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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina |
Lição 7 – O enigma de sua conduta |
Rodrigo P. Silva
O Dr. Rodrigo P. Silva é professor de Teologia do SALT
Unasp Campus II.
Introdução
I – Seria Jesus um mau filho?
II – Seria Jesus um neurótico revolucionário?
III – Seria Jesus um desalmado?
A lição desta semana, devo confessar, foi uma das mais interessantes até aqui. Ela aborda um tema delicado que, com a correta reflexão, nos levará a corrigir algumas distorções em relação à pessoa humana de Cristo. A primeira delas talvez seja a insistência que muitos têm em transformar o Mestre numa espécie de Manual de eletrodomésticos. Você certamente já comprou um aparelho eletrônico qualquer que vem com um detalhado manual de instruções. Você abre a primeira página e encontra já no índice uma lista detalhada de todas as informações que precisa para o bom funcionamento de seu aparelho, desde o "leia isto antes de instalar" até a "lista de oficinas autorizadas".
Você vai lendo o manual e encontra passo-a-passo o que deve fazer em cada etapa da instalação até o fim. Não há como errar. Ele traz desenhos ilustrativos para ser o mais didático possível e, no universo globalizado em que vivemos, muitos ainda vêm em vários idiomas para ter a certeza de que todos o entenderão.
Entretanto, o grande problema em agir da mesma forma em relação a Jesus é que esses manuais que mencionamos como ilustração são "Manuais do proprietário", ou seja, vêm com a compra e pertencem a você. Mas Jesus não é minha propriedade e a vida é muito mais complexa que a instalação de um aparelho. Na condição ilustrativa, o manual me diz que devo "conectar o cabo X na parte superior esquerda do aparelho" – não há outra opção. Porém, na vida, as possibilidades de "conexão" são muito maiores e mais complicadas – a chance de errar é bem maior.
Recordo-me de ter lido um clássico nos dias da faculdade que se intitulava "Em seus passos, o que faria Jesus?" O livro foi escrito originalmente por Charles M. Shaldon em 1896 e se tornou, segundo o site de uma famosa editora evangélica, o nono livro mais vendido da história. Somente em inglês, suas vendas chegaram a mais de 50 milhões de exemplares!
Aliás, a febre por esse livro foi tão grande que, nos anos 90, determinada igreja evangélica chegou a vender milhares de braceletes, adesivos e botons com o slogan "em seu lugar, o que faria Jesus?"
Mas admito que, após a leitura desse livro, minha inquietação continuou sendo a mesma sistematizada pela lição desta semana. Em muitas situações é praticamente impossível imitar à risca o comportamento de Jesus e, pior ainda, para a maioria delas não há comparações realísticas. Ele viveu em tempos e situações completamente distintos da minha realidade! Por outro lado, devo entender que o extremo desse pensamento pode criar outra distorção cristológica que seria o esvaziamento completo de Cristo como exemplo e modelo de vida.
Não podemos nos esquecer de que, morte por morte, Jesus poderia ter feito o sacrifício no próprio Céu. Poderia ter sido morto diante dos anjos por amor à humanidade. Mas Ele resolveu encarnar, viver conosco e sofrer em nosso meio a morte salvífica. Logo, Sua conduta tem algo a me dizer.
Portanto, os dois extremos que a lição procura evitar é, por um lado, tornar Jesus um mero "siga conforme o modelo", sem espaço para minha individualidade, meu contexto pessoal. E, por outro, anular completamente na minha trajetória de salvação Sua vida, atitudes e ações. É claro que somos salvos por Sua morte na cruz do Calvário, mas isso não nega, como diz Paulo, que "estando já reconciliados [pela Sua morte] seremos salvos por Sua vida" (Rm 5:10). Nesse texto, "vida" implica a existência ativa (a conduta) do Mestre, antes, durante e depois da encarnação (isto é, Sua ressurreição).
I – Seria Jesus um mau filho?
