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A Bíblia e a Saúde |
Márcio Dias
Guarda
Editor na Casa Publicadora Brasileira
As lições deste trimestre estão reafirmando e ampliando alguns conceitos relacionados com a Bíblia e mostrando como a Palavra de Deus, além de variada e completa, é extremamente atual e pode nos ajudar a viver melhor em todas as situações.
Nesta semana, o foco foi direcionado para a saúde, uma área muito sensível para todos (cristãos e não-cristãos), pois é um fator determinante da qualidade de vida do ser humano. Ao mesmo tempo, com as facilidades atuais para a comunicação, muitas informações a respeito de novas descobertas científicas e estudos sobre estilo de vida e longevidade estão se tornando cada vez mais populares. Assim, temas como a saúde integral e os bons hábitos de vida estão sendo cada vez mais discutidos.
Portanto, o estudo desta semana não somente é importante para o nosso conhecimento e aplicação como também se constitui em mais um ponto de contato com as pessoas em geral, pelo interesse que o assunto está despertando em nossos dias.
"O evangelho da saúde deve estar firmemente associado com o ministério da Palavra. É desígnio do Senhor que a influência restauradora da reforma de saúde seja parte do último grande esforço para proclamar a mensagem do evangelho." (Ellen G. White, Evangelismo, p. 261).
I - Ter saúde
Nesta primeira parte, a lição propôs 6 textos bíblicos para demonstrar que a saúde faz parte da religião e não deve nem pode ser considerada de forma independente.
Como disse Paul Tillich: "O homem é uma unidade multidimensional... há uma inter-relação entre as diferentes qualidades da vida humana de tal forma que uma não existe independentemente nem acima de outra. Pode-se até, por conveniência, mas não por necessidade, distinguir dimensões como: física, química, biológica, psicológica, mental, histórica... O mais importante, entretanto, é que nada disso sobrevive separadamente."
Essa indivisibilidade e integralidade do ser humano, tão claramente apresentada na Bíblia e, hoje, aceita pela ciência, nem sempre foi compreendida. Houve tempo em que predominava uma supervalorização do espiritual com conseqüente desprezo pelo físico. Cria-se que, quanto mais mortificado fosse o físico, mais apurada seria a espiritualidade.
Portanto, vale a pena detalhar os seguintes textos, que fazem parte da teologia da saúde:
a. Rm 12:1 – Numa cultura em que predominava extrema licenciosidade e a busca desenfreada de prazer, Paulo procurava resgatar os pagãos de suas práticas degradantes e se esforçava para destacar perante os novos conversos a pureza de vida.
"A condição da mente e da espiritualidade dependem, em grande medida, da condição do corpo. Portanto, é essencial que as faculdades físicas sejam conservadas em ótima saúde e no melhor vigor possível. Qualquer prática danosa ou complacência egoísta que comprometa a saúde física dificulta o desenvolvimento mental e espiritual." (SDABC, v. 6, p. 611).
b. Rm 14:7 – Esse texto tem sido utilizado para falar da influência de uma pessoa sobre outra, mas o sentido verdadeiro é: Ninguém tem o direito de dizer: "faço que bem entendo com meu corpo ou minha mente." Todo ser humano é dependente de Deus, tanto física quanto moralmente, e tem que levar isso em conta em qualquer situação. Ninguém é livre para fazer o que quer, a não ser que sua vontade esteja perfeitamente afinada com a vontade de Deus. Quem desconsidera isso é escravo de Satanás, não importando quão livre pense que é. Portanto, "nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si".
c. 1Co 3:16 e 17 – A palavra "santuário", nesse texto, corresponde a naós, em grego, que era a parte mais sagrada de um templo (hieron). Destruir ou macular o santuário de Deus é pecado e compromete o encontro entre Deus e a criatura humana, destruindo um relacionamento vital, não só para a existência atual desse ser, quanto para a sua salvação. Veja como é importante a saúde.
