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Lição 8 – DEUS FEZ O HOMEM RETO? |
Ruben Aguilar PhD
Professor de Teologia no UNASP
O título da lição desta semana, ao que parece, é uma indagação fundamentada na observação da multiplicidade de males provocados pelo homem e sofrimentos que ele mesmo padece. O sinal de interrogação que encerra essa frase não evidencia implicitamente uma pergunta, mas sim, uma dúvida sobre a essência da natureza humana. A frase, em si, caracteriza uma das fases da Teologia Histórica na qual surgiu um debate antropológico sobre essa questão, protagonizado por Agostinho, bispo de Hipona, e Pelágio, um monge das ilhas Britânicas. No fim dos versos do capítulo 7 de Eclesiastes, Salomão encerra a questão declara o atributo original da natureza humana com esta afirmação: "Deus fez o homem reto, ..." (Ec 7:29).
Se Deus fez o homem reto, por que prolifera o mal em tantas formas, a ponto de se tentar uma sistematização de erros humanos, que poderiam ser caracterizados pela intensidade, cor, efeito e outros indícios? O enunciado salomônico desperta o pensamento dos seus leitores para refletir com clareza sobre a causa desses males: porque "ele (o homem) se meteu em muitas astúcias" (Ec 7:29).
O capítulo 7 de Eclesiastes é uma exposição teológica sobre a natureza caída do homem. O conteúdo desse tema apresenta um prólogo escrito com as características didáticas de um provérbio, em estilo quase poético, mas estruturalmente é prosaico, ou seja, carente da beleza sonora de um poema. O destaque literário dessa composição é o uso de palavras com sentidos opostos como: o dia da morte e o dia do nascimento; a casa do luto e a casa do banquete; a mágoa e o riso; o sábio e o insensato; o fim e o princípio; os dias passados e os atuais; o justo e o perverso. Nessa relação de conceitos, Salomão contrasta os dois termos usados, indicando que um é mais apropriado para a vida eterna, e o faz utilizando o comparativo: "melhor do que".
Boa fama
Salomão inicia o capítulo 7 de Eclesiastes com uma seqüência de enunciados de realidades extremas, elaborada à semelhança de uma delicada filigrana composta por adjetivos antitéticos, e o faz comparando dois conceitos: a "boa fama" e o "ungüento precioso". O instrumento gramatical de comparação é a junção do adjetivo "melhor", e da preposição "de", que em hebraico estão representados pelos vocábulos: tob min, "melhor do que". Nesse processo de comparação, Salomão coloca em forma eminente a "boa fama", deixando no extremo negativo o "ungüento precioso".
No mundo oriental, o ungüento era uma forma de demonstrar prestígio e inspirar respeito. Em regiões desérticas como a da Palestina, com poucas fontes de água, o que quase tornava impossível o banho freqüente, as pessoas, em geral, procuravam usar ungüentos para eliminar odores e proteger a pele do ambiente quente e ar seco que a ressecava. Alguns ungüentos eram de essências de plantas caríssimas e seu processo de elaboração era guardado em segredo. O valor de alguns ungüentos era tão elevado que seu uso era restrito a pessoas ricas, as quais procuravam manter suas residências ou tendas aromatizadas, criando um ambiente de ostentação e requinte. Essa era uma forma pela qual as pessoas inspiravam respeito e adquiriam poder e fama.
O rei de Israel, que nos seus dias de espiritualidade vacilante, dissipou ungüentos sem medida para manter seu prestígio, nos momentos de arrependimento derradeiro, quando em viva consciência se voltou para Deus, condenou aquela atitude comparando-a com a de alcançar "boa fama".
A diferença de qualidade entre o prestígio proporcionado pelo uso de ungüentos e a "boa fama" se destaca quando se faz a comparação usando-se o significado do vocábulo no original hebraico. O termo que Salomão usa é shem cujo significado mais freqüente é "nome"; dessa maneira, podemos entender que a intenção do "Pregador" é a de salientar a dignidade de um "bom nome" em relação à outra forma de prestígio.
No antigo Oriente Médio, o nome de uma pessoa não somente era considerado um sinal ou meio de identificação. O nome em si era um breve comentário da vida da pessoa. Ao identificar a pessoa, o nome ressaltava suas qualidades de caráter, expunha atributos pessoais e dava motivos para rememorar os atos dignos executados por ela. Pronunciar o nome de uma pessoa digna era considerado como o ato de exaltação de um emblema da comunidade. Dessa maneira, a inferência que se faz sobre a frase escrita por Salomão é a de exaltar a dignidade de uma pessoa, adquirida por atributos individuais, contra o prestígio efêmero que a riqueza proporciona. Além disso, é possível que Salomão, ao realizar essa comparação, tivesse em mente outro significado dado ao vocábulo shem, relacionado com a nomenclatura dada à Divindade.
Na Bíblia hebraica, o nome de Deus aparece em diferentes formas, que na tradução para as línguas modernas são reduzidas aos termos "Senhor" e "Deus". Vejamos alguns dos nomes de Deus que aparecem na Bíblia hebraica. El, "Deus"; El-Shaday, "Deus Todo-Poderoso"; Adonai, "Meu Senhor"; El-Roi, "Deus que vê"; `Elohim, "Deus criador"; Jahveh, "Jeová"; Dabar, "Palavra, Verbo, Ação, Deus que age"; Shem, "Nome". Assim, Antigo Testamento, Deus é também identificado com o vocábulo Shem, "Nome". Utilizando essa tradução, é possível modificar a tradução de Provérbios 22:1 onde se lê: "Mais vale o bom nome do que as muitas riquezas"; para "Mais vale ter Deus do que muitas riquezas". Então, o mesmo autor em Eclesiastes 7:1, teria dito: "Melhor é ter Deus do que o ungüento precioso".
Casa de festas, casa de prantos
O título que encabeça os parágrafos seguintes pode ser o resumo de uma relação de eventos infelizes ocorridos na experiência passada de Salomão. Não conseguindo manter silêncio sobre as funestas conseqüências de sua ímpia atitude, ele revela o que é melhor, em comparação com aquilo que é prejudicial. Muitas vezes, certamente na sua condição de monarca, rodeado do conforto que a vida palaciana lhe proporcionava, e de jovens e mulheres disponíveis para entreter seus momentos com uma quase infindável série de festins, o anuncio da morte de uma pessoa, mesmo conhecida, não era atração de vida em comparação ao momento de alegria na "casa de festa". Mas agora, na última etapa da sua existência, quando vislumbrava a agonia da vida e sua visão se projetava para a eternidade, concluiu que "melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, ..." e logo justifica essa preferência expondo uma reflexão capaz de comprimir muitos aforismos filosóficos: ".. . pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração" (Ec 7:2).
A última frase emitida por Salomão referente à atitude de preferir ir à "casa de luto", além de justificar essa decisão, com o qualificativo de ser "melhor"; estimula a reflexão sobre os valores obtidos durante a vida passada de cada pessoa. É diante do cadáver de uma pessoa, em meio ao triste lamento dos pranteadores, que o homem descobre comparativamente, o valor e o nível da sua personalidade. E se aquele que assiste à "casa de luto" é temente a Deus, seu temor aumenta diante do resultado do juízo divino e da concretização final da esperança que sua fé manifesta.
A seqüência das frases emitidas pelo pregador é constituída de provérbios que, em forma de juízos, reforçam a primeira premissa. O qualificativo persiste: "melhor é a casa de luto", pois ali está o "coração dos sábios" (Ec 7:4), e onde a "mágoa" e a "tristeza" contribuem para tornar "melhor o coração" (Ec 7:3). O sábio rei de Israel vê que na dor se encontra a verdadeira interpretação do significado da vida. A dor e a tristeza são elementos formativos da personalidade para uma vida de perspectivas eternas. A dor é também um fator disciplinador e, dessa forma, educa o homem para o desempenho das lides existenciais.
O "Pregador" fortalece sua visão sobre o benefício que traz a permanência num ambiente de luto, diante da morte; pois "melhor é o fim das coisas do que seu princípio" (Ec 7:8). Por extensão, essa assertiva se aplica a toda atividade que edifica a personalidade, pois em cada realização individual é melhor ver uma tarefa acabada do que simplesmente bem iniciada.
