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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina |
A avaliação de um discípulo |
Dr. Berdnt Wolter
Professor de Missiologia no SALT-Unasp Campus 2
E-mail: berndt.wolter@unasp.edu.br
Sábado à tarde
“E disse-lhes: Vinde após Mim, e Eu vos farei pescadores de homens” (Mt 4:19). Que palavras enfáticas Jesus utilizou aqui... Parece-me que, quando Jesus chamava alguém com a palavra do evangelho, não estava fazendo um convite ligeiro, descuidado e superficial. Parecia radical, e com certeza conspirava contra o espírito que rege nosso tempo.
Jesus quer um pacto inquebrantável e irrevogável. Ele quer o tutano dos ossos, Ele quer o cerne, quer o coração completo, para sempre, comprometido e sem retiradas estratégicas para “quando a coisa fica difícil...“ Ele dá todas as dicas de que não está interessado na casca, como fica claro no sermão do monte. É o interior que conta.
Veja em Mateus 10:32 – “Portanto, todo aquele que Me confessar diante dos homens, também Eu o confessarei diante de Meu Pai, que está nos Céus.” O contrário de ambas afirmações está implícito: “Quem não Me confessar diante dos homens, Eu também não o confessarei diante de Deus!” A expressão de Jesus é matemática e Ele enfatiza ainda no verso 37-39: “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim não é digno de Mim. E quem não toma a sua cruz, e não segue após Mim, não é digno de Mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de Mim achá-la-á.”
O fenômeno chamado adequação sociológica ocorre também entre os crentes. É como a ilustração das batatas colocadas em uma sopa de ervilhas. No começo, a sopa é de ervilhas, as batatas estão cruas. Com a fervura, as batatas vão sendo cozidas e se integram à sopa, até que, no fim, a sopa que era de ervilhas, passa a ser de batatas e ervilhas.
Estamos no mundo e somos sujeitos a esse processo lento de adequação, inclusive nós, cristãos adventistas. Tendemos a nos adequar ao ambiente ao nosso redor. Alguns vão até um limite planejado de tal maneira que sua afiliação ao adventismo não seja colocada em risco, mas, ao mesmo tempo, não tenha os inconvenientes típicos de quem assume uma posição clara e definida ao lado de Jesus. Mantêm a aparência de integridade diante dos irmãos de fé, concretizando uma religião horizontal, superficial, humana...
Jesus é claro em Sua proposta de cristianismo e apresenta as conseqüências de uma atitude cultivada na direção contrária: Lucas 11:23-26: “Quem não é comigo, é contra Mim; e quem comigo não ajunta, espalha. Ora, havendo o espírito imundo saindo do homem, anda por lugares áridos, buscando repouso; e não o encontrando, diz: Voltarei para minha casa, donde saí. E chegando, acha-a varrida e adornada. Então vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, habitam ali; e o último estado desse homem vem a ser pior do que o primeiro.”
Muitos usam estas passagens para ser fanáticos, o que em nenhum momento está sendo proposto aqui.
A Bíblia usa uma linguagem forte relacionada à religião dividida. 2Pe 2:22: “Deste modo sobreveio-lhes o que diz este provérbio verdadeiro; Volta o cão ao seu vômito, e a porca lavada volta a revolver-se no lamaçal.”
A orientação ou talvez uma observação de Jesus é: Lucas 9:62 “Jesus, porém, lhe respondeu: Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o reino de Deus.”
Domingo
O que tinha este carpinteiro simples de Nazaré? Que força atrativa tinha Ele no olhar e na entonação da voz? Imagine uma pessoa sem o brilho típico de uma sociedade que respeita a aparência e a opulência de visão. Suponha que uma pessoa sem os adjetivos louvados por nossa sociedade chegasse e dissesse: “Vinde após Mim e Eu vos farei pescadores de homens”. O que você diria? O que você faria?
Os discípulos largaram tudo, imediatamente, e seguiram esse Homem. Ellen G. White afirma que Jesus já os conhecia e os discípulos Lhe haviam ouvido os ensinos e O seguiam parcialmente divididos entre as redes e o Senhor. Com a decepção do encarceramento de João Batista e o insucesso de seu trabalho, Pedro e seu irmão estavam desanimados. No momento certo, o Mestre lhes deu a certeza de que com Jesus eles não teriam o que temer quanto a seu sustento providenciando uma pesca abundante depois de uma noite infrutífera (Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 248, 9.
Nesse contexto, o Mestre lhes lançou o desafio. Com Seu olhar atrativo e voz cheia de autoridade vinda do Céu propôs algo que lhes encheria a vida de certeza e propósito. Diz o texto bíblico: Mat 4:20 “Eles, pois, deixando imediatamente as redes, O seguiram.”
Você já viu esses olhos atrativos? Já ouviu essa voz magnética? Já decidiu segui-Lo com todas as conseqüências que isso traz? Mt 10:38: “Quem não toma a sua cruz, e não segue após Mim, não é digno de Mim.”
