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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina
2º Trimestre de 2006


Lição 6 – O desafio de Suas declarações

Por Amin A. Rodor Th.D.
Doutor em Teologia, é diretor de graduação do SALT
Unasp Campus 2

Introdução

Como indicado em lição anterior, Jesus foi um Ser exclusivo, o monogenes de Deus. Monogenes, é um termo grego traduzido em nossa Bíblia pela palavra latina unigênito.Esse termo pode significar único gerado, hoje dando a idéia de criação (embora, na história da teologia, o termo tivesse outro significado). Monogenes, (mono + genos), por outro lado, nada tem que ver com a idéia de criação/geração. Literalmente, a palavra monogenes significa ‘único do seu tipo", "único da sua espécie", "raro", "exclusivo", enfatizando a "exclusividade do ser". A palavra aparece em Hebreus 11:17, aplicada a Isaque, o filho "unigênito de Abraão". É claro que a idéia não é que Isaque fosse o único filho gerado de Abraão, pois sabemos que Abraão teve outros filhos. Isaque era o monogenesde Abraão, por que era o único filho da promessa, exclusivo em seu papel dentro do concerto, na linhagem do patriarca.

Antes de entrarmos diretamente no tópico da lição desta semana, devemos entender a exclusividade de Jesus, para depois entendermos o desafio de Suas declarações. Em muitos dos artigos no Review and Herald, Ellen White esclarece o que Herald, entre 1872 a 1914, indica o que Cristo colocou de lado ao encarnar como um ser humano: Ele deixou o "Seu trono", "Sua coroa real", "Sua realeza", "a corte real", "Suas riquezas e Seu alto comando", etc. Contudo, e isto deve ser entendido claramente, em nenhum texto Ellen White afirma que Cristo tivesse abandonado Sua divindade essencial, ou Seus atributos de Deus, embora voluntariamente, tenha decidido não fazer uso deles, ao assumir a natureza humana. Em vez de dizer isto, 125 vezes e de diferentes formas ela afirma que Cristo "vestiu Sua divindade com a humanidade" ou que "Ele velou Sua divindade com a humanidade". Numa frase que sumaria esta compreensão, podemos citar: "Para nosso benefício, Ele desceu do trono real e vestiu Sua divindade com a humanidade, deixando de lado Seu manto real, Sua coroa de realeza, para tornar-Se um conosco" (Review and Herald, 24 de outubro de 1899). Assim, ao tratarmos com a humanidade de Cristo, não devemos perder de vista a singularidade de Sua Pessoa, em que a humanidade se combinou com a Divindade, o que O torna um Ser à parte de todos os demais seres.

Assim, diante de Jesus Cristo, Deus encarnado, estamos diante de um Ser único, exclusivo, cuja complexidade e mistério são um desafio, não apenas à nossa compreensão e lógica, mas a todo pietismo superficial, que busca torná-Lo apenas um ser humano como todos os demais, esquecendo-se de Sua divindade unida à humanidade. Em face disto, perguntamos: O que estaríamos esperando encontrar em Jesus Cristo? Que Ele dissesse apenas coisas que entendêssemos plenamente, em nossa natureza caída, sem sermos desafiados por Sua infinita pureza, sabedoria e divindade plena? Muitos daqueles que ouviram Jesus durante Seu ministério público consideraram "difíceis" vários dos Seus ditos. Muitos dos que lêem tais declarações hoje, ou as ouvem na igreja, também as consideram difíceis.

Estranho seria se não houvesse qualquer desafio naquilo que Ele tenha declarado. Seria, provavelmente, mais fácil crer em um Jesus que fosse apenas uma construção de nossa própria imaginação, criado à "nossa imagem e semelhança", um ser "inofensivo" em nossos termos. Mas o Jesus que encontramos nos Evangelhos nos desconcerta. Ele nunca tentou "dourar a pílula". Nunca Se valeu da psicologia do sucesso ou dos instrumentos e recursos tão comumente utilizados pelos políticos e líderes que conhecemos. Em uma palavra, Jesus consistentemente Se apresentou "politicamente incorreto". Seus paradoxos desafiam nossos paradigmas e referências humanas: "Grande é o que serve"; os "mansos herdarão Terra"; "vivemos quando morremos"; devemos "pagar o mal com o bem", devemos "andar a segunda milha"; "voltar a outra face"; o pecado pode ser cometido "no coração", etc.

Para Jesus, a graça e a fé são poderes muito maiores que qualquer outro tipo de poder, como aquelas coisas que tanto nos atraem e seduzem: dinheiro, prestígio e posição. Não é de estranhar que sejamos forçados a concluir que o Jesus dos Evangelhos seja tão diferente de nós e de tudo o que conhecemos no reino natural das coisas. E que, realmente, tenhamos que concluir que ninguém inventaria uma pessoa assim. Além disso, o Jesus que encontramos nos Evangelhos não pode ser "domesticado", ou um manequim que possamos vestir de acordo com nossos gostos, filosofias, opiniões e teorias.

Na realidade, para simplificar a discussão, devemos admitir a verdade de que os ensinos de Jesus são difíceis, ou mesmo ofensivos, não primariamente porque eles não possam ser entendidos, mas porque estão em conflito com aqueles elementos da natureza humana que, no século 21, são os mesmos da natureza humana no primeiro século: avareza, amor ao prazer, cobiça, rebelião contra Deus, instinto de revanche, orgulho, arrogância, etc. As declarações de Cristo demonstram que Ele tinha perfeita consciência daquilo que "está dentro do homem" natural (Jo 2:25). Ele sabia que é precisamente em nossa natureza, e não em nenhum outro lugar, que o grande obstáculo se encontra.

