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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina |
Lição 1 – Quem foi Jesus? |
Rodrigo P. Silva
O Dr. Rodrigo P. Silva é professor de Teologia do SALT
Unasp Campus II.
Esboço da lição
I – Jesus não era reencarnação de profetas (erros judaicos)
II – Jesus não era um mito (erro dos racionalistas)
III – Jesus era Filho de Deus (declaração dos apóstolos)
Introdução
É interessante observar que esta lição, embora traga por título "Quem foi Jesus", gasta dois terços de seu conteúdo em descrever quem Ele não era. Esta é uma estratégia muito interessante do autor, e deve ser ressaltada perante os irmãos. Ela nos ensina que a verdade revelada sobre Jesus é simples e, por isso, ocupa menos espaço que as especulações a respeito dEle. Trata-se também de uma confissão de fé, não uma descrição de detalhes que não foram revelados. Foi por não observar essa simplicidade natural da mensagem cristã que muitos pensadores racionalistas (do passado e do presente) criaram tantos conceitos diferentes que rivalizam em quantidade com a singular declaração bíblica sobre quem haveria de ser o Senhor Jesus Cristo.
Nota do Editor: Os conceitos teológicos expressos neste comentário são corretos e muito úteis para o conhecimento pessoal, mas talvez não seja prudente tomar muito tempo discutindo em classe no sábado essas heresias, tanto as antigas quanto as atuais. |
I – Jesus não era reencarnação de profetas (erros judaicos)
Talvez as primeiras perguntas que surgem na mente dos irmãos quando lêem essa parte sejam: De onde os judeus, que tinham o claro ensino da Escritura acerca do estado do homem na morte, tiraram essa idéia absurda de reencarnação? Afinal, eles conheciam o Antigo Testamento e sabiam que seu livro sagrado não endossa tais conceitos imortalistas. Segunda pergunta: Mesmo para quem crê na reencarnação, a idéia é que, para ser a reencarnação do outro, alguém tem que nascer depois que o primeiro morreu. Mas João Batista e Jesus eram contemporâneos. Como poderia um ser reencarnação do outro se estiveram juntos em alguns momentos?
Bem, começando pela estranheza de encontrar uma idéia dessas em solo judaico, todos sabemos que o povo de Israel sempre foi tentado pelas práticas pagãs de seus povos vizinhos. Muitas vezes, os profetas de Deus tiveram que alertar conta o problema da apostasia. Lares autenticamente judaicos mantinham junto ao cordeiro que seria levado ao sacrifício uma imagem doméstica de Baal ou Astarote, apesar do claro mandamento que condenava a idolatria. Não é à toa que havia 400 profetas de Baal contra um só profeta de Deus, a saber, Elias!
Nessas idas e vindas de adoção de práticas pagãs em solo judaico, no período chamado helenista, muitos conceitos oriundos da cultura grega começaram a invadir com mais força o arraial dos filhos de Israel. Só para se ter uma noção, em aproximadamente 175 a.C., o sumo sacerdote Josué de Jerusalém (que era um apaixonado pela cultura dos gregos) trocou seu próprio nome pela forma helenizada "Jason". Ele ainda instituiu em Israel as olimpíadas que, na época, eram jogos completamente voltados à homenagem aos deuses do Olimpo. Ele também ajudou a financiar templos pagãos com recursos que seriam para o Templo do Senhor e construiu um ginásio enorme em Jerusalém, onde jovens judeus (muitos deles filhos de sacerdotes), corriam nus em jogos atléticos, à maneira dos gregos, causando não pouca indignação em famílias mais piedosas. Esses jovens, diga-se de passagem, eram liberados da circuncisão pois sentiam vergonha de serem vistos circuncidados caso fossem selecionados para correr em Atenas!
Com esse quadro em mente, não é difícil entender a entrada de idéias estranhas na mente dos judeus que viveram nos dias de Cristo. No caso específico da imortalidade da alma, esta se tornou uma crença fundamental da filosofia grega, especialmente depois que Sócrates e Platão estabeleceram uma idéia do ser humano como constituído de corpo (matéria) e alma (entidade etérea) que sobrevive independentemente do corpo material.
