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CasaNet

Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina
3º Trimestre de 2007


JÓ: CONVIVENDO COM AS PERDAS

Pr. Celso Knoener
Ministério da Família - ASP
Mestre em Relações Familiares

Soa estranho aos nossos ouvidos a idéia de que Deus envia o mal, segundo o entendia Jó. Ficamos igualmente perplexos diante de textos como o de Isaías 45:7 "Eu formo a luz, e crio as trevas; Eu faço a paz e crio o mal..." e outros mais que dão a entender essa idéia. Como entender isto?

Diferença entre fazer e permitir.

Na cultura do Antigo Testamento, não se fazia diferença entre aquilo que Deus faz e o que Ele permite em virtude do livre-arbítrio que concedeu a Suas criaturas.

Segundo o Comentario Biblico Adventista del Septimo Dia, em 2 Crônicas 18:18-21, Deus é representado fazendo aquilo que Ele não impede que aconteça (v. 3, p. 2600.)

Logo, tendo os escritores do Antigo Testamento esta visão, precisamos entender quando as coisas acontecem pela atuação divina e quando ocorrem por Sua permissão.

Uma compreensão privilegiada.

Temos uma visão privilegiada dos dramas vividos pelos personagens bíblicos, concedida pela história e pelo tempo. Jó não pôde ver através da cortina que separa o visível do invisível e assistir ao diálogo entre Satanás e o Criador. Hoje, de nosso privilegiado observatório, definimos claramente quem foi o responsável pelos sofrimentos dele e de sua esposa. Talvez, eles nunca souberam do desafio que Satanás fez a Deus com respeito à fidelidade de Jó, motivo de todo aquele sofrimento. Muitas perguntas que fizeram a Deus em sua extrema angústia foram com eles à sepultura, sem resposta.

Ainda hoje, casais e famílias fazem perguntas em sua pungente dor e não obtêm respostas. Por quê? Por quê...?

Duas verdades podem ser aprendidas da história de Jó:

1 – Deus está sabia e soberanamente no comando, guiando para um fim glorioso aqueles que O aceitaram.

"Deus não conduz jamais Seus filhos de maneira diferente da que eles escolheriam se pudessem ver o fim desde o princípio, e discernir a glória do propósito que estão realizando como Seus colaboradores" (Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver, p. 479).

2 – Satanás é o autor de toda maldade e sofrimento.

"Satanás é o causador da doença" (Ellen G. White, Conselhos Sobre Saúde, p. 324). "É verdade que todo sofrimento é resultado da transgressão da lei divina, mas essa verdade fora pervertida. Satanás, o autor do pecado e de todas as suas conseqüências, levara os homens a considerarem a doença e a morte como procedentes de Deus – como castigos infligidos arbitrariamente por causa do pecado" (Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 471).

"Para que"– a pergunta mais correta

Tendo como pano de fundo a história de Jó, talvez seja mais correto perguntar "para quê"? Qual é o propósito desse sofrimento?

O esquife de uma jovem de 22 anos, casada havia dois, e grávida de cinco meses acabava de ser trazido ao local do velório, na igreja. Tinha sido uma pessoa alegre, cheia de entusiasmo e sonhos, mas sua vida foi ceifada por trágico acidente. Minutos depois, entrou o pai. Amparado por amigos, dirigiu-se à frente e, vergado pela dor, ajoelhou-se ao lado do corpo inerte e orou: "Obrigado, meu Deus, pela filha que tive". Um pouco mais adiante, ao abraçá-lo, ele reclinou a cabeça em meu ombro e com voz embargada disse: "Algo tão trágico, não pode ser sem propósito".

Um dia, todo o sofrimento será esclarecido, toda a lágrima enxugada.

O sofrimento de Jó foi vindicado com honra: "Em tudo isto Jó não pecou..." Jó 1:22. Deus olhou com simpatia para Seu filho e o honrou pela sua paciência e perseverança. Ele cumpriu com êxito a tarefa de mostrar ao Universo que é possível servir a Deus em qualquer circunstância.

Para poder entender melhor nossa condição de humanos, Deus encarnou e veio viver entre os homens. Com propriedade, Ele diz:

"Suportei as vossas dores, experimentei as vossas lutas, enfrentei as vossas tentações. Conheço as vossas lágrimas; também Eu chorei. Aqueles pesares demasiado profundos para serem desafogados em algum ouvido humano, Eu os conheço. Não penseis que estais perdidos e abandonados. Ainda que vossa dor não encontre eco em nenhum coração na Terra, olhai para Mim e vivei" (Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 483).

Deus não faz, nem permite algo sem propósito. Em tudo há uma gloriosa providência.

Como se instala a crise

Eventualmente, todos passam por crises. Crises e problemas não são, necessariamente, a mesma coisa. A crise se instala através de um evento desencadeante (problema), como uma ameaça, uma tragédia ou perda, que ultrapassam a capacidade individual ou familiar de resolver. O evento desencadeante instala o estresse, a tensão ou ansiedade. Logo, estratégias são mobilizadas, mas, neste caso, fracassam. Aumenta ainda mais o estresse e a tensão. Mais recursos são mobilizados, mas ainda são insuficientes.

O evento desencadeante é maior que os recursos para solucioná-lo e então, a crise está instalada. Jó e sua esposa foram surpreendidos por uma série de eventos que desencadeou uma crise sem precedentes em sua vida.

Segundo Jorge Maldonado, o ser humano tem um padrão de comportamento comum diante das crises.

1 – Vem a percepção dos fatos (tragédia) e o estado de choque. Para absorver o golpe, o organismo aciona mecanismos de defesa como negação, perda de memória ou um tipo de anestesia que pode demonstrar uma tranqüilidade fora do comum.

Jó fez uma declaração que dá a idéia de extrema tranqüilidade: "Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!" (Jó 1:21).

2 – Respostas desequilibradas, carregadas de muita emoção, desorganização pessoal, ira, frustração. Quando a "ficha caiu", Jó amaldiçoou o dia do seu nascimento, pediu a morte. A esposa sugeriu que ele abandonasse a fé para acabar com o sofrimento dele e também dela. É a fragilidade da natureza humana que clama diante do desespero, da dor e da falta de perspectiva. É o momento de maior força da tentação. O próprio Cristo recuou momentaneamente diante dessa hora dizendo: "Passa de Mim esse cálice...". Em dor clamou: "Deus Meu, Deus Meu, porque Me desamparaste?"

3 – Processo de recuperação: Somente quando supera o estado de comoção, a pessoa inicia o processo de recuperação. Este processo pode envolver três níveis:

  1. Equilíbrio precário
  2. Nível igual ao de antes da tragédia
  3. Crescimento, ou seja, um nível superior ao de antes da crise."Nunca saímos de uma crise os mesmos de quando nela entramos" (Crises e Perdas na Família, p. 22, 23

De Jó é mencionado que seu último estado foi duas vezes melhor que o anterior. As crises podem ser grandes oportunidades de crescimento.

Elaborando as perdas

A elaboração de perdas e o luto passam por etapas semelhantes às das crises.

John Bowlby e Murray Parkes estudaram o curso da dor na vida das pessoas que sofreram a perda de entes queridos. Dividiram-no em quatro fases:

  1. Entorpecimento, interrompido por acessos de intenso mal-estar e ira.
  2. Fase de suspirar pela figura perdida.
  3. Fase da desorganização e desespero.
  4. Maior ou menor reorganização.

J. William Worden, professor de psicologia na Universidade de Harvard, prefere sugerir quatro tarefas que as pessoas que sofreram perdas devem realizar para processar de forma adequada o luto:

  1. Aceitar a realidade da perda.
  2. Trabalhar através da dor da perda.
  3. Ajustar-se ao novo ambiente no qual a pessoa ou objeto perdido já não estão mais.
  4. Reenquadrar emocionalmente a pessoa ou objeto perdido a fim de seguir adiante na vida.