Provavelmente, alguns dos considerados "ditos difíceis" de Jesus possam ser elucidados por clarificação lingüística, ou maior conhecimento do contexto cultural em que essas coisas foram ditas, etc. Contudo, o que realmente nos desafia nas declarações de Jesus, não é tanto aquilo que não entendemos, mas precisamente aquilo que entendemos e que não gostaríamos de entender, ou gostaríamos de entender de outra forma e, por isso, muitas vezes, queremos explicações que se ajustem aos nossos gostos e modo de pensar. Às vezes, dizemos não entender as declarações de Cristo porque elas envolvem uma avaliação crítica de nossos preconceitos, convicções enraizadas e preferências fortemente estabelecidos, ou porque elas desafiam o consenso das opiniões correntes na cultura popular. Muitas das declarações de Jesus representam a indicação de que seria melhor reconsiderarmos as coisas geralmente aceitas como "comuns" e "normais".

Domingo: Sobre o Casamento e o Celibato

A Jesus foi pedido dar Seu ensino sobre um ponto da lei grandemente debatido nas escolas judaicas. Em Deuteronômio 24:1-4 a lei afirmava que, se um homem, depois de casar-se, encontrasse na esposa "qualquer coisa indecente", escrever-lhe-ia uma carta de divórcio... e a despediria de sua casa..." Em nenhum lugar no Antigo Testamento encontramos um mandamento explícito acerca dos procedimentos do divórcio. Mas neste contexto está implícito que um homem poderia divorciar-se de sua esposa, no caso de ter encontrado nela alguma coisa "indecente". No tempo de Cristo, os intérpretes da lei se dividiam quanto ao significado de "coisa indecente". Havia, então, duas escolas principais de interpretação: Shamai, a escola rigorista, e Hillel, a escola liberal.

Shamai (famoso rabino que provavelmente tenha vivido uma ou duas gerações antes de Cristo) e seus seguidores, ensinavam que um homem poderia divorciar-se no caso de, tendo se casado na compreensão de que sua futura esposa fosse virgem, confirmasse, posteriormente, que ela não era. Neste caso a "indecência", seria o relacionamento sexual ilícito, por parte da noiva, antes do casamento (veja Dt 22:13-21). Os seguidores de Hillel, outro rabino contemporâneo de Shamai, e seus discípulos, assumiam que "alguma indecência" poderia incluir, mais ou menos, qualquer coisa que o marido achasse ofensivo na esposa. Ela poderia desagradá-lo por uma variedade de razões. Por exemplo, se não soubesse cozinhar, ou mesmo, como um rabino afirmava, se o marido a achasse menos bela do que outra mulher. A questão não é que eles queriam facilitar o divórcio, mas afirmar o que eles criam a respeito do significado do texto.

Foi neste contexto que Jesus foi convidado a dizer o que pensava em relação ao tópico. Os fariseus que formularam a pergunta estavam divididos sobre a questão. Como parte do seu estilo revolucionário, Jesus desconsiderou as interpretações das escolas rabínicas e apelou para as Escrituras. Ele Se valeu do princípio aceito, construído sobre a premissa de que, numa disputa, o texto mais antigo tem maior peso. "Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem." Jesus relembrou a Sua audiência a narrativa bíblica da instituição do casamento, combinando Gênesis 1:27 com Gênesis 2:24. O divórcio entra na história humana somente depois da queda. Jesus disse que Moisés permitiu o divórcio por causa da "dureza dos vossos corações... Mas no princípio não foi assim" (Mt 19:8). Jesus restaurou o casamento à sua glória e intenção originais. Sem descartar-se de Moisés, Ele insistiu que Moisés deve ser interpretado à luz da afirmação original.

Michael Green observa que Jesus estabeleceu seis pontos fundamentais sobre o casamento:

  1. O casamento foi designado por Deus. Portanto, é uma ordenança instituída por Deus em lugar de mero contrato social.
  2. Deus criou "homem e mulher". Portanto, a intenção divina não foi de um mundo unissex. Há uma diferença ordenada por Deus, de relação entre dois sexos que se complementam.
  3. A intenção de Deus era de que o casamento fosse permanente. Não havia a intenção original de que o casamento fosse quebrado por "qualquer indecência", fosse qual fosse a interpretação de Shamai, Hillel ou outro qualquer.
  4. O casamento é exclusivo. Dois, não três, quatro ou cinco, devem se tornar uma carne. Um homem e uma mulher se unirão. E, claro que isto descarta qualquer idéia moderna ou antiga sobre poligamia (embora a poligamia, no Antigo Testamento, tenha sido tolerada, mas nunca aprovada).
  5. O casamento cria a "família nuclear". Inclui deixar "pai e mãe" e unir-se à sua mulher. Assim, o casamento se torna o mais forte e importante de todos os relacionamentos humanos.
  6. O casamento não é para todos. Isto é implícito nos versos 10 a 12. Jesus Se mostra mais radical do que o rigorismo de Shamai. Por isto, os discípulos sugeriram que, se era tão difícil sair do casamento, era melhor não entrar nele.

Devemos levar em consideração que, embora o ensino de Cristo envolva a possibilidade do divórcio (na chamada "cláusula de exceção"), e o novo casamento seja uma opção válida para a parte inocente, em caso de infidelidade conjugal (porneia, Mt 19, 9), o divórcio e o novo casamento não devem ser tratados levianamente. Não deve ser considerado sob a influência da cultura moderna e os exemplos de Hollywood e das novelas da televisão. Gênesis 2:24, mencionado por Jesus, envolve as ações verbais: "deixar" e "unir-se" e, como resultado, "tornando-se os dois uma só carne". A palavra hebraica unir aqui é dabaq, que sugere a idéia de se estar "permanente junto", "unido". Este é o termo freqüentemente utilizado para expressar o compromisso do concerto entre Deus e o Seu povo (Dt 10:20; 11:22; 13:4; 30:20, etc). O divórcio é o rompimento dessa condição de unidade criada pelo casamento, e precisamente por isso é que ele é tão devastador em suas conseqüências. O divórcio deixa, como resultado, não duas pessoas, mas duas frações de um todo desfeito.

