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Lição 9 – DEUS, O CRISTÃO E O REI |
Ruben Aguilar PhD
Professor de Teologia no UNASP
O escritor bíblico, cônscio da sua missão transformadora, ao descrever a vida de Salomão, não se priva da qualidade fundamental que o cronista de temas sagrados deve possuir: linguagem isenta de interesses. Graças a essa virtude é que a biografia do rei de Israel está matizada com as cores brilhantes dos momentos de glória, contrastando com as cores tênues e lúgubres dos seus dias de frivolidade. Dessa nuança, podemos conhecer os retratos encenados na corte, principalmente aqueles em que a lente focal destaca a figura do rei.
O capítulo 8 do livro de Eclesiastes demonstra que o autor enfrenta, na sua memória, a realidade dos momentos de autoridade exercida por ele, na sua função de rei. Seus conselhos emitidos ao estilo de provérbios não são dirigidos aos soberanos, pois estes são escassos; mas aos cidadãos comuns, estimulando-os a uma obediência plena, quase programada, diante do exercício de um regime absolutista. Baseada nessa declaração surge a inevitável questão: Recomenda Salomão uma obediência irrestrita ao rei?
Não devemos esquecer que o "Pregador", antes de simplesmente proferir conselhos, relata seus atos passados, envolto numa auréola de arrependimento e, dessa maneira, recomenda evitar erros sobre a base da concepção primária do "não faça aquilo que eu fiz". A relação iniciada pelo autor, no capítulo que tratamos, aponta outros fatos que genericamente pertencem ao melancólico grupo das injustiças da vida, como: a exaltação do perverso e o esquecimento do justo. Essa gama de injustiças assinaladas pelo autor serve de argumento para despertar no ouvinte ou no leitor do texto que a maior salvaguarda contra essa vexatória condição social em que está mergulhada a humanidade é o fortalecimento da confiança no poder divino. Termina o capítulo com uma breve discussão sobre o conhecimento progressivo alcançado pelo homem comparado com a ação divina. Mesmo que o conhecimento humano seja de grande prosperidade, o "Pregador" afirma enfaticamente que a mente do homem "...não a entenderá..." (Ec 8:17).
"Observa o mandamento do rei"!
Abastecida pelas experiências de vida, algumas benéficas e outras frustrantes, a personalidade de Salomão adquiriu ponderável capacidade para definir normas sobre o bem-viver neste mundo, visualizando o viver no ambiente eterno. Seu interesse é ser claro ao relacionar formas éticas; não podendo, portanto, omitir as regras do relacionamento entre o governante e os governados, o rei e o cidadão ou, em termos atualizados e mais específicos, entre o rei e o cristão.
Para estabelecer a essência da autoridade do rei, Salomão faz uso do esquema trinominal de participação: Deus, o rei e o povo. Esse esquema permite reconhecer que a fonte de poder ou autoridade é Deus. Esse poder é delegado ao rei, que usa essa autoridade para orientar a vida social do povo. Em conseqüência, a recomendação dada pelo "Pregador" é: "...observa o mandamento do rei, e isso por causa do teu juramento feito a Deus" (Ec 8:2). O significado dessa frase, expressa no modo imperativo, pareceria exprimir uma ação de obediência plena e irrestrita ao rei. Essa seria a única interpretação do texto se não se recorresse ao auxílio do contexto.
No contexto bíblico, o Deus supremo é representado com a figura de um rei, conforme o sentido dos seguintes versos: "Escuta, Rei meu e Deus meu, ..." (Sl 5:2); "O Senhor é Rei eterno ..." (Sl. 10:16); "... os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!" (Is 6:5). Dessa maneira, o texto escrito por Salomão pode ser conduzido por uma linha dualista de interpretação. Por um lado, a referência ao rei seria dada ao governante de uma nação e, por outro lado, a Deus, que governa o Universo. Essa forma de interpretação não é arbitrária, pois o escritor bíblico, ao expor seu pensamento, procura assinalar ao mesmo tempo uma aplicação local e outra universal; uma aplicação eclesiológica e outra, escatológica. O próprio Redentor fez uso desse recurso homilético, por exemplo, quando relacionou a destruição de Jerusalém e os eventos do fim do mundo (Mt 24:15-28).