Antes mesmo de Platão, já estava assentada na região da Grécia uma forma de religião chamada orfídica (em homenagem ao lendário Orfeu). Essa religião se destacava principalmente por romper com a teognonia homérica (isto é, aquelas histórias envolvendo os deuses do Olimpo). Ela deu mais atenção aos ensinos orientais da Pérsia. Era, portanto, mais espírita e ensinava com mais força a imortalidade da alma e a chamada transmigração de almas. Para eles, o corpo era um mero receptor ou aprisionador da alma, logo, estes podiam se separar, causando o falecimento do corpo físico mas a continuação em vida do corpo astral ou a alma. Diferentemente da reencarnação, os adeptos da transmigração de almas acreditavam que o espírito do morto poderia se apoderar de um animal ou planta ou ainda de algum humano vivo que, por alguma razão, o deixasse possuir sua mente. Neste caso, o dono original do corpo perderia temporária ou permanentemente o controle, deixando ao espírito o poder de ação sobre ele. Seria algo semelhante à prática dos médiuns que hoje vemos por aí incorporando entidades supostamente falecidas que seriam, na verdade, espíritos demoníacos.
O mais terrível é que muitos judeus começaram a acreditar nessa doutrina errônea da transmigração de almas e deram para ela o nome hebraico deGuilgulNeshamot. Talvez tenham sido esses adeptos que divulgaram o boato de que Jesus seria apenas um médium dotado do espírito de João Batista. Com isso, podemos ver o grau de perda de identidade doutrinária do povo judeu daquela época e tomar para nós, adventistas, uma séria lição de advertência para que não caiamos no mesmo erro. Afinal, não somos isentos de cair das ciladas do inimigo!
No caso específico de Elias e Jeremias, o texto paralelo de Lucas 9:19 acrescenta um detalhe não mencionado nos demais evangelhos: "Outros dizem que ressurgiu um dos antigos profetas". Esses, certamente eram do grupo que ainda acreditava na ressurreição, mas é importante notar que nem todos acreditavam que os mortos seriam ressuscitados pelo poder de Deus. Os saduceus, por exemplo, não criam na ressurreição dos mortos e até alguns membros da futura igreja de Corinto também tinham dificuldades em aceitar esta legítima doutrina das Escrituras.
Mas a tradição popular, baseada numa leitura literal de Malaquias 4:5, criou a idéia de que, após seu desaparecimento repentino, Elias voltaria à Terra antes do fim dos tempos como precursor do Messias. Jesus corrigiu essa idéia, dizendo que João Batista era aquele que viera no espírito, isto é, na missão do profeta Elias para preparar o caminho de Seu ministério messiânico.
II – Jesus não era um mito (erro dos racionalistas)
No século 18, a Alemanha passou por um período de forte sobrevalorização do racionalismo em detrimento da fé evangélica. Foi o chamado Iluminismo Alemão (Aufklärung). Este movimento surgiu devido às seguintes situações:
A pretensão básica dos iluministas alemães era de criar uma religião cristã mais racional e menos sentimentalista. Eles se sentiam pressionados a não ceder para o extremo de um dogmatismo infundado, como julgavam ser as crenças oficiais da Igreja, nem cair na negação completa de Cristo, como fizeram os pensadores franceses. Logo, começaram a surgir vários teólogos pretendendo expor teorias sobre quem haveria de ser Jesus Cristo. Suas novas idéias acerca do fundador do cristianismo, é certo, contraditavam totalmente a visão tradicional da Igreja acerca do Filho de Deus. Eles faziam uma distinção entre o Jesus Histórico (historischer Jesus) e o Cristo da Fé (geschichtlicher Christus). O primeiro, se existiu, constitui o Jesus historicamente real, ao passo que o segundo seria um ser mitológico "inventado" e "mantido" pela Igreja através dos tempos.