Que a posição de Jesus quanto à indissolubilidade do casamento tenha radicalmente contrariado a cultura dos Seus dias, é evidente na reação e desabafo dos discípulos: "...Se esta é a condição do homem relativamente à mulher, não convém casar." (v 11). Ao que Jesus respondeu: "Nem todos podem receber este conceito, mas apenas aqueles a quem é concedido." Jesus expôs uma norma que pode ser aceita apenas por Seus verdadeiros discípulos, aqueles que desejam sinceramente viver por Seus ensinos. É neste contexto que Ele fala dos que "se fazem eunucos", ou optam pelo celibato, "por causa do reino de Deus" (v. 12). À luz dos ensinos de Cristo quanto ao casamento devemos levar em conta que:

  1. O casamento é sagrado, independente de decisões humanas ou do cinismo da cultura ao nosso redor. Se os cristãos devem levar Cristo a sério, então Seus ensinos com respeito ao casamento não deixam qualquer dúvida quanto ao caráter sagrado da instituição matrimonial. Segundo Ele, o casamento foi intencionado por Deus para ser duradouro e permanente.
  2. O divórcio, mesmo em caso de adultério, não é a alternativa, se há a possibilidade de perdão e restauração. A Igreja e seus líderes não devem promover separações apressadas. Sob a perspectiva divina, situações difíceis, mesmo impossíveis do ponto de vista humano, podem ser restauradas. Casamentos desfeitos, onde os pares se ofenderam e mutuamente se feriram, podem ser renovados, podendo mesmo se tornar monumentos da graça redentora de Cristo.
  3. O Manual da Igreja indica: "A infidelidade ao voto matrimonial geralmente tem sido considerada como alusão a adultério e/ou fornicação. No entanto, a palavra que no Novo Testamento é traduzida por "fornicação", ou "prostituição", abrange algumas outras irregularidades sexuais... Portanto, as perversões sexuais, inclusive o incesto, o abuso sexual de crianças e as práticas homossexuais, são também identificadas como abuso das faculdades sexuais e violação do desígnio divino no casamento. Como tal, são um motivo justo para a separação ou divórcio" (Manual, p. 205).
  4. Finalmente, vivendo em uma cultura em que o casamento freqüentemente falha e se fragmenta, e encontramos as vítimas desse desastre em todas as partes, os cristãos devem manifestar uma atitude de sensibilidade e graça, evitando preconceitos e prejulgamentos, em seus contatos dentro e fora da igreja. Devemos nos lembrar de que, do próprio Cristo aprendemos que podemos aceitar as pessoas, sem, contudo, aceitar aquilo que elas fazem.

OBS: Para os interessados em se aprofundar neste tópico, sugerimos a leitura da revista teológica do SALT, Parousia, Ano 6, No 2, Segundo Semestre de 2007, com a temática "Divórcio e Novo Casamento", que pode ser encontrada com seu pastor, ou diretamente com o SALT, UNASP, Campus Engenheiro Coelho.

Segunda-feira: Sobre o Perdão

Em seu livro Mere Christianity, C.S. Lewis observa que a regra cristã: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" é, provavelmente, a mais impopular virtude cristã. Isto, ele esclarece, se deve ao fato de que, na moralidade cristã, "o próximo" inclui também "o inimigo" e assim, ele conclui: "Nos encontramos diante do terrível dever de perdoar nossos inimigos." Parece que todo mundo considera o perdão uma idéia fantástica, até que eles próprios tenham algo e alguém para perdoar!

Com Pedro, nos erguemos na presença de Cristo e perguntamos com toda seriedade: "Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe?" (Mt 18:21). Os rabinos concordavam que em casos de ofensa, o ofendido deveria perdoar até três vezes.Eles limitavam o perdão a três vezes como resultado de uma interpretação errônea de Amós 1:3. O perdão tinha sido reduzido a uma mera questão matemática. Certamente, Pedro, tendo ouvido o chamado de Cristo à prática do perdão, dobrou o limite rabínico e acrescentou mais um: "Que tal sete vezes?" Admiramos o espírito generoso de Pedro! Quantos estariam dispostos a perdoar sete vezes os seus ofensores? Jesus, então, surpreende a lógica humana , e coloca o perdão fora dos limites da matemática. "Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete." O que Ele realmente estava dizendo é que devemos jogar a calculadora fora. Jesus sugere que o perdão, como o amor, não tem limites.

Muitos buscam no lugar errado a motivação para perdoar:

  1. Buscando estabelecer "quem é o culpado".
  2. Pensando que eles podem perdoar apenas quando a parte considerada culpada revela arrependimento.
  3. Outros tentam basear o perdão nos seus sentimentos e emoções... Perdoarão quando "sentirem o desejo de perdoar".

Perdão é um ato da vontade, mas devemos encontrar a base, o fundamento do perdão. Em que base podemos estender perdão aos que nos ofendem? Foi precisamente isso que Jesus ensinou na parábola do credor incompassivo, que Ele contou a partir do verso 23 de Mateus 18, o que pode ser considerado parte da resposta à pergunta de Pedro. "Um servo devia a certo rei a importância de dez mil talentos... Não tendo com o que pagar..." Para entrarmos no espírito da parábola, devemos entender um pouco do mundo no qual Jesus a contou. O talento era a maior unidade monetária conhecida. Um talento equivalia a 6 mil denários.

