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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina |
Revelação de esperança |
José Carlos Ramos
Professor de Teologia do Unasp
Observando atentamente o índice das lições deste trimestre na primeira página, é possível visualizar a maneira como os assuntos foram estruturados. Além da primeira, introdutória ao tema, e da última, a lição de fechamento, as demais podem ser agrupadas em dois blocos distintos, um de caráter mais apologético (da segunda à sexta lição), e o outro de natureza mais exortativa (da sétima à penúltima).
No primeiro bloco, os assuntos se voltam mais à autenticidade da Bíblia, e provêem suficientes evidências de que ela é, de fato, a inspirada Palavra de Deus. Somos, assim, fortalecidos na fé e predispostos a reagir favoravelmente ao teor do segundo bloco, que salienta a importância de uma resposta positiva às injunções divinas e suas conseqüências. Afinal, não é possível a harmonia com a Palavra sem que os princípios nela exarados sejam plenamente assimilados e incorporados à vida; tampouco é possível a assimilação e a vivência desses princípios sem que isso resulte em preciosas bênçãos para o obediente filho de Deus.
Daí o enfoque da lição passada, a sétima, mostrando-nos que a Bíblia pode e deve mudar nosso ser e, conseqüentemente, nosso modo de ser. Isso é inferido mesmo no título daquela lição: "A Palavra em nossa vida". Então, a partir da presente, são abordados os maravilhosos efeitos de nossa resposta de fé à Bíblia. Vê-se, em verdade, de que forma ela retribui àqueles que a aceitam: ela consola e gera real esperança, transmite seguras diretrizes de saúde, promove a felicidade, incute sabedoria e faz crescer.
Quão preciosa é a Bíblia!
A "Consolação das Escrituras"
O texto principal do estudo de hoje, Romanos 15:4, menciona três itens: paciência (ou perseverança, constância, persistência, como trazem outras versões), consolação e esperança. Os dois primeiros são provenientes das Escrituras, o primeiro para nos estimular e fortalecer e o segundo para nos envolver e confortar. O terceiro item nos é outorgado em resultado dos dois anteriores.
Algumas questões decorrem naturalmente desse texto. Por exemplo, em que sentido a paciência provém da Bíblia? Bem, suas orientações, derivadas do propósito salvífico de Deus e cobrindo diferentes aspectos da existência, definem o significado e ideal definitivos da vida, enquanto suas promessas impelem à perseverança na preservação desse significado e na busca incansável desse ideal. É pelas promessas de Deus que finalmente são fixados em nós os traços do Seu caráter (2Pe 1:4). Poder divino se concentra nas Escrituras (Mt 22:29) em suficiente medida para conduzir o homem em triunfo até o fim (2Co 2:14; Jd 24). Além disso, a Bíblia descreve o modo como os fiéis do passado suportaram tentações e tribulações: perseverantemente até alcançarem a vitória. Se eles, que eram semelhantes a nós e sujeitos "aos mesmos sentimentos" (Tg 5:17), foram vitoriosos, por que não nós? Então, vale a pena persistir, pois "aquele... que perseverar até o fim, esse será salvo" (Mt 24:13).
Outra questão: por que "consolação das Escrituras"? Porque elas realmente consolam; e consolam porque procedem "do Pai de misericórdia e Deus de toda a consolação" (Rm 15:5); do Filho, aquele que disse: "Vinde a Mim todos os que estais cansados e sobrecarregados e Eu vos aliviarei" (Mt 11:28); e do Espírito Santo, identificado pelo próprio Senhor Jesus como o "outro Consolador" (Jo 14:16).
As Escrituras também consolam porque são capazes de infundir esperança. Mas por que infundem esperança? Acima de tudo, porque foram produzidas pelo influxo de um Deus que ama o ser humano e quer seu bem. Seus conselhos e promessas visam ao êxito nos diferentes aspectos da existência, e garantem o triunfo no maior embate a ser travado, a luta contra a mal, contra o pecado (ver lição de terça-feira).
