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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina |
Lição 6 – "O RICO E O POBRE" |
Ruben Aguilar PhD
Professor de Teologia no UNASP
A palavra ortopraxia é um termo utilizado por algumas expressões do pensamento filosófico moderno para justificar seus enunciados como formas corretas de comportamento. Essa palavra é composta de dois vocábulos gregos: orthos e praxis. O primeiro designa o que é elevado, plano sem rugas, reto, correto. O segundo é uma derivação da raiz prasso, que tem o significado de fazer, executar, praticar, atuar. A partir dessa consideração, a semântica desse termo pode ser: "práticas corretas" ou "fazer o que é correto".
Alguns princípios filosóficos pretendem refletir à risca a real "ortopraxia". Mas, como seres humanos, todos somos conscientes de que tal afirmação é simples presunção, a menos que as práticas propostas estejam baseadas em diretrizes divinas. É aqui que as recomendações práticas sugeridas por Salomão, no capítulo 5 de Eclesiastes, alcançam o estrato das reais "ortopraxias". São conselhos proverbiais de cunho providencial, que têm a finalidade de orientar as pessoas a agir corretamente, a fim de atingirem a salvação eterna. Evitando delongas, o rei de Israel introduz essas recomendações destacando a relação do Deus que está nos Céus e o homem que está na Terra. Logo a seguir, trata de um assunto das relações sociais.
Um dos maiores problemas enfrentados pela humanidade ao longo da sua história é o da desigualdade social entre ricos e pobres. Além da Bíblia, o silêncio das obras que encaram esse problema é profundamente sensível. Talvez devido a essa carência de planos e idéias para solucionar tal questão vital da sociedade humana, as obras de Karl Marx e Frederico Engel, que lutaram para estabelecer a ética do "materialismo dialético" de proteção às classes desfavorecidas tenham tido, e ainda tenham muita aceitação. O interesse em dar solução ao problema da pobreza, manifestado na Bíblia e na ética marxista, pode ser comum; mas o que difere em sentido diametral é a metodologia utilizada para alcançar o propósito de ajuda aos pobres. Enquanto o marxismo promove a luta de classes e o estabelecimento do estado totalitário, a "ortopraxia" bíblica propõe o uso do amor fraternal para minorar a pobreza.
Deus no Céu, humanidade na Terra
Este subtítulo está estruturado por duas frases separadas por vírgula, e parece convencionar a separação de duas naturezas: a divina e a humana. É a fórmula antropogênica do Deísmo, que prefigura Deus como um ser criador do Universo e do homem: logo, é um ser inatingível, separado e indiferente ao que acontece com a humanidade. Não é essa a proposição que Salomão deseja impor. Muito pelo contrário, ele deseja apresentar o interesse divino pela situação humana. Um interesse redentor que se manifesta nos atributos da Sua natureza. "Deus está nos Céus..." (Ec 5:2), uma epígrafe usada pelo "Pregador" para substituir o vocábulo adjetivado El-Elyon, "Deus Altíssimo". Essa expressão revela a glória e majestade de Deus, Sua natureza eterna, bem como o caráter eterno dos Seus atributos.
A majestade divina manifesta-se no templo, e a "praxis" salomônica recomenda: "Guarda o pé, quando entrares na Casa de Deus..." (Ec 5:1). Se Deus está nos Céus, como é que também está presente na Terra, no templo: a Casa de Deus?
A intenção do "Pregador" é transmitir a idéia de que, mesmo Deus estando nos Céus, Sua atuação em favor do homem é na Terra. Essa manifestação divina é conhecida em Teologia como: imanência e transcendência de Deus. Esses termos não são estritamente teológicos: foram assimilados da filosofia. Aristóteles usou esses termos para explicar a propriedade dos gases, principalmente os que desprendem cheiro. A essência encontra-se num recipiente aberto, mas o aroma pode ser sentido no espaço, em toda a sala. O pensador ateniense chamou de imanência, a propriedade da essência, e chamou de transcendência a propriedade do aroma. Assim, Deus nos Céus é a imanência da Sua natureza. Sua revelação na Terra é a transcendência.
Pela Sua transcendência, Deus está no Templo, a Sua Casa. Este é o lugar em que "... chegar-se para ouvir é melhor do que oferecer sacrifícios de tolos, ..." (Ec 5:1). Este é um lugar de adoração. Aqui se faz necessário destacar a característica de um lugar de adoração.