Podemos ter uma compreensão da grandeza do débito lembrando que Davi doou três mil talentos de ouro e sete mil talentos de prata para a construção do templo (1Cr 29:4, 7). A renda de Herodes, o Grande, em impostos, não passava de 900 talentos, anuais. Galiléia e Peréia, pagaram apenas 200 talentos em taxas no ano 4 a.C. Em estimativas recentes, os dez mil talentos seriam equivalentes ao "valor de 12 milhões de dólares", mas com a inflação e flutuação do valor de metais preciosos, isto poderia ser mais de um bilhão de dólares em moeda atual" (Frank E. Gaebelein, ed. The Expositors Bible Commentary, v. 8, p. 406). A dívida desse devedor, mencionada por Jesus, é simplesmente fantástica. Considerando que um denário era o pagamento de um dia de trabalho, estamos falando de uma dívida que não poderia ser paga nem com centenas de anos de trabalho. Tal dívida não poderia ser coberta vendendo-se toda a família à escravidão. Realmente, a venda da família nesta parábola foi mencionada apenas para sugerir a condição desesperada do devedor e a impossibilidade de pagamento. E, pela generosidade do rei, "movido de íntima compaixão", a dívida foi totalmente perdoada!

Então, numa segunda cena, ou num contraponto, Jesus mencionou que um conservo devia a esse servo perdoado a quantia irrisória de cem denários, algo que poderia perfeitamente ser pago em alguns meses. Então, aquele que fora perdoado, "lançando mão dele, o sufocava, dizendo: Paga-me o que me deves" e apesar do pedido de misericórdia, "...foi encerrá-lo na prisão" (Mt 18:28-30). Deve-se notar a chocante diferença dos débitos. Porém, maior ainda é a diferença das atitudes.

Essa parábola é a nossa biografia. O primeiro débito, aquele que não se poderia pagar e do qual o primeiro servo foi graciosamente perdoado, é o nosso débito para com Deus, o débito na linha vertical. O segundo, é o débito da importância pequena, e representa o débito das outras pessoas para conosco, o débito na linha horizontal. Pense: Dez mil talentos em comparação com cem denários!!! O que nos ofende nesta parábola não é o fato de que o servo tentasse reaver os cem denários. Nosso senso de justiça não seria ofendido se Jesus não tivesse feito referência anterior à magnanimidade do rei, perdoando a enorme dívida de um bilhão de dólares. É o contraste entre a misericórdia recebida e a falta de misericórdia demonstrada que desperta nosso protesto e nos faz concordar com a conclusão do rei da parábola.

Você compreende o que Jesus está dizendo? Quando manifestamos atitude de intransigência, espírito não perdoador para com as pequenas dívidas dos outros para conosco, isso realmente torna evidente que não tomamos consciência de quanto fomos perdoados por Deus. Quando consideramos a infinita grandeza do nosso próprio débito para com o Céu, do qual fomos graciosamente perdoados, as dívidas dos outros para conosco não passam, comparativamente, de alguns centavos. Por isso, a chave real para o espírito do perdão está na linha vertical: consciência e apreciação do perdão divino! Nossa oferta de perdão nunca depende da manifestação de arrependimento ou admissão da culpa dos outros, na linha horizontal.

Assim, SE VOCÊ NÃO PODE PERDOAR, É DE SE PERGUNTAR SE VOCÊ ENTENDEU OU EXPERIMENTOU O PERDÃO DIVINO!!!... Não somos perdoados porque perdoamos, mas o perdão que estendemos aos outros é a evidência de que experimentamos o perdão de Deus. Tudo mais que pudermos dizer sobre o perdão fica subordinado a esta verdade fundamental! Noutro texto, Jesus acrescenta: "Aquele que muito foi perdoado [i.e. aquele que entendeu o perdão], este muito ama." Por outro lado, "Aquele que [julga] que pouco foi perdoado, pouco ama" (veja Lc 7:47) A consciência do perdão divino é a única base para a atitude perdoadora! Só então, verdadeiramente, poderemos "perdoar de coração" (v. 35).

Terça-feira: Sobre riqueza e liberalidade

Jesus falou mais sobre o dinheiro do que sobre qualquer outro tema, exceto pelo que Ele falou sobre o reino de Deus. Considerando-se que a missão dEle foi primariamente de caráter espiritual, nos perguntamos, por que tal concentração, por que tal ênfase? Porque, para Jesus, o dinheiro não era apenas um meio de troca, como imaginado pelo capitalismo. Para Jesus, o dinheiro era uma força pessoal, um tipo de divindade, um deus rival, daí o Seu uso do termo Mamom, o deus do dinheiro, em aramaico. O dinheiro é uma força pessoal e, para a maioria das pessoas, atua como um deus, embora possamos negar isso. Na consciência das pessoas, atribui-se ao dinheiro um poder que só Deus possui. Julgamos que, se tivéssemos dinheiro, todos os nossos problemas desapareceriam, e seríamos praticamente onipotentes.

Por outro lado, é assim que se comporta a maioria das pessoas que têm dinheiro. Mais que um meio de troca, ou algo moralmente neutro, Jesus tratou o dinheiro como uma divindade que busca dominar o homem e está em competição com o evangelho. Para Jesus, não era meramente difícil, mas impossível um rico, que realmente não experimenta mudança de coração, entrar no reino dos Céus, assim como era impossível um camelo, o maior animal conhecido na Palestina, passar pelo fundo de uma agulha, o menor orifício conhecido no mundo antigo. Para nós, isso é ofensivo, e não é difícil admirar as ginásticas feitas para se atenuar o ensino de Cristo. O dinheiro conduz facilmente à arrogância e ao espírito de independência de Deus, e nos cega sobre quem realmente somos. Por isso, parece ser mais difícil para os ricos alcançarem o reino!

