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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina |
Moisés e Zípora: relações familiares |
Marcos Faiock Bomfim
Pastor e Terapeuta familiar
Ministério da Família/USB
Introdução:
Certa dose de conflito entre o casal, influência das famílias de origem, negligência espiritual, diferenças culturais e preconceito por parte da família de origem do marido, fizeram parte da vida deste casal de líderes do povo de Deus. Estes são também problemas estes comuns às famílias de hoje. Isto nos leva a crer que não existe família perfeita, no absoluto sentido do termo. Famílias felizes são aquelas que, com a ajuda do poder transformador de Deus em seus membros, conseguem adaptar-se às mudanças geradas pelas crises pelas quais todas as famílias passam.
E foi tanto a disposição de fazer a vontade de Deus quanto de adaptar-se às novas realidades que ela impunha, que preservaram a vida familiar deste casal. Neste sentido, sua vida em família nos serve de instrução.
I - Cavalheirismo junto ao poço
Fuga: O encontro desse casal aconteceu em virtude da fuga de Moisés, que começou no Egito e terminou nos braços de Zípora (cujo nome, em hebraico, significa pássaro). A partir daí, Moisés não mais fugiu. Ele havia fugido não só do faraó, da pompa, do luxo, das altas rodas da sociedade, da beleza arquitetônica do Egito, das influências sedutoras do culto idólatra, mas também de si mesmo, do Moisés-futuro-faraó, guerreiro, forte, atraente, bem vestido, elegante e bem-apessoado. Com a ameaça de morte por parte de Faraó, percebeu que nada daquilo com o que antes sonhava, deveria ser seu. Deus tinha outros planos para ele, por isso fugiu.
O Conflito: Toda a influência negativa da ímpia corte egípcia não fora suficiente para apagar em Moisés as noções de direito, justiça e moralidade, implantadas pela sua mãe. Foi por isso que, mesmo estando sozinho, chegou ao ponto de expor a integridade física para defender as pastoras junto ao poço. Apesar de estar longe de tudo e de todos (tanto da família biológica quanto da adotiva), Moisés manteve os princípios de vida eterna que havia recebido na infância. E foi essa firmeza de caráter que chamou a atenção de Jetro. Ele, como adorador de Jeová, partilhava desses mesmos princípios. Repreendeu as filhas por não terem convidado o forasteiro egípcio para o jantar. Deus utilizou de Moisés a disposição de ajudar, de colocar-se ao lado do direito sem esperar nada em troca para lhe arrumar um bom lugar para ele se hospedar. Apesar de serem de raças diferentes, Moisés e Jetro possuíam princípios de vida semelhantes (Êxodo 18:21 revela o quanto esse homem também prezava as virtudes corretas), o que propiciou uma agradável amizade e confiança entre ambos.
A Época Certa: Tendo já quarenta anos (Atos 7:23-29), talvez Moisés já estivesse pensando em se casar, mesmo antes de ser perseguido pelo faraó. Se tivesse permanecido no Egito, provavelmente teria se casado com uma princesa egípcia, e sua história poderia ter sido completamente diferente.
Mas por que tão tarde? Esperar até essa idade para concretizar um matrimônio era algo mais ou menos comum naquela época, o que fazia com que a escolha fosse muito mais consciente, racional, e conseqüentemente, as relações familiares fossem mais duradouras, estáveis. Ainda hoje, não é plano de Deus que Seus filhos se casem muito cedo. Como a vida média do ser humano está agora muito mais curta do que naquela época, talvez não seja necessário seguir literalmente o exemplo de Moisés e esperar até os quarenta... Por outro lado, casamentos apressados, com noivos mal saídos da adolescência, como se vê hoje, dificilmente podem dar certo, e o Senhor já Se pronunciou a este respeito (veja O Lar Adventista, págs. 79-82).
O Encontro: Deus deu a Moisés uma esposa oriunda de uma família com princípios de vida semelhantes aos dele, mas com cultura, ou seja, com costumes e valores que estavam em completa oposição ao seu anterior estilo de vida. Ela era parte do preparo de que ele necessitava para o ministério.
Ao explanar a lição, aproveite a história de Moisés para falar sobre:
Perguntas para discussão:
II – Moisés e seu sogro
A identificação entre ambos parece ter sido rápida e profunda. Jetro, muito perspicaz, sentiu-se feliz por poder colocar uma de suas filhas sob os cuidados de um homem de caráter tão nobre como Moisés. Como sogro, Jetro parece ter sido irrepreensível. Ele sai de cena para deixar o casal assumir o palco. Quando Moisés lhe disse que voltaria para o Egito, seu coração de pai deve ter sofrido, mas apoiou o genro e a filha nas decisões da nova família. Deixar de contar com a capacidade gerencial e a visão de Moisés significava para ele grande perda material. Mas fazia parte do caráter de Jetro não ser egoísta. Sabia que a filha não mais lhe pertencia. Ele a havia entregue a Moisés, e isto era o plano de Deus.