No período patriarcal, antes da construção do Tabernáculo, houve alguns lugares de adoração. Um episódio transcendental na vida de Abraão foi quando Deus lhe comunicou: "de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. ..." (Gn 12:2). "Atravessou Abraão a terra até Siquém. Ali edificou Abraão um altar ao Senhor, que lhe aparecera" (Gn 12:6 e 7). Mais tarde, a promessa da aliança foi confirmada: "nos carvalhais de Manre, ... e [Abraão] levantou ali um altar ao Senhor" (Gn 13:15-18). Semelhante ocorrência aconteceu na vida de Isaque (Gn 26:23-25). Jacó ouviu a voz do Senhor em Betel" (Gn 28:13-19). Betel, "Casa de Deus".
Os textos relacionados no parágrafo anterior mencionam a existência de quatro lugares de adoração antes da construção do tabernáculo: Siquém, Manre, Berseba e Betel. A identificação topográfica era a colocação de uma pedra. O mais importante, no entanto, era o ritual sagrado que consistia em ouvir a renovação das promessas da aliança: "Eu te darei esta terra e multiplicarei a tua descendência". O tabernáculo, o templo antigo e as modernas casas de Deus mantêm o mesmo propósito. Deus deseja renovar a aliança, portanto, a regra prática é: "... chegar-se para ouvir ... Não te precipites com a tua boca ..." (Ec 5:1 e 2). Esta é a razão pela qual cada sábado, os filhos de Deus devem praticar reverência na Casa de Deus: para ouvir Suas promessas de sustento e salvação.
A "humanidade na Terra" encontra Deus na Igreja, a Casa de Deus, para ouvir a renovação da aliança (em hebraico, Berith). Na aliança, o compromisso de Deus é sustentar e salvar, e o compromisso do homem, ou seja, seu voto é obedecer a Deus. Disse Salomão: "... Cumpre o voto que fazes. Melhor é que não votes do que votes e não cumpras" (Ec 5:4 e 5). Essa frase é um apelo para ser fiel a Deus, procurando cumprir os votos específicos, mas, sobretudo os preceitos e as doutrinas aceitas e declaradas publicamente, no voto batismal, de conformidade com as crenças assumidas.
Os pobres
Ao tratar o tema da pobreza, Salomão esboça uma das causas que gera esta anomalia social: a exploração dos menos favorecidos. Ele sugere uma progressão opressiva susceptível de desenvolvimento: "... o que está alto tem acima de si outro mais alto que o explora, e sobre estes há ainda outros mais elevados que também exploram" (Ec 5:8). Especialistas em ciências sociais e humanas apontam vários outros fatores que causam pobreza, como: a inclemência de uma área inóspita, a devastação provocada pela violência de uma guerra, os efeitos arrasadores da força de fenômenos atmosféricos, a incapacidade física das pessoas e, sobretudo, as formas improcedentes de regimes de governo. As causas apontadas até podem ser concretas, mas as idéias propostas como solução desse drama são rotuladas como ineficazes. Como acabar com a pobreza? A resposta é fatídica e pode ser expressa com a frase dos clássicos latinos ao assinalar um impossível: ignoramus et ignorabimus, "não sabemos e nem saberemos".
Sendo um israelita conhecedor da Torah, a preocupação de Salomão pela situação dos pobres não é uma atitude inovadora. Bem sabia o rei de Israel que a pobreza que ele mesmo observava e denunciava podia ser evitada, caso seguisse as recomendações encontradas na "Lei de Moisés" para eliminar esse mal social. O determinismo providencial de Deus orientou a mente de Moisés para que este servo do Senhor relacionasse as medidas a ser postas em prática a fim de evitar a proliferação dos sinais sintomáticos da pobreza.
A seguir, procuraremos transcrever alguns textos extraídos da Bíblia que normatizam a prática social para eliminar a pobreza. Cabe ressaltar que essas leis, estabelecidas com a finalidade social de ajudar os pobres, atribuíam também, para quem as praticasse, certos méritos que refletiam em decisiva manifestação da misericórdia e dádivas divinas: "para que entre ti não haja pobre; pois, o Senhor, teu Deus, te abençoará abundantemente..." (Dt 15:4).
Durante a colheita, a sega não devia ser total; as espigas nos cantos deviam ser deixadas de forma proposital e não se colhiam os grãos caídos. Lv 19:9 e 10.
Cada três anos, o dízimo correspondente dos grãos do terceiro ano devia ser separado para os pobres. Dt 14:28 e 29.
Cada sete anos haveria remissão de dívidas. O credor não exigiria ao devedor o que fora emprestado. Dt 15:1-4.
Se um devedor, não podendo pagar a dívida, se entregasse como servo, este devia ser libertado no sétimo ano, após seis anos de trabalho. Dt 15:12-18.