Fortemente promovido na sociedade moderna, com todo reforço positivo disponível, ser rico em geral passa por virtude, é sinal de operosidade ou esperteza. O dinheiro converte-se no sonho de todos, o que é revelado pelo sucesso dos jogos de azar, e pelas enormes filas em frente de casas lotéricas, onde todos alimentam o mesmo sonho. O engano comum, contudo, é pensar que apenas os ricos são vítimas do encanto da riqueza: pois o dinheiro seduz a todos. Os ricos lutam para preservar e expandir o que têm, os pobres sonham com a riqueza, e como isto os faria felizes. O dinheiro produz a impressão de que a felicidade depende dele, e gera uma noção de falsa segurança.

Você está surpreso pelo que Jesus disse sobre o dinheiro? Surpreso porque isto é tão ofensivo ao nosso materialismo prático?

Para Agostinho, o filósofo cristão, "quem tem Deus, tem tudo, quem não tem Deus, não tem nada. E aquele que tem Deus e tem tudo, não tem mais do que aquele que tem Deus e não tem nada." – Em essência, foi isto que Jesus nos ensinou sobre o dinheiro!

Quarta-feira: Sobre a perfeição (Mt 5:48)

A má compreensão deste texto tem sido razão para muito "fogo estranho" trazido para dentro da igreja, resultando em arrogância em alguns e desânimo em outros. A questão real não é se as Escrituras ensinam que devemos ser "perfeitos como Deus é perfeito". Então, o que significa isto, segundo as Escrituras? Qual é a noção bíblica de perfeição?

Mateus 5:48 tem servido de base para infindáveis discussões em círculos cristãos em geral, e no adventismo, em particular. Textos isolados das Escrituras, e outros dos escritos de Ellen White, têm provido justificativa para toda sorte de distorção, para os "santos" e "perfeitos" dos ministérios independentes. Contudo, nesta introdução seria fundamental observar que, para muitos destes adventistas, "perfeição de caráter" é confundida com estilo de vida. Assim, em lugar de realmente falar de caráter, concentram-se em "perfeição" no que comemos e bebemos.

Este é um engano trágico. Embora o estilo de vida tenha lugar na vida cristã, isto se tornou uma obsessão e, para muitos, estilo de vida é sinônimo de "perfeição de caráter". A maior tragédia deste tipo de "desenvolvimento de caráter" é que ele facilmente se inclina para o legalismo. Em geral, os perfeccionistas são infectados com a mentalidade de "superioridade espiritual", o que Emil Brunner considerava o "pecado da devoção" – devoção entendida como atitude que torna tais pessoas julgadoras, duras, exigentes, acusadoras, negativas e cheias de justiça própria. Não tendo mudado a natureza humana através do tempo, o espírito dos fariseus modernos continua hoje o mesmo dos dias de Jesus. Assim, em lugar de se tornarem realmente mais santos e semelhantes a Jesus, eles se tornam mais e mais parecidos com os fariseus do passado.

O perigo dos textos isolados

Se tomarmos textos bíblicos isolados, corremos o sério risco de nos enganarmos e de desorientar outros. Tome por exemplo, 1 João 3:8 "Quem comete pecado é do diabo..."ou ainda "Aquele que nasce de Deus não peca..." (v. 9). Se isto fosse tudo o que a Bíblia tivesse a dizer sobre o pecado, então, os perfeccionistas teriam material para longos discursos. M. L. Andreasen, defensor do pós-lapsarianismo e ancestral espiritual dos que hoje defendem a mesma noção, em seus dias áureos costumava esmurrar mesas e púlpitos, trovejando aos seus ouvintes assustados: "Pare de pecar! Pare de pecar hoje!" Ora, isso é muito fácil de ser dito e aconselhado. De fato, confessar os pecados dos outros é algo muito fácil. Ao mesmo tempo que simulamos um tipo falso de "perfeição", estamos a milhares de anos-luz de distância do ensino bíblico sobre perfeição.

Contudo, na mesma carta joanina encontramos outro texto capaz de desconcertar qualquer perfeccionista: "Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos e a verdade não está em nós" (1Jo 1:8), e "Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-Lo [Deus] mentiroso, e a Sua Palavra não está em nós" (v. 10). Segundo João, nossa arrogância de impecabilidade torna Deus mentiroso. Aqui, apenas como exemplo, temos dois textos, aparentemente em absoluta contradição. Ou João estava completamente confuso, ou ele estava operando com um significado de pecado que desafia as noções pietistas superficiais, comuns hoje entre alguns adventistas, talvez, até bem intencionados. Note, entretanto, que em 1 João 5:16, o apóstolo faz uma diferença entre tipos de pecado: Os pecados que são para a morte e os que não são para morte. Isto explicaria os dois textos aparentemente em contradição. Pecado é algo muito mais complexo do que alguns entendem. Esta declaração não tem nada que ver com "defesa do pecado," como gostam de acusar os perfeccionistas, mas com uma avaliação realística de nossa natureza pecaminosa (veja abaixo alguns dos termos bíblicos para definir o pecado).

Ao contrário de apresentar-se como o "maior de todos os santos", Paulo costumava chamar-se "o principal de todos os pecadores". Deste lado do Céu, não importa quanto avanço façamos na santificação; jamais chegaremos a um estágio de impecaminosidade absoluta. Nunca poderemos ser tão "santos" que nada mais precise ser feito. Nunca chegaremos ao ponto em que não mais precisemos fazer a oração do Senhor: "Perdoa-nos as nossas dívidas..." Se pudermos ser absolutamente perfeitos, como alguns pregam, então seríamos como Cristo, e não mais precisaríamos dEle. Verdadeira santificação significa exatamente o oposto. Trata-se da crescente compreensão de nossa pecaminosidade pessoal e de nossa absoluta dependência e necessidade de Cristo.

