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Crisóis em nossa vida |
Willian Oliveira
Pastor e psicólogo
Dir. do Ministério da Família da Associação Bahia
willianwo@hotmail.com
O crisol é um equipamento de experimentação. (Nota do Editor: Veja ao final deste texto uma imagem de crisol.) Também pode signi-ficar lugares ou circunstâncias apropriadas e evidenciar as melhores qualidades de algo ou alguém. Pensar nos crisóis de nossa vida leva-nos ao fato de que as experiências às quais somos apresentados têm o poder de moldar-nos, ou ainda, de apresentar capacidades ou talentos aos quais, de outra forma, jamais daríamos espaço para se manifesta-rem. Em grande parte, somos moldados por diferentes experiências ao longo da nossa história. Algumas delas são resultantes de nossas es-colhas; outras, não. Aprendemos com nossas experiências familiares, educacionais, profissionais, espirituais, e também com as experiências dolorosas.
Será que Deus pode falar-nos em meio às nossas experiências?
"Jesus respondeu: Agora você não entende o que estou fazendo, porém mais tarde vai entender!" (Jo 13:7 – NTLH) Ter uma perspec-tiva abrangente sobre o que acontece conosco é muito mais fácil de-pois de superadas as situações. “Somos tão falíveis e curtos de vistas que às vezes pedimos coisas que não nos seriam uma bênção, e nosso Pai celestial amorosamente nos atende às orações dando-nos aquilo que é para o nosso maior bem - aquilo que nós mesmos desejaríamos se com vista divinamente iluminada, pudéssemos ver todas as coisas tais como são na realidade” (Ellen G. White, Caminho a Cristo, p. 96).
As experiências da minha vida me ajudam a:
Podemos não compreender a razão de todas as experiências às quais somos submetidos. Em alguns casos, só compreenderemos quando chegarmos à eternidade.
Que fazer para enfrentar tais situações? Em que tipos de cri-sóis seremos experimentados ao longo da vida?
I. Surpresas (1Pe 4:12 e 13)
Uma das grandes lições que Pedro aprendeu foi que quanto mais inesperado for o problema, maior será a probabilidade de gerar dor e mágoa em nossa vida. Por outro lado, ele aprendeu que podemos nos preparar para enfrentar as aflições e provações da nossa vida, e o pri-meiro passo para isso é reconhecer que, em algum momento, seremos provados. Ele mesmo havia sido alertado por Cristo de que seria ten-tado a negar seu Mestre. Ao invés de preparar-se para enfrentar a situ-ação, em oração e comunhão com o Senhor, gabou-se de que jamais passaria por isso. Ledo engano! Pouco tempo depois, caiu, conforme as palavras de Jesus. A provação não nos deveria causar estranheza, já que nem o próprio Filho de Deus foi poupado da dor.
A questão não é viver o sofrimento de forma antecipada, mas estar preparado para enfrentá-lo quando vier. A questão é entender que não tenho controle de todas as situações e, portanto, em algum momento elas fugirão da minha previsão. Jesus afirmou: “No mundo tereis aflições...” (Jo 16:33). Não é uma opção entre o que pode ou não acontecer. O fato é que as aflições virão. E Jesus foi nosso maior exemplo neste sentido. Mesmo sabendo acerca de tudo o que aconte-ceria com Ele, não ficava dizendo aos discípulos: “Pobre de mim!”. Mesmo quando, na juventude, trabalhando como carpinteiro, com madeira, pregos e ferramentas que apontavam para as agruras que suportaria na crucifixão, isso não Lhe tirava o senso de missão nem o amor que O caracterizavam. A cada dia, manuseava os objetos que fariam parte do pior momento de Sua vida. Isto não O tornou um ser amargo ou questionador. Ao contrário, Ele era alguém que amava a vida, falava e praticava o amor pelos seres humanos, Se compadecia das dificuldades dos outros e sempre tinha uma palavra de ânimo ao fraco.