Sobre empréstimos para israelitas em necessidade:
Se houver uma pessoa em necessidade, deve ser tratada, não com "coração endurecido", nem com "mão fechada", mas receber emprestado o que lhe faltar. Dt 15:7 e 8.
O empréstimo a um necessitado deve ser feito sem o incremento de juros. Êx 22:25.
Se o pobre deixar penhorada sua veste, esta deve ser restituída, sob qualquer condição, no mesmo dia, antes do pôr-do-sol. Ex 22:26 e 27.
Outras práticas impostas ao povo de Israel, para combater a pobreza, foram: o ano sabático, quando a terra produzia só para os pobres; o ano do Jubileu, para remissão de propriedades; a atuação do "remidor", para aliviar o sofrimento das viúvas e órfãos; o hábito gentil da hospitalidade, para socorrer os peregrinos etc.
Prezado leitor: você já leu semelhantes regras em alguma outra obra? Se aplicadas em sua comunidade, poderiam aliviar o fardo dos necessitados?
Os ricos. Nunca o suficiente.
A palavra "suficiente", na sua função gramatical, atua como adjetivo para qualificar um estado de satisfação plena. A natureza, regida por leis estabelecidas por Deus, manifesta sua harmonia graças à satisfatória e suficiente contribuição dos fenômenos vitais que nela atuam. A insuficiência de qualquer agente natural e sua respectiva função, certamente gera caos. Todos os seres da natureza cumprem essa função e sentem-se satisfeitos, inclusive o homem. Mas certas tendências que surgem na intimidade humana provocam uma sensação de insatisfação ou insuficiência que ultrapassa todo limite e se projeta ao mundo ilusório, irreal, difícil de ser alcançado. Uma dessas tendências é o amor ao dinheiro. Salomão afirma por experiência própria e a título de confissão: "Quem ama o dinheiro jamais dele se farta; e quem ama a abundância nunca se farta da renda..." (Ec 5:10).
O autor do Eclesiastes, ao compor os versos dos Provérbios, usou metáfora idêntica para exprimir a intensidade da força que provoca no homem a insatisfação pelas riquezas, comparando-a com a infindável corrente da morte: "O inferno e o abismo nunca se fartam, e os olhos do homem nunca se satisfazem" (Pv 27:20).
A figura de retórica que Salomão usa não condena a posse por parte do homem, de qualquer forma de riqueza, seja em expressões quantitativas ou qualitativas. Ele é consciente de que todo bem procede de Deus: "... Deus conferiu riquezas e bens e lhe deu poder para deles comer..." (Ec 5:19). Mesmo assim, deve-se ter presente que a condenação implícita na fraseologia salomônica é quanto ao uso que se faz dos dons materiais providos por Deus. O uso da riqueza é incorreto quando motivado pelo egoísmo, sem prever a possibilidade de compartilhar uma porção, ainda que mínima, com os menos favorecidos: "Grave mal vi debaixo do Sol: as riquezas que seus donos guardam para o próprio dano" (Ec 5:13).
Alguns textos que relatam biograficamente os atos de Salomão, revelam sem pormenores as formas ilícitas e imorais usadas por ele para acumular riquezas. Esse impulso desmedido atuava como uma substância que dopava a mente normal da sua pessoa, estimulando-o a desejar mais e mais riquezas. Isso parece acontecer a todos os que desejam acumular riquezas para seu próprio benefício: "nunca é suficiente". Os profetas menores são mais específicos ao descrever as formas incorretas de enriquecimento praticadas pelos israelitas. Vejamos, por exemplo, a descrição do texto em que os ricos, através da violência "entesouram nos seus castelos" (Am 3:10).
A carta epistolar de Tiago emite uma sentença contra aqueles que fazem mau uso das riquezas; atitude essa que provoca uma fatal conseqüência: "...ricos, chorai lamentando por causa das vossas desventuras, que vos sobrevirão. As vossas riquezas estão corrompidas, e as vossas roupagens, comidas de traça; o vosso ouro e a vossa prata foram gastos de ferrugem ..." (Tg 5:1-3).
Por sua vez, Salomão, traz breve argumentação sobre a vaidade das riquezas, levando a imaginação dos ouvintes a reproduzir uma cena fúnebre, em que o sarcófago aberto no terreno frio da necrópole aguarda o corpo exânime de quem em vida acumulou riqueza. O "Pregador", então, enuncia uma breve necrologia, uma conjunção de testemunho e sentença: "Como saiu do ventre da sua mãe, assim nu voltará, indo-se como veio; e do seu trabalho, nada poderá levar consigo" (Ec 5:15).