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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina |
Lição 4 – "TEMPO PARA TUDO" |
Ruben Aguilar PhD
Professor de Teologia no UNASP
O capítulo 3 do livro de Eclesiastes é uma demonstração clara do nível de sabedoria que Salomão atingiu; edificada sobre a base sólida de profunda observação e reflexão. Embora essas reflexões tenham sido plasmadas à luz dos derradeiros anos da sua existência, não deixam de refletir o elevado grau de ponderação e certa ousadia ao tratar do arriscado assunto sobre o tempo. O conceito de tempo, ignorado nas emanações culturais dos povos antigos, perambulou de maneira habitual na mente de Salomão, e ele mesmo o deu a conhecer em linguagem acessível, pelos exemplos da periodicidade e repetitividade de fenômenos naturais. Ao destacar esses fatos, Salomão enfatiza a ação da natureza e coloca em corolário a ação do homem. A importância dessa ação humana reside na condição de ser avaliado, julgado. O "Pregador" sente-se, agora, à vontade para referir-se claramente à pessoa de Deus, como o único Ser capaz de exercer julgamento. Se os atos do homem não forem julgados, então, qual é a vantagem deste em relação aos animais?
O Deus do Tempo
Nas culturas antigas, a noção de tempo é bastante difusa. Os filólogos até afirmam não existir, nas línguas do passado, um termo equivalente a tempo. Essa afirmação é válida também para o povo hebreu, pois na língua hebraica do período do Antigo Testamento, a noção de tempo confunde-se com a de: época, momento, dia, eternidade. O autor de Eclesiastes utiliza o vocábulo ‘eth, que nas Bíblias é traduzido por "tempo", mas sua raiz é ‘adah, "ir", "passar". O uso desse termo sugere que a idéia de tempo é suplantada pela idéia do ser, o qual define o conceito de tempo como o ser que passa ou o passar do tempo.
A noção do tempo que passa está presente na própria função verbal da língua hebraica, onde a ação é expressa em dois modos: o completo e o incompleto. O modo completo indica que a ação do verbo foi realizada totalmente, foi cumprida e encontra-se no passado. O modo incompleto assinala que a ação verbal ainda não foi cumprida plenamente ou que aguarda sua realização. Tal modo corresponde ao presente e ao futuro. Dessa maneira, ao fazer uso da sua língua para manifestar seus pensamentos diante do seu interlocutor, o israelita, sempre estará evocando uma ação que já passou ou que ainda passará no tempo. No restante dos séculos da História antiga e durante o período Medieval, alguns pensadores ocidentais procuraram decifrar o dilema criado com essa concepção: É o tempo que passa ou, são os seres (objetos) que passam pelo tempo? O que prevalece é a idéia na qual o tempo é identificado com o ser. Afinal, se não há seres (objetos), não há tempo e, a recíproca também é válida.
Não devemos esquecer que Salomão dirige sua alocução a pessoas que precisam reconhecer a necessidade de salvação ou da vida eterna após a morte. Seu auditório, ou seus leitores, conhecem, pela observação, a repetitividade dos fenômenos naturais. Essa aceitação reflete o domínio do pensamento oriental em relação à característica cíclica desses fenômenos. O "Pregador" ilustra sua ponderação a respeito do passar do tempo mencionando alguns exemplos habituais, com a certeza de ser bem compreendido: "Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou; ... tempo de chorar e tempo de rir; ... tempo de amar e tempo de aborrecer; ..." (Ec 3:2-8).
Essa relação de fenômenos e efeitos de características antinomiais, mencionada por Salomão, demonstra a noção que o rei tinha sobre o tempo, baseada na concepção do passar do tempo. Mas a noção de Salomão sobre o tempo é mais completa. Não acaba nesse passar de efeitos ou movimento de objetos. O rei de Israel esboça a imagem de um Ser permanente, imutável, não sujeito à ação de passar; pois Sua própria existência determina outra qualidade de tempo: o tempo absoluto, a eternidade. Esse ser é o Deus verdadeiro. Nele, o tempo não passa, não tem princípio nem fim, não há passado nem futuro. Ele é eterno e eternos são Seus propósitos para o homem. Então, Salomão em forma enfática afirma que "tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem..." (Ec 3:11). Ele é o Deus do tempo.
Cinco séculos mais tarde, desde aquela difusão de frases relativas ao tempo, emitidas por Salomão, filósofos gregos exprimiram em linguagem erudita, embora timidamente, a noção de "tempo", em grande medida semelhante à noção concebida pelo rei de Israel. Aristóteles, por exemplo, considera a unicidade de tempo e movimento. Basta manter em mente uma imagem de movimento para ter certeza de que houve tempo, e essa relação permite adotar o tempo como medida do movimento. Platão fundamenta sua noção não no passar, mas no estar do tempo. Para esse pensador ateniense, o tempo é manifestação de uma presença que não passa. O tempo é um ser estável e deve a existência a si próprio.
Quase no fim da Idade Média, vários pensadores, em diferentes épocas, sugeriram a existência de duas idéias sobre o tempo: o absoluto e o relativo ou de relação. O tempo absoluto é uma realidade completa em si mesma, ocorre sem relação com nada, é independente dos outros seres (objetos). O tempo relativo é aparente e comum, medida sensível da duração dos seres através do movimento, é chamado também de relação, porque os movimentos seguem uma relação de ordem. O "Pregador", ao enunciar o ciclo de fenômenos naturais, fazia referência ao tempo relativo e, ao propalar a eternidade de Deus, o fazia para referir-se ao tempo absoluto.
O Deus de Israel, como Deus do tempo, ou o tempo absoluto, determina os eventos do tempo relativo. Esse determinismo de fatos a ocorrer é verificado na exposição das Suas promessas, no cumprimento das cláusulas da aliança, no simbolismo profético do movimento das nações, na enumeração dos acontecimentos do tempo do fim, na ratificação sobre a realidade da segunda vinda de Jesus, na esperança de vivenciar a justiça no Juízo final, na encarnação do Filho de Deus. Tudo tem o seu tempo determinado. Assim o confirma o apóstolo: "Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou Seu Filho " (Gl 4:4).
A Eternidade no Coração
Em diversas línguas o termo coração, além de ser usado para designar um órgão vital da anatomia humana, é usado para referir aspectos da vida mental e espiritual da pessoa. No hebraico bíblico, o vocábulo leb, coração, é utilizado pelos diferentes escritores do texto sagrado com a intenção de indicar de modo preciso as faculdades humanas. É o coração a sede dos sentimentos, lugar ou fonte da inteligência, o espaço da mente em que se fazem escolhas, localidade em que, com majestade, assenta-se a vontade. A palavra coração é também utilizada para indicar a essência do ser humano, que, na linguagem bíblica, é representada pela expressão "o homem interior". O coração é o lar onde reside o Espírito Santo, mas quando Deus é rejeitado, o coração é o lugar em que as faculdades mentais tornam-se deliberadamente pervertidas.
Ao estruturar a frase encontrada em Ec 3:11: "Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, ...", Salomão procura conduzir seus ouvintes para meditar na origem do Universo, a criação do mundo. O sentido da oração dita pelo "pregador" deixa em forma eminente o atributo criador de Deus: "Tudo fez" formoso. Nas palavras seguintes, exalta outro atributo divino: a eternidade que, na composição da frase, encontra-se escondida na referência que ele faz ao tempo. O Deus do tempo, o único Ser que tem existência em Si mesmo, cuja existência imutável se manifesta no tempo absoluto; ao criar tudo, determinou a realidade do tempo relativo, onde acontece a existência dos seres criados.
As asseverações seguintes, feitas por Salomão, são efetuadas mediante a utilização da forma verbal pôs, para esclarecer que a intenção do Criador não era determinar um tempo relativo para o homem recém-criado; mas sim, dar a este a oportunidade de viver na eternidade, ou existir no tempo absoluto. Essa prerrogativa, no entanto, estava sujeita a uma função única do ser humano: a capacidade de decidir. Decidir obedecer a Deus ou não. Aqui, o "Pregador" destaca a afirmação de que o homem possui a capacidade de escolha, o livre-arbítrio e, para indicar onde se situa essa função mental, o faz utilizando o vocábulo metafórico coração.
Na criação, o homem teve a "eternidade no coração". Existir no tempo absoluto, na eternidade, estava na sua capacidade de escolha. A realidade presente é uma evidência de que a escolha foi errada, prevaleceu a desobediência, e o homem vive, agora, no tempo relativo, sujeito à morte. Mas o rei de Israel emite expressões animadoras, palavras de esperança. Algumas frases mais adiante, faz alusão à maldade e injustiça do homem em declarado contraste com aquele que procura a justiça, e logo conclui: "Então, disse comigo: Deus julgará o justo e o perverso; pois há tempo para todo propósito e para toda obra" (Ec 3:16 e 17). Esse tempo é a culminação do mal e o início da eternidade. Consolidam-se ali duas realidades: Jesus e o Juízo.
Homens e Animais
Os últimos versos do capítulo 3 de Eclesiastes parecem sair de um texto moderno de Sistemática Animal. Nos inúmeros volumes desta especialidade das ciências biológicas, ao analisar as características anatômicas do homem e as de um vertebrado qualquer, não se encontram diferenças radicais dos aspectos estruturais e funcionais dos órgãos, a não ser no seu tamanho relativo. Assim, sob este ponto de vista, os homens são como os animais: os hominídeos fazem parte do reino animal. O resultado dessa análise é biblicamente corroborado mediante uma sentença salomônica em forma de imprecação: "...e eles vejam que são em si mesmos como os animais. Porque o que sucede aos filhos dos homens sucede aos animais; o mesmo lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, ..." (Ec 3:18 e 19).
Devemos esclarecer que o critério usado pela Sistemática Animal é exclusivamente anatômico. No entanto, o ser humano é único, pois, além de possuir partes anatômicas, está conformado por faculdades mentais e também espirituais; características que os animais não possuem. Então, para efetuar uma perfeita classificação do ser humano, seria necessário tomar em conta as características mentais e espirituais que ele possui, o que nos leva a aceitar que o homem é um ser criado com peculiaridades que o fazem distinto de qualquer ser da natureza. Como tal, o homem não seria um animal, e a sua posição sistemática estaria localizada em outro reino.
No entanto, Salomão destaca que, em geral, os homens são como animais. Fundamenta sua posição relacionando o agir instintivo dos animais com o agir consciente dos seres humanos. Quando o homem age colocando "no lugar do juízo.... a maldade e no lugar da justiça, maldade ainda" (Ec 3:16); certamente "...nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais..." (Ec 3:19). A diferença está no procedimento correto do homem, porque "Deus julgará o justo..." (Ec 3:17). O homem é diferente dos animais unicamente quando considera que seu procedimento estará sujeito a juízo. "Pelo que vi não haver coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua recompensa..." (Ec 3:22).