A referência ao rei, soberano do povo, e a obediência devida à sua alta investidura, está reforçada pelo contexto confirmado por Paulo: "Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por Ele instituídas" (Rm 13:1). Salomão completa seu provérbio dando uma regra ética para quem está diante de sua majestade: "Não te apresses em deixar a presença dele..." (Ec 8:3). Essa recomendação sugere evitar tal atitude, pois tem o sentido de deslealdade ao rei, ou demonstração declarada de falta de respeito ou afeto para com sua presença.
Mesmo assim, o texto salomônico não parece determinar uma obediência irrestrita aos mandamentos instituídos pelo rei. Em primeiro lugar o vocábulo traduzido por "mandamento", que aparece nesse texto, na Bíblia hebraica, é pi ou pit. Segundo opinião de filólogos, esse termo não tem raiz semítica e, ao que parece, foi uma inclusão, propositada ou não, feita posteriormente por algum copista que utilizou esse termo extraído do persa antigo. Por essa razão, o significado lato do vocábulo é quase desconhecido. Em segundo lugar, o contexto ressalta e esclarece que os atos de obediência ao rei são limitados, e essa delimitação depende de uma relação com a vontade divina, encontrada no discurso de Pedro diante das autoridades do povo: "...Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus" (At 4:19).
A interpretação da palavra "rei" que aparece no provérbio que tratamos, aplicada a Deus, concorda na sua plenitude com o sentido absoluto encontrado no texto: "Porque a palavra do rei tem autoridade suprema; e quem lhe dirá: Que fazes?" (Ec 8:4). O único ser cuja palavra tem autoridade suprema sobre o homem e sobre todo o Universo é Deus, que o criou conforme Sua vontade: "Tudo quanto aprouve ao Senhor, Ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos" (Sl 135:6); e o agir divino se harmoniza com Sua natureza: "No céu está o nosso Deus e tudo faz como Lhe agrada" (Sl 115:3); só Ele realiza obras incontestáveis: "... Quem O pode impedir? Quem Lhe dirá: Que fazes?" (Jó 9:12).
Um reforço interpretativo do provérbio que ora tratamos, aplicado a Deus, encontramos na frase seguinte do texto, onde Salomão afirma: "Quem guarda o mandamento não experimenta nenhum mal..." (Ec 8:5). O sentido dessa frase é absoluto em extremo e, se aplicado ao mandamento de um rei qualquer, pode ser uma afirmação arriscada; pois nenhuma ordem ou mandamento de soberano assegura imunidade ao sofrimento dos seus cidadãos. A única obediência que concede essa condição de salvação é a obediência aos mandamentos divinos. Intencionalmente ou não, Salomão usou nesse texto o vocábulo hebraico mitzbah, "mandamento", o mesmo vocábulo que aparece no livro de Êxodo ao relacionar os Dez Mandamentos da Lei de Deus.
Confiança em meio à incerteza
Uma das claras e espontâneas confissões sobre erros cometidos no passado aparece esboçada nas palavras de Salomão, ao confirmar as conseqüências geradas por essas atitudes, e logo afirmar: "Tudo isto vi quando me apliquei a toda obra que se faz debaixo do Sol..." (Ec 8:9). Ele se referia às obras que o homem pode realizar para alcançar seus propósitos; mas, ao verificar os resultados, estes eram negativos. Mais do que isso, os ideais apresentaram-se alterados, deformados, numa seqüência de eventos trágicos, impossíveis de evitar, como a força dos ventos em furacão. Então, o autor exala um comovedor lamento: "Não há nenhum homem que tenha domínio sobre o vento para o reter; nem tampouco tem ele poder sobre o dia da morte..." (Ec 8:8).
Com essas palavras e a habilidade de um cenógrafo, Salomão plasma o ambiente em que ocorrem as incertezas da vida. Que fazer para eliminá-las?
As incertezas que acontecem na vida das pessoas são conseqüências de manifestações comportamentais com resultados contrários ao naturalmente esperado. O que naturalmente se espera, por parte de uma comunidade, ao qualificar as ações de um justo e de um perverso? Naturalmente, se espera que o justo seja reconhecido como tal e o perverso seja advertido ou privado de seus direitos. Mas Salomão evoca uma anomalia ética da sociedade ao perceber o contrário: "... vi os perversos receberem sepultura e entrarem no repouso, ao passo que os que freqüentavam o lugar santo foram esquecidos na cidade onde fizeram o bem..." (Ec 8:10).
A gravidade do procedimento humano exemplificado por Salomão, só fica evidente quando o analisamos em comparação com a lei universal da ação e reação, ou seja, a rígida lei natural que estabelece que para cada causa há um determinado efeito. Todos os seres da natureza, localizados no ambiente sideral ou terrestre, participantes do macrocosmo ou do microcosmo, animados ou inanimados, orgânicos ou inorgânicos, estáveis ou energéticamente mutáveis, devem sua existência à observância dessa lei. O contrário resultaria em caos, destruição e inexistência. O conhecimento dessa lei é milenar, embora seu enunciado tenha sido proposto pela primeira vez pelo filósofo grego, Aristóteles; o reconhecimento da sua existência e vigência é unânime na comunidade científica.
Só o homem pode proceder deliberadamente de maneira contrária ao ditado dessa lei universal. Então, cria um ambiente de incerteza e de injustiça.
O rei Salomão, ao destacar o procedimento humano que contraria essa lei universal, adverte outra gravíssima conseqüência: quando não se executa "a sentença sobre a má obra, o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto a praticar o mal" (Ec 8:11). Esse efeito social, sem dúvida nenhuma, aprofunda ainda mais a massa compacta das incertezas do mundo, deixando-a no abismo da desesperança.
A seqüência das palavras de Salomão é um esforço missiológico com o qual procura mudar o panorama cinzento do mundo de incertezas para deixar um céu brilhante com o colorido arco da esperança. Suas palavras refletem a visão escatológica que o "Pregador" divisa para despertar a fé e, ao estimular a confiança em Deus, reconhece que a justiça final é ato supremo da Divindade: "... eu sei com certeza que bem sucede aos que temem a Deus. Mas o perverso não irá bem, nem prolongará os seus dias; será como a sombra, visto que não teme diante de Deus" (Ec 8:12 e 13).
O trabalho que há sobre a Terra
Nas últimas décadas, ou melhor, no último século, o trabalho humano desenvolvido sobre a Terra permitiu elevar o nível de conhecimento até alturas inimagináveis. A tecnologia é de tal grau que, para defini-la, até as expressões superlativas são deficientes. Continuam os trabalhos científicos em várias áreas, realizados com esmero e obstinação, "... pois nem de dia nem de noite vê o homem sono nos seus olhos" (Ec 8:16).
Para grande parte da humanidade, a solução dos problemas humanos reside no progresso da ciência e da tecnologia, não somente para dar maior comodidade e estabilidade social, mas também para promover a saúde ao ponto de eliminar a doença, inclusive a própria morte. Com as experiências recentes da biogenética, parece que o homem está a um passo de compreender os mistérios da vida e, talvez, da morte. Essa esperança anima ainda mais os promotores desses eventos científicos, cujas propostas recebem apoio popular, e dessa maneira exercem pressão nos parlamentos a fim de definir regras gerais que lhes permitam executar tais propósitos, de maneira legal.
Para o cristão, é inevitável o surgimento de algumas questões a respeito. Estas, por exemplo: O trabalho que há sobre a Terra, executado pelo homem, está realmente na posição tal que possa ser comparado com a ação divina? Pode o homem compreender e realizar a grandiosa obra de Deus? Talvez essas questões tenham perambulado pela mente do rei Salomão e estimulado sua resposta pela sua própria experiência intelectual, conhecedor que foi dos arcanos profundos da natureza. A resposta a essas questões, ele a dá, em forma de confissão, enfeitada com palavras que destacam a virtude da modéstia ao reconhecer a grandiosidade da obra divina: "... contemplei toda a obra de Deus e vi que o homem não pode compreender a obra que se faz debaixo do Sol; por mais que trabalhe o homem para a descobrir, não a entenderá..." (Ec 8:17).
As declarações de Salomão não somente fortalecem a confiança nas virtudes e atributos de Deus, mas inspiram a emular sua experiência de humildade. O rei de Israel, coroado com o símbolo do poder e investido com os adereços da sabedoria, reconhece que a coluna da sua presunção cognitiva nesse sentido, sofre desintegração diante da magnitude das obras de Deus, que sábio nenhum poderá realizar. "...e ainda que diga o sábio que a virá a conhecer, nem por isso a poderá achar" (Ec 8:17).