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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina
1º Trimestre de 2007


Lição 7 – CORRER ATRÁS DO VENTO

Ruben Aguilar PhD
Professor de Teologia no UNASP

O conteúdo do capítulo 6 do livro de Eclesiastes continua o mesmo assunto do capítulo 5. Essas palavras destacam no íntimo das pessoas a compreensão do resultado fatídico de se acumular riquezas neste mundo sem considerar o propósito final da existência. No capítulo 5, Salomão relaciona as formas de enriquecimento obtido por ações ilegítimas, como atos de opressão, e as qualifica como "vaidade". No capítulo 6, o rico rei de Israel declara que a riqueza é um dom de Deus e seu mau uso é uma alternativa que desmerece o propósito divino pelo qual essa riqueza foi concedida. Não usufruir os benefícios lícitos que os bens concedidos por Deus podem proporcionar, é "correr atrás do vento".

Na sua inovada versão sobre a riqueza, Salomão amplia o conceito desse termo e projeta suas palavras para além do campo meramente físico. Faz com que a riqueza se manifeste na alegria de uma família numerosa, no período bem prolongado de um ciclo de vida, no acúmulo de discernimento ou sabedoria. O "Pregador", experimentado em aflições durante o período do seu reinado, adverte sobre a visão egoísta e limitada do uso de toda forma de riqueza que não proporciona verdadeira felicidade. Seu estilo agora não segue o padrão metafórico de um provérbio. Utiliza exemplos da vida real para evocar uma advertência em forma de parábola, que sirva de ensinamento ou lição de vida. Suas expressões estabelecem uma gama de questionamentos sobre a vida de uma pessoa que faz mau uso da riqueza. É quase uma acusação dirigida à pessoa que acumula riqueza sem sequer tirar proveito dela.

O "Pregador" objetiva levar seu auditório ou seus leitores à compreensão de que acumular riqueza unicamente pelo fato de acumular é "correr atrás do vento". Seus questionamentos podem ser resumidos da seguinte maneira: Qual é o benefício proveniente da atividade de acumular riquezas, se, finalmente, os bens acumulados serão aproveitados por estranhos? A família numerosa é considerada outra forma de riqueza. Que benefício terá alguém que também acumula riqueza, se os próprios filhos manifestam tamanha indiferença a ponto de de negar-lhe o sepultamento? Qual é o benefício de uma vida longeva, se a riqueza não é fonte de felicidade? Qual é a recompensa de uma vida enriquecida pelo acúmulo de conhecimento ou sabedoria popular se seu fim é o mesmo experimentado por um indouto qualquer? A recomendação final sobre o uso da riqueza é uma alusão evangélica sobre a salvação, enunciada alguns séculos mais tarde pelo próprio Redentor: "Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a Terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no Céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam nem roubam" (Mt 6:19 e 20).

Quando o ouro enferruja

O subtítulo que precede estes parágrafos não tem nenhuma concordância com a realidade física ou natural. Essa frase é, antes de tudo, uma figura de linguagem cujo objetivo é mostrar que todo bem material não tem valor permanente mesmo seja o próprio ouro.

O ouro é um metal encontrado na natureza, em estado nativo. O metal dourado aparece protegido por camadas de areia e em veias de quartzo. Seu valor excede ao de qualquer outro elemento ou substância encontrada na natureza, devido às suas peculiares características físicas e químicas. É um metal relativamente suave e de mais elevado índice de maleabilidade e ductilidade. Resiste à ação do oxigênio, o mais ativo gás da natureza que ataca os outros elementos provocando corrosão. Resiste até à ação do ácido nítrico e a do ácido clorídrico. Só uma concentração dessas duas substâncias, chamada "água régia", é que consegue dissolver o ouro. Assim, o ouro é símbolo de toda riqueza e, como tal, não possui o caráter de perpetuidade. Afinal, a destruição de toda riqueza pode representar o estado do ouro corroído ou enferrujado.

Ao advertir sobre o mal de se acumular riquezas, o rei Salomão repete uma antiga observação da prática seguida pelos que assim procedem, isto é, acumular riqueza com avareza, privando-se até de desfrutar os benefícios e o ambiente de beleza da natureza. Suas palavras a este respeito precisam de algum esclarecimento. Disse o "Pregador": "O homem a quem Deus conferiu riquezas, bens e honra, e nada lhe falta de tudo quanto a sua alma deseja, mas Deus não lhe concede que disso coma; antes, o estranho o come, também isto é vaidade e grave aflição" (Ec 6:2).

A forma literária com que o rei de Israel trata sobre a origem de toda riqueza é uma asseveração que não admite nenhum ceticismo. É Deus que confere toda riqueza, porque Ele é o criador e tudo subsiste pelo Seu poder. Nesse mesmo texto, Salomão diferencia a riqueza física da riqueza moral, ao mencionar outro dom concedido por Deus: a "honra". Pareceria improcedente acrescentar "honra" a quem realiza uma ação fútil, de "vaidade", acumulando riqueza. Na Bíblia hebraica, o vocábulo traduzido por honra é kabod, que pode também ser traduzido por "fama". Esta última acepção configura melhor a qualificação final que o rei de Israel deseja dar a quem assim procede.

O texto que mencionamos expõe uma frase que configura uma anomalia da atitude de Deus ao conceder riqueza ao homem e não lhe permitir que aproveite ou "coma". Se assim fosse, o homem ficaria isento de toda responsabilidade sobre o uso da riqueza. A frase, embora corretamente traduzida, precisa ser interpretada considerando-se os acidentes gramaticais do idioma hebraico. Nos verbos em hebraico existem três graus da ação verbal: simples, intensivo e causativo. Para exemplificar, faremos uso do verbo correr, na terceira pessoa do singular: simples: "ele corre’; intensivo: "ele corre muito"; causativo: "ele é obrigado a correr". O causativo indica que existe outro elemento que "causa" a ação verbal. Esse causativo na voz ativa, chama-se de Hiphil, e na voz passiva, Hophal. O verbo conceder nesse texto, está na voz ativa, no grau causativo, Hiphil. A interpretação do texto seria: Deus é obrigado a não lhe permitir que o homem "coma" (usufrua) da riqueza porque a causa dessa atitude divina é o próprio homem.

Assuntos familiares

A procriação é um dom divino concedido a toda criatura animal ou vegetal. Consciente (homem) ou instintivamente (animais), todos os seres atuam para perpetuar a espécie fazendo uso de todos seus atributos. O cuidado da prole é um mecanismo inato em todos os seres ao ponto de suportar sacrifícios até cruentos, para manter com vida os descendentes. Todas as culturas humanas sempre consideraram os filhos como riqueza e motivo de felicidade.

Na cultura hebraica, o nascimento de um filho era motivo de celebração festiva e marcava o início de uma série de comemorações. Possuir numerosos filhos representava a formação de uma comunidade estimulada para adorar a Deus. Em termos de atividade, os filhos eram elementos de trabalho em conjunto, cuja finalidade era o bem-estar da família. No tratamento social, a família numerosa procurava conviver em harmonia e se alegrava em manter conversas animadas até altas horas da noite. O valor de cada filho era representado por sua capacidade de trabalho. Os filhos representavam a riqueza da família ou da comunidade. Esse valor era mais estimado no caso dos filhos, pois o homem ficava em casa, trabalhando como sócio do pai. O valor era menos estimado no caso das filhas, pois estas abandonavam o lar quando se casavam. Mesmo assim, as filhas eram dadas em casamento mediante o "pagamento" de certo valor, representado em jóias, animais ou serviços. "Herança do Senhor são os filhos... Feliz o homem que enche deles (filhos) a sua aljava" (Sl 127:3-5).

Essa felicidade à qual faz referência o salmista, segundo Salomão, não alcança a quem vive na indiferença dos propósitos divinos, pois, apesar de "gerar cem filhos" não se farta "do bem" (Ec 6:3). Obviamente, essa pessoa vive em conflito com a própria família, preocupada mais com a riqueza do que com o convívio familiar. O desdém dos filhos para com essa pessoa é tão relevante que, na última demonstração filial, negam-lhe a sepultura.

Em condições normais de afetividade familiar, o funeral do pai falecido era celebrado com profundo sentimento de respeito, procurando evitar o extremo de uma manifesta adoração ao corpo inerte do falecido como também evitar, pelo outro extremo, a demonstração de indiferença ou desafeto. O cadáver passava por uma lavagem e preparação do corpo, que representava a viva demonstração de amor. Depois, o corpo era envolvido por panos, para prolongar sua estrutura física e conseguir uma decomposição lenta. Quando depositado no túmulo ou caverna, o cadáver era coberto com especiarias e perfumes, constantemente renovado, para neutralizar os odores provocados pela decomposição. Antes de ser sepultado, o corpo era conduzido, em procissão fúnebre, por lugares habitados, para demonstrar publicamente o extravasar das emoções funestas vividas nessas circunstâncias. Essa demonstração incluía lamentos e choro, bater no peito e rasgar as próprias vestimentas. Famílias de recursos contratavam pranteadores, cantores e instrumentistas para aumentar os alaridos das vozes aflitas.

Na cultura hebraica, a desventura da pessoa que acumulou riqueza e não foi merecedora de um funeral digno é evocada por Salomão como alijamento de uma vida de esperança em Deus. O rei de Israel conclui essa descrição, acentuando mais o desígnio fatídico de quem vive afastado de Deus: "... digo que um aborto é mais feliz do que ele" (Ec 6:3). A menção de um aborto é paradoxal. Sua presença é unicamente um recurso literário para dar maior expressão ao grau de infelicidade que vive uma pessoa sem propósito para a vida futura. Aborto é um ser humano em formação. Mesmo assim, tem a ventura de permanecer na inconsciência e de evitar a infelicidade do existir.

Sábios ou tolos?

O nível de intelectualidade alcançado por Salomão permitiu ao sábio rei colocar à prova a capacidade de entendimento e compreensão dos seus ouvintes ou leitores, em relação às suas propostas. Deixando um pouco de lado seu estilo retórico em forma de parábolas simples, emite então uma frase em forma de provérbio, onde expõe o contraste de características do tipo de pessoas que ele deseja ressaltar, as quais têm um fim comum. Assim, ele declara: "Pois que vantagem tem o sábio sobre o tolo? ..." (Ec 6:8). À primeira vista, em termos de realidade terrena, essa afirmação não teria sentido, pois as vantagens do homem sábio sobre o tolo são inúmeras e evidentes. Mas o objetivo que o rei de Israel pretendia atingir é outro e deixa seu auditório livre para decifrar essa sentença. O que Salomão deseja transmitir realmente? Onde se encontra o nível de equiparação entre o sábio e o tolo?

No texto referido, o "Pregador" utiliza o vocábulo hebraico hakam, sábio. Em geral, esse termo é utilizado para identificar pessoas com qualidades intelectuais acima do comum. Mas tipifica também pessoas que apresentam habilidades para tratar questões corriqueiras da vida; define as qualidades de uma pessoa que age com prudência nos negócios; qualifica as pessoas que demonstram certas habilidades na execução de obras de arte; as que manifestam sensibilidade moral diante de circunstâncias excepcionais e as que têm intimidade com preceitos religiosos e andam nos caminhos de Deus.

Devemos notar que o vocábulo hebraico hakam, sábio, procede da mesma raiz que origina o vocábulo hokmah, sabedoria. Em anterior comentário desta série, ao fazer alusão ao significado deste último vocábulo, estabelecemos a diferença entre a sabedoria que procede de Deus e a sabedoria obtida através de realizações meramente humanas. Da mesma forma, o termo hakam, sábio, serve para definir uma pessoa que cumpre os preceitos divinos e sabe diferenciar entre o bem e o mal, como também serve para designar uma pessoa com habilidades especificamente intelectuais. Certamente, Salomão não equipara o "sábio" que segue as normas divinas com o tolo que tateia nas trevas da ignorância. A pretensão do "Pregador" é chamar a atenção da pessoa que é ou se torna "sábia" segundo o mundo, cujos propósitos finais terminam com a morte, à semelhança do tolo, cujo fim é fatídico, acabando na inevitável decomposição orgânica.

Infeliz é o "sábio" que não alimenta seus ideais com o supremo ideal da vida eterna. Ele é semelhante ao homem rico que vive em fadiga e não goza os bens que acumula. Esse pensamento salomônico, séculos mais tarde, foi levado ao teatro dramático pelo escritor trágico Eurípides, que termina a sua tragédia com a sentença: "Se alguém tem fortuna ... mas não goza nada de seus bens, não o chamo feliz" (fragmento 198 N).