Que posso fazer para evitar que as situações da vida me sur-preendam ou me façam sentir-me magoado, frustrado ou desani-mado?
Não se decepcione com as falhas das pessoas. Essa atitude evita o surgimento de mágoas. Um dia, alguém vai lhe ofender, vai trair seus sentimentos ou suas expectativas, simplesmente porque não é você, porque tem valores diferentes dos seus e porque não é capaz de atender todas as suas necessidades por todo o tempo. “O Senhor diz: Eu amaldiçoarei aquele que se afasta de Mim, que confia nos outros, que confia na força de fracos seres humanos” (Jr 17:5 – NTLH).
Não se decepcione com os seus próprios erros. Já ouvi muita gente afirmar que estava decepcionado consigo mesmo. O próprio apóstolo Paulo afirma: “Eu não entendo o que faço, pois não faço o que gostaria de fazer. Pelo contrário faço justamente o que odeio fa-zer... Como sou infeliz!...” (Rm 7:15, 24). “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8:1). O cami-nho para a restauração está na graça divina e não no seu sentimento de culpa!
Não estranhe as aflições que a vida lhe traz. Pode ser no tra-balho, nas finanças, na saúde, sua ou de seus amados, nos estudos, ou mesmo na igreja. A questão não é se teremos ou não que passar por algum tipo de sofrimento, mas que eles virão e precisamos estar pre-parados para vencê-lo. Não se surpreenda com os ataques do inimigo ou porque algo não saiu como você esperava. “Amados, não estra-nheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de Sua glória, vos alegreis exultando” (1Pe 4:12 e 13).
Não subestime as conseqüências de suas decisões. Há momentos em que pensamos que fizemos as melhores escolhas e os re-sultados são desastrosos. Toda decisão implica em um risco. Por outro lado, quando decidimos pelo mal, certamente surgirão conseqüências desagradáveis. Existe uma espécie de lei da gravidade que opera em nossa vida, como o apóstolo Paulo afirma: “...pois tudo o que o ho-mem semear, isso também ceifará” (Gl 6:7).
Não pense que as aflições são apenas para os outros. “Nunca pensei que isto aconteceria comigo”! Jesus afirmou: “No mundo tereis aflições...” (Jo 16:33). Ele não especificou que provações poderiam acontecer e quais, não.
Desenvolva a atitude de gratidão. “Em tudo dai graças; porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco” (1Ts 5:18). A pior atitude que podemos tomar diante de uma situação difícil é ficar reclamando das circunstâncias, dos outros e de Deus.
Desenvolva a comunhão com Deus. “A Minha graça é tudo o que você precisa, pois o Meu poder é mais forte quando você está fraco” (2Co 12:9 – NTLH). O bálsamo e o conforto da presença de Deus é o maior diferencial diante das agruras desta vida. Como pro-fissional de saúde, já constatei a diferença entre aqueles que desen-volvem a comunhão com Deus e aqueles que vivem sem esta esperan-ça, diante da dor, da doença e da morte. O cristão suporta melhor as dificuldades, adere mais aos tratamentos e sua recuperação, em geral, é mais rápida.
II. Crisóis de Satanás (1Pe 5:8)
Para compreender o que Pedro está afirmando, quando compara o diabo a um leão, é bom conhecer os hábitos de caça desse felino. De fato, não é o leão que caça os alimentos para o bando, formado por um macho dominante, suas fêmeas e seus filhotes. A caça é um trabalho para as leoas. São elas que correm atrás das presas. Esses animais, embora potentes, não são os mais rápidos e com o maior fôlego no reino animal. É aí que entra o leão. Ele tem por trabalho caminhar sorrateiramente em direção a alguma presa em potencial que esteja distraída, enquanto as leoas aguardam. Quando está próximo à presa, ele salta diante dela e libera seu potente rugido. Por uma fração de segundo, a presa fica paralisada pelo susto, o suficiente para afastá-la da sua manada e permitir que as leoas executem seu trabalho de cercá-la e derrubá-la.
O inimigo pretende paralisar-nos e desconectar-nos de Deus. Ele quer aproveitar as situações da vida para nos distanciar dAquele que pode nos proteger. É preciso compreender que nem toda dificuldade é resultado direto de alguma coisa que tenhamos feito. Muitas vezes, o sofrimento e a dor nos são causados por outras pessoas e, em outras, ainda, é resultado direto de vivermos em um mundo no qual Satanás ainda atua e o mal está presente.
Como podemos enfrentar os ataques de Satanás? (1Pe 5:8-11)
III. Crisóis do pecado (Rm 1:18)
Se existem dores causadas pelos ataques do inimigo, também é preciso identificar as ocasiões em que nós mesmos colaboramos para que as provações venham sobre nós. O secularismo de nossos dias tem produzido seu terrível fruto. “Deus não dará pouca importância à transgressão de Sua Lei. ‘O salário do pecado é a morte’ (Rm 6:23). As conseqüências da desobediência provam que a natureza do pecado é de inimizade contra o bem-estar do governo de Deus e o bem de Suas criaturas” (Ellen G. White, Refletindo a Cristo, [MM, 1986], p. 44). “Quem pode saber, no momento da tentação, as terríveis conse-qüências que advirão de um passo errado?” (Ellen G. White, Patriar-cas e Profetas, pág. 61).
O que acontece quando substituímos Deus por ídolos em nos-sa vida, ou simplesmente rejeitamos Sua direção?
“Para o malvado, fazer o mal é divertimento” (Pv 10:23 – NTLH). Quando leio este texto, lembro-me dos jovens que, por “di-versão”, atearam fogo a um índio, pensando que se tratava de um mendigo. Este é um quadro aterrador e real dos nossos dias. Por se afastarem de Deus, o pecado encontra ocasiãoe as conseqüências deste na própria vida e na sociedade são notórios. São aqueles que ficam “pensando sempre em novas maneiras de pecar” (Rm 1:30 – BV).
Crisóis de purificação (Jr 9:7)
O povo de Deus havia se deixado seduzir pela idolatria dos po-vos ao redor. Ao invés de ser uma luz a influenciar as nações vizinhas, Israel simplesmente copiou as práticas que Deus tanto abomina e que tinham sido a razão do desastre dos cananitas e do povo de Israel. Por isto, experimentariam a dor do desterro e do exílio. Em nosso corpo, a dor é um sinal de que algo não vai bem. A dor pela qual este povo passaria deveria se tornar uma luz de advertência afirmando que al-guma coisa estava errada na vida deles.
É sábio ignorar uma luz de advertência? Qual deve ser nossa atitude diante da dor da provação?
“[Aquele] que lê o coração dos homens conhece melhor do que eles mesmos o seu caráter. Vê que alguns têm faculdades e possibili-dades que, bem dirigidas, poderiam ser empregadas no avanço de Sua obra. Em Sua providência, Deus colocou estas pessoas em diferentes situações e variadas circunstâncias a fim de que possam descobrir, em seu caráter, defeitos que a eles próprios estavam ocultos. Dá-lhes oportunidade de corrigirem tais defeitos e de se tornarem aptos para O servir. Permite por vezes que o fogo da aflição os assalte, a fim de que sejam purificados” (Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver, p. 471).
V. Crisóis de maturidade
“E, para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revela-ções, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte” (2Co 12:7). Muito prova-velmente o espinho na carne ao qual Paulo se refere poderia ter sido uma dificuldade visual. O verso de Gálatas 6:11 é apontado como um dos argumentos em favor desta posição: “Vede com que letras grandes vos escrevi de meu próprio punho” De fato, mais importante do que identificar qual era o real espinho na vida de Paulo, é reconhecer a preciosa lição que ele adquiriu a partir dessa experiência: a dependên-cia de Deus, a maturidade espiritual. Parece estranho já que, em geral, identificamos maturidade com independência. Mas, em termos espi-rituais, maduro é aquele que reconhece sua total dependência de Deus.
De que forma as experiências dolorosas podem nos conduzir à maturidade?
Prestando atenção às lições que essas experiências nos deixam. “Será que as coisas pelas quais passaram não serviram para nada? Não é possível!” (Gl 3:4 – NTLH). Experiência não examinada é desperdiçada. Experiência não é o que acontece com você, mas o que você aprende do que acontece consigo. As dificuldades nos bene-ficiam à medida que aprendemos algo com elas. É especialmente im-portante que você examine seus fracassos.
Prestando atenção ao que acontece a outras pessoas. “As pessoas aprendem umas com as outras, assim como o ferro afia com o próprio ferro” (Pv 27:17 – NTLH). Precisamos aprender a cultivar o hábito da observação. Pergunte-se sobre o que você pode aprender das situações pelas quais passaram aqueles que compartilham a vida com você.
Prestando atenção aos conselhos dos mais experientes. “Quando alguém está querendo aprender, o conselho de uma pessoa experiente vale mais do que anéis de ouro ou jóias de ouro puro” (Pv 25:12 – NTLH). Todo mundo tem algo que possa nos ensinar a partir de sua própria experiência. A prática de ouvir conselhos pode evitar que caiamos nos mesmos erros para adquirir o mesmo aprendizado!
Desconfiando de suas percepções. “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhe-cerá?” (Jr 17:9). Facilmente, as percepções podem ser enganadas pe-las experiências. Os ilusionistas se aproveitam desse fato para enganar o público e fazer seus truques. Não confie apenas nas sensações. A Bíblia é o padrão pelo qual devemos medir todo e qualquer julga-mento que fizermos.
Como podemos reconhecer uma pessoa madura?
Paulo afirmou: “Agora, sinto-me feliz em me gloriar de ser tão fraco; estou feliz em ser uma demonstração viva do poder de Cristo, em vez de alardear meu próprio poder e meus talentos” (2Co 12:9 – BV). Um ser humano maduro é alguém que:
É fácil compreender isso vendo uma criança dando seus primei-ros passos e tombos. Não há crescimento sem dor. Se quisermos ma-turidade precisamos estar dispostos a pagar o preço. Queremos alcan-çar os objetivos de nossa vida, mas não queremos o processo, que é doloroso. Você não saberá que Jesus Cristo é tudo o que precisa até que Ele seja tudo o que você tenha. Nesse momento, você alcançará a maturidade da qual Paulo fala: “Eu me alegro também com as fraque-zas, os insultos, os sofrimentos, as perseguições e as dificuldades pe-los quais passo por causa de Cristo. Porque, quando perco toda a mi-nha força, então tenho a força de Cristo em mim” (2Co 12:10 – NTLH).
Dinâmica sugestiva:
Materiais: objetos variados (que não se quebrem com facilidade e nem sejam cortantes) em um recipiente (uma sacola, por exemplo) que não permita ver seu conteúdo e uma faixa para vendar os olhos.
Você pedirá que um dos seus alunos se apresente como voluntá-rio para uma atividade. Depois que este se apresentar, você explicará a dinâmica: após ter os olhos vendados, esse aluno colocará a mão no recipiente e pegará um objeto.Apenas com o tato e sem a ajuda dos outros alunos deverá identificar e dizer do que se trata. Você pode repetir o mesmo procedimento com outro aluno, se desejar.
Após a atividade, perguntar: Por estar de olhos vendados, qual é a sensação ao colocar a mão em um recipiente sem saber o que en-contrará? Se pudesse ver o objeto seria mais fácil seu reconhecimen-to?
A partir desses questionamentos abre-se o espaço para se discutir a importância das experiências em nossa vida, mesmo quando não temos a noção exata das razões porque estas coisas acontecem.
Nota do Editor: Veja abaixo a imagem de um crisol, ou cadi-nho. Para efeito desta lição, cadinho e crisol são considerados como sinônimos.