Segunda-feira
Não importa como, não importa quando, cada seguidor de Cristo é chamado para ser discípulo de Cristo. Esta é a aventura de ser cristão: Deus nos aborda pessoalmente e de tal maneira que não segue um padrão específico. Nosso chamado é único, só nosso.
O que é ser discípulo? Strong apresenta a palavra discípulo como vindo do grego ‘mathetes’ que equivale a pupilo, aluno, aprendiz (Strong’s Hebrew and Greek Dictionaries – versão eletrônica).
Não se tratava de ser um aluno como a cultura greco-romana nos ensinou a ser. Na cultura judaica, aprendizado, discipulado era algo integral. Não apenas uma parte do ser humano recebia apelos e estímulos para desenvolver-se. O ser humano era envolvido com a integridade de sua vida, com a totalidade de seu ser (corpo, mente, espírito).
Jesus não disse: “Venha duas vezes por semana para a Minha escola, ouça por duas horas o material que Eu vou lhe entregar, e não esqueça de ler capítulos 3 a 8 do livro tal e tal.” Não! Jesus disse: “Siga-Me. Viva comigo. Experimente as mesmas experiências que Eu vou experimentar, passe as dores e alegrias junto comigo.”
Como cristãos, estamos enredados, presos em nossas percepções da maneira como foram programadas por nossa cultura... Como nosso entendimento de discipulado se restringe apenas à noção que temos de escola, o apelo constante de Jesus torna-se parcial, como se fosse feito apenas ao raciocínio e ao pensamento.
Quando Jesus disse “sigam-Me”, Ele queria dizer: “Vocês vão ver tempestades se acalmarem pelo poder da Minha palavra, vão ver pães e peixes se multiplicarem em Minhas mãos. Vocês vão sentir medo e Eu vou repetir muitas vezes: ‘Não temam!’ Uma ousadia vinda da confiança em Mim e na Minha palavra vai se apoderar de seu coração e jamais vai deixar vocês.”
“Sigam-me” queria dizer: “Venham ver a glória de Deus em Mim no monte da transfiguração, venham ver como um salafrário se torna um santo homem de Deus (Zaqueu)”. Com ‘Sigam-me’, Jesus queria dizer: “Venham aprender a viver o amargo e o doce de uma vida abundante”.
“Sigam-me!” queria dizer: “Eu vou exigir de cada um de seus sentidos a percepção de quem Eu sou e por essa contemplação que não encontrará contradições, vocês serão transformados em algo parecido comigo.”
Apesar de serem os discípulos marcados pelos traços típicos de seres humanos como você e eu, depois de Jesus ser elevado aos Céus, eles começaram a pregar e as pessoas percebiam algo: At 4:13 “Ao verem a intrepidez de Pedro e João, sabendo que eram homens iletrados e incultos, admiraram-se; e reconheceram que haviam eles estado com Jesus”. Aqui estava o efeito final, a marca na mente, coração, sentimentos, hábitos, a própria maneira de ser que lhes valeu mais tarde o nome de cristãos.
Terça-feira
Eis algo interessante: o único discípulo que não foi chamado e se ofereceu para seguir Jesus, foi Judas Iscariotes.
Ninguém faz de si mesmo um discípulo, a não ser por sua decisão de seguir o chamado do mestre.
Há uma superstição subliminar, nunca falada e menos ainda admitida em círculos cristãos e adventistas: Apenas algumas pessoas especiais são chamadas para ser discípulos. Um pensamento comum é: Como Deus pode usar um pecador como eu? Depois de tantas tentativas de minha parte e nunca ter dado certo, como posso ainda crer que sou alguém especial que Deus chamou?
Depois de algumas experiências negativas com orações não atendidas, depois de ver alguns malabarismos teológicos com a intenção de negar o poder de Deus, depois de ver com decepção o mau testemunho daqueles que se chamaram de cristãos algum dia, depois dessas experiências amargas, alguns desistem e ingressam no clube dos cristãos resignados e cínicos. Não mais crêem ser possível. Se for, “ao menos não é para mim”.
Observe na lição a qualidade de pessoas que Jesus chamou. Que qualificações tinham os chamados? O que os recomendava? Nada!!! NADA!!!! Foi exatamente por isso que Jesus os escolheu. Os olhos não deveriam estar fixados sobre aquele que é chamado, mas sobre aquele que chama. Que veriam os discípulos se olhassem para si mesmos? O que veriam em seu próprio coração? O que perceberiam tê-los recomendado? Nada!!! NADA!!!! Só lhes restava olhar para Jesus. É assim que alguém se torna discípulo de Jesus.
