege e cuida para que suas necessidades sejam supridas. Da mesma forma, em nossa finitude, jamais poderemos abarcar quem é Deus. Mais do que conhecer as palavras do salmo do Pastor, é importante que conheçamos o Pastor, que nos relacionemos com Ele, que ouçamos a Sua voz e confiemos em Sua providência. Deus Se torna conhecido na revelação na medida em que Se relaciona com o homem e este permite o desenvolvimento da intimidade com seu pastor.
Conhecer o trabalho de um pastor cuidando de seu rebanho e saber que posso ter em Deus o meu Pastor pode tornar-se um grande um alívio para um dos mais terríveis males de nosso tempo: a ansiedade. As principais atividades de um pastor incluem:
Do mesmo modo, ao reconhecê-Lo como nosso pastor, Ele fará estas coisas por nós. "Como um pastor cuida do seu rebanho, assim o Senhor cuidará do Seu povo" (Is 40:11, NTLH).
Isso não significa que Deus vai fazer todas as suas vontades. Há uma diferença entre necessidade e desejos. Se Deus fizesse todas as vontades do ser humano, ele seria a criatura mais egoísta do Universo. Ele não pretende e não vai satisfazer todas as suas vontades. E, talvez por isso, até possamos ficar descontentes, mas Deus está dizendo: "Eu suprirei todas as suas necessidades." Esta era a certeza do salmista: "nada me faltará". Parece estranho pensar nisso nos dias atuais, quando o consumismo permitiu que uma série de coisas se tornasse necessidade.
O que é realmente necessário em nossa vida para que sejamos felizes? Será que tudo o que desejamos é realmente uma necessidade? Sou capaz de separar o que é supérfluo do que é essencial?
Quando assumimos que o Senhor é o nosso pastor, não há mais lugar para a ansiedade. Ele suprirá todas as nossas necessidades. Pode-se até dizer que o comportamento ansioso por parte de alguns é uma espécie de deísmo (pensamento daqueles que imaginam que Deus criou o mundo e o deixou entregue à sua própria sorte, não interferindo nas suas questões) ao não reconhecer a providência de Deus em sua vida.
Como Permitir que Deus Se torne o meu pastor?
Deus quer ser o Pastor de todas as pessoas. Mas Ele somente pode ser o Pastor daqueles que Lhe dão a oportunidade de pastoreá-los. Jesus disse: "Eu sou o bom pastor; conheço as Minhas ovelhas, e elas Me conhecem a Mim. ... As Minhas ovelhas ouvem a Minha voz; Eu as conheço, e elas Me seguem" (Jo 10:14, 27). O primeiro passo é ouvir a voz do Pastor, aceitar a direção de Deus em sua vida. Isto significa que o Senhor deve estar no controle de sua vida. Como disse o pastor Morris Venden em suas 95 Teses Sobre Justificação Pela Fé, "somos controlados por Deus ou por Satanás. O único controle que temos é escolher quem nos controlará". Um dos maiores erros que podemos cometer é acreditar que a vida é nossa e que podemos fazer dela o que bem entenderrmos. De fato, queremos viver a ilusão de que temos total controle de todas as circunstâncias, mas basta alguma coisa sair do que planejamos, ou não conseguirmos divisar o que poderá acontecer, para que nos sintamos inseguros, ansiosos e confusos. Reconhecer o Senhor como nosso pastor é reconhecer nEle aquele que tem o controle sobre nossa vida. "Lançando sobre Ele [Deus] toda a vossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de vós" (1 Pe 5:7). Reconhecer o pastoreio de Deus sobre a nossa vida é colocar em Suas mãos, através da oração, aquelas situações que tiram o nosso sono e ter fé de que Ele já tomou as providências necessárias. Posso repousar em paz porque Ele está na direção. Jesus nos deu esta certeza: "Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados" (Mt 6:34). Viver um dia por vez, na certeza do cuidado divino, eis uma lição preciosa para os nossos dias.
Quem está no comando da minha vida? Quem está dando as ordens? Tenho realmente colocado o Senhor como guia dos meus passos?
O que deixa você ansioso? O que tira você do sério, que leva você a indagar "Será que algum dia as coisas vão dar certo?"
Logo após a Segunda Grande Guerra, os exércitos aliados recolheram milhares de crianças desabrigadas e famintas, e as levaram a alojamentos especiais. Ali, essas crianças foram alimentadas e tratadas. Entretanto, à noite, elas não conseguiam dormir bem. Pareciam sempre inquietas e temerosas.
Por fim, um psicólogo descobriu a razão do problema e como solucioná-lo: tratava-se de insegurança. Então, eles decidiram que, quando as crianças fossem dormir, receberiam uma fatia de pão para segurarem. Aquele pedaço de pão não era para ser comido; deviam apenas segurá-lo. Se demonstrassem desejo de comê-lo, deveriam ganhar outra fatia de pão, mas aquela elas não poderiam comer.
O pedaço de pão produziu resultados miraculosos. As crianças dormiam com a certeza subconsciente de que teriam algo para comer no dia seguinte. Isto lhes proporcionava um sono tranqüilo e calmo. Tinham a certeza de que nada lhes faltaria no dia seguinte.
Salmo 23:2 diz: "Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso." Uma ovelha compreende exatamente o significado desta expressão. Tem a ver com descanso e refrigério. Deus Se importa com seus momentos de descanso e recreação. Ele quer que você desfrute uma vida completa e equilibrada. Devemos tomar cuidado para não estar tão ocupados em nossos afazeres, em obter recursos a fim de adquirir isto ou aquilo e esquecer daquilo que é essencial. Eclesiastes 4:6 diz: "Melhor é um punhado de descanso do que ambas as mãos cheias de trabalho e correr atrás do vento."
Criança pequena não gosta de deitar e descansar. Resistência ao descanso é uma marca de imaturidade. Se você trabalha excessivamente e nunca tem tempo para descansar, você não somente está quebrando os Dez Mandamentos, mas essa é uma evidência de que você ainda não alcançou a maturidade. Ovelhas não gostam de deitar, de descansar. No Salmo 23:2, lemos: "Ele me faz repousar". É um imperativo. Se você não diminui o ritmo da sua vida, às vezes, Deus faz com que você descanse. Ele Se importa com a sua vida. "Poucos compreendem o constante, cansativo trabalho dos que têm a responsabilidade da obra nos escritórios. Estão confinados dentro de quatro paredes dia após dia e semana após semana, enquanto um constante esforço das forças mentais está destruindo sua constituição e diminuindo sua vitalidade. ... Eles devem ter constantes mudanças, e devem dedicar um dia totalmente à recreação com seus familiares, que quase se privam por completo de seu convívio" (Ellen G. White, Minha Consagração Hoje [MM 1989], p. 206).
Alguma vez, Deus obrigou você a descansar?
"Vinde a Mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei" (Mt 11:28).
Que tipo de pastor é Deus?
Qual o significado de ter alguém assim cuidando de nós? Que outras virtudes você é capaz de lembrar-se ao pensar no Senhor com seu Pastor?
Como posso permitir que o Senhor guie a minha vida? O que é a vereda da justiça?
A primeira coisa que precisamos compreender é admitir que necessitamos de um guia. Recordo-me que por algumas ocasiões acabei me perdendo ao procurar um endereço, simplesmente porque não perguntei para as pessoas qual era o caminho. Achava que conseguiria chegar. Por natureza, as ovelhas tendem a vaguear, a se perder pelo caminho. Elas precisam de um pastor, e nós também.
"Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho" (Is 53:6). As ovelhas têm uma visão curta e, por isso, se tornam extremamente vulneráveis aos perigos do caminho. Da mesma forma, nós também não conseguimos enxergar o futuro ou medir de forma total as conseqüências de cada decisão que tomamos. "Há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte" (Pv 14:12). Precisamos de um guia que tenha uma visão que transcenda à nossa. Por outro lado, ao afirmar a direção de Deus em nossa vida precisamos ouvir a Sua voz. "Deus fala de um modo, sim, de dois modos, mas o homem não atenta para isso" (Jó 33:14). Precisamos nos conectar a Deus. Precisamos estudar Sua palavra e acatar Sua vontade. Precisamos lembrar que Deus pode impressionar-nos por meio de sonhos, impressões, circunstâncias, conselhos, etc. O fato é que para conseguir o que queremos, muitas vezes, silenciamos o conselho divino e tentamos apenas encontrar explicações para nossa conduta ou ouvir aqueles que têm a mesma opinião. Em alguns casos, somente uma severa provação é capaz de fazer-nos enxergar novamente a vontade de Deus e afastar-nos do mal (Pv 20:30).
Há alguns dias, ao realizar as obras do metrô em São Paulo, os engenheiros erraram o encontro de dois túneis em 80 centímetros. Um erro primário que custará muito tempo e dinheiro para corrigir. Precisamos corrigir nossa rota a todo instante, senão, lá no fim, será muito mais trabalhoso e dolorido ter que fazê-lo. Freqüentemente, Deus nos direciona por caminhos que não entendemos, mas, pela fé, precisamos ter a certeza da vitória que já nos está assegurada.
"Na vereda da justiça, está a vida, e no caminho da sua carreira não há morte" (Pv 12:28). O caminho da justiça pode não ser o caminho mais fácil, nem o mais popular, mas é um caminho de vida. Jesus falou de dois caminhos. Cabe a cada um de nós escolher o caminho no qual desejamos trilhar: o caminho da salvação ou da perdição? A escolha é nossa. E, por mais estreito e difícil que seja o caminho, ele é um caminho de vida.
Que tipo de experiência tem aquele que anda pela vereda da justiça?
O caminho pelo qual o nosso Pastor deseja que andemos é um caminho de justiça. Não se trata apenas de nome de rua. Andar por esse caminho significa também que quem por ele anda experimenta uma mudança explicada por duas palavras: justificação e santificação. Ao aceitar a guia divina, somos declarados justos em Cristo. Somos cobertos pelo manto de justiça de Cristo, mas também, ao ouvirmos a Sua voz, acabamos por refletir a Sua vontade e, por conseqüência, Seu caráter. Cada provação do caminho, cada tentação vencida, deve contribuir para a lapidação e burilamento do nosso caráter. O "Senhor, Justiça Nossa" (Jr 23:6) é nosso caminho e nosso modelo, bem como a segurança de que, ao fim, trilhamos um caminho de vida. "Muitas pessoas que são já membros da grande família de Deus pouco sabem do que quer dizer contemplar Sua glória e ser mudadas de glória em glória. Muitos possuem uma vaga percepção da excelência de Cristo e, contudo, seu coração palpita de alegria. Anseiam por um mais completo e profundo sentimento do amor do Salvador. Que eles nutram todas as aspirações da alma para Deus. O Espírito Santo trabalha aqueles que desejam ser trabalhados, molda os que desejam ser moldados, cinzela os que desejam ser cinzelados. Obtenha por si mesmo a cultura de pensamentos espirituais e santas comunhões. Você não viu ainda a não ser os primeiros raios do despontar da aurora de Sua glória. À medida que avançar no conhecimento do Senhor, você aprenderá que ‘a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito’. Pv. 4:18" (Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver, p. 503, 504).
Em Israel existe, literalmente, um Vale da Sombra da Morte. É um desfiladeiro íngreme, profundo e estreito. A luz solar só atinge a sua base quando se encontra diretamente acima do vale, ao meio-dia. No restante do dia, o fundo desse vale permanece na sombra. Davi, provavelmente, passou com seu rebanho por esse vale da sombra da morte durante a juventude. Na Bíblia, o termo vale também é usado com referência aos tempos difíceis da nossa vida. Josué menciona o Vale da Calamidade. O Salmo 84 menciona o Vale das Lágrimas. Oséias menciona o Vale da Aflição. Em hebraico, essa expressão usada por Davi significa, na realidade, o Vale da Escuridão Profunda.
"Os que finalmente serão vitoriosos, terão em sua vida religiosa ocasiões de terrível perplexidade e provação; não devem, porém, rejeitar a sua confiança, pois isso é parte de sua disciplina na escola de Cristo, e é essencial a fim de ser eliminada toda escória. O servo de Deus deve suportar com ânimo os ataques do inimigo, suas ofensivas provocações, e vencer os obstáculos que Satanás lhe colocará no caminho. ...
"Mas se, em vez de olhar para baixo, às dificuldades, você fixar o olhar em cima, não haverá de desfalecer no caminho e logo verá que Jesus estende a mão para ajudar. Você só terá então de dar-Lhe a mão em singela confiança e deixar que Ele o guie. Ao se tornar confiante, aumentará sua esperança. ...
"Você achará ajuda em Cristo para a formação de um caráter firme, simétrico e belo. Satanás não pode tornar de nenhum efeito a luz que irradia de um caráter assim. ... Deus nos deu Seu melhor dom, sim, Seu Filho unigênito, para, revestindo-nos de Sua própria perfeição de caráter, elevar-nos, enobrecer-nos e habilitar-nos para o lar em Seu reino" (Ellen G. White, Mensagens aos Jovens, p. 63, 64).
Do que devemos nos lembra ao passarmos por um vale?
Qual deve ser a nossa atitude quando precisarmos passar por algum vale escuro em nossa vida?
""Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam" (Sl 23:4). De fato, em muitas ocasiões, não podemos mudar o curso do caminho, mas podemos mudar nossas atitudes enquanto caminhamos. Às vezes, um problema de relacionamento familiar não pode ser mudado, mas podemos mudar a nossa forma de encarar a situação, e isso faz toda a diferença. A diferença para o cristão não é a ausência do vale, mas a presença do Pastor. Deus está conosco.
Para vencermos nossos vales, a primeira atitude que devemos desenvolver é a de manter o ânimo. Diante das aflições, Jesus disse que não devemos desanimar. Ele venceu para que pudéssemos ser vencedores. A segunda atitude a desenvolver é a certeza de que Deus está ao nosso lado. Recordo-me de uma história de alguém em seu leito de morte mantinha uma cadeira "vazia" ao seu lado. Quando perguntavam o porquê dessa atitude, ele afirmava que ali era o lugar de Jesus. Ele tinha certeza da Sua presença e isto o confortou em sua pior hora. "Quando passares pelas águas, Eu serei contigo; quando, pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti" (Is 43:2).
A partir do verso 4 do Salmo 23, há uma mudança na linguagem do salmista. Até então, todos os pronomes pessoais estão na terceira pessoa do singular – Davi estava falando a respeito de Deus. Mas, quando chega ao vale, ele muda, e passa a falar diretamente a Deus. São os vales da vida que nos colocam face a face com Deus. Quando estamos passando por uma vale, não queremos falar sobre Deus; queremos falar com Deus. A religião se torna um relacionamento. Qualquer pessoa que é madura na vida cristã pode confirmar que é durante os vales que ficamos mais próximos de Deus. "O tempo de angústia é o crisol que há de pôr em relevo caracteres semelhantes ao de Cristo. Destina-se a levar o povo de Deus a renunciar a Satanás e suas tentações" (Ellen G. White, Maranata, o Senhor Vem [MM 1977], p. 271).
O que significa a expressão "Tua vara e Teu cajado me consolam"?
Davi relembra a si mesmo que a vara e o cajado de Deus lhe trazem conforto. Vara e cajado eram as duas ferramentas básicas que um pastor usava para proteger e guiar as ovelhas. A vara tinha perto de um metro de comprimento, com uma saliência acentuada em uma das extremidades. Pastores, em geral, tinham grande habilidade para arremessar a vara com precisão a fim de afastar qualquer ameaça. A vara de Deus nos dará proteção. Ele não está assentado no Céu, apático e indiferente à nossa situação. O bom pastor luta por nós, para expulsar as forças espirituais. Ele é o nosso defensor e protetor.
Por outro lado, o cajado era um bastão, arredondado, longo, com um tipo de argola semi-aberta na extremidade. O pastor usa o cajado para guiar e confortar. Ele usa o cajado para trazer a ovelha para perto de si; para levantar uma ovelha que cai. Quando passarmos pelo vale, não estaremos sozinhos. Deus vai estar ao nosso lado. Ele vai usar a vara e o cajado para nos guiar e proteger. "Muitas são as aflições do justo, mas o Senhor de todas o livra" (Sl 34:19).
O que fazer quando as pessoas me machucam? Qual tem sido minha reação quando alguém me causa mágoa? O que fazer quando nos sentimos magoados por algo que alguém nos fez?O Senhor põe uma mesa. Isto significa que o Senhor pode colocar em Sua "mesa" muito mais bênçãos que qualquer mal que alguém pode causar a você. Ele o honrará, se você se colocar em Suas mãos. Enquanto nos banquetearmos do mal que possamos fazer a quem nos machuca, estaremos apenas destruindo a nós mesmos. "Ficar desgostoso e amargurado é loucura, é falta de juízo, que leva à morte" (Jó 5:2, NTLH). O ressentimento nunca fere a outra pessoa; ele somente fere a nós mesmos. A outra pessoa pode nem estar sabendo que causou algum ressentimento. De fato, as pessoas podem até fazer ou dizer coisas das quais não gostamos, mas elas só nos magoarão se permitirmos. "Com a sua raiva, você só está se ferindo" (Jó 18:4, NTLH). Martin Luther King, defensor dos direitos humanos nos EUA, afirmou: "A amargura é cega." Por anos, os afro-descendentes norte-americanos foram escravizados e humilhados, mas não podiam deixar que essa dor os cegasse naquele momento em que lutavam por seus direitos. Existem pessoas que só conseguem enxergar o lado ruim das coisas. Deus quer até mesmo tornar as situações mais desagradáveis de nossa vida em algo bom e que coopere para o nosso próprio bem (Rm 8:28). Se eu estiver amargurado, não conseguirei enxergar essa verdade. Nunca seremos curados das nossas mágoas e ressentimentos se não recebermos o perdão de Deus através de Jesus Cristo, para então poder oferecer perdão às outras pessoas.
Se o perdão é uma necessidade, outra coisa que precisamos aprender é que a vingança pertence ao Senhor (Rm 12:19). Devemos pagar o mal que nos fizeram com o bem Deixemos que Deus nos honre diante daqueles que nos causam mágoas. Deixemos para Deus o castigo e o juízo. Quando Jesus afirmou que o joio e o trigo permaneceriam juntos até a sega, isto deveria nos fazer entender que não somos agentes do juízo, mas ministros da reconciliação. O problema é que, em muitos casos, colocamos tantas expectativas sobre os outros que eles nos decepcionam. "Eu esperava isso de qualquer um, menos de você!" "Não poderei jamais perdoar o que você fez comigo!" Estas são frases comuns que demonstram quanto nossas expectativas frustradas podem nos aprisionar. Ao invés de nos alimentarmos do ódio e do rancor, devemos nos alimentar do perdão e da paz que o Senhor coloca diante de nós.
O Senhor unge a nossa cabeça com óleo. Os pastores derramavam óleo sobre a cabeça das ovelhas por duas razões: para aliviar e curar. As ovelhas têm verdadeiro pavor de mosquitos. No verão, eles penetram nas narinas da ovelha e botam ovos. As pequenas larvas incomodam tremendamente, e não há nada que a ovelha possa fazer para se livrar delas. O pastor, então, misturava óleo com sulfa e ungia a cabeça da ovelha, o que agia como repelente. O óleo também era usado para tratar as feridas abertas. Além de formar uma camada protetora sobre o ferimento, tinha um efeito suavizante. Em outras palavras, o Pastor nos protege daquelas coisas que nos irritam, que nos tiram do sério e alivia o nosso sofrimento.
O meu cálice transborda. Um cálice transbordante é símbolo de plenitude. Equivale a dizer: "Tenho tudo de que preciso." Na região deserta do Oriente Médio, quando um copo transbordava ou era porque houve algum descuido ou porque havia água (ou vinho) de sobra.
Há um costume no Oriente Médio em relação a visitas. A primeira coisa que é oferecida é um copo com água ou vinho. Enquanto o anfitrião mantém seu copo abastecido, significa que a sua permanência é bem-vinda. Mas, no momento em que ele deixa o seu copo esvaziar, significa que o tempo acabou. É hora de terminar a visita. Um copo transbordante era símbolo de que a visita poderia ficar o quanto quisesse. Significava que aquela pessoa era especial.
Existem momentos na vida em que parece que Deus está distante? Como conciliar estas situações com a expressão "bondade e misericórdia me seguirão todos os dias..."?
"O Senhor guarda a todos os que O amam" (Sl 145:20). Deus Se importa com os detalhes da sua vida. Como um Pastor, Ele providenciará para as suas necessidades futuras. Não sabemos o que o futuro está guardando para nós, mas conhecemos aquele que está guardando o nosso futuro. Sabemos que Deus está no controle, que Ele nos ama e quer nos ajudar.
Davi teve muitas dificuldades ao longo da sua vida. E mesmo em face de tais situações ele tinha certeza de que a bondade do Senhor o seguia. De modo geral, temos dificuldade para enxergar a bondade de Deus quando estamos no meio de uma tragédia. Não conseguimos sentir a Sua misericórdia. Às vezes, parece que a bondade de Deus está escondida. Mas a verdade é que, mesmo nas piores condições, Deus pode daí retirar alguma bondade para a nossa vida.
A bondade e a misericórdia me seguirão. O termo "seguirão" pode ser mais bem compreendido como "perseguirão". De fato não é apenas algo passivo que está ao nosso alcance, aguardando o dia em que precisemos dessas dádivas. Elas estão ativamente em ação, o que pode sugerir os cães ou os servos que iam atrás do rebanho, impedindo que ele se dispersasse, ou que alguma ovelha fugisse. É a misericórdia de Deus e a Sua bondade que nos mantém no caminho e conectados ao rebanho. "Passando em revista, não os capítulos escuros de nossa existência e sim as provas da grande misericórdia e amor indizível de Deus, havemos de achar mais motivo para expandir-nos em louvores do que em queixas. Havemos de discorrer sobre a terna fidelidade de Deus como o Pastor legítimo, benigno e compassivo de Seu rebanho, acerca do qual Ele mesmo disse que ninguém poderia arrebatar de Suas mãos. A nossa linguagem não se manifestará, então, em murmurações egoístas e descontentamentos, mas em expressões de louvor que brotarão dos lábios dos verdadeiros crentes de Deus como correntes de águas cristalinas" (Ellen G. White, Testemunhos Seletos, v. 3, p. 33).
Por outro lado, a misericórdia também estará à nossa disposição. Quando? A cada manhã (Lm 3:23). É digno de nota que em um livro o qual chamamos de Lamentações há uma lembrança do que pode fazer-nos reerguer: a bondade e a misericórdia do Senhor! A misericórdia é a graça em ação. Somos imperfeitos, caímos, tropeçamos e cometemos erros. Sem a misericórdia divina, as nossas culpas nos sufocariam. O problema é que não nos apropriamos desse maná (a comida que alimentou o povo de Israel em sua jornada à Terra Prometida) que diariamente nos é oferecido para que cheguemos à Canaã celestial.
E isso não acontece em apenas alguns dias, mas todos os dias. Jesus é apresentado no evangelho narrado por Mateus como Emanuel (Deus conosco) e, ao final, apresenta Jesus afirmando que estará conosco até a consumação dos séculos. A misericórdia nos seguirá todos os dias. A presença de Cristo em nossa vida é o nosso seguro. É a bondade e a misericórdia de Deus que nos mantém no Seu rebanho.
Quando estabelecemos nossos planos, estes levam em conta o fato de que estamos nos preparando para viver com o Senhor para sempre? O que significa viver a esperança de "habitar na casa do Senhor" em relação à família, à igreja, ao trabalho ou aos amigos?
"... e habitarei na casa do Senhor para sempre." Esta é uma das conjunções de ligação mais importantes na Bíblia. Ela conecta ontem e hoje com amanhã. Não podemos deixar de perceber o crescendo destes últimos versos. Deus tem uma vida cheia de significado planejada para você em que, certamente, bondade e misericórdia o seguirão, mas não pára por aí! Davi termina o salmo dizendo: "Nós estamos a caminho da Nova Jerusalém!" Jesus guarda o melhor para o fim. O melhor ainda está por vir! A volta de Jesus sempre teve uma conotação especial para os adventistas. É preciso reviver diariamente o desejo de estar diante do Senhor para todo o sempre. "Quando tivermos mais profunda apreciação pela misericórdia e benignidade de Deus, louvá-Lo-emos, em vez de queixar-nos. Falaremos da amorável vigilância do Senhor, da terna compaixão do Bom Pastor. A linguagem do coração não será de murmuração egoísta e descontentamento. Qual límpida e abundante corrente, brotará o louvor dos verdadeiros crentes. Dirão: ‘A bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias’. Sl 23:6" (Ellen G. White, Filhos e Filhas de Deus, [MM 1956], p. 198).
É um espetáculo impressionante observar o movimento do centro de uma grande cidade no fim do dia. As ruas estão sempre cheias de gente e de carros. Todos os ônibus se acham trafegando, e sempre lotados. O que torna isso emocionante é pensar que todas essas pessoas estão indo para casa. Mas, infelizmente, nem todas. Quantos perambulam pelas ruas sem destino, apenas tentando sobreviver. E alguns, mesmo quando de lá são tirados, acabam voltando para a mesma condição. São como aqueles tantos que andam de um lado para outro sem esperança, sem saberem que há um lar eterno pronto para cada um de nós. Estamos indo para casa, estamos indo para as mansões que Jesus foi preparar e aguardamos que Ele volte para lá nos levar.
Dinâmica sugestiva: Coloque em pedaços de papel os seis versos do salmo 23, divididos e numerados nas seguintes frases:
Dobre os papéis. No momento inicial da classe, peça aos componentes que peguem esses papéis. A partir de então, seguindo a numeração, cada aluno deve relatar rapidamente uma situação em sua caminhada cristã em que o trecho do salmo que ele retirou se aplica à sua vida. Desta forma, o professor conduzirá o estudo referenciando os conhecimentos bíblicos desta lição à própria experiência dos seus alunos.