"Isto faz parte de um processo e, como tal, requer esforço e compromisso" (Crises e Perdas na Família, p. 76, 77).

Deus entende o grito de dor e aceita o desespero na tragédia

Depois de 20 capítulos de queixas, lamentos e amargura que, em alguns momentos parecem afrontar a Deus, surpreendemo-nos diante da declaração de Jó 1:22; 42:7 e 8. Jó continua a ser visto por Deus como um homem reto, e sua esposa não recebe nenhuma reprovação.

Alguns cristãos parecem esperar um comportamento estóico, sem sentimentos de outros cristãos nos momentos de crise e tragédia. Julgam ser falta de oração, fé ou espiritualidade sentir e expressar sentimentos negativos como dor, tristeza e frustração.

Em diversas vezes, Jesus é visto chorando. Outras vezes, é descrito como movendo-Se em Seu íntimo. Ficou decepcionado diante da ingratidão dos nove ex-leprosos. Lamentou convulsivamente diante da visão do futuro de Jerusalém, cidade que O rejeitou. Também somos humanos, temos sentimentos.

Ternamente, Deus olha para cada filho sofredor. Vê as renhidas lutas contra o pecado, o desânimo, os dissabores e fraquezas, as perdas irreparáveis e os sonhos quebrados. Ele "não esmagará um galho que está quebrado, nem apagará a luz que está fraca" (Is 42:3 BLH).

Um + um ou um - um?

Com exceção da doença, a esposa de Jó sofreu as perdas tanto quanto ele. Como mãe que perdeu todos os filhos e como expectante impotente de trazer alívio, talvez tenha sofrido mais. Não foi perfeita, mas, diferentemente de muitas outras histórias, ela se manteve ao lado do esposo na prosperidade e na adversidade, na saúde e na doença.Enquanto os irmãos, irmãs e conhecidos de Jó se afastaram (Jó 42:11) e alguns poucos amigos ficaram para criticar (Jó 4:2-5), ela se manteve tão próxima dele a ponto de sentir seu mau hálito (Jó 19:17).

Os infortúnios costumam estremecer os alicerces do casamento, mas até nesse ponto Jó e sua esposa são um modelo para as famílias de hoje. Ambos saíram unidos da tragédia e reconstruíram seu lar.Eclesiastes 4:9 a 12 menciona a vantagem de enfrentar a dois a vida. E se for a três (verso 12), melhor ainda. Quando Deus é convidado a andar com o casal, a superação dos obstáculos e das incompatibilidades marcará a experiência da família."Todos os que se casam com santo propósito – o marido para conquistar as puras afeições do coração da esposa; a esposa para abrandar e aperfeiçoar o caráter do seu esposo e ser-lhe complemento – preenchem o propósito que Deus tem para eles" (Ellen G. White, O Lar Adventista, p. 99).

"Embora possam surgir dificuldades, perplexidades e desânimo, nem o marido nem a esposa abrigue o pensamento de que sua união é um erro ou uma decepção. Resolva cada qual ser para o outro tudo que é possível. Continuem as primeiras atenções. De todos os modos, anime um ao outro nas lutas da vida. Procure cada um promover a felicidade do outro. Haja amor mútuo, mútua paciência. Então, o casamento, em vez de ser o fim do amor, será como que o seu princípio. O calor da verdadeira amizade, o amor que liga coração a coração, é um antegozo das alegrias do Céu" (Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver, p. 360).

O livro de Jó mostra os extremos do sofrimento, as reações pertinentes à frágil natureza humana, a fé que se apega ao invisível ("eu sei que o meu Redentor vive..." (Jó 19:25) e a vindicação de Deus em favor de Seus filhos ("e o Senhor mudou a sorte de Jó...". (Jó 42:10).