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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina |
A PALAVRA EM NOSSA VIDA |
Amin A. Rodor Th.D.
Professor de Teologia no UNASP
Introdução
Nas últimas lições, foram discutidas as evidências da autenticidade da Palavra de Deus: Suas profecias, as evidências relacionadas com a arqueologia e a ciência em geral. De fato, podemos tomar muito tempo discutindo a respeito das Escrituras, a singularidade de suas previsões, a exatidão de suas histórias, a qualidade e quantidade dos seus manuscritos. Contudo, não "provaremos" a Bíblia até que, de forma experimental, nos aproximemos do seu conteúdo e descubramos o seu centro vital: A pessoa do Senhor Jesus Cristo, e o que Ele significa para nós pessoalmente.
A Bíblia não é um tipo de museu, um livro antigo, para ser exibido por trás de uma vitrine, como se fosse uma relíquia empoeirada, ou um fóssil vindo de um passado distante. Ao contrário, ela é a Palavra de Deus, viva e eficaz. Sua mensagem transcende tempo e espaço, invade transforma o nosso presente. Por meio do Espírito Santo, Deus continua falando ao homem, reatualizando e re-contextualizando Sua mensagem. De fato, as Escrituras exercem sua poderosa influência na vida. Elas agem como lâmpada e luz para o caminho (Sl 119:105); candeia que ilumina o lugar escuro (2Pe 1:19); "Espada aguda de dois gumes" (Hb 4:12); martelo que esmiúça e fogo (Jr 23:29) que ilumina, aquece, purifica e transforma. Tem poder para recriar (Tg 1:18); é espada poderosa em nossa luta contra as forças do maligno (Ef 6:12).
A Bíblia, agente de mudança
Assim como a Palavra foi o instrumento da Criação ( ver Gn 1; Sl 33:6), a Palavra Escrita continua sendo o instrumento divino para a recriação. Tiago 1:18: "Segundo a Sua vontade, Ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das Suas criaturas." Ou, nas palavras de 1 Pedro 1:23: "Tendo sido regenerados, não de semente corruptível, mas de incorruptível, pela palavra de Deus, a qual vive e é permanente"
Sistemas humanos de mudança, por mais bem-intencionados que sejam, são geralmente limitados às esferas específicas e superficiais em sua análise da verdadeira condição humana. Como Karl Barth observa, se quisermos saber o que é o homem do ponto de vista do fenômeno, podemos perguntar à sociologia, antropologia, psicologia, biologia etc. Mas apenas as Escrituras podem fornecer-nos um quadro real do homem, e dele em sua condição caída. O marxismo, como instrumento de mudança social, ensina que a mudança do homem é possível apenas quando as estruturas econômicas são transformadas. Quando o opresso subverter o opressor, apenas então, o homem poderá ser livre, e apenas aí verificará o surgimento do "novo homem". É isto verdade? O registro da história está aberto para a verificação dessa teoria. Verifiquemos os lugares em que o marxismo triunfou, através da revolução. O que constatamos? O triunfo dos opressos não gerou em nenhum lugar conhecido, o "novo homem", mas apenas o "novo opressor".
Jesus foi o único Mestre a insistir que o problema humano é muito mais sério e profundo do que é geralmente observado. O problema real não é apenas falta de educação, melhores condições financeiras e culturais. "Pois do coração procedem maus pensamentos, assassínio, adultério, prostituição, furto, falso testemunho blasfêmia."(Mt 15:19). Podemos educar o homem com os melhores recursos da pedagogia e os mais sofisticados sistemas. O que acontecerá? Devemos lembrar que, embora a educação tenha sua esfera de ação, ela não é absoluta na transformação da pessoa. Ladrões educados provavelmente não assaltarão carteiras ou casas. Eles, contudo, falsificarão documentos, corromperão pessoas, se aproveitarão de oportunidades para se enriquecer e descobrirão formas de furto que os tornem mais perigosos. É somente o Espírito Santo, através da Palavra, que pode transformar o coração, libertá-lo do egoísmo, iluminar a vontade e regenerar a alma.
Praticantes da Palavra
O verdadeiro alvo das Escrituras não é primariamente informar, mas transformar. Deus nunca pretendeu que Sua Palavra inspirada fosse meramente um objeto de pesquisa, mas um guia para a vida. Sua mensagem deve levar-nos à ação. Realmente, do ponto de vista bíblico, a crença se torna fé, no ponto da ação. Em Hebreus 11, a fé é descrita mais em termos de ação que de simples opinião, ou abstração: "Pela fé, Abrão deixou Ur..." "Pela fé, Abel ofereceu melhor sacrifício..." "Pela fé, Noé construiu uma arca..." "Pela fé, Moisés deixou o Egito, não temendo a cólera do rei..." etc. Em outras palavras, a fé os levou à ação. Não somos chamados apenas a aprender ou dominar com a mente o conteúdo da Bíblia. Em hebraico, a palavra ouvir significa realmente obedecer. Isto quer dizer que não teremos ouvido a Palavra de Deus, até que a obedeçamos, até que ela seja integrada à vida de obediência. Observe, por exemplo, Josué 1:8: "Não se aparte da tua boca o livro desta lei; medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de fazer conforme tudo o que nele está escrito..."
