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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina |
BOÁS E RUTE: FIRMES FUNDAMENTOS |
Pr. Celso Knoener
Ministério da Família - ASP
Mestre em Relações Familiares
É surpreendente e quase inacreditável a amizade entre Noemi e Rute, registrada na Bíblia. Muita gente estremece só de pensar na sogra ou nora. Em uma de suas palestras, o pastor Roberto Rabello declara que a relação sogra-nora está entre as mais difíceis convivências sobre a face da Terra.
Que havia de excepcional nessas duas mulheres? De onde vieram essas criaturas tão diferentes?
Na verdade eram pessoas normais, como qualquer de nós. Experimentaram sofrimento, tinham diferenças, com certeza discutiam e estavam inseridas em um contexto familiar comum aos seus dias. O diferencial era o Deus que transparecia nesse relacionamento.
Viver o milagre, eis a questão
É muito comum ouvir determinado provérbio: "Santo de casa não faz milagre". Mas não há nenhuma constatação científica que sustente essa idéia, nem ensinamento bíblico que o autorize. Ao contrário, Jesus enviou o ex-endemoninhado para contar aos seus o que havia acontecido e encarregou os discípulos de testemunhar começando por sua casa (Jerusalém). Pedro foi levado a Cristo pelo irmão, e Timóteo teve por modelo de fé a mãe. No Antigo Testamento, Deus é chamado de Deus de Abraão, Isaque e Jacó, pais cuja religião mostrou o caráter divino aos descendentes.
Do modo como está formulado, esse provérbio serve mais como desculpa inventada pelo inimigo para uma religião ineficaz. Os que são íntimos conhecem qualquer incoerência vivida nos bastidores. Por falta de um bom testemunho, vem o fracasso em manter os filhos na igreja ou a incapacidade de trazer o cônjuge para Cristo. Vale lembrar que há exceções à regra, mas não são muitas.
"Não é a oposição do mundo que mais nos põe em risco; é o mal nutrido justamente em nosso meio que opera nosso mais sério prejuízo. É a vida não consagrada de professos cristãos meio-convertidos que retarda a obra da verdade, e traz trevas sobre a igreja de Deus" (Ellen White, Para Conhecê-Lo [MM 1965], p. 153).
Noemi viveu o milagre de uma verdadeira vida cristã e não foi apenas para ter uma boa convivência com as noras, Seu testemunho na família foi tão poderoso que arrancou Orfa e Rute do paganismo. Representou tão fielmente a Deus na prosperidade e na extrema adversidade que Rute decidiu renunciar a seu povo e religião para seguir o Deus que brilhava na vida da sogra.
Quão atrativa é nossa religião aos que nos são próximos? Que conceito têm nossos filhos do Deus que professamos seguir? Que benefícios minha fé oferece ao cônjuge que não segue a mesma religião?
Aceitando as pessoas como são
Na genealogia de Jesus, é interessante observar a presença de três nomes femininos que, com certeza, não seriam ali incluídos por muitos de nós: Raabe, a meretriz, pertencente a um povo do qual os israelitas deviam manter distância; Bate-Seba, a adúltera, e Rute, a moabita, de quem somente a 11ª geração teria permissão de pertencer ao povo de Deus. Concluímos que aceitar pecadores e transformá-los é a especialidade de Deus.
Noemi mostrou-se especialista em aceitar e valorizar as pessoas. Não sabemos como foi o namoro e casamento de seus filhos e a conversão de suas noras. Mas conhecer o princípio de que a aceitação vem primeiro e depois a mudança, parece ter sido a razão de seu grande sucesso.
Ainda hoje, dentro das relações familiares, deve ser assim. Primeiro, aceite o cônjuge como ele é para depois conquistá-lo para Cristo. Ame-o incondicionalmente. O procedimento quanto a um filho é o mesmo. Tentar mudar, enquadrar a pessoa dentro de um padrão de comportamento para depois aceitá-la, na realidade constitui uma rejeição.
Nenhuma pessoa, nem casal ou família deveriam ser considerados além da possibilidade de recuperação. Deus ama as pessoas, mesmo na condição de pecadoras e as aceita para então começar o processo de transformação (Rm 5:8).
Uma igreja bondosa e cortês
Bondade e cortesia marcam a vida das pessoas. "Se nos humilhássemos perante Deus, e fôssemos bondosos e corteses e compassivos e piedosos, haveria uma centena de conversões à verdade onde agora há apenas uma" (Beneficência Social, p. 157).
Rute foi confirmada em sua nova fé. Constatou na "igreja" o que já havia visto na vida pessoal de sua sogra. Comovidos, os moradores de Belém receberam de braços abertos as duas viúvas.
Quando os recém-conversos vêm às nossas igrejas e são abandonados à porta por aqueles que deveriam ser seus novos amigos, eles se decepcionam. Muitos tiveram que abandonar família, amigos e vida social para seguir o Deus que encontraram, e agora sentem-se sozinhos e estrangeiros. Pesquisas mostram que a maior razão de abandono da fé por parte dos novos cristãos é ocasionada pela falta de uma rede de amigos. A igreja precisa de pessoas que tenham o espírito dos belemitas e as atitudes de Boás.
Alguém que fez a diferença
Parece que Boás antecipou, na prática, as palavras do seu Descendente: "Era estrangeiro e hospedaste-Me" (Mt 25:35).
O caráter de Boás começa a ser visto na saudação aos seus empregados. Poderia tê-los abordado com as perguntas: Quanto já colheram? Qual é a produção por hectare? Quanto falta para terminar? Mas o valor das pessoas e o seu bem-estar estavam acima das coisas. Para ele, as coisas deviam ser usadas, e as pessoas, amadas, e não o contrário. Igualmente, suas ponderações com Rute mostram um homem polido, educado, um cavalheiro. Seu caráter brilha mais ainda quando descobre uma mulher a seus pés durante a noite.
Ela era apenas uma viúva estrangeira, carente de cuidados e companhia. Poderia muito bem ter servido aos interesses egoístas de um homem na escuridão da noite, desculpado pela falta de valor da mulher na sociedade de sua época ou pelas necessidades biológicas de um solteiro. Mas o que vemos é a prática efetiva da religião de Cristo, que é cuidar das viúvas e órfãos e a integridade e preocupação moral dignos de um José do Egito. Suas considerações foram: "Fique deitada aos meus pés e saia cedo para que ninguém a veja, para que não haja nenhuma aparência do ma. Pode ficar tranqüila, eu vou cuidar do seu caso". Quão poucos têm essa nobreza de caráter hoje, mas quão necessários são na sociedade de hoje!
Escolhas ponderadas e sábias
Parece que Boás obteve informações detalhadas de quem era Rute. Além daquilo que soube a seu respeito junto aos trabalhadores na sega, sabia como Rute tratava a sogra e do excelente conceito que gozava entre as pessoas da comunidade (Rt 2:6, 11; 3:11). Por sua vez, também Rute estava muito bem informada sobre o caráter de Boás (Rt 2:20; 3:18).
Os passos que precederam seu casamento foram dados de modo a evitar qualquer equívoco. Os princípios foram mantidos, o caráter do pretendente foi avaliado, os padrões culturais respeitados.
Algumas lições podem ser aprendidas do casamento de Boás e Rute:
– Deve-se conhecer a família de origem, como seus integrantes se relacionam entre si e a formação nela recebida.
– Deve-se escolher alguém que tenha responsabilidade e recursos para assumir os encargos de uma família.
– Deve-se escolher alguém que já tenha dado mostras de seu caráter.
Ellen G. White apresenta mais alguns conselhos:
"A escolha do companheiro para a vida deve ser feita de molde a melhor assegurar, aos pais e aos filhos, a felicidade física, mental e espiritual – de sorte que habilite tanto os pais como os filhos a serem uma bênção aos semelhantes e uma honra ao Criador" (A Ciência do Bom Viver, p. 357, 358).
"Caso aqueles que pensam em casar-se não queiram fazer amargas, infelizes reflexões depois do casamento, precisam torná-lo objeto de considerações sérias, atentas agora. Dado precipitadamente, esse passo é um dos meios mais eficazes para arruinar a utilidade de rapazes e moças" (Review and Herald, 2 de fevereiro de 1886).
Estudar o caráter da pessoa pretendida e ver sua atitude para com os pais é outra recomendação dada (Ellen White, O Lar Adventista, p. 46, 47).
Quem está interessado num bom partido, também deve ser um. Ambos devem se equivaler.
Crises podem ser degraus no crescimento
As crises são instrumentos que nos fazem crescer. Poucas são as pessoas que, por moto próprio, impõem a si mesmas uma disciplina de desenvolvimento. Para a maioria, a necessidade é fator de disciplina.
São as crises que nos levam a orar mais, procurar soluções, e isto implica em ler a Bíblia e outros livros, alcançando assim maior conhecimento. São elas, também, que podem fazer esposo e esposa conversarem, pais e filhos dedicarem tempo para o diálogo.
Com certeza, ninguém sai da crise do mesmo tamanho que nela entrou. Ou sai derrotado ou sai vencedor. Neste caso, mais experiente e melhor.
Noemi e Rute passaram por elas e saíram fortalecidas. Sua tragédia as uniu mais uma à outra e a Deus e abriu um leque de oportunidades antes inimaginável.
"Adoramos em nossas fraquezas, pois nelas buscamos mais intensamente a Deus" (Ron Flowers, CATRE, fevereiro de 2007).
No idioma chinês, a palavra crise é composta por dois anagramas: um que simboliza "perigo" ou "risco" e o outro que significa "oportunidade" ou "sorte" (Jorge Maldonado, Crises e Perdas na Família, p. 16).
Cabe a cada um escolher o que fará com as crises que encontrar pela vida.