E, ainda, uma última questão: que tipo de esperança as Escrituras infundem? Bem, se a razão primordial da Bíblia é informar o plano da redenção e tornar-nos sábios "para a salvação pela fé em Cristo Jesus" (2Tm 3:16), temos que convir que toda a esperança por ela infundida está vinculada à experiência da salvação. E como a salvação é desfrutada a partir do momento em que Jesus é recebido como Salvador pessoal, encerrando em si mesma, porém, a certeza de sua plenitude na consumação final, temos que convir que a esperança bíblica modela, com efeito, a presente vida, enquanto avança para o além. Paulo diz que seríamos "os mais infelizes de todos os homens" "se a nossa esperança em Cristo" se limitasse "apenas a esta vida" (1Co 15:19). Por isso, para o mesmo Paulo, a volta de Jesus era a "bendita esperança" (Tt 2:13), o que, igualmente, precisa ser para nós.
Esperança de perdão
Este assunto é crucial: o perdão de Deus. Sem ele, tudo está perdido. "Se observares, Senhor, iniqüidades, quem, Senhor, subsistirá? Contigo, porém, está o perdão para que Te temam" (Sl 130:3 e 4). Mas se sem o perdão tudo está perdido, com ele, tudo nos é oferecido. O perdão de Deus custou a vida de Seu Filho, e é precisamente esse sublime fato que nos dá esta garantia: "Aquele que não poupou a Seu próprio Filho, antes por todos nós O entregou, porventura não nos dará graciosamente com Ele todas as coisas?" (Rm 8:32).
Os sete textos que respondem à pergunta 3 são todos absolutamente explícitos quanto ao oferecimento do perdão. Os dois primeiros e o quarto falam de remissão de pecados, o que lembra o resgate pago por Cristo na cruz (razão porque pecadores podem ser perdoados); os demais mencionam o perdão ou o ato de Deus perdoar, mas um deles, 1 João 1:9, é interessante num detalhe: Neste texto, nos é dito que Deus "é fiel e justo para nos perdoar os pecados" (grifos acrescentados). Esperaríamos que dissesse "fiel e misericordioso", já que não imaginamos o perdão como fruto da justiça divina; esta, em primeira instância, requer nossa punição, não nossa absolvição. Pode ser que o escritor sagrado tivesse em mente a justa fidelidade de Deus em cumprir, a quem se arrepende e confessa, a Sua promessa de perdoar. Não podemos esquecer, todavia, que Cristo pagou o preço do nosso perdão ao assumir a culpa dos nossos pecados e morrer em nosso lugar a morte que nos cabia. Assim considerando, Deus nos perdoa como um ato de justiça de Sua parte, como justo é uma dívida já paga não ser novamente cobrada.
O sacrifício de Jesus solidifica, portanto, a esperança do perdão. Não importa o crime cometido, o negror e hediondez do pecado praticado. Para aquele que se arrepende exercendo fé em Jesus, o perdão é oferecido. Não há a mínima dúvida a esse respeito.
Esperança para vencer o pecado
Este assunto é de fundamental importância. É uma seqüência natural do tema anterior. O que foi comentado sobre a "esperança do perdão" torna-a, indubitavelmente, uma das mais deleitosas esperanças que podemos nutrir. Mas temos que nos precaver quanto a um detalhe. O diabo sabe de toda essa gloriosa história de amor e sacrifício, e do que ela representa para os pecadores, e procura distorcer o sentido da bem-aventurada esperança, transformando a disposição divina em perdoar em um incentivo à prática do pecado. Seria mais ou menos como se alguém raciocinasse nesses termos: já que Deus está disposto a me perdoar, não há problema com o pecado. Posso pecar à vontade!
Não permitamos que esse arrazoado diabólico nos enrede. Nunca a prática do pecado deixa de ser um problema. Deus perdoa o pecado deliberado, como no caso de Davi ao provocar a morte de Urias, mas não esqueçamos quanta angústia e sofrimento esse pecado, em combinação com o do prévio adultério, trouxe para aquele rei. Ele encontrou descanso somente quando reconheceu o seu duplo crime, e o confessou arrependido: "Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a Tua mão pesava dia e noite sobre mim; e o meu vigor se tornou em sequidão de estio. Confessei-Te o meu pecado e a minha iniqüidade não mais ocultei. Disse: Confessarei ao Senhor as minhas transgressões; e Tu perdoaste a iniqüidade do meu pecado" (Sl 32:3-5).
