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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina |
Lição 6: Origem étnica e discipulado |
Dr. Berndt Wolter
Professor de Missiologia no SALT-Unasp Campus 2
e-mail: berndt.wolter@unasp.edu.br
Aquele sentimento de pertencer ao grupo, aquela tranqüilidade no coração quanto a estar onde é o seu lugar, o sentimento de estar em casa, é algo muito gostoso. Os nativos de uma terra sabem do que falo.
Por outro lado, ser estrangeiro é uma das experiências mais enriquecedoras e ao mesmo tempo mais desafiantes que um ser humano pode viver. O esforço mental, emocional e relacional necessário para achar os caminhos da inclusão é tremendo. Quando alguém, além disso, precisa transmitir o evangelho para aqueles que estão em casa, a luta com as dificuldades se multiplica.
Encontrar os caminhos que movem o coração de pessoas de uma cultura estranha à sua, achar aquilo que faz sentido e o que não faz, expressões e emoções que são aceitas e as que são rejeitadas é uma obra que Deus, e Deus somente, pode fazer no coração do missionário.
Decisões e atitudes que um missionário tem que tomar, poucos conseguem entender, pois elas surgem de um choque de culturas, que em cada missionário é diferente. A cultura de origem fornece valores e princípios que norteiam o missionário em sua relação com a nova cultura do país em que se está servindo. Se não desafia a todos, o faz com a maioria desses valores.
Tenho certeza de que esta frase do apóstolo Paulo: "Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns" (1Co 9:22), serviu de instrução, desafio e alento para muitos que tiveram que ser apóstolos (vem do grego apostello = enviado) em outra cultura.
Tradicionalmente, temos considerado missionários aqueles que vão para países mais pobres. Mas o movimento populacional predominante está ocorrendo dos países mais pobres para os mais ricos. Tenho profunda convicção de que Deus está utilizando esta movimentação para a pregação do evangelho, assim como no passado utilizou a movimentação de povos, que por motivos diferentes, também levaram o evangelho para o mundo.
Minha preocupação é que nossos irmãos dos países mais pobres, em que a religião é relevante e vigorosa, têm ido para os países mais ricos, têm se dedicado a ganhar dinheiro e não têm entendido que Deus gostaria que pregassem o evangelho ali onde estão.
Muitos percebem que nos países mais ricos, não existe uma repressão social tão forte. Cada um faz o que quer e se lançam em busca de uma vida dissoluta, perdendo de vista o reino de Deus.
Conheci em Londres um rapaz que era um exemplo em uma igreja aqui no Brasil. Ao ir estudar ali, sentiu-se tão livre e solto das contenções sociais típicas do Brasil que se entregou a uma vida de garoto de programa. Quando o vi e conversei com ele, confessou-me a trama em que havia caído. Depois de algumas conversas e motivação, ele conseguiu se desvencilhar daquela vida e se tornou uma luz em meio àquela cidade pós-moderna, secularizada e pós-cristã.
Deus movimenta pessoas, às vezes por motivos que parecem alheios à piedade cristã, para serem uma luz em outra cultura. Se você deseja ou precisa passar um período no exterior, tentando melhorar seu padrão de vida, para estudar ou para se desenvolver culturalmente, lembre-se de que Deus quer usá-lo(a) vigorosa e abundantemente.
Temos aqui no Brasil muitas experiências bem sucedidas com Deus e com o avanço da igreja e do Reino de Deus. Estas experiências de sucesso, algumas das nações desenvolvidas já não têm há décadas. Deus precisa de pessoas que preguem em países mais pobres que o nosso, mas também de pessoas que entendam que uma oportunidade de ir para um país mais desenvolvido é um presente de Deus acompanhado de uma responsabilidade missionária única para aquele(a) que vai.
Há aqueles que vão para países economicamente menos privilegiados que o de sua origem. Ali, passam a ter desafios típicos como desconforto, alimentação estranha, sacrifícios dos mais diversos tipos. Quem vai para países mais ricos não sofre estes desconfortos, mas tem que se adaptar a um grau maior de complexidade na manifestação e interferência do governo, na estrutura da mente e coração de seus habitantes. Os que vão para culturas mais sofisticadas não passam tanta privação material mas padecem pelos padrões de relacionamento, dos valores erodidos por uma civilização que, quanto mais se desenvolve, mais pulveriza as estruturas sociais.
Mesmo dentro de nosso país, apesar de falarmos a mesma língua, temos diversos grupos diferentes em seus costumes e formas de viver. Por exemplo, se um nortista, que vive e trabalha em um ambiente rural, é chamado para pastorear ou evangelizar em uma cidade grande do sul do Brasil, ele terá que aplicar 1 Coríntios 9:22 à sua experiência, que será semelhante à do missionário além-mar.
Ser um discípulo é fazer discípulos. Para fazer discípulos é necessário estar disposto a sair de seu próprio conforto para ir ao encontro de outras pessoas que ainda não têm intimidade com Deus. É abrir mão de suas opiniões e costumes para se adequar àqueles que ainda nada sabem de Jesus.
O fazedor de discípulos tem um alvo. Fazer um bem para uma pessoa que, por enquanto, nem sabe que necessita desse bem, nem o aprecia. Para alcançar este alvo, está disposto a abrir mão daquilo que não contribui para que a outra pessoa encontre Jesus.
Este é o sacrifício de amor que se faz por alguém que ainda não tem condições de valorizar o que lhe estamos oferecendo. Mas depois, quando as pessoas descobrem Jesus e vêem o tesouro que encontraram, na maioria das vezes não sabem como agradecer àquele que se sacrificou em tempos mais duros, para levar-lhes esta boa nova.
A consideração pelo estrangeiro em nossa terra é algo que deveria estar contido em nossos princípios cristãos em sua prática diária. Eis aqui dois textos bíblicos que mostram que devemos ajudar o estrangeiro a andar nos caminhos do Senhor e ao mesmo tempo tratá-lo com distinção e inclusão.
Êxodo 20:10 – "O sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas".
Êxodo 22:21 – "Ao estrangeiro não maltratarás, nem o oprimirás; pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito."
No fim das contas, todos somos estrangeiros, pois nosso lar não é aqui: Temos uma pátria celestial que é o nosso lar verdadeiro. Ai daqueles que fizerem deste mundo o seu lar! Ai daqueles que se sentem tão bem aqui que não desejam mais o lar eterno! Ai daqueles que se contentam com sua cultura, seu país e com seus costumes! Eles estão perdendo a cultura mais elevada e os costumes mais nobres que esta vida nos pode oferecer.
Discípulos entre os samaritanos
Ao pastorear uma igreja com pessoas de muitos países e culturas, fui levado a pensar muito sobre a nossa fé. Percebi que nos concentramos muito rápido em pontos periféricos de nossa prática religiosa e esquecemos aquilo que importa. Um achava que fazer junta-panelas no sábado não é apropriado. Outros queriam jogar futebol depois do culto; ainda outros achavam o órgão o único instrumento apropriado para o culto e outros o abominavam. Como liderar pessoas que vêm de origens tão distintas e de percepções religiosas tão variadas?
Entendi que existe um anelo no coração de qualquer ser humano, que é encontrar-se com seu Criador e Salvador. Decidi agir como o apóstolo Paulo: "Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado" (1Co 2:2).
Preconceito é um conceito, um pensamento fixo formado antecipadamente. É como aquela criança que diz: "não gosto de melão!" sem nunca ter experimentado. Este conceito pré-formado leva a pessoa a aceitar ou descartar coisas pela aparência ou jeito de ser. Fazem consideraçõeas injustas para com os indivíduos de determinadas categorias. Nem todas as laranjas de um pacote são azedas! E nem todas doces de outro!
"...Deus não faz acepção de pessoas, mas que Lhe é aceitável aquele que, em qualquer nação, o teme e pratica o que é justo" (At 10:34-35).
"Vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem" (Hb 2:9). Não há um grupo mais privilegiado que outro para a salvação.
"Pois não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que O invocam" (Rm 10:12).
"... E vos vestistes do novo homem, que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou; no qual não pode haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre, porém Cristo é tudo em todos" (Cl 3:10, 11).
Jesus em Seu tempo atendeu a todos igualmente, levando a mesma cura e salvação para quem quisesse.
Os tementes a Deus
Cada ser humano sempre é valorizado por Jesus e tem um espaço em seu plano de redenção. Mas tenho que dizer que também a mim impressiona a fé e a humildade deste centurião.
Admiro pessoas muito persistentes e muito convictas. Conheci um japonês que plantou tomates um ano, o preço caiu e ele apenas conseguiu cobrir as despesas. No ano seguinte, ele plantou tomates, de novo e outra vez não conseguiu o resultado que precisava. Terceiro ano, novamente... No quarto, quando todos os outros tomaticultores haviam desistido, lá estava este homem com os tomates prontos para uma venda espetacular.
O centurião de Lucas 7:1-11 deve ter sido alguém assim. Os gentios eram discriminados pelos judeus. Um judeu que tocasse em um gentio, ou em alguma coisa que um gentio havia tocado, ficava imundo. É por isso que naquele texto de Marcos 7:1-9, os fariseus foram tão implicantes com Jesus e Seus discípulos. Os fariseus lavavam as mãos sete vezes com água ou com areia (dali dá para ver que a questão não era higiênica, mas cerimonial) para se descontaminar de algum possível contato que tivessem tido com os gentios ao andar pela rua.
O centurião que sofreu esta aberta discriminação pessoal e institucionalizada persistiu em ser temente a Deus. E não apenas isso, mas ele tinha uma fé que superava a fé de todos os israelitas, e Jesus o exaltou diante de seu povo.
Que exemplo para aquelas pessoas hipersensíveis que se ofendem por causa de qualquer coisa e por isso abandonam a fé. Deixam de ter a vida eterna, por que seus sentimentos foram feridos.
Não estou fazendo a defesa da estupidez e mal trato. Deveríamos ter, na igreja, os nossos mais belos e elevados relacionamentos. E também fora da igreja, deveríamos tratar a todos com distinção e deferência. Mas os supersensíveis precisam encontrar alicerce em Jesus e no Seu amor, que desfaz este excesso de suscetibilidade. Pessoas como o centurião tiveram que suportar todo tipo de discriminação da parte do povo de Deus! Mas, por amor a Deus, eles aceitavam um lugar de inferioridade no templo e na sinagoga. Interessante é que eles não pareciam descontentes com isso.
Quantas belas lições podemos aprender com estes homens e mulheres!
Os cananeus
A mulher cananéia já havia tido contato com os judeus e sabia do Messias vindouro. Ela conhecia tanto o assunto que chamou Jesus por Seu nome messiânico "Filho de Davi".
A história desta mulher nos traz lições parecidas com aquela do centurião, porém o fato de Jesus ter ido para terras que não eram israelitas, quer dizer algo.
Jesus foi a Tiro e Sidom, apesar de não ser a Sua prioridade. As 70 semanas de Daniel 9 estavam terminando. Esse era o período especial que Deus ainda estava dedicando aos judeus para que reconhecessem o Messias. O foco da missão de Jesus precisaria estar no povo de Israel.
Havia, porém, muitos mitos e preconceitos contra os estrangeiros (gentios), de tal maneira que os discípulos não compreenderiam que também era sua missão levar o evangelho a eles, se Jesus não lhes tivesse dado o exemplo. Mesmo assim, foram resistentes em fazê-lo. Vejamos quantas vezes Jesus falou do trabalho em meio às outras nações: (1) as diversas atividades de Jesus em meio aos gentios; (2) (Mt 28:18-20) Jesus mandou levar o evangelho a todas as nações; (3) (At 1:7-9) pouco antes de Sua ascensão, Jesus lhes prometeu poder para fazê-lo; (4) No pentecostes, pessoas de diversas nações, inclusive prosélitos, receberam o evangelho (At 2;) (5). Como se isto não bastasse, há ainda a visão que Pedro teve na ocasião da conversão de Cornélio At 10; (6). Os discípulos entenderam, mas não conseguiram transformar compreensão em ação. Por isso, Deus chamou um apóstolo fora dos doze: Paulo. Ele seria aquele que trabalharia entre os gentios e desafiaria a igreja para que aceitasse o trabalho entre eles, incluindo as questões que precisariam ser resolvidas nesse trabalho.
Será que precisamos tantas repetições também? O que será que Deus tem que fazer conosco para que empreendamos o trabalho que Ele nos confiou?
Naquela época, Jerusalém foi destruída para dispersar os discípulos, e assim, o evangelho fosse divulgado. O que vai ser necessário para que nós, cristãos, a caminho de ser discípulos, mostremos uma atitude positiva?
Temos uma obra a fazer com estrangeiros, talvez como estrangeiros, já que há países em que a igreja tem dificuldades enormes de crescer, e há lugares em que o evangelho está regredindo a passos largos. Temos uma obra para resgatar os milhares de viciados em sexo (prostitutas, homossexuais, garotos e garotas de programa, pornógrafos, etc.), bem como os viciados em drogas, cigarros, álcool, remédios. Essa obra já tem sido feita com bons resultados. Nosso mundo está ficando louco ao nosso redor e estamos preocupados conosco mesmos e com medo de nos contaminarmos...
Filipe e o etíope
Pense comigo. Filipe foi transladado para junto do etíope, pois havia dois elementos de alto interesse de Deus: (1) uma pessoa que com as suas forças e seu melhor entendimento havia arranjado algo muito caro e difícil naquela época, rolos de livros da Bíblia. (2) Um discípulo disposto a ir aonde Deus mandasse. A vontade de Deus se fez.
Lembra das palavras de Mateus 7:21? "Nem todo o que Me diz... Mas aquele que faz a Minha vontade."
Por décadas, reduzimos a compreensão do que seria a vontade de Deus como sendo cumprir mandamentos e regras bíblicas, para que a nossa santidade pessoal avançasse. Deixe-me acrescentar um elemento. Isto que temos praticado é apenas primeira marcha e está na hora de utilizarmos a segunda, terceira e acelerar.
A santidade pessoal é apenas o ponto de partida para que estejamos com o coração aberto e disposto a agir audaciosamente por Deus.
Cada cristão deveria ser um missionário, e cada um deveria, de acordo com seus dons, cumprir a vontade de Deus. Um vigor espiritual deveria estar presente de tal maneira que, quando Deus nos mandasse, saberíamos que é Ele quem está falando e o que Ele quer de nós em situações específicas.
Comparo o conflito entre o bem e o mal com um jogo de xadrez. Satanás faz os seus lances, ataca e as suas peças lhe obedecem quando ele lhes dá ordens. Ele usa artimanhas e maneiras de atrair pela natureza humana caída e os seus lhe seguem as ordens. Quando Deus tem que fazer um lance, atacar determinada frente e agir para a vitória, Ele move Suas peças (chama aqueles que se professam cristãos), mas as peças não ficam onde Ele as colocou... Suas peças sempre têm planos próprios e não se submetem, não Lhe obedecem!
Há muitos que questionam se Deus pode ganhar esta batalha, visto que ao redor do mundo parece que Ele está perdendo terreno. Estes mesmos não se dispõem a servi-Lo, mesmo às custas de perdas pessoais.
Onde estão os Filipes e Paulos de nossa época? O chamado ainda está em pé para cada um de nós: "Vem e segue-Me". Para outros "Ide..." Você vai obedecer?
A igreja em Antioquia
Quando, de um lado, pessoas se dispõem, do outro lado, pessoas recebem o evangelho. Leia com atenção o que aconteceu em Antioquia e veja a mistura interessante de disposição humana e ação de Deus. Seres humanos fazendo o trabalho exterior, e Deus moldando e influenciando o interior.
Veja o texto da lição: "Por um ano, tendo Paulo e Barnabé chegado a Antioquia, ensinaram muitas pessoas. Atos 13:1-3 revela mais sobre a composição da primeira igreja. Sabemos que Barnabé era judeu cipriota; Saulo, claro, vinha de Tarso, outra cidade que não fazia parte de Israel propriamente dito. Manaém era um bom amigo ou irmão adotivo de Herodes Antipas. Simeão era chamado de Níger, a palavra latina para ‘negro’. Lúcio era proveniente de Cirene, no norte da África. Isso significa que a liderança da igreja era etnicamente diversa, com alguns líderes que não eram judeus."
Todos que ali labutaram eram estrangeiros naquela terra e fizeram um trabalho maravilhoso. Pequenos atos de bondade podem abrir portas que formam uma igreja como a de Antioquia. A ação pelo bem estar de outros, lendo-lhes as necessidades, juntamente com um ensino destemido e vigoroso, foi o segredo daquele sucesso evangelístico.
Vamos aceitar o convite de Deus para nossa vida? Você já sabe o que Deus quer de você? Ore e descubra! Junte-se aos outros que também querem descobrir a vontade de Deus para sua vida e orem, estudem a Bíblia e descobrirão as maravilhas de Deus!