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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina
1º Trimestre de 2007


Lição 2 – NADA DE NOVO DEBAIXO DO SOL?

Ruben Aguilar PhD
Professor de Teologia no UNASP

Vaidade de Vaidades

A acepção moderna da palavra "vaidade", em geral, se refere a sentimentos incontidos do ser humano que expressam desejos imoderados de atrair admiração ou homenagem. Uma pessoa "vaidosa" procura o aplauso de outrem e, para alcançar esse objetivo, faz uso de qualidades pessoais instáveis e ilusórias, manifestando merecimentos que podem ser reais mas, na sua maioria são imaginários.

É possível utilizar a acepção de "vaidade", registrada no parágrafo anterior, para interpretar a intenção do "Pregador". Seguindo esse conceito, a inferência prática do substantivo que analisamos nos leva a aceitar que tudo quanto o homem faz tem simplesmente o objetivo de alcançar admiração dos seus semelhantes, numa versão universal de egolatria. Embora essa inferência seja verídica, não deixa de ser exagerada, pois existem exemplos de ações humanitárias, sem pretensões outras que a manifestação do puro altruísmo.

O propósito do autor do Eclesiastes vai além de simplesmente relacionar a "vaidade" com uma característica patogênica da natureza humana. Seu alvo é mais profundo que o campo subterrâneo dos sentimentos e das emoções. Ele deseja atingir o antro abissal da mente, onde objetos concretos ou abstratos são apreendidos; onde os mistérios reais ou imaginários buscam esclarecimento; onde a própria vida busca seu propósito: a razão humana. Assim, a palavra vaidade adquire um significado mais amplo; aquele que a semântica hebraica pode conceder. O "Pregador" usa o vocábulo Hebel, vaidade, que, nas línguas latinas, pode representar elementos físicos como vapor, sopro, partículas do vento e elementos metafísicos como nada, vazio, zero, fútil.

A questão que se levanta é: se o "Pregador" considerava as realizações humanas sem valor nenhum, algo fútil, com efeito semelhante ao do vapor, que aparece e logo acaba, devemos reconhecer que Eclesiastes, antes de ser meramente um livro, é um discurso proferido diante de um auditório do qual se espera uma reação sobre o arrazoado exposto, com a finalidade de convencê-lo de uma realidade máxima. Essa realidade apresenta o propósito da existência: é a primeira e também a última; sendo assim, é a única realidade. Podia o "Pregador" ter começado seu discurso incluindo a frase que enuncia essa realidade, exprimindo a conclusão a que chegou; aquela frase que expõe a realidade única de toda existência; aquela que faz alusão à verdade infinita de onde emana todo poder: o Ser Divino. "Teme a Deus e guarda Seus mandamentos..."; sem Ele, "tudo é vaidade".

Agora, podemos ver que o "Pregador", ao afirmar que "tudo é vaidade", não faz mais que usar um recurso de retórica para captar a atenção de seu auditório ou de seus leitores, com o qual os estimula a pensar, mediante uma afirmação, sobre o enigmático problema da existência. Qual é o propósito da existência? Todo ser humano consciente de sua existência, de uma ou outra forma, se faz essa pergunta. Mas são os pensadores ou filósofos de turno, ao longo dos séculos, os que enunciam a resposta. Aquela questão, no entanto, vem naturalmente acompanhada por outras que procuram dar suporte ou fundamento mais consistente à resposta gerada. As questões adicionais são: Qual é a origem da existência humana? E qual é sua finalidade?

Os filósofos, nas suas lucubrações, percebem que a resposta sobre o propósito da existência deve ser precedida pela resposta sobre a origem do ser. A maioria dos filósofos e sistemas filosóficos considera dispensável a resposta sobre a finalidade ou o fim último da existência. Essa maneira de enfrentar o enigma sobre o propósito da existência divide a humanidade em duas populações. Primeira, aquela que responde à questão baseada unicamente no conceito sobre a origem da existência.; a segunda responde à questão baseada também no conceito sobre a origem, porém, dá maior ênfase ao significado da finalidade ou do fim último da existência. Para a primeira população, a origem da existência está relacionada com as propriedades da matéria, e o propósito da existência é aproveitar a vida, pois tudo termina na morte. Para a segunda população, a origem da existência está relacionada com o atributo divino da criação. Dessa maneira, o propósito da vida é seguir as normas divinas para alcançar, após a morte, a finalidade suprema da outra vida. A primeira população pode ser identificada como "materialista", e a segunda, como "idealista".

O discurso do "Pregador" é dirigido essencialmente a um grupo social ou comunidade de amplas dimensões, que formaliza as características da primeira população, definida anteriormente. Para essa população, o autor introduz sua alocução com o claro desejo de levá-la a considerar o propósito da existência. Então, a frase é incisiva, poderosa e, ao mesmo tempo, atrativa, pois pretende levá-los à reflexão sobre o significado fútil dessa maneira de viver: "vaidade de vaidade,... tudo é vaidade".

O Sol Também Nasce

As sentenças estruturadas no texto de Eclesiastes revelam que a experiência de vida do autor lhe permite definir a finalidade da existência. Seu discurso já fora esboçado no fim dos dias atribulados que vivera. Agora, deseja atingir a mente da população materialista, daqueles que consideram que o propósito da existência é aproveitar a vida, pois tudo acaba na morte. Nesse interesse, o "Pregador" usa os mesmos argumentos da comunidade descrente sobre a rotatividade dos fenômenos naturais: "A Terra permanece para sempre. Levanta-se o Sol, e põe-se o Sol, e volta ao seu lugar, onde nasce de novo" (Ec 1:4 e 5).

É possível estabelecer um paralelismo entre as sentenças expostas por Salomão e os conceitos expressos por Charles Lyell na sua obra Princípios de Geologia, editada em 1831. Lyell ponderou que as condições naturais que prevalecem no Universo, ao longo dos séculos, sempre foram as mesmas, pois seguem rigidamente uma rotatividade inalterável. Essa concepção gerou a idéia do "uniformismo", que muito influiu na mente de Charles Darwin para a elaboração da teoria da evolução e, com funestas conseqüências, disseminou "debaixo do céu" o deletério vento do ceticismo e da descrença. Mais adiante, destacaremos a importância do paralelismo a que fizemos referência.

Por outro lado, a população que não considera a operação do Ente divino, por rejeitá-Lo deliberadamente ou não reconhecer Seus atributos, limita o propósito da existência ao fatídico evento da morte. A vida, então, deve ser aproveitada, desfrutada em cada manifestação social ou individual. Essa atitude é expressa em forma lacônica com a frase: "Comamos e bebamos que amanhã morreremos". Essa maneira de encarar a existência parece dominar, em forma coletiva, a mente humana. Como forma racional de pensamento, essa idéia foi enunciada por Epicuro (310 a.C.). Esse filósofo, que procurava inculcar entre seus seguidores a concepção primária da não existência de divindades, anunciava que o propósito da existência é a busca do prazer.

O "Pregador", ao usar aquela seqüência de pensamentos sobre a rotatividade dos fenômenos naturais, deseja alcançar seu auditório, sem dúvida, composto de pessoas com idéias semelhantes ao "uniformismo", "materialismo", "epicurismo", apreendidas em forma específica ou indistintamente. Para eles, Salomão procura mostrar que a repetição permanente e periódica dos fenômenos naturais não propicia o gozo do prazer. Se isso acontecer, o prazer e seus efeitos são momentâneos, logo se esvaem, como simples fumaça. Então, ele insiste em expor a futilidade dessa forma de encarar a existência: nada é prazenteiro; tudo é rotineiro; nenhum prazer tem a virtude de emergir por entre as cinzas da angústia mórbida que a abafa: "Todas as coisas são canseiras tais, que ninguém as pode exprimir..." Ec 1:8.

Além dos Ciclos

O mundo atual está caracterizado por uma carreira frenética de inovações. O campo da tecnologia, em diferentes áreas, tem contribuído aceleradamente para a difusão de novos e variados instrumentos. Ninguém mais consegue acompanhar a listagem de novas invenções tecnológicas. Diante desse nutrido panorama de realizações, teria algum valor a expressão do "Pregador" ao afirmar: "Nada há, pois, novo debaixo do Sol. Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Não!" (Ec 1:9 e 10).

O rei Salomão, ao exprimir essa afirmação e desprezar as realizações humanas e suas conseqüentes inovações científicas e tecnológicas, não peca por ignorância. Seu discurso não tem o propósito de manter seu auditório em atitude impassível e cego diante de tantas coisas novas; mas procura conduzir a mente de seus ouvintes a considerar a inutilidade dessas conquistas para alcançar o fim último da existência, aquela que está além dos ciclos. Pois "que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?" (Mc 8:36).

Todas essas inovações só serão dignas de ser mencionadas como úteis para o homem se o auxiliarem a alcançar o fim último da existência, aquele que está além dos ciclos, ou seja, a vida eterna. Nenhuma dessas conquistas pode prover ao homem o dom da salvação. Esta é atribuição divina conferida a Cristo, por cujos méritos a morte não pode reter o ser humano no sepulcro.

Não podemos, no entanto, deixar de considerar a atitude de alguns especialistas no campo das ciências, especificamente nas diversas áreas da biologia, que, desde algumas décadas atrás, vêm conseguindo estender o ciclo vital, procurando métodos e mecanismos para aumentar a juventude humana e, finalmente, controlar o envelhecimento a ponto de obter vida eterna de feitura humana.

Uma das tentativas é a produção de vida em laboratório, prosseguindo as conquistas alcançadas com a técnica do "bebê de proveta". Desde a década de 60, alguns cientistas têm dominado a técnica de retirar o DNA de um organismo e enxertá-lo em outro organismo, a fim de criar novas moléculas, novas células e, por último, novas formas de vida. Já conseguiram cobrir um vírus desprovido de "capa" com a capa de outro, resultando um vírus de nova espécie. Já é possível sintetizar artificialmente um gene e fazê-lo agir dentro de uma bactéria. Em alguns laboratórios, têm sido fabricadas células híbridas, juntando organismos celulares como, por exemplo, o de fermento com uma célula sangüínea de pinto; de rato com a de homem; de macaco com a de um ser humano. A "clonagem" é uma técnica repetida nos anos 60, quando era possível retirar o núcleo de uma célula adulta de rã e introduzi-lo no citoplasma sem núcleo de um ovo de rã.

Poderá o homem, algum dia, prolongar a extensão da vida e fazer com que a morte não mais seja o limite da existência humana? Hoje em dia, a dependência das realizações científicas é tão extrema que até as concepções teológicas de algumas religiões vêem-se impedidas de acreditar no desígnio divino para além do ciclo. As técnicas da clonagem e do uso das células-tronco despertam esperanças de vida prolongada, e renasce com força o conceito do materialismo. Esta situação destaca a importância do paralelismo, do qual falamos antes, entre as circunstâncias em que Salomão fez afirmações sobre a rotatividade dos fenômenos naturais, com os conceitos de Charles Lyell que gerou a idéia do "uniformismo". O fato é que a mensagem do "Pregador" torna-se atual, pois, na mente da população humana em geral, vivendo uma vida de "vaidade de vaidades", nada parece ser diferente do tempo de Salomão. Essa população precisa ouvir a mensagem de que além do ciclo existe uma realidade. A realidade é que a morte só será extinta ao "... ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, ... então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória... de nosso Senhor Jesus Cristo". (1Co 15:52, 54 e 57).