Também não podemos esquecer que, persistindo a deliberação pecaminosa, o resultado será o endurecimento da sensibilidade espiritual. Se Davi continuasse resistindo ao toque de Deus, chegaria o momento em que ele não mais sentiria o peso de Sua mão; ele teria pecado contra o Espírito Santo, tornando-se "réu de pecado eterno" (Mc 3:29) e culpado para sempre. De fato, esse é o único pecado para o qual não há perdão (Mt 12:31).
Assim, a vitória contra o pecado é imperativa para a vida cristã. É com ela que progredimos na fé e crescemos "na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (2Pe 3:18). Crescer no conhecimento dEle é crescer em Sua semelhança.
"Morrer para o pecado" é condição sine qua non para que se desenvolva em nós o processo da santificação, "sem a qual ninguém verá o Senhor" (Hb 12:14). Tem sido corretamente observado que a salvação se verifica em três grandes atos: a justificação, pela qual somos salvos da condenação do pecado; a santificação, pela qual somos salvos da escravidão (ou domínio) do pecado, e a glorificação, pela qual somos salvos da presença do pecado. É óbvio que, através do segundo ato, Deus nos leva a vencer o pecado, como fruto exclusivo da operação de Sua graça em nós. "Graças a Deus", portanto, "que nos dá a vitória em nosso Senhor Jesus Cristo" (1Co 15:57).
Havendo alcançado esta vitória, teremos conquistado tudo. E para alcançá-la, os recursos da graça foram colocados ao nosso alcance. "Somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou" (Rm 8:37). É verdade que, como humanos, somos marcados por fraquezas e deficiências, e às vezes, pode parecer que nosso empenho é inútil, e que não vamos conseguir. Mas Deus é poderoso para nos levar a superar as próprias faltas, e as palavras do profeta são bem apropriadas aqui: "Ó inimiga minha, não te alegres a meu respeito; ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei; se morar nas trevas, o Senhor será a minha luz" (Mq 7:8). Por isso, "olharei para o Senhor; esperarei no Deus da minha salvação; o meu Deus me ouvirá" (v. 7).
A lição sugere seis passos que conduzem à efetivação da vitória contra o pecado. Seria bom que o professor fizessem referência a cada um deles, seguida de breve comentário. O de número 5 me parece de capital importância: "Tome medidas concretas e práticas para evitar as coisas que o levam ao pecado (veja Rm 13:14)." Com efeito, alimentar a inclinação carnal e pecaminosa é um meio eficiente de impedir a concretização da vitória no mais importante embate da vida.
Provisão e proteção
A esse respeito, existem maravilhosas passagens no Antigo e Novo Testamentos. Uma delas é o Salmo 37:25, que abre o estudo desta seção. Outra está no Salmo 40:17: "Eu sou pobre e necessitado, porém o Senhor cuida de mim; Tu és o meu amparo e meu libertador." No Novo Testamento, destaca-se aquela declaração proveniente dos lábios do Salvador no sermão da montanha (Mt 6:25-34): Deus cuida dos pássaros, pequeninos seres da criação, bem como reveste de beleza as flores, e não há de cuidar daqueles que foram criados à Sua imagem?
A lição aponta para o cuidado protetor de Deus em meio às funestas conseqüências do pecado neste mundo, e para o fato de não nos encontrarmos à mercê de leis arbitrárias ou forças cegas e imprevisíveis. Estamos nas mãos de um Deus todo-sábio (Ele conhece nossas necessidades melhor do que nós mesmos, e a maneira mais apropriada de supri-las), todo-misericordioso (Ele tem os melhores propósitos para conosco), e todo- poderoso (Ele é capaz de suprir "infinitamente mais do que tudo quanto pedimos, ou pensamos, conforme o Seu poder que opera em nós" (Ef 3:20).
Aos filipenses, que haviam se associado a Paulo em suas carências, o apóstolo lhes assegurou que Deus haveria de supri-los em todas as suas necessidades (Fp 4:10, 14-16, 18 e 19). Isto nos faz lembrar que Deus honra aos que O honram (1Sm 2:30); a fidelidade nos dízimos e nas ofertas, por exemplo, não será passada por alto (Ml 3:10-12).
A lição ainda lembra que podem ocorrer perdas, mesmo quando existe fidelidade de nossa parte. Afinal, não podemos efetivar um relacionamento com Deus na base de um toma lá e dá cá. Num relacionamento de amor não existe mercenarismo. Deus nos ama e espera de nós uma resposta de amor, que nos leve a crer que, mesmo em momentos difíceis, quando tudo parece desandar, Suas providências para conosco são mantidas. Com efeito, muitas vezes isso será mesmo uma questão de fé, pois fatos podem ocorrer que não entendamos e, todavia, continuará ainda sendo verdade que "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o Seu propósito" (Rm 3:28).
Esperança de vida eterna
A lição reservou para a parte final do estudo o assunto mais delicado e ao mesmo tempo o mais fundamental de nossa trajetória por este mundo: a questão que envolve a morte. Para muita gente, o preparo para a vida é o que o existe de mais importante. Mas a Bíblia mostra que o preparo para a morte é ainda mais importante, porque, segundo ela e pelo poder da graça, a morte não tem a última palavra. Depois dela existem duas situações, e duas apenas, das quais não há como escapar, pois inevitavelmente uma delas será o nosso quinhão: estaremos eternamente salvos ou eternamente perdidos. Como, todavia, ambas acontecem em resultado de escolha pessoal, cada um de nós pode optar pela primeira das duas situações, e nutrir a "esperança de vida eterna".
Em sua parte inicial, o estudo de hoje lembra que a morte aguarda a cada habitante deste planeta, independentemente de idade, sexo, nacionalidade, cor da pele, grau de instrução, condição financeira, nível social etc. Para uns ela chegará mais cedo, para outros, mais tarde, mas indistintamente, todos terão que enfrentá-la um dia. Graças a Deus, porém, a salvação foi também providenciada para todos, e só se perderá quem assim o quiser.
A pergunta 7 nos conduz a dois textos: 1 Coríntios 15:51-58 e 1 Tessalonicenses 4:13-18, que deixam claro que a esperança de vida eterna se concretizará na segunda vinda de Cristo, momento em que aqueles que morreram preparados, ressuscitarão, ao comando de Jesus, imortais e glorificados, para, juntos com os salvos que não morreram e agora igualmente transformados, reunir-se para sempre com o Senhor.
Vida eterna poderá ser conferida a eles porque o Salvador quebrou o poder da morte ao vencê-la na cruz (Hb 2:14; Cl 2:15). Sua ressurreição é uma esmagadora evidência desse fato, pois a morte, tendo sido vencida, não teve poder de segurá-Lo na sepultura (At 2:24). Então, conferindo-lhes agora a vida eterna, Ele cumpre Sua promessa, feita a todos os Seus fiéis seguidores: "Porque Eu vivo, vós também vivereis" (Jo 14:19). É por isso que a volta de Jesus, como já comentei no estudo de domingo, é a nossa "bendita esperança" (Tt 2:13).
O estudo termina com uma solene pergunta: "Como a esperança de vida eterna deve influenciar sua vida agora?"
No estudo de domingo, ao comentar o tipo de esperança que as Escrituras infundem, cheguei à conclusão, com base principalmente em Paulo, de que a esperança bíblica, enquanto avança para além, modelará a presente vida. Segundo o apóstolo, a esperança autêntica não descarta a presente vida, mas se volta com muito mais ênfase para a vida porvir, precisamente em razão de que nossos anseios referentes às coisas temporais serão norteados, moldados, normatizados pela dimensão supra-terrena de nossa esperança. Portanto, não devo estabelecer quaisquer projetos, metas etc., que conflitem com minhas convicções espirituais, empalideçam meu ideal de fé e interfiram em meu relacionamento com Deus, interrompendo minha comunhão com Ele. Dessa forma, meu preparo para a morte, ou melhor, para a vida eterna que virá por fim, muito mais que apenas um propósito, será algo efetivo e definitivo na vida que tenho hoje.