Considerando Mateus 5:48

Uma questão que inquieta a muitos cristãos é se, realmente, é realista esperar alcançar um estágio de absoluta impecaminosidade aqui, nesta vida. Se isto pode acontecer, quando acontecerá comigo? Temos algum exemplo deste estágio de perfeição? Em geral, os perfeccionistas, tentando fugir das implicações de sua teoria, dizem que isso não é importante. Cremos o contrário. Se alguém diz que a teoria da evolução é um fato, um exemplo de que isto acontece é fundamental para dar sustentação a ela. Dizer que é possível a perfeição, significando "impecaminosidade absoluta", como advogam os perfeccionistas do adventismo direitista, nos justifica perguntar onde estão os modelos entre eles? Podem eles produzir evidências da teoria que defendem? Ou será que "perfeição", em termos de "impecaminosidade", permanece no discurso? Ou, ainda, será que "perfeição" significa apenas ser vegetariano, não comer chocolate, queijo ou qualquer coisa doce?

O texto freqüentemente em debate na discussão do perfeccionismo contém as palavras de Jesus: "Sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste" (Mt 5:48). Esse texto tem sido objeto de variadas interpretações. Estas flutuam desde aqueles que negam sua autenticidade até aqueles que o mantêm com fanatismo zelote, que é possível ao homem ser restaurado, nesta vida, à inocência de Adão, antes da queda. E. J. Waggoner, um dos ídolos dos perfeccionistas adventistas, chegava mesmo a afirmar que "até o nosso cabelo não embranqueceria". Pelágio, o herege do sexto século, ensinava que perfeição absoluta é plenamente possível. Mas, claro, a teoria de Pelágio, como a dos perfeccionistas modernos, tinha uma noção absolutamente superficial de pecado. Segundo ele, o homem nasce com capacidade de obedecer perfeitamente, pois o pecado é apenas uma questão de mau hábito (não uma infecção da natureza), que pode ser vencido por um ato da vontade humana.

I. Aspectos lingüísticos de Mateus 5:48

  1. Sabemos que o Novo Testamento foi escrito em grego. Em português, "sede" soa como uma ordem, um imperativo. Mas é curioso notar que o verbo ser aqui, no grego, está no tempo futuro. Algumas versões traduzem assim: "Sereis perfeitos, como o vosso Pai celestial é perfeito". Embora o texto contenha a idéia do que Deus espera dos Seus filhos, não se trata de um imperativo em sentido de ordem, como se fosse um requisito para sermos aceitos por Deus. Robert M. Mounse observa em seu Comentário do Evangelho de Mateus: "Esta declaração (v. 48) tem sido mal-entendida com freqüência; tem servido como texto básico para a doutrina do perfeccionismo cristão que requer do cristão absoluta impecabilidade moral, mas que, com freqüência, termina por reclassificar o pecado como algo menor do que ele é" (Mathew, A Good News Commentary, p. 47). E isto, veremos posteriormente.
  2. A palavra perfeito aqui, é traduzida do grego teleios. No Antigo Testamento, a palavra mais comum para expressar este significado é tamim, que significa algo completo, dando a idéia de maturidade, em oposição a algo incompleto ou imaturo. A palavra aparece 85 vezes no AT, e é geralmente traduzida por teleios na versão grega, a Septuaginta (LXX). Como veremos mais adiante, as pessoas chamadas de perfeitas estavam muito longe de serem consideradas sem pecado.
  3. No Novo Testamento, teleios aparece aproximadamente vinte vezes. O significado primário é de "maturidade". Teleiosé frequentemente usada em contraste com "criança, menino", e aparece com o sentido de algo completo, que alcançou determinado alvo ou grau de maturidade. Robert A. Guilich, em seu The Sermon on the Mount, inclui uma longa discussão sobre teleios em Mateus (pg. 234-237). E conclui que, em Mateus 5:48, bem como 19:21, teleios é um chamado a um novo relacionamento com Deus. Em vez de conotar perfeição legal, o termo denota integridade no relacionamento com Deus.

    Observe algumas passagens em que teleios ocorre: 1 Coríntios 14:20: "Irmãos, não sejais meninos no juízo... Quanto ao juízo, sede homens amadurecidos (teleios, perfeitos). 1 Coríntios 2:6: "Entretanto, expomos sabedoria entre os perfeitos (teleios, isto é, os que alcançaram a maturidade)... Hebreus 5:13, 14: "Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. Mas o alimento sólido é para os adultos (teleios – os que alcançaram a maturidade). Algumas versões traduzem: "Mas o alimento sólido é para os perfeitos..." Em todos estes textos, encontramos a palavra de Mateus 5:48, teleios, contrastada com comportamento infantil, e obviamente, o sentido é de maturidade, não de perfeição em sentido de impecabilidade e absoluta exatidão moral.

  4. Nas palavras que Jesus dirigiu ao jovem rico, encontramos o mesmo vocábulo: "Se queres ser perfeito (teleios), vai, vende os teus bens, dá aos pobres..." (Mt 19:21). Ninguém pensaria que Jesus disse ao jovem que, se vendesse tudo e desse aos pobres, ele seria moralmente perfeito, totalmente sem pecado. O que Jesus disse equivale à paráfrase: "Se queres agir com propriedade, com maturidade, se queres tomar a decisão sábia, decisão de gente grande, não o que é próprio do egoísmo infantil, vai, vende o que tens e segue-Me". Em Mateus 5:48, perfeito tem esta idéia primária de maturidade e nos convida a atuar com propriedade, de acordo com aquilo que o Senhor espera. Não há, no texto, nenhum vestígio da idéia de impecabilidade moral. Veja ainda Tiago 3:2: "Todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça no falar, é perfeitovarão, capaz de refrear também todo o corpo." Novamente, o que está em foco aqui é a noção de maturidade, não de impecabilidade absoluta. Mesmo tropeçando "em muitas coisas", aqueles que não tropeçam no uso da língua são descritos como perfeitos.

II. Aspectos contextuais

O texto sob nossa consideração contém uma pequena partícula grega, traduzida como: portanto, assim ou pois: "Portanto, sede vós perfeitos...", o que nos indica que o contexto é indispensável, porque o que agora se enuncia é uma conclusão daquilo que precede. Na realidade, aqui temos o clímax de uma série de conselhos e admoestações que Cristo havia dado ao grupo de religiosos de Seus dias, que confiava na exterioridade de sua religião sem demonstrar interesse no espírito dela. Na verdade, o contexto nos ajuda a definir a perfeição que Jesus espera dos Seus seguidores.

  1. Observemos o contexto amplo: em Mateus 5:21-22, é evidente que muitos dos ouvintes de Jesus se concentravam na letra da lei. Eis a razão pela qual Ele apresenta Suas famosas antíteses ("Ouvistes o que foi dito aos antigos... Eu porém vos digo..."
  2. Esses religiosos criam que matar tinha que ver apenas com o ato de tirar a vida de alguém. Isto é, para eles, pecado era apenas algo exterior, relacionado ao ato. Mas Jesus tornou claro que o mandamento vai muito além disso. Há palavras e atitudes que matam, demonstrando o que realmente há no coração humano e que podem, perante Deus, ser uma transgressão tão eficaz e real do mandamento como o ato concreto de tomar uma arma e destruir uma vida.
  3. O mesmo se dá com os outros mandamentos. O mandamento da pureza, por exemplo, segundo Jesus, desce ao nível do coração. Perante Deus, uma pessoa pode ser impura e transgredir o mandamento, não importando quão "correta" pareça sua conduta exterior. Assim, pode-se transgredir o sétimo mandamento, sem se chegar nunca a cometer um ato exterior impuro (Mt 5:27, 28). Jesus falou do adultério nas intenções, em um olhar! Portanto, Jesus desnuda nosso coração e nos coloca diante da lei sob um outro ângulo mais profundo e mais sério que o superficialismo farisaico.
  4. Os versos 44-47 provêm o contexto imediato e, com intensidade ainda maior, põem em destaque a estatura da maturidade que Deus espera daqueles que pretendem ser Seus filhos: "Amai vossos inimigos" (v. 44). Amar os inimigos não é coisa fácil. Em realidade, é impossível para o coração natural, pois requer maturidade espiritual. Não é coisa para crianças espirituais. Esta é a realidade, a prova de fogo do cristianismo. E em que base Deus pede isto de nós? Oferecendo-nos Seu exemplo.
  5. "Para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque Ele faz nascer o Seu sol sobre os maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos (v. 45). Porque, se amardes apenas os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo?..." (v. 46 e 47, precisamente os versos que antecedem o famoso v. 48). "Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste." Qual perfeição é mencionada aqui?
  6. À luz do contexto, Deus nos ordena ser compassivos, amar amigos e inimigos, sem diferença, sem rancores ou preconceitos, para com ninguém. Aquele que se diz discípulo de Cristo e odeia, trata com desprezo um semelhante, qualquer que seja a razão, revela imaturidade espiritual. Demonstra o mesmo nível superficial dos que pensam que guardam a lei, simplesmente por não "matarem" ou "adulterarem" mediante atos exteriores.
  7. Quando prestamos atenção ao significado das palavras usadas e ao contexto, é óbvio que o Senhor não estava aqui Se referindo à impecabilidade, como erroneamente defendem alguns, nem à perfeição absoluta, mas à maturidade cristã, expressa em amor para com todos.
  8. Esta conclusão se torna ainda mais clara quando examinamos o texto paralelo em Lucas: "Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo. Pois Ele é benigno até para com os ingratos e maus. Sede pois misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai" (Lc 6:35-36).
  9. Percebemos? Perfeito, em Mateus, equivale a misericordioso,em Lucas, e isto está precisamente de acordo com o contexto com o que Jesus estava enfatizando. Ser misericordioso é agir com maturidade cristã, como filhos de Deus, porque é assim que Deus age em Seu trato com todos, amigos e inimigos. As palavras de Jesus em Mateus 5:48 nos apresentam o ideal cristão mais elevado que o ser humano pode aspirar – refletir na vida, na conduta em relação com os outros, o amor divino, porque na Terra, o amor ao próximo é a manifestação do amor de Deus. É pelo amor que os discípulos são conhecidos, não por qualquer outra devoção que inventemos (Jo 13:35, cf. 1Jo 3:14) A este respeito, E. White observa: "O ideal que Deus tem para Seus filhos está acima do alcance do mais elevado pensamento humano. O alvo a ser alcançado é a piedade, a semelhança com Deus (Educação, p. 16).
  10. Assim, se perguntarmos: É possível a perfeição cristã nesta vida? Como responderemos? Naturalmente, antes de responder, devemos ter em conta o que se entende por perfeição. Portanto, podemos responder à questão de três formas diferentes:

Embora nos faltem tempo e espaço para discussão ampla, a mesma interpretação truncada da Bíblia é aplicada a certos textos de E. White. Veja, por exemplo, esta: "Cristo espera com anelante desejo a manifestação de Si mesmo na Igreja. "Com anelante desejo, Cristo aguarda ver-Se manifestado em Sua igreja. Quando o caráter do Salvador for perfeitamente reproduzido em Seu povo, então Ele virá a requerer os Seus." (Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, p. 324). Alguns tomam as palavras "reproduzir perfeitamente" para falar de impecaminosidade absoluta. Para muitos, os cristãos devem se tornar uma réplica de Jesus Cristo. Da mesma forma, estes adventistas perfeccionistas tomam a citação de E. White sem qualquer consideração ao contexto. Realmente, quanto o contexto é levado em conta, concluímos que Ellen White não está falando de impecabilidade. Se observarmos os quatro parágrafos que antecedem a citação em pauta, notaremos que sua ênfase não é em perfeição moral, mas em amor ao próximo e serviço ao semelhante, precisamente como em Mateus 5:48.

Muitos falam de "Vencer Como Jesus Venceu". Para E. White, "não podemos nos igualar ao Modelo" (Testemunhos Para a Igreja, v. 2 p. 549). Realmente, não vencemos como Jesus venceu, como se estivéssemos competindo com Ele. Nós vencemos porque Jesus venceu. Podem os cristãos vencer o pecado? Se negássemos essa possibilidade, estaríamos dizendo que o diabo é mais poderoso que Deus. Contudo, devemos entender a natureza complexa desta doença que nos afeta a todos, antes de sairmos ensinando heresias à Igreja e desorientando as pessoas.

Estamos diante de algo muito mais sério e complexo do que simplesmente afirmar que podemos alcançar, deste lado do Céu, um estágio de "absoluta impecaminosidade." Devemos lembrar ainda que, embora todo pecado seja imperfeição, nem toda imperfeição é pecado. Há imperfeições resultantes da queda que serão banidas apenas quando este corpo, limitado de inúmeras formas ou, nas palavras de Wesley, este instrumento quebrado, for "revestido de imortalidade" e restaurado à sua glória original.

Quinta-feira – Sobre a Família

Em Mateus 10:34-37 e em textos paralelos, Jesus parece ofender sensibilidades ao afirmar que "Não veio trazer paz, mas a espada... divisão entre o homem e seu pai, entre a filha e sua mãe..." Devemos entender que esta não é a intenção, mas o resultado. É claro que o evangelho não é o único fator divisivo, mas onde o evangelho é pregado, entre os que o aceitam e os que o rejeitam, e isto, freqüentemente na própria família, a espada da separação se ergue. Então, do contrário, qual seria a alternativa? Que todos perecessem nos seus pecados?

Ao Seus seguidores fica absolutamente entendido que, quando quer que as demandas de outras lealdades entram em rota de colisão com Cristo, não há qualquer dúvida sobre quem tem a preferência. Com estranha solenidade, o texto relaciona a lista dos mais próximos e dos mais queridos. Mas nem eles têm precedência sobre Jesus. Devoção a Ele não pode ser qualquer coisa menos que algo do coração inteiro. Contudo, como já indicado, devemos entender que lealdades humanas se fragmentam e se deterioram, a não ser que sejam purificadas por uma devoção absoluta. É apenas quando amamos a Cristo de forma suprema que realmente poderemos amar pai, mãe, mulher, filhos, irmãos e irmãos.

  1. O primeiro mandamento da primeira tábua, "Não terás outros deuses..." tem que ver com lealdade a Deus. O primeiro mandamento da segunda tábua, "honra o teu pai e a tua mãe", tem a ver com respeito, e o relacionamento entre eles é evidente. Lealdade é uma forma de honra, e honra, uma forma de lealdade.
  2. A localização do quinto mandamento, como o primeiro da segunda pedra, sugere uma conexão entre nossos pais e Deus. Assim como devemos honra a Deus, o Criador da vida, devemos honrar aos nossos pais, aqueles que nos deram a vida. Honrando os pais aprendemos a honrar a Deus.
  3. O mandamento bíblico usa o verbo honrar, na forma imperativa. Honrar e respeitar podem ser palavras sinônimas em português, mas não na língua da Bíblia. Honrar não é meramente ter alguém em alta consideração. O mandamento que exige honra determina que os filhos se comportem de maneira que reflita a posição dos pais. No Antigo Testamento, a desobediência ao quinto mandamento era considerada ofensa tão séria que Deus ordenou que os filhos rebeldes fossem punidos com pena capital (Êx 21:15-17; Dt 21:18-21).
  4. Um filho visitava o pai num asilo, que sofria de Alzhaimer... Alguém que o observava lhe disse: "Por que você faz isso? Ele nem sabe quem é você!" Ao que o filho respondeu: "É verdade... Mas eu sei quem eu sou!" Filhos devem notar que o mandamento não diz que honra é devida aos pais, apenas quando eles apreciam o que é feito por eles; se são ou foram bons pais; se "sentimos" que devemos cuidar deles; se outros membros da família fazem a sua parte, ou se foram pais perfeitos, etc. O mandamento diz apenas: "Honra o teu pai e a tua mãe..." Faça isto e ponto final!
  5. O quarto e o quinto mandamento são os únicos expressos em linguagem positiva e são os únicos que tratam com instituições que antecedem a queda (o descanso no sábado e o relacionamento familiar).
  6. Os filhos desonram aos pais: 1) Por desobediência; 2) Por rebelião contra a autoridade deles; 3) Por desrespeito à missão deles como guias e mestres; 4) Por ingratidão; 5) Por falta de reconhecimento aos seus esforços; 6) Por desconsideração ao seu amor; 7) Por falta de apreciação pela sabedoria deles; 8) por desprezo aos seus conselhos. 9) Por abandono e desconsideração, quando idosos, e 10) Por esperar deles permanente ajuda financeira, ou colocar sobre eles fardos pesados, esperando que eles se tornem babás dos filhos (netos deles), quando eles são muito idosos.