Contraste essa atitude com a de outro sogro: Labão, por exemplo. Enquanto Moisés pôde deixar a família da esposa à luz do dia, de maneira honrada, Jacó precisou fugir às escondidas. E quando, depois de perseguido, foi encontrado pelo sogro egoísta e manipulador, este lhe disse: "...me lograste e levaste minhas filhas como cativas... não me permitiste beijar meus filhos e minhas filhas..." Gn 31:26-28 (itálico acrescentado). Tendo um sogro como Labão, Jacó sabia muito bem o que poderia ter acontecido se tivesse tornado seus planos conhecidos com antecedência: "...tive medo; pois calculei: não suceda que me tome à força as suas filhas." (v. 31).
Sogros devem prover liberdade para que genros e noras tomem decisões em ambiente livre de críticas, ainda que estes cometam erros. Bons sogros, em lugar de se fazerem necessários, devem promover a independência dos filhos, e permanecer disponíveis para quando forem necessários. Bons sogros não utilizam chantagens emocionais para deter os filhos, fazendo-os escolher entre a lealdade aos pais ou ao cônjuge – atitude que desestabiliza a relação dos filhos e sabota o casamento. Alguns pais (sogros) fazem isso porque se acostumaram ao papel de pais e temem a possível solidão da fase seguinte, a do "ninho vazio". Em seu egoísmo, desejam que os filhos continuem precisando deles para se sentirem ainda úteis e necessários. E quando o casamento dos filhos acaba, sentem uma pontinha de alegria por receber de volta o papel de pais – "venha pra casa, filhinho da mamãe".
Alguns acham que Zípora teria fracassado como esposa por não acompanhar o marido às durezas do Êxodo, no Egito. Mas este não foi o caso. Sabendo que sua personalidade era "tímida, acanhada..., gentil, afetuosa, e grandemente sensível à vista do sofrimento", Moisés achou por bem poupá-la e consentiu em que ela voltasse para Midiã (veja Patriarcas e Profetas, p. 383 e 384). Ele não a desvalorizou por isso. Joquebede ou Miriã, lutadoras como eram, provavelmente o teriam acompanhado ao Egito. Mas ele não fez comparações. Estava livre destes mandatos familiares e amou sua esposa do jeito que ela era.
Quando, após o Êxodo, a situação se estabilizou, Jetro, como bom sogro, investiu no casamento da filha, levando-a de volta ao marido. Por mais que amasse a filha e os netos, sabia que, diante de Deus, o lugar dela não era mais em Midiã, mas ao lado do esposo, e indo para onde quer que o Senhor os levasse. Sabia que a filha poderia passar por privações ou situações difíceis, longe de seu povo, e que provavelmente nunca mais a veria, e nem aos netos. Contudo, mais uma vez seu caráter justo fez com que a razão se sobrepusesse às emoções e fez o que provavelmente seu coração não desejava. Pais (sogros) altruístas como Jetro validam o casamento dos filhos e fazem da felicidade deles a sua.
Em virtude de coisas como estas é que Moisés considerava Jetro como sendo um homem sensato e coerente, respeitador e amigo. Isso fez com que Moisés acolhesse de bom grado o excelente conselho que o sogro lhe deu. Tudo isto nos leva a crer que não é simplesmente por rebeldia que alguns genros não ouvem o conselho de alguns sogros...
Perguntas para consideração:
III - Zípora e a religião do seu marido
Apesar de ambos serem adoradores do verdadeiro Deus, e de apresentarem coincidências em vários princípios de vida, o casal também conhecia algumas divergências, em grande parte devido às diferenças culturais ou nacionais que havia entre ambos.
Na história da infância de Moisés, as mulheres parecem ser muito fortes, e os homens, relegados a um segundo plano: Miriã, Joquebede e a filha do faraó... Talvez seja por falta de modelos masculinos em sua noção de paternidade que alguns comentaristas lhe atribuem um papel de pai ausente. De fato, pouco se vê de Moisés como pai. Seus filhos não recebem nenhum destaque posterior, ao contrário dos filhos de Arão, por exemplo. Parece que Moisés, por causa de seu incansável trabalho, deixou a educação dos filhos quase que completamente aos cuidados de Zípora.
Talvez por este motivo, e diante dos fortes protestos de Zípora, uma mãe super-proterora, tenha se sentido fraco demais para insistir em que os filhos passassem pelo rito "sangüinário" da circuncisão (veja Patriarcas e Profetas, p. 255). Apesar de conhecer a vontade de Deus, pode ter, por um momento, imaginado que esse era um detalhe quase irrelevante. Por sua vez, Zípora deixou de compreender que Deus pode fazer pedidos diferentes a pessoas diferentes, e que ambas podem estar certas. Por este motivo, não compreendeu as convicções espirituais de Moisés.
