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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina
1º Trimestre de 2007


Lição 5 – "MAIS VIDA DEBAIXO DO SOL"

Ruben Aguilar PhD
Professor de Teologia no UNASP

Ao lermos os versos do capítulo 4 do livro de Eclesiastes, verificamos que os recursos de retórica disponíveis na mente do seu autor são variados. Salomão deixa de mencionar os aspectos abstratos que envolvem a existência humana. Procura não levantar os enigmas de suas anteriores elucubrações. Agora, para difundir suas idéias, ele utiliza um método de pensamento chamado de dialética. Para isso, diante de uma definição prática, à maneira de tese, registra outra, numa posição diametralmente oposta, à maneira de antítese. As mais notáveis definições práticas e seus opostos que o "Pregador" expõe, são: a opressão e a liberdade; o trabalho e a preguiça; a vida solitária e a vida em comunidade; o reinado do rei velho e tolo e o reinado do rei jovem e sábio. Dessa maneira, Salomão, afasta-se um pouco da ortodoxia para fundamentar seus pensamentos na ortopraxia.

Nessa nova forma de argumentação, dois elementos interpretativos devem ser destacados. Primeiro: o uso do verbo transitivo "ver", no pretérito: "eu vi". Com esse instrumento verbal, o autor pretende colocar-se como simples observador; mas o seu contexto biográfico nos leva a considerar que ele faz afirmações relativas à sua própria experiência de atos praticados no passado, e não é simplesmente um depoimento testemunhal. Segundo: embora o nome de Deus não seja mencionado, ele está implícito na locução do vocábulo que fundamenta seu discurso: "tudo é vaidade". É inútil qualquer ato que não seja impulsionado pela esperança da vida eterna, com Deus.

Uma Sociedade Perversa

"O homem nasce bom; mas a sociedade o corrompe". Foi a forma sucinta e conclusiva a que chegou o enciclopedista Jean Jacques Rousseau na sua teoria sobre o "Contrato Social". Esse idealizador do fundamento filosófico que motivou a Revolução Francesa considerava que a sociedade executa contratos que anulam a liberdade do indivíduo e o oprimem. A opressão do homem pelo homem é uma prática presente e constante em todas as sociedades de todas as épocas, e em todas as esferas, sem exceção alguma. A noção de opressão é mais bem entendida através de expressões relativas do mesmo significado, como: impor servidão, causar aflição, violentar, coagir, vexar, humilhar, esmagar, aniquilar, onerar, apoquentar e outras.

O rei Salomão, quase se eximindo da culpa de ter praticado formas de opressão, faz referência a essa manifestação indigna do comportamento humano, afirmando: "Vi ainda todas as opressões que se fazem debaixo do Sol: vi as lágrimas dos que foram oprimidos, ... vi a violência na mão dos opressores..." (Ec 4:1). Essas palavras, por serem constituídas de substantivos comuns, não conseguem gerar, na mente dos leitores, a imagem exata das conseqüências da opressão. Já os profetas menores são mais específicos nas suas denúncias sobre as práticas de opressão, principalmente Miquéias e Amós.

Vejamos, a seguir, algumas das denúncias feitas pelos profetas e procuremos ver se não acontece o mesmo no tempo atual. Numa sociedade perversa, "o melhor é como um espinheiro; o mais reto é pior do que uma sebe de espinhos" (Mq 7:4); "O filho despreza o pai, a filha se levanta contra a mãe, ... os inimigos do homem são os da sua própria casa" (Mq 7:6); a opressão surge ao nascer do dia, pois durante a noite os opressores "no seu leito, imaginam a iniqüidade e maquinam o mal" (Mq 2:1); e o mal prevalece pela conivência dos juízes, sendo prática corriqueira "o juiz aceitar suborno" (Mq 7:3), mesmo sabendo que a parte acusada é inocente: "Os juízes vendem o justo por dinheiro e condenam o necessitado por causa de um par de sandálias" (Am 2:6); numa sociedade perversa, a opressão apresenta-se em forma velada mediante o uso de "balanças falsas e bolsas de pesos enganosos" (Mq 6:11); e quanto mais fraca é a vítima, mais rigor há na execução de normas opressivas. Por isso, o profeta deixa ouvir sua denúncia: "pisais o pobre e dele exigis tributo" (Am 5:11); sem manifestar solidariedade nenhuma: "oprimis os pobres, esmagais os necessitados" (Am 4:1); a denúncia alcança os detentores de poder, tanto político como financeiro, pois eles: "se cobiçam campos, os arrebatam; se casas, as tomam; assim fazem violência a um homem e a sua casa" (Mq 2:2); viciados pela cobiça e pelo dinheiro, sua maldade não tem limites: "além da roupa, roubais a capa" (Mq 2:8); e o profeta emite uma metáfora com sentido real: "deles arrancais a pele e a carne de cima dos seus ossos" (Mq 3:2).

Durante seu reinado, o sábio de Israel praticou diversas formas de opressão, conforme denuncia o escritor sagrado: "Quanto a todo o povo que restou dos amorreus, heteus, ferezeus, heveus e jebuseus, ... e seus filhos, que restaram depois deles na terra, ... a esses fez Salomão trabalhadores forçados, até hoje" (1Rs 9:20 e 21); "Dominava Salomão sobre todos os reinos ..., os quais pagavam tributo e serviram a Salomão todos os dias da sua vida" (1Rs 4:21); "A razão por que Salomão impôs o trabalho forçado é esta: edificar a Casa do Senhor, e a sua própria casa..." (1Rs 9:15).

Não é de estranhar a maneira como Salomão discorre sobre as nocivas conseqüências da opressão: ele o faz por experiência própria. Essa vivência o habilita a confirmar que a prática da opressão deve-se ao desenvolvimento de dois vícios da consciência humana: a inveja e o egoísmo. O "Pregador" procura deslocar a manifestação dessas aberrações do comportamento humano para uma atividade inerente ao homem, o trabalho: "Então, vi que todo trabalho e toda destreza em obras provêm da inveja do homem contra o seu próximo" (Ec 4:4); mais adiante, ele afirma: "Então, considerei outra vaidade debaixo do Sol, isto é, um homem sem ninguém, ...não cessa de trabalhar, e seus olhos não se fartam de riquezas, ..." (Ec 4:8 e 9); a solidão do homem é devida ao seu egoísmo.

Salomão, pela sua aflitiva experiência passada, declara com plena convicção que a competição humana para o trabalho é motivada pela inveja. Esse vício alastra-se em outras manifestações nocivas como a ambição, o ciúme, a mesquinharia e o entusiasmo delirante, chamado frenesi. Dependendo desse estímulo, o trabalho realizado, não é fascinante nem criativo: é pura zombaria e fadiga do espírito.

O egoísmo é um vício da consciência que gera a idéia de que todos os atos da pessoa são auto-orientados e realizados por interesse próprio. O egoísmo desfigura até as boas ações quando se manifesta maquiado por um sentimento hedonista. Alguns autores defendem a idéia de que toda atividade humana, mesmo a filantropia, é estimulada por uma expressão de egoísmo, pois, ao realizar essa atividade, a pessoa procura sua própria satisfação. Se essa afirmação é real, quanto mais o trabalho, simples ou complexo, pesado ou leve, executado só para obter benefícios. Pessoas empenhadas apenas na obtenção de riquezas são uma demonstração de puro egoísmo.

Na dialética salomônica, se antepõem os conceitos de opressão com a de liberdade baseada na obediência à vontade divina; o trabalho realizado por puro interesse pessoal, com o realizado para beneficiar outros; exemplo desta última sentença e antítese de todo egoísmo é encontrada na vida do Redentor do mundo, Jesus, cuja missão é assim retratada pelo evangelista: "o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em resgate por muitos" (Mc 10:45).

Vale a Pena Viver?

Logo após ter exposto a condição infausta em que a sociedade se debate, numa permanente agonia, Salomão enche a mente dos seus leitores de frustração e temor e exprime seu propósito primordial como respondendo à interrogação em frase não evocada: Vale a pena viver? A resposta do rei de Israel, exclamada com veemência, é: "Não!" pois ele mesmo afirma: "Tenho por mais felizes os que já morreram, mais do que os que ainda vivem; porém mais que uns e outros, tenho por feliz aquele que ainda não nasceu e não viu as obras que se fazem debaixo do Sol" (Ec 4:2 e 3).

Ao incluir novamente nessa afirmação o tema da felicidade, percebe-se que Salomão usa um matiz de ironia incluída nessa fraseologia. Certamente, o "Pregador" não considera a morte como um estado que proporciona felicidade, diante de uma vida regida por uma sociedade perversa. Na dialética salomônica, se estabelece o viver válido, mediante uma vida oposta diametralmente à vida de opressão. Esse viver que vale a pena ser vivido é a vida projetada pelos princípios divinos, que promovem felicidade plena até atingir a felicidade eterna.

A felicidade que as pessoas pretendem experimentar mediante práticas hedonistas são momentâneas e fugazes e, em muitos casos, conduzem ao infortúnio e à fatalidade. A intenção de Salomão ao referir-se à felicidade das pessoas que morrem, ou ainda não nasceram, é a de destacar que no mundo atual, dominado por uma estrutura social de injustiça e opressão, ninguém pode alcançar a real felicidade. Então, ele usa o recurso da dialética para contrastar como tese e antítese, o exemplo de duas vidas de condições diferentes, expondo em forma de provérbio: "Melhor é o jovem pobre e sábio do que o rei velho e insensato..." (Ec 4:13). O adjetivo "melhor", tem o sentido de ser superior em qualidade, e pode ser substituído, na estrutura do provérbio, com o adjetivo "feliz". O adjetivo "sábio" qualifica uma pessoa que orienta a vida segundo os preceitos divinos, pois dEle é que se adquire sabedoria.

Ampliando o sentido dos vocábulos utilizados nessa frase, é possível compreender a extensão do significado do provérbio salomônico e a conseqüente lição para a vida. A lição extraída resulta da interpretação e modificação fraseológica do texto: Feliz é o jovem pobre que anda nos caminhos de Deus; do que o velho rei no seu poder e riqueza que caminha longe do Criador.

Laços de Comunidade

"Melhor só, que mal acompanhado."

É um adágio popular que expressa um mecanismo de proteção pessoal diante das condições de uma sociedade perversa. Sua intenção é preservar o indivíduo da gama de truculências e engodos a que está sujeita qualquer pessoa. Pode ser interpretado com sentido absoluto e também com sentido relativo. O sentido absoluto do rifão popular mencionado aconselha manifestar desconfiança de todos e estimula uma vida solitária. Mais ameno é o sentido relativo que adverte sobre a incidência de maldade por parte de más companhias, mas, além desse limite, há o estímulo para efetuar uma seleção de boas amizades.

Em geral, a solidão, não é uma opção de vida, mas manifestação externa de um trauma interno. Muitos solitários perambulam por ruas e estradas, sem objetivos para esta vida, pois sua mente anuviada reflete estados de autismo, paranóia, esquizofrenia ou qualquer outro distúrbio mental.

No contexto da criação, o autor do Gênesis revela a vontade do Criador ao formar o homem: "Disse mais o Senhor Deus: não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea" (Gn 2:18). "E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra ..." (Gn 1:28). A interpretação desses textos não deixa dúvida nenhuma quanto ao relacionamento que deve existir entre os seres criados. Ali está esboçada a natureza do casamento; ali está fundamentada a constituição da família; ali estão estruturadas as bases da vida social do homem. Não a estruturação de uma sociedade que promova o egoísmo coletivo, através de práticas de eudomonismo, nem tampouco a ambição generalizada que concita à beligerância, mas, uma sociedade harmoniosa, cujos anseios sejam a prosperidade celestial.

Salomão exorta, em forma de provérbio, a cultivar a amizade fraterna, real, cujos fundamentos sejam a felicidade promovida pela comunhão com Deus: "Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho" (Ec 4:9). A "paga" refere-se à retribuição como conseqüência da solidariedade. Lembremos que a palavra "solidariedade" tem a mesma raiz de "solidez"; ou seja, algo estável, inamovível, rígido.

Na prática da solidariedade, o princípio da solidez reside na retribuição efetuada, não por dois indivíduos, como esse termo sugere, mas por três, sendo Deus o terceiro. Esse sentido da retribuição se explica da seguinte maneira: uma pessoa realiza um ato de solidariedade; o beneficiário desse ato pode não ter condições de retribuir a deferência recebida; a sua retribuição é o ato de gratidão a Deus; então é Deus quem verdadeiramente retribui o ato inicial de solidariedade. Disse Jesus: "Dirá o Rei aos que estiverem à Sua direita: Vinde, benditos de Meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e Me destes de comer; tive sede, e Me destes de beber; era forasteiro e Me hospedastes; estava nu, e Me vestistes; enfermo, e Me visitastes; preso, e fostes ver-Me" (Mt 25:34-36). Mais adiante, esclarece a razão dessa final e eterna retribuição: "Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes" (Mt 25:40).