Ao que tudo indica, a intenção de Lucas é mostrar aos leitores (ou a Teófilo, a quem ele se dirige) que o Jesus terreno tinha claramente uma identidade étnica. Ele era um autêntico judeu, embora não Se limitasse a isso, pois era o Filho de Deus, o esperado Messias anunciado pelos profetas. É nesta trajetória que Lucas menciona Seu nascimento (filho de mãe judia), Sua genealogia, Sua circuncisão ao oitavo dia, Sua apresentação no Templo conforme o mandamento em Levítico 12:2-4 e, finalmente, Sua iniciação no judaísmo, o chamado Bar Mitzvá, realizado quando o menino atingia doze anos.
Quase tudo em Lucas parece ter um significado. Jerusalém, por exemplo, ficava em direção ao sul. Logo, José e Maria deveriam "descer" para lá. Ora, Lucas conhecia bem a geografia local e o sentido orientador da rosa dos ventos. Mas, contrariando a lógica, preferiu dizer que quando Jesus "cumpriu os doze anos, [Seus pais] subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa" (Lc 2:42). Esse era um sentido de respeito em relação à cidade do grande Rei. Eles deveriam "subir" quando se dirigissem para ela, mas desciam, assim que a deixavam. Por isso, Lucas conclui este episódio com as palavras: "E desceu, com eles para Nazaré" (v. 51). E para evitar qualquer mal-entendido que o episódio pudesse sugerir, ele acrescenta "... e era-lhes submisso".
Para os judeus, quando alguém vai a Jerusalém, sempre tem que subir e, neste trajeto ele é um oleh, isto é, alguém que sobe. Quando ele deixa Jerusalém, não importando para onde vá, ele sempre desce, é um yored – alguém que desce. Jesus era, desde a eternidade, plenamente Deus. Não tinha nenhuma altura a alcançar, pois era superior a tudo. Nem tinha, essencialmente, como descer, pois não poderia perder a posição que Lhe pertencia naturalmente. Mas no misterioso milagre da redenção, o Filho de Deus sobe (como se houvesse uma altura a alcançar) e desce (como se pudesse ser diminuído). Esse é realmente um ato de amor que desafia até a compreensão dos anjos!
O bar Mitzvá (embora essa expressão não apareça em Lucas) é um termo técnico do judaísmo e significa literalmente "filho do mandamento". Até soa bem, mas não nos transmite o significado completo da expressão. Para os judeus, dizer que alguém é "filho de..." seria o mesmo que dizer que esse alguém participa da natureza daquilo a que se filia. Assim sendo, "o filho do mandamento" implica uma submissão filial à lei, não só por um momento, mas por toda a vida. Portanto, longe de ser um episódio de autoritarismo, o texto convida a uma reflexão sobre a condescendência de Jesus, isto é, Sua submissão ao preceito da lei, que, neste caso, exigia a morte do pecador – morte que ele mesmo enfrentaria!
Mas, se o episódio indicava submissão da parte de Cristo, por que Ele aparentemente Se esqueceu da autoridade dos pais sem ao menos pedir-lhes permissão para ficar no templo sem se preocupar com o sentimento deles? (Afinal de contas, eles deveriam estar desesperados à sua procura). Lucas parece demonstrar a intenção de apresentar um evangelho que mostre Jesus o mais humano possível, sem, contudo, limitá-Lo a isso. O leitor deveria compreender que havia algo mais por trás daqueles acontecimentos.
De acordo com o Talmude dos judeus, a cerimônia do bar Mitzvá é muito importante, pois é através dela que o menino se torna "adulto", assumindo religiosamente uma grande responsabilidade perante Deus e o mundo. Nisto entra, em primeiro lugar, a questão das prioridades espirituais. Muitas vezes, o pecado não é o que fazemos, mas em que ordem de importância o fazemos. Exemplo: amo muito minha esposa e procuro ser devotado a ela. