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CasaNet

Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina
1º Trimestre de 2007


Lição 3 – "TUDO QUANTO DESEJARAM OS MEUS OLHOS"

Ruben Aguilar PhD
Professor de Teologia no UNASP

A frase que serve de título à lição desta semana sugere que o interlocutor obteve plena satisfação dos seus desejos e, como conseqüência lógica e imediata dessa condição, alcançou a felicidade. Essa, em geral, é a opinião da população mundial, de todas as épocas e de todas as etnias. No entanto, a complexidade da vida adverte que dificilmente uma pessoa pode satisfazer todos os seus desejos. Assim, a felicidade estaria na dependência da satisfação de certos fatores, como: prazeres, riqueza, poder, conhecimento etc. O "Pregador", que foi favorecido por uma gama de condições que lhe permitiram satisfazer "tudo quanto desejaram (seus) olhos", reconhece e confessa que esses fatores não contribuíram para sua felicidade. Ao dirigir-se ao seu auditório, sua argumentação é plena de exemplos, vivenciados por ele próprio, nas mais excelentes e exponenciais circunstâncias , para confirmar sua derradeira convicção: sem Deus, tudo é nada, é vaidade.

Correndo atrás do Vento

O vento é uma corrente de ar cuja energia é provocada pela diferença de pressões atmosféricas. A meteorologia, em especial a barometria, são ramos de estudo que pretendem determinar as características do vento. Sabe-se mais dos seus efeitos do que das particularidades dessa forma de energia natural. O vento, como energia, é uma realidade imperceptível. Já afirmara Jesus: "O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai" (João 3:8). Então, correr atrás do vento é simplesmente uma futilidade, frivolidade sem nenhum significado real; é unicamente uma figura de linguagem. Salomão usa essa expressão metafórica para ilustrar seu argumento de que é inadequado e improcedente buscar a sabedoria como a pretendida fonte da felicidade. É correr atrás do vento.

No comentário da primeira lição deste trimestre, caracterizamos a sabedoria como virtude ou conhecimento cuja fonte é Deus. Mas, por força da semântica da linguagem, na maioria dos idiomas, ou em todos, o significado da palavra "sabedoria" adquire outra conotação. Na língua hebraica, existem três vocábulos que são traduzidos por sabedoria. O vocábulo usado por Salomão em Ec 1:16 e 18 é hokmah, que aparece 312 vezes nos escritos do A.T. Esse termo é usado para referir-se ao atributo divino, como fonte de sabedoria. Mas o significado mais usual desse vocábulo enfatiza atividades humanas como: habilidades para o serviço técnico, estruturação de táticas militares, mecanismos de administração de governos, expressões negativas da personalidade como a sagacidade, algumas virtudes como a prudência, e também faz referência ao discernimento.

As diversas conotações dadas ao termo hokmah, "sabedoria", poderiam ser consideradas como atividades ao serem realizadas. Seriam plenamente suficientes para que uma pessoa possa se sentir satisfeita ou feliz. No entanto, a avaliação do "Pregador" neste sentido é negativa, já que ao fazer sua inferência, chega a ponderar que esse mecanismo para alcançar a felicidade é carente de propósito, improfícuo, inútil; é "correr atrás do vento". Em seu discurso, Salomão pretende levar os ouvintes a pensar não somente nas realizações humanas, como a sabedoria e o conhecimento, que produzem valores efêmeros e, como tais, são inconseqüentes com a felicidade. A própria palavra felicidade, que Salomão usa em Ec 2:1, não tem significado claro. A acepção mais generalizada deste termo sugere estado de bem estar agradável e afortunado do ser íntegro. Mesmo assim, nem as mentes mais privilegiadas, como a de Aristóteles, conseguiram estruturar um conceito de felicidade. Para o pensador ateniense, felicidade era a aplicação da sabedoria prática, como a virtude, e identificava a felicidade com as "melhores atividades". Porém, ao não relacionar quais são elas, o filósofo deixa o conceito vazio, vago. Então, para que procurar a sabedoria?

Os argumentos do "Pregador" tornam-se mais incisivos quando efetua uma análise comparativa entre a pessoa que tem sabedoria e o tolo. Para ambos, o período de existência é fugaz; a memória de ambos igualmente se extingue; a estrutura material anatômica se reduz a pó. Na sepultura, o sábio e o tolo seguem o mesmo fim; individualmente, nenhum tem vantagem. A diferença reside na concepção que cada um possa ter da realidade sobre a natureza divina e Seus atributos e na busca constante da salvação através da Sua misericórdia e poder. A realidade da existência não termina na morte, como pretendem impor os de tendência materialista: ela prossegue além do túmulo. A realidade verdadeira está na compreensão da justiça do Deus eterno e a execução do Seu derradeiro desígnio para o homem. Isso justifica o lamento de Salomão. Assim fazendo, ele insiste em afirmar que, sem Deus, a existência humana, mesmo dotada do privilégio da sabedoria; de nada aproveita: "Pelo que disse eu comigo: como acontece ao estulto, assim me sucede a mim; por que, pois, busquei eu mais a sabedoria?. Então, disse a mim mesmo que também isso era vaidade" (Ec 2:15)

O Princípio do Prazer

Não é fácil dar um conceito limitado e concreto do prazer, pois, como tema de estudo de diversas áreas das ciências humanas, seu enunciado difere conforme a necessidade ou propósito ao qual se destina seu estudo. Em forma sucinta, sem presumir de ser correto, definiremos o prazer como: sentimento agradável, porém pouco duradouro, que excita a satisfação do ser humano. É pela vontade de experimentar essa satisfação que a pessoa é impulsionada à busca de prazer. Assim foi com Salomão, no seu período aflitivo, quando ousava abafar com prazeres diversos as angústias que experimentava. Então, ele confessou: "Disse comigo: vamos! Eu te provarei com a alegria..." e logo continuou: "Resolvi no meu coração dar-me ao vinho, ... e entregar-me à loucura ..." (Ec 2:1 e 3). Sem dúvida nenhuma, o rei de Israel tornara-se vítima da dependência de fatores (prazeres) necessários para satisfazer suas necessidades emocionais que, para ele, já se haviam tornado vitais. Finalmente, reconheceu que "também isso é vaidade" (Ec 2:1). O que levou Salomão a optar por semelhante procedimento?

O princípio do prazer é antagônico a Deus.

A elucidação desse princípio encontra-se nos ensinamentos proferidos por Epicuro, no fim do século IV a.C. Segundo os analistas das doutrinas filosóficas de Epicuro, o que levou esse filósofo a fundamentar suas idéias foi o desejo de libertar-se das superstições e dos temores causados pelos deuses. Seu apelo era pela eliminação dos deuses na mente humana, para evitar os temores que esses seres provocam, e viver uma vida de paz e tranqüilidade. Por esse ideal, Epicuro foi chamado soter, salvador. A ênfase da sua tese especulativa residia na concepção primária da não existência de qualquer deus ou providência. Então, ele complementava seus ensinamentos com a idéia de que o homem faz parte da natureza, da matéria eterna. O telos, alvo da vida humana é a procura da felicidade mediante a busca do hedoné, prazer. Nessa atitude, deve-se procurar o máximo de prazer e o mínimo de dor (ética eudemonista).

As críticas contra essa proposta de vida emanaram de outras formas de pensamento. Os cireneus, ou cirenaicos, por exemplo, diferenciavam o prazer espiritual do prazer material, ou dos sentidos. Assim mesmo, qualificavam o hedoné dos epicuristas como sendo absolutamente prazer sensorial, e rejeitavam essa busca, afirmando que o prazer de um origina a dor de outro; ou seja, desenvolve o sentimento egoísta. Já, os seguidores de Diógenes, o "cínico", assinalavam que o hedoné, prazer, produz a infelicidade do homem em geral e perturba a quietude do sábio em particular.

É possível esboçar uma relação de paralelismo entre o pensamento dos cireneus, sobre os tipos de prazer, com os que se inferem do texto bíblico. A nominação dos prazeres feita na confissão de Salomão (Ec 2:1 e 3), indica prazeres sensoriais, materiais, o hedoné dos epicuristas. Isso "é vaidade". A Bíblia, no entanto, destaca em muitas ocasiões, e por diversas expressões, o "prazer espiritual" que consiste na viva experiência da comunhão com Deus. Uma antítese bíblica da falácia epicurista encontra-se no Salmo 1, onde os cantores evocam frases melodiosas, repetindo estas afirmações: "Feliz o homem que não anda nos conselhos dos ímpios... Antes, o seu prazer está na Lei do Senhor... Tudo quanto ele faz será bem sucedido...".

"Tudo quanto desejaram os meus olhos"

"Tudo compra, o dinheiro".

É uma máxima popular que estimula o interesse pela riqueza. Seja com as janelas da consciência abertas, seja vivendo na inconsciência através de uma percepção difusa da realidade, a grande maioria da população mundial segue esta orientação. O estímulo fundamental para essa corrida atrás da riqueza é o desejo de ter "poder".

A palavra poder deriva do latim, posse, que envolve uma gama de acepções, tais como: autoridade, domínio, governo, capacidade, bens materiais etc. Na concepção filosófica, o poder é a autoridade regida por lei própria. Essa lei é diferente das outras sobre as quais prevalece. A pessoa que ostenta poder insere em si mesma o fundamento e a razão da sua legalidade. Quanto à sua extensão, o poder, aplicado ao homem, é sempre determinado por forças metafísicas ou sobrenaturais. Biblicamente, o poder humano é uma transcendência do poder de Deus; dessa forma, torna-se compreensível a resposta dada por Jesus quando foi inquirido por Pilatos, referente ao poder que, naquelas circunstâncias, o governador da Judéia possuía: "...Nenhuma autoridade terias sobre Mim, se de cima não te fosse dada." e mediante um recurso de oratória sobre o mau uso do poder, evocou uma sentença condenatória: "Por isso, quem Me entregou a ti maior pecado tem" (Jo 19:11). Assim, é necessário reconhecer, conforme o ensino bíblico, que o poder exercido pelo homem está regido pelo dom divino, é limitado, e seu mau uso está sujeito à condenação.

Mesmo com qualidades limitadas, quem exerce poder está na possibilidade de realizar "tudo quanto seus olhos possam desejar". Esta afirmação leva à construção de um silogismo, cuja conclusão inexorável, para quem vive essa experiência, seria a consecução da felicidade.

Salomão foi uma pessoa que viveu como ninguém essa experiência. Enquanto foi rei, teve poder. Ele mesmo assevera: "Empreendi grandes obras, edifiquei para mim casas, ... fiz jardins, ... comprei servos, ... amontoei prata e ouro, ... sobrepujei a todos os que viveram antes" (Ec 2:4-9). Mas, segundo afirma o próprio rei, através de uma comovida expressão de amargura e frustração, todas essas realizações não contribuíram para sua felicidade: "Eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do Sol" (Ec 2:11). A conclusão do silogismo não foi o que todos poderiam esperar. Mais deprimentes são as análises que o "Pregador" faz dos custos dessas realizações, que não refletem as expectativas desejadas, pelo contrário, seriam usadas ou mal usadas por herdeiros que não aportaram esforço nenhum. Assim, ele lamenta: "Aborreci todo o meu trabalho, com que me afadiguei debaixo do Sol, visto que seu ganho eu havia de deixar a quem viesse depois de mim" (Ec 2:18).

O interesse do "Pregador" em fazer seu depoimento em relação à experiência sofrida durante os dias do seu desgoverno é levar seu auditório à conscientização de que a vida presente não é o fim da existência, e que o objetivo supremo é buscar a salvação, fazendo a vontade de Deus com relação ao uso do poder. Salomão não reprova a atitude de buscar satisfação e felicidade mediante a realização de "tudo quanto desejarem os olhos", segundo a prescrição divina, pois é o mesmo Deus que "dá sabedoria, conhecimento e prazer ao homem que Lhe agrada...", mas não deixa de reafirmar com veemência que a atitude do pecador "é vaidade" (Ec 2:26).

O escritor evangélico deixou registrada a receita messiânica sobre as prioridades da vida: "Buscai, pois, em primeiro lugar, o Seu reino e a Sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas" (Mt. 6:33).