Entretanto, diante dos grandes perigos que tinha à frente, ele não poderia contar com a proteção dos anjos enquanto estivesse negligenciando mesmo que fosse um pequeno dever conhecido. Deus não poderia atuar de maneira poderosa em seu ministério enquanto houvesse alguma falta de integridade em seu lar. Seu próprio filho não "poderia ter direito às bênçãos do concerto de Deus com Israel; e tal negligência por parte do dirigente escolhido de Israel não poderia senão diminuir a força dos preceitos divinos sobre o povo." (Patriarcas e Profetas, p. 260). Diante do anjo em atitude ameaçadora, ele compreendeu que Deus não queria um líder forte com uma família fraca.
Após cumprir, ela mesma, o ritual que deveria ter sido feito pelo pai, Zípora o chama de "sanguinário", e aparentemente de forma irada, lança-lhe o prepúcio do filho aos pés. Conforme a cultura da época, Moisés poderia ter-se considerado ultrajado diante de um gesto tão violento da parte da esposa. Mas Moisés soube levar em conta todo o estresse emocional pelo qual Zípora passava, não só por causa da mudança, mas também pelo afastamento da família de origem. Vale a pena notar que, logo depois, ao encontrar-se com Arão, Moisés, em lugar de queixar-se da esposa, falou ao irmão dos planos de Deus para a vida de ambos.
Perguntas para consideração:
IV – Zípora com Miriã e Arão
Moisés havia administrado toda a saída do povo de Israel do Egito sem a presença de Zípora e dos filhos. Apesar de Arão e Miriã ainda não conhecerem a cunhada, já nutriam por ela um aberto desprezo pelo fato de ela pertencer a outra nação ("uma ofensa à família e ao orgulho nacional" segundo Patriarcas e Profetas, p. 383, 384), e por sua pele ser um pouco mais escura que a deles.
Por estar sempre rodeado pelos irmãos, o grande líder não sentia tanto a distância da família, e Miriã e Arão eram muitas vezes consultados, exercendo grande influência sobre ele. Sentiam-se honrados por estar numa posição imediatamente inferior à de Moisés. Mas com a chegada de Zípora, trazida por Jetro, o equilíbrio do poder no sistema familiar mais amplo sofreu uma alteração significativa. Comparando a família e suas relações à alteração de equilíbrio que um móbile sofre quando perde ou ganha um elemento, podemos compreender de que maneira a perda ou o acréscimo de um só elemento, ou a mudança em um dos elementos do sistema familiar afeta todo o sistema.
Os dois irmãos (Arão e Miriã) temeram perder para Zípora a influência que exerciam sobre Moisés, e parece que seus temores foram justificados quando Moisés aceitou a sábia sugestão de Jetro sem consultá-los! Isto era demais! Moisés suportou a queixa "em paciente silêncio" (Patriarcas e Profetas, p. 384, 385). Aqui, aprendemos mais uma lição: ele não trocou o conforto e a paz entre ele e os irmãos pela lealdade para com a esposa. Depois que nos casamos, em caso de conflito, nossa primeira lealdade não deve ser dada nem aos pais nem aos irmãos, mas ao cônjuge. E quando alguém se casa, a família que deseja investir no casamento dos filhos deve incentivar a formação desse vinculo, dessa lealdade, como forma de preservar a relação do novo casal.
Perguntas para consideração:
V- O cunhado de Moisés
O desejo de estender as bênçãos de Deus para a família de sua esposa levou Moisés a estender o convite para o cunhado os acompanhar a Israel. Apesar de saber que era a nuvem que os acompanhava e dirigia (Nm 10:34), Moisés procurou incentivar o cunhado a unir-se ao povo de Deus, fazendo-o sentir-se útil: "e nos servirás de guia" (v. 31). Esse foi o mesmo método utilizado por Jesus quando, à beira do poço, pediu água à mulher.
Apesar de, a princípio, rejeitar o convite, parece que Hobabe finalmente resolveu acompanhar Moisés em sua jornada (Nm 10:33) e lançar sua sorte junto ao povo de Israel, para alegria de Zípora. Seus filhos agora teriam mais primos com quem brincar!
Perguntas para consideração:
Para meditar:
"Foi associando-se com os idólatras e unindo-se às suas festas que os hebreus foram levados a transgredir a Lei de Deus, e trazer Seus juízos sobre a nação. Assim, agora, é levando os seguidores de Cristo a associar-se com os ímpios e unir-se às suas diversões que Satanás é mais bem sucedido ao induzi-los ao pecado" (O Lar Adventista, p. 460).
"Não devemos centralizar nossas afeições em parentes mundanos, que não desejam conhecer a verdade... Em todo nosso trato com eles devemos mostrar-lhes a verdade. Se assim não podemos fazer, então, quanto menos nos associarmos com eles, tanto melhor será para nossa espiritualidade." O Lar Adventista, p. 462.
Zípora e Moisés permaneceram juntos apesar de tudo, e permitiram que o Espírito de Deus resolvesse as crises e conflitos familiares pelos quais passaram. Os bons antecedentes familiares de ambos contribuíram para que o relacionamento fosse fortalecido pelos princípios de vida que escolheram: obediência à Palavra de Deus e lealdade um ao outro. Nisto servem de modelo aos casais de hoje.