Apenas para esclarecer onde o presente autor está situado: Não sou perfeccionista nem absolutista. Não creio que alguém, no início de seu discipulado, olhe apenas para Jesus. Não é condição ‘sine qua non’ ser perfeito na arte de saber que não é nada, para só então poder ser chamado por Jesus. Se fosse assim, de novo os olhares estariam voltados para aquele que é chamado e não para aquele que chama. Quanto desse nada (que sou eu), tenho que descobrir em mim mesmo, para que Jesus me chame? Oh! insensato coração! “Não andeis ansiosos com coisa alguma!” é a reposta. Não façam estas contas e elucubrações humanas!
Se Jesus o achou e o tocou, se Jesus o leva a ter prazer em Sua presença, você já está chamado. A partir de então, Ele vai conduzindo você para os passos que lhe trarão maior compreensão dEle e de Sua obra.
Quarta-feira
Scott Peck e James W. Fowler em seu livro: Stages of Faith (Estágios da Fé) apresenta as quatro fases do desenvolvimento espiritual.
1ª – Rebeldia contra Deus – A pessoa não conhece a Deus e anda pelos seus próprios caminhos.
2ª – A Lei – Os caminhos pelos quais andou lhe trouxeram muitas feridas, e o caos dessas decisões e suas conseqüências o machucaram. Ao encontrar o evangelho, alegra-se com a ordem que o evangelho apresenta. As leis de Deus são mais absolutas do que qualquer lei que já tenha visto. A pessoa se apega a essas leis para colocar ordem em sua vida. É também chamada fase legalista (não no sentido negativo da palavra).
3ª – Decepção –Depois de algum tempo de convivência com outros cristãos e com a instituição da igreja, o converso vê que as coisas não são tão perfeitas como desejava em sua mente orientada por leis. Percebe que as leis não têm vida nem poder em si mesmas, a não ser que alguém decida cumpri-las. Pessoas de destaque e líderes de diversos níveis da igreja não foram tornados perfeitos por essa lei. Pior: ele mesmo percebe a ineficácia da lei em sua vida.
4ª – Maturidade – Os poucos que sobrevivem à fase da decepção e decidem servir e seguir ao Senhor, apesar das imperfeições em si mesmos e nos outros, vão alcançando maturidade.
Em todas essas fases, alguém que honestamente segue Jesus é Seu discípulo. Para alguns, uma fase demora um pouco mais a ser vencida do que para outros, que chegam rapidamente à maturidade. Outros enroscam em uma das fases e, por decisão ou por falta dela, permanecem ali.
Qual é o principal requisito para ser um discípulo? “Que o Senhor me chame!” E o segundo? “Que eu esteja disposto a crescer integralmente: corpo, mente e espírito.” A boa disposição construída sobre a confiança naquele que chamou vai fazer de nós especialistas em bom relacionamento (com Deus, comigo mesmo e com o próximo). Esse é um dom que recebemos, uma dádiva a nós concedida quando passamos muito tempo com Jesus, quando O contemplamos em Seu desempenho contra o mal, quando O vemos nas tempestades que se abatem sobre nós, quando ouvimos Sua Palavra soar não apenas em nossa mente, mas envolver nosso ser.
Em seu livro A presença de Deus, o irmão Lawrence descreve em suas cartas e diálogos como experimentou e lutou para não perder o senso da presença de Deus em cada ocasião de sua vida.
Quinta-feira
Se somos discípulos em crescimento na percepção de nosso Mestre, há alvos a serem alcançados nesse caminho. Ao Jesus mandar: “Sigam-Me!” Ele o faz como o pastor que vai adiante das ovelhas e as chama e elas O seguem pois Lhe conhecem a voz (Jo 10:4). Ao longo do tempo e do exercício de estar na presença do Pastor, a intimidade se torna tão grande que, entre milhares de vozes, elas distinguem a voz do Mestre, por que a conhecem. Ao estranho não seguem, não porque sabem que é estranho, por assim ter lhes sido explicado. Não! Não o seguem pois estão tão concentradas no Pastor verdadeiro que nem sequer conhecem outra voz.
“Todos quantos se acham sob as instruções de Deus precisam da hora tranqüila para comunhão com o próprio coração, com a natureza e com Deus... Devemos individualmente, ouvi-Lo falar ao coração. Quando todas as vozes silenciam e, em quietação, esperamos diante dEle, o silêncio interior torna mais distinta a voz de Deus... (Sl 46:10). Este é o preparo eficaz para todo trabalho feito para o Senhor. ... Sua vida recenderá uma fragrância que tocará o coração de muitos” (Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver, p. 58, Ênfase acrescentada).
Há uma advertência para o tempo de Laodicéia. Há uma advertência para o tempo em que as pessoas se acham ricas, boas e cheias de qualidades: “SE alguém ouvir a Minha voz, cearei com ele e ele comigo” (Ap 3:20).
Estamos tão ocupados com outras coisas, são tantos apelos, luzes, sons e cores a abarrotar nossos sentidos, todos querendo nossa atenção, que arriscamos não mais ouvir a voz daquele que chama: “Segue-Me”!!!