O primeiro detentor destas novas idéias foi Herman Samuel Reimarus (1694-1768). Sendo o primeiro a ser mais radicalmente influenciado pelos deístas ingleses, Reimarus projetou uma enciclopédia de 4 mil páginas na qual pretendia reconstruir de modo científico a história da religião cristã. Entretanto, foi apenas após a morte de Reimarus que algumas partes desse tratado foram publicadas por um certo G. Efraim Lessing. Num de seus excertos, intitulado "Sobre a pretensão de Jesus e Seus Discípulos" ("Vom Zwecke Jesu un seiner Jünger"), ele afirmou que qualquer investigação crítica sobre a vida de Jesus Cristo "deve manter a distinção clara entre o que Jesus realmente fez e ensinou em Sua vida e aquilo que foi narrado pelos apóstolos em seus escritos." Assim, Reimarus, entendeu que Jesus foi apenas um judeu zelota que empreendeu uma revolta contra o império romano e, como outro rebelde qualquer, foi condenado e morto numa cruz em virtude de Seus discursos políticos. Seus discípulos, então, para não admitir o fracasso do movimento, roubaram Seu corpo e inventaram a história da ressurreição e da redenção universal da humanidade.
Embora partindo de pressupostos contrários aos dos racionalistas, Friedrich Ernst Schleiermacher também apresentou em 1832 uma interpretação desconcertante acerca de Jesus. Ele via o Mestre nazareno como sendo apenas um mero homem com consciência de ser divino (algo que todos, em tese, podem efetivamente possuir). Além disso, Schleiermacher não admitia espaço para a idéia da ressurreição, nem da morte expiatória do Filho de Deus. Para ele, Jesus só nos vale por modelo, enquanto consciente da idéia de Deus e do controle dEste sobre Sua vida.
O Jesus ético ou liberal, conforme a crítica e a descrição de Albert Schweizer, era um modelo moralizador usado pelos teólogos apenas para "ilustrar" aquele ideal do que deveríamos ser. Como exemplo desta percepção, temos o trabalho de um jovem de 27 anos chamado David Friedrich Strauss (1808-1874), segundo o qual os milagres de Jesus e outros eventos de Sua vida eram apenas mitos inventados pelos apóstolos e evangelistas com fins teológicos e não históricos. Ele achava, por exemplo, que o detalhe dos ladrões crucificados com Jesus era apenas um enfeite mitológico para fazer eco à poesia de Isaías 53:12 "Ele foi contado entre os pecadores".
O Jesus Mitológico de Rudolf Bultmann (1884-1976) é uma estranha combinação de dogma teológico com ceticismo histórico. Ele não afirmava categoricamente, como Schweitzer, que Jesus era um pregador apocalíptico. Ao contrário, ele até acreditava que Jesus foi um homem que viveu e morreu no primeiro século, mas, que nada podemos saber de Sua história real, porque os únicos documentos que poderiam contá-la (isto é, os evangelhos) não tinham nenhum interesse em fazê-lo. Sua intenção era teológica e não historiográfica.
Hoje, é provável que, entre os mais conhecidos fóruns de debate promovidos pelos questionadores da Bíblia, nenhum seja tão famoso e agitador quanto oJesusSeminar, ou Seminário de Jesus, realizado duas vezes por ano na América do Norte. Iniciado em 1985 por Robert W. Funk, professor e fundador do Instituto Teológico Westar, da Califórnia, oSeminário de Jesus já reúne mais de cem membros dispostos a separar, como dizem eles, o joio do trigo em termos de conteúdo bíblico, ou seja, apontar o que é e o que não é histórico em se tratando da vida de Jesus Cristo.
Contrariando, porém, sua pretensão acadêmica e sua promessa de imparcialidade, os membros doSeminário assumem muitas vezes posições tendenciosas que se valem de métodos altamente questionáveis. Mesmo assim, suas declarações mescladas de dúvida e sensacionalismo jornalístico acabam influenciando leitores no mundo inteiro. Nos últimos anos, vários jornais e revistas têm feito reportagens inspiradas na mesma filosofia cética do Seminário de Jesus, ainda que esse nome não figure explicitamente em suas páginas.
Na prateleira dosbestsellers, são muitos os autores que constroem seu enredo na base da dúvida e do criticismo. Um exemplo disso foi o lançamento do livroUma História de Deus de Karen Armstrong. Nele, a autora afirma que os evangelhos foram produzidos 40 anos após a morte de Cristo e que seu conteúdo é uma mistura de poucos fatos históricos e muitos elementos míticos. Em sua opinião, é esse o significado básico que o evangelho nos apresenta: uma teologia mitológica sobre o Messias, e não uma descrição real dos fatos como aconteceram.
Nesse mesmo barco encontram-se nomes conhecidos da teologia como John Dominic Crossan, Robert Eisenman, Haim Cohn e outros que têm seus livros disponíveis em muitos idiomas, inclusive o português. Sua análise, contudo, parece muitas vezes uma vitamina de credulidade misturada com ceticismo, pois advogam a doutrina de Jesus (muitos deles são religiosos), sem valorizar a história que a sustenta.
Ora, é justamente aí que reside uma amostra de como determinados autores cometem o erro de avaliar a Bíblia com óculos exclusivamente modernos e ocidentais, ignorando completamente as raízes do tempo e lugar em que ela foi escrita. Na Grécia e no Oriente Antigo, a palavraevangelho era um termo técnico usado desde Homero para indicar basicamente duas coisas: "boa notícia" (principalmente sobre vitórias militares) e "recompensa pela boa notícia".
No ano 9 a.C.,evangelho já era um termo comum usado em documentos oficiais da Ásia para indicar fatos históricos como o nascimento de Augusto e o início do ano civil. Transformado em estilo literário,Evangelho passou a ser uma narrativa que demanda uma história real por trás de sua mensagem. Logo, entendê-lo como novela, parábola ou mito teológico seria forçar seu significado original.
Se um judeu, grego ou romano dos dias de Cristo avançasse no tempo e ouvisse hoje o significado mitológico que muitos dão à palavraevangelho, ele certamente estranharia esse conceito. Seria o mesmo que definir o sal como umelemento que adoça os sucos. Ou seja, algo totalmente sem sentido!
III – Jesus era Filho de Deus (declaração dos apóstolos)
A lição apresenta de maneira muito bem colocada a confissão de fé bíblico-cristã sobre quem seria Jesus Cristo. E talvez aqui a repetição de dados poderá gerar uma desnecessária duplicação de informações! Mas há um aspecto não abordado no texto da lição que talvez mereça ser brevemente mencionado como fechamento deste estudo. No texto originalmente citado (Mt 16:13-15) existe um paralelo literário que indica a intenção de Cristo ao abordar os discípulos com a pergunta "quem diz o povo ser o Filho do Homem?" (v. 13). Após várias respostas que já comentamos, Jesus faz uma pergunta complementar no verso 15 que lança luz sobre Sua intenção na primeira indagação: "Mas vós, continuou Ele, quem dizeis que Eu sou?"
Note que, na primeira pergunta, o Mestre usa a terceira pessoa "quem diz o povo sero Filho do homem?" Então, usa a primeira pessoa "e vós ... quem dizeis queEu sou? Essa mudança indica que, para as multidões, Ele poderia ser um desconhecido galileu, o distante "Filho do homem" mas, para os discípulos, esperava-se que fosse alguém íntimo; "quem sou Eu, Eu que estou aqui falando e comendo convosco?" Jesus pode ser um conceito, um verbete ou até uma doutrina religiosa para os outros, mas, para nós, Ele deve ser um amigo íntimo, e um Senhor conhecido.
Outra revelação está nas perguntas que ficaram nas entrelinhas do texto: "O que o povo está dizendo a Meu respeito? Por que o povo está dizendo essas distorções quanto à identidade do Filho do homem? Não seria porque vocês, que supostamente Me conhecem, estão calados? O que vocês estão fazendo para corrigir isto? O que vocês estão dizendo [ao povo] que Eu sou? E, finalmente, [a partir do comportamento e da pregação de vocês] o que o povo tem dito que Eu sou? Que imagem sua pregação está criando de Minha pessoa?
Nas lições de terça e quarta-feira, vimos as modernas distorções cristológicas que estão dizendo por aí. Logo, a pergunta continua: e nós, adventistas do sétimo dia? O que estamos dizendo acerca da pessoa de Cristo? Nossa responsabilidade é muito grande. Se ficarmos em preguiçoso silêncio, já estamos dizendo muito, e dizendo ruim, pois deixamos que apenas as idéias distorcidas cheguem aos ouvidos do povo, sem dar-lhes a chance de ouvir o outro lado da história. Devemos, ainda, entender que talvez nossa vida individual seja o único evangelho que muitos estão lendo fora de nossa igreja. Seria esse evangelho pessoal (nossos atos, nosso testemunho) um dos responsáveis pelo quadro distorcido que muitos têm do Salvador? Algo a se pensar!