d. 1Co 6:19 e 20 – Esse texto avança ainda mais no conceito de dependência e relacionamento responsável com Deus porque mostra que, além da Criação, a Redenção dá a Deus um duplo direito sobre nós. Moralmente, depois do tremendo sacrifício de Cristo por nós, somos "obrigados" a viver somente para Deus. O ser humano, que jamais foi "dono do seu nariz", após a sua redenção tem uma dívida ainda maior de gratidão que deve redundar em redobrado interesse e desejo de conhecer e obedecer a vontade de Deus. Qualquer pecado contra o próprio corpo é cometido contra o Criador e contra o Redentor.
e. Ef 5:29 – Uma pessoa normal, que está com seu juízo em condições satisfatórias, cuida do seu corpo, com o mesmo interesse e desvelo que Cristo cuida da Igreja.
f. 3Jo 1:2 – A fórmula da saúde é: Corpo sadio + Mente bem estruturada + Relacionamentos saudáveis + Certeza da salvação em Cristo.
Quando prosperam o caráter e a espiritualidade, o corpo tem melhores condições de saúde; e o inverso também é verdadeiro. O inimigo sabe disso muito bem e atua para que os cristãos caiam para os extremos (ver Testemunhos Para a Igreja, v. 2, p. 375, 376).
Resumo: Cuidar do corpo faz parte da religião verdadeira.
O ser humano não é independente.
Pertencemos a Deus, pela Criação.
Pertencemos a Deus duplamente, pela Redenção.
O cuidado de Cristo em relação à Igreja é o padrão.
Saúde só o é se for integral.
II – Saúde e Restauração
Por mais física que seja a cura, ela tem sempre um aspecto espiritual. Assim como a doença, a degeneração e morte são conseqüências de desobediência e rebelião, a cura sempre é um ato de salvação. Ter saúde, ou ter a saúde restaurada, significa uma bênção divina. Estar salvo da doença é estar salvo dos efeitos do pecado. Isso não significa isenção de pecado, mas ilustra a restauração final que inclui o livramento total do pecado.
Isso acrescenta uma dimensão importante à questão da saúde: para o cristão a saúde é mais do um estado de bem-estar integral, é uma antecipação, uma amostra, da salvação eterna. Além do amor incondicional, outra razão por que Jesus demonstrou tanto interesse em socorrer os aflitos e curar os enfermos, dedicando a isso boa parte do Seu ministério terrestre, era ilustrar ou demonstrar, na prática, a restauração do ser humano, a salvação do pecado.
Nos textos da pergunta de segunda-feira, Paulo explica que:
a. Rm 6:4 – "andemos" = vivamos diariamente, de forma contínua, uma vida nova. Paulo preferiu usar a palavra zoé (que significa vida integral) em vez de bios (que tem mais a ver com o aspecto físico). Ou seja: que foi convertido, não só ganha esperança de salvação, mas uma nova qualidade de vida, em todos os seus aspectos; e isso é um penhor da sua salvação.
b. Rm 6:9-11 – "a morte já não tem domínio sobre ele" = é claro que a segunda morte, mas também a degeneração, a dor, o sofrimento, são mitigados, de tal forma que a regeneração inclui aspecto de cura, ainda que a completa restauração só ocorra no final da história.
c. 1Co 15:51-57 – A restauração final, seja pelo processo de transformação gloriosa (para os que estiverem vivos) ou de ressurreição gloriosa (para os salvos que estiverem mortos) é ilustrada pela restauração da saúde (bem-estar) do cristão.
Resumo: A salvação inclui algum aspecto de cura. Se essa cura não é integral imediatamente, por causa da presença e efeitos do pecado ainda no mundo, a mente ou o espírito são fortalecidos e abençoados, e o cristão pode sentir um acréscimo de bem-estar. Isso é uma amostra e antecipação da restauração final.