Cabe, finalmente, deixar claro que o sábio Salomão não faz apologia da dor em oposição à alegria. Sua proposição pretende combater o contentamento desregrado que desvirtua a personalidade; a atitude viva e vistosa de quem deformou a consciência moral; o riso estimulado pelo efeito de substâncias ingeridas no ambiente leviano da "casa da festa". Ao contrário, ele exalta a alegria sadia que promove a paz de espírito; virtude dos homens sábios; daqueles que sabem diferenciar o bem do mal; essência da verdadeira sabedoria. Nesse padrão de pensamento, o "Pregador" enfatiza: "Boa é a sabedoria, havendo herança, e de proveito, para os que vêem o sol" (Ec 7:11).
Nossa natureza caída
Na segunda metade do capítulo 7 de Eclesiastes, o rei de Israel expõe alguns exemplos da maldade que impera sobre o mundo da humanidade. Na sua relação, coloca em destaque a perversidade que se manifesta em insensatez e que acaba na loucura. Não deixa de fazer referência aos justos que perecem na sua justiça; e também não exclui a atitude da mulher perversa, cujos sentimentos e disposições de sensualidade conduzem os homens a chafurdar nos vícios. Essa última idéia é expressa na sentença que tipifica a mulher como a "coisa mais amarga do que a morte" (Ec 7:26). Essa última sentença não é a expressão de um sentimento de aversão ou ódio ao sexo feminino. Claramente, a referência é às mulheres de sedução. A conclusão a que chega o "Pregador" em termos genéricos é de que "não há homem justo sobre a Terra que faça o bem e que não peque" (Ec 7:20).
Se não há homem justo, em essência, qual é a sua natureza? Como é que o homem chegou a esse grau de perversidade?
A discussão sobre a natureza humana é parte da Teologia Histórica. Ao longo dos séculos, foram emitidos alguns conceitos sobre o tema; mas o debate que teve maior ressonância foi aquele que ocorreu na segunda metade do século quarto da era cristã, patrocinado por Agostinho, bispo de Hipona, e por Pelágio, prelado das Ilhas Britânicas.
A polêmica em si, sobre a natureza humana, ocorreu no cenário das discussões realizadas no Concílio de Cartago no ano 412; nos Sínodos de Decápolis e Jerusalém, no ano 415; no concílio geral das igrejas africanas, no ano 418; e no segundo Concílio de Cartago, no ano 431. Desconheço qualquer registro histórico das discussões verbais efetuadas pelos protagonistas, o que nos leva a crer que todas as discussões foram baseadas na análise minuciosa do pensamento de Agostinho e de Pelágio.
A biografia da infância e adolescência de Agostinho está registrada em páginas em que as linhas, grafadas alternam cores diferentes, descrevem, por um lado, a figura de um menino vivaz e devotado às práticas religiosas E, por outro lado, mostram um menino ufano e por vezes afoito, qualidades que o impulsaram a praticar atos inadequados, como seu casamento aos 15, e ser pai aos 16 anos. Agostinho expõe alguns vislumbres dessa condição no seu livro Confissões. Possivelmente para justificar essas atitudes é que ele tenha sugerido a idéia da natureza "corrupta" do ser humano. O homem foi criado inocente, imortal, e com livre-arbítrio. Pelo pecado, perdeu esses atributos e a perda se estendeu a toda a humanidade. Então, todos, naturalmente são pecadores.
Por sua vez, Pelágio é descrito como uma personalidade bem disciplinada e afável. Possivelmente, sem ter que justificar erros que porventura fossem conhecidos, sugere uma idéia diferente da natureza humana. O homem foi criado puro, com livre-arbítrio, mas fisicamente mortal. Pelo pecado, sofreu a morte espiritual; mas não perdeu o livre-arbítrio. Então, todos nascem como Adão, retos, e o pecado ocorre pelo exercício do livre-arbítrio, ou seja, cada pessoa peca por sua espontânea vontade. Essa posição, sendo contrária ao pensamento de Agostinho, alcança o outro extremo da questão.
Os textos bíblicos que tratam da natureza humana afirmam que o homem não nasce em corrupção, como herdeiro do pecado de Adão. Também não nasce com as características do primeiro homem, livre de todo efeito da primeira desobediência. Originalmente, o homem, criado à imagem de Deus, tinha os atributos da retidão moral, perdida pela desobediência. Não sendo culpado pelo pecado de Adão, mas sendo herdeiro dos atributos da raça humana, o homem adquire a fragilidade de uma natureza com tendência para o mal. "Eis o que tão somente achei: que Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias" (Ec 7:29).