Podemos nos equivocar, julgando que mero conhecimento intelectual da Palavra de Deus seja suficiente para estabelecer-nos como cristãos. Tiago 2:19, com uma certa dose de sarcasmo, desafia esta compreensão superficial: "Crês tu que Deus é um só? Fazes bem! Os demônios também o crêem e estremecem." Em outras palavras, o conhecimento da mensagem das Escrituras que não encontra expressão em uma vida transformada e obediente não significa muito. De fato, neste caso, permanecemos no nível dos demônios. Em Mateus 7:24-27, na conclusão do Sermão da Montanha, Jesus afirmou que aqueles que apenas ouvem Suas Palavras mas não as praticam são comparáveis ao homem que constrói sobre a areia. Não está preparado para os dias de crise. E devemos lembrar: as crises não mudam o caráter, apenas o revelam... Começamos por ouvir a Palavra, mas não paramos nesse ponto. O ouvir deve ser seguido pela prática, pelo compromisso real da vida com aquilo que ouvimos da revelação.
Princípios de vida
Em nosso mundo corrupto, as vidas puras e radiantes dos cristãos genuínos representam uma das maiores evidências da origem divina das Escrituras. Nada, senão a Palavra do Criador, pode transformar o egoísmo, o coração manchado e escravizado pelo pecado, em uma personalidade vitoriosa, transbordante em amor. Tais discípulos são verdadeiras "cartas de Cristo, Bíblias vivas, conhecidas e lidas por todos" (2Co 3:2-3)."Para que sejais irrepreensíveis e sinceros,"diz Paulo, "filhos de Deus, inculpáveis no meio de uma geração corrompida e perversa, entre a qual resplandeceis como astros no mundo"(Fp 2:15).
Ao mundo não tem faltado o testemunho de cristãos autênticos, transformados pelo poder vivo e vivificante da Palavra. São testemunhas de Cristo, pessoas que mudaram o curso dos seus tempos, melhoraram o mundo ou reavivaram a Igreja. Milhares de cristãos, alguns muito conhecidos, outros anônimos, têm demonstrado que a mensagem do Evangelho é efetiva, ainda opera milagres onde quer que seja vivida e pregada.
A Palavra de Deus coloca em fuga o adversário. A Espada do Espírito é descrita como o único item ofensivo da armadura cristã (Ef 6:17). Deus não mandou Seus filhos de mãos vazias para o campo de batalha. Se nossa "luta não é contra carne ou sangue" (Ef 6:12), por outro lado, "as armas da nossa milícia [também] não são carnais, mas poderosas em Deus, para a destruição das fortalezas". (2Co 10:4). Cristo usou a Palavra, em Seu confronto com o grande adversário, naquele misterioso dia em que toda a obra de nossa redenção pendeu na balança... "Está Escrito", e todas as citações são extraídas do livro de Deuteronômio, precisamente do registro dos fracassos de Israel. As Escrituras foram apenas citadas, sem qualquer explicação ou comentário. Isto é tudo o que Jesus fez para colocar o inimigo em fuga... "Está Escrito", por quem? Por Moisés, o mensageiro, o servo, a criatura, daquele cuja Palavra liberta em hora de combate e pressão. Como isto poderia ser, não fosse tal Palavra, de fato, a Palavra divinamente inspirada, Palavras de vida?! – O inimigo recua diante da Palavra, e esta é a razão dos seus incessantes ataques contra ela, e a única explicação para as distrações que ele cria, para afastar-nos dela.
Satanás treme diante do poder do Livro no qual o Salvador é anunciado. Nesse Livro ele é completamente desmascarado. Ele odeia a Bíblia, que o apresenta como um colecionador de derrotas, com destruição marcada, como indicado em Gênesis 3:15 e Apocalipse 20:10. Em todas as eras, o diabo suscitou críticos das Escrituras, os quais julgaram que seriam livres seguindo o inimigo. Entretanto, a mais desconcertante característica do nosso tempo não são as dúvidas dos céticos, mas a indiferença dos que se dizem seguidores de Cristo: Cristãos e sem a Palavra! Deplorável, ainda, é verificar que milhares de cristãos, hoje, se unem ao coro para repetir a famosa pergunta do tentador no Éden "Disse Deus?..." sugerindo resposta negativa, e, ofuscados por luzes artificiais, rejeitam a idéia de que a Bíblia é a Palavra de Deus.
Que diz a Palavra? As Escrituras continuam sendo o infalível guia para as complexidades da vida. Continuam sendo a resposta e a simplificação para os dilemas humanos. "Que diz a Bíblia?" Pergunta o antigo hino (Hinário Adventista, 162). Talvez poucos, comparativamente, saberão responder, mas a Palavra de Deus é fonte inesgotável de sabedoria e discernimento. Os olhos que foram ungidos por ela verão melhor e mais longe. Os ouvidos que aprenderam a distinguir sua mensagem, acima do barulho da cultura ao redor, nunca estarão confusos quanto ao caminho a seguir.
Os huguenotes descreviam a Bíblia e a fé cristã como uma bigorna cercada por três fortes ferreiros, com marretas em punho, e sob o quadro, escreveram: "Quanto mais eles batem... Quanto mais eles gritam... Mais suas marretas se gastam." Que forma extraordinária de descrever o poder invencível da Palavra na história e na biografia de vidas humanas. Aqueles que descobrem o centro da mensagem bíblica, a pessoa do Senhor Jesus Cristo, experimentam a vida em outro nível. Eles poderão experimentar a paz que buscaram em muitos lugares, sem jamais encontrá-la. A solidão, as incertezas e as sombras desaparecerão. O próprio medo da morte não mais assustará os seus dias e noites. Não é por acaso que em Sua oração sacerdotal, Jesus orou pelos Seus discípulos: "Santifica-os na verdade, a Tua Palavra é a Verdade" (Jo 17:17). Assim, saber o que diz a Palavra não é um capricho dispensável, como muitos outros. Para Jesus, "nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus" (Mt 4:4). Depois de comunicar vida ao crente, a Palavra de Deus o alimenta e o faz crescer. Cada vez que estudamos e meditamos sobre a Palavra, ela nos fortalece, conforta, desafia e adverte. Dessa forma, uma vez mais as Escrituras demonstram seu caráter sobrenatural.
Reavivamento e Reforma
Cada movimento de reavivamento e reforma experimentado ao longo dos séculos pelo povo de Deus teve que ver com a Palavra. Isso foi verdade em tempos bíblicos. Foi verdade na Idade Média, quando a Palavra de Deus provocou uma verdadeira revolução que mudou o curso da História. Compreendida, ela removeu toneladas do entulho das tradições, superstições e fraudes humanos, contribuindo para a libertação religiosa de toda a cultura ocidental.
É impossível estabelecer em poucas palavras a obra que a Palavra de Deus desencadeou em diferentes períodos da história humana, em termos de reavivamento social. A Bíblia foi pioneira na supressão da escravidão, na emancipação e elevação das mulheres. Ela suscitou compaixão pelo sofrimento e miséria humanos. Inspirou o cuidado de enfermos, dos desabilitados e idosos. Promoveu o estabelecimento de hospitais, asilos e orfanatos. Deu ímpeto ao desenvolvimento da ciência, ao remover as algemas da superstição. Inspirou a luta contra a prostituição, alcoolismo e outros vícios. Despertou instituições de ensino e universidades. Incluiu na sociedade pessoas marginalizadas e inspirou ações contra a pobreza, injustiças sociais e atrocidades contra prisioneiros de guerra. Suscitou ainda instituições como a Cruz Vermelha e o Exército da Salvação.
Na Igreja, a Palavra tem sido o instrumento divino para desafiar os discípulos de Cristo a viver por normas mais elevadas, a confrontar o pecado em suas próprias vidas e a proclamar o evangelho eterno. E. White insiste que "antes da última visitação dos julgamentos divinos sobre a Terra, haverá entre o Seu povo tal reavivamento da primitiva piedade que não foi testemunhado desde os tempos apostólicos" (Testemunhos Para Ministros, p. 508). Para E. White, ainda, esta é a nossa maior necessidade: Buscá-lo deve ser nossa prioridade (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 121. Tal reavivamento, contudo, acontecerá sob a ministração do Espírito Santo (Ibid). E a Palavra, mais uma vez, agora no desfecho da obra do Evangelho, será o instrumento do Espírito. Para Ellen White, "enquanto o povo se acha tão destituído do Espírito Santo de Deus, não pode apreciar a pregação da Palavra". A voz profética aos adventistas aqui conecta o Espírito Santo com o poder transformador da Palavra, que Ele próprio inspirou (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 121).
Há mais de dois séculos, John Albert Bengel observou: "As Escrituras são o fundamento da Igreja, e a Igreja, a guardiã das Escrituras. Quando a Igreja está em forte estado de saúde, a luz das Escrituras brilha; quando a Igreja está enferma, as Escrituras são corroídas pela negligência, e assim, o estado exterior das Escrituras e o da Igreja parecem exibir simultaneamente saúde ou doença; e como regra, a maneira como as Escrituras são tratadas é a exata correspondência com a condição da Igreja".