III – Jesus, o grande médico
A lição afirmou que cerca de 20% dos evangelhos são dedicados à cura de doentes, e que os casos específicos relatados são 35, fora os relatos gerais. Isso demonstra como Jesus valorizou a saúde, não apenas como um objetivo imediato – para que as pessoas se sentissem melhor – mas também como um objetivo mediato – evidenciando a final libertação do pecado.
Sobre a importância e propósito da cura no ministério terrestre de Jesus, a lição apresentou os seguintes textos:
a. Mt 4:23 – "toda sorte de doenças (malakía, doenças menos graves) e enfermidades (nósos, as doenças graves, daí veio a nossa antiga palavra para hospital: nosocômio)".
b. Lc 6:7-19 - Esse é um dos 7 casos de cura no sábado, dentre os casos claros de cura mencionados nos evangelhos. Mesmo sendo um mal que não oferecia perigo de morte, Jesus deu toda a atenção ao sofredor e demonstrou que deixar de salvar alguém é julgar e condenar essa pessoa. Os escribas e fariseus estavam prontos a salvar um animal no sábado, mas não demonstravam a mesma disposição para com as pessoas. O último verso dessa passagem diz que "dEle saía poder (dunamis)", ou seja, o poder curador irradiava de Jesus, sempre que necessário, e Ele manifestava a melhor disposição para atender a todos que necessitavam de alívio.
c. Lc 9:11 – cura e ensino eram um binômio constante na obra de Jesus. Não tem sentido pregar verdades espirituais desconectadas da solução dos problemas temporais.
d. Lc 16-21 – Numa época em que se cria que pobre, cego, leproso, paralítico e doente mental eram pessoas amaldiçoadas por Deus, Jesus definiu Sua missão em termos de atender, aliviar, socorrer, curar e salvar essas pessoas.
Os atos de Jesus eram demonstrações do poder e interesse divino para perdoar e restaurar. Para as pessoas beneficiadas traziam alívio e uma injeção de fé que as impulsionavam para aceitarem a salvação. E as demais, essas curas (que eram analisadas e propagadas de todas as formas) evidenciavam que Deus não é o causador de nenhum sofrimento e está desejoso de restaurar e salvar a todos que buscam e aceitam Seu oferecimento gratuito.
Resumo: Jesus Se esvaziou de todas as prerrogativas divinas, mas ainda assim tinha poder e disposição para curar. Que exemplo para nós!
Para Jesus, o sexto mandamento não podia ser anulado pelo quarto, ou seja, o quarto mandamento não podia ser motivo para alguém se eximir de atos de misericórdia.
Além de ato de misericórdia, a cura é uma poderosa cunha para o evangelho da salvação, que deve ser usada com maior intensidade na finalização da obra de pregação do que foi no seu início.
IV – Moderação em Todas as Coisas
Se nas duas partes anteriores a lição apresentou a cura e a restauração como atos divinos, perante os quais o ser humano é geralmente um receptor ou um agente multiplicador, nestas duas últimas a ênfase está na prevenção, na cooperação, e nas atitudes mentais e sociais, para que os efeitos das bênçãos de Deus sejam mais amplos, profundos e duradouros. Como foi dito acima, na fórmula da saúde entram outros fatores tão importantes quanto o bem-estar físico, os quais não podem ser esquecidos.
Os textos da lição de quarta-feira apresentam importantes sugestões de hábitos para a boa saúde mental:
a. Fp 4:4-9 – "Alegrai-vos sempre" – "seja a vossa moderação [domínio próprio] conhecida de todos" – "não andeis ansiosos" – "orações, súplicas e ações de graças"
Vale a pena destacar as "peneiras’ ou "filtros" que devemos utilizar para garantir a qualidade dos nossos pensamentos e da nossa saúde mental: Só pensar no que é: (1) verdadeiro, (2) respeitável, (3) justo, (4) puro, (5) amável, (6) de boa fama, (7) virtuoso, (8) um louvor a Deus.
b. 1Co 9:25 – exercer domínio próprio, Paulo compara a santificação ao rigoroso treinamento de um atleta olímpico, e ainda salienta que os objetivos do cristão são mais nobres e duradouros. Esse domínio próprio não leva o cristão apenas a rejeitar terminantemente tudo o que é nocivo, mas também a usar com moderação e adequação o que é saudável, além de aprender a suportar as pressões, a dominar os seus impulsos, a ser tolerante e piedoso.
c. Gl 5:23 – Entre as 9 virtudes do "fruto do Espírito", Paulo menciona o domínio próprio, por último, como que indicando que é uma das qualidades mais difíceis, que muitos só conseguem desenvolver no polimento do seu processo de santificação.
(Só abrindo um parêntese aqui para recordar rapidamente algumas diferenças entre três expressões que não podem ser confundidas: Fruto do Espírito – são qualidades que todos devemos desenvolver durante o processo de santificação. Como o próprio nome indica, é o resultado da operação do Espírito Santo em cada pessoa que aceitou a salvação e permitiu a direção do Espírito em sua vida. Obras da carne – exatamente o oposto ao "fruto do Espírito". São os vícios, atos ou atitudes pecaminosas naturais na vida de quem não aceitou a salvação provida pelo sacrifício de Cristo ou apostatou da fé. Dons do Espírito – são habilidades, ou algum tipo de capacitação, úteis no trabalho para Deus, sempre usadas em favor dos outros, não geram benefícios em favor de quem possui o dom nem são prova de santificação.)
d. Tt 1:8 e 2:2 – nesses dois versos são repetidas ou reforçadas outras qualidades positivas e importantes para desenvolver uma boa saúde mental e emocional, sobretudo para os líderes na igreja: [Ser] hospitaleiro, amigo do bem, sóbrio, justo, piedoso, temperante, respeitável, sensato, sadio na fé, no amor e na constância.
Resumo: Quem vive corretamente, pensa corretamente.
O desenvolvimento do caráter cristão requer o desenvolvimento de hábitos saudáveis e o cultivo de uma boa saúde mental, emocional e espiritual.
V – Relacionamentos Saudáveis
Nesta última parte, a lição mostra como o conceito de saúde emocional, tão comentado nos últimos tempos no campo das relações humanas, sempre esteve presente e bem desenvolvido na Bíblia.
Os textos principais são:
a. 1Co 13:4-7 – Aí o apóstolo Paulo cita sete características positivas do amor e 8 atitudes estranhas à sua natureza.
b. 1Jo 4:7 e 8 – O discípulo do amor também tem muito a ensinar sobre o amor, principalmente que ele procede de Deus, fortalece as nossas relações, tem reflexos na nossa saúde física e nos protege do medo, angústia, depressão, e ainda reforça e amplia o nosso testemunho em favor da verdade. Isso é vida saudável na sua maior plenitude.
De um texto do Dr. J. A. Scharffenberg, cito:
"Berkman e Syme atribuíram a mais baixa taxa de mortalidade para as pessoas que desenvolveram mais relações sociais. As quatro áreas estudadas foram: (1) casamento, (2) contatos com amigos íntimos e parentes, (3) membros da igreja, (4) participação formal ou informal em grupos e associações. As pessoas com mínimas relações sociais tiveram uma taxa de mortalidade duas a três vezes maior do que as mais bem relacionadas socialmente, isso independeu das outras práticas de saúde."
Duas atividades de aplicação desta lição para realizar com sua Unidade:
1. Colher idéias práticas sobre como a sua igreja local pode usar melhor a luz que temos a respeito da saúde e cura no processo de evangelização.
2. Fazer uma lista dos membros de sua igreja que estão doentes e determinar as coisas práticas que podem ser feitas para ajudar essas pessoas.
Resumo final:
1. Adote hábitos saudáveis de alimentação.
2. Faça atividade física regular.
3. Aplique sua mente a aprender sempre.
4. Desenvolva o hábito de pensar positivamente.
5. Torne natural e regular ajudar as pessoas.
6. Cultive sua fé em Deus e permita que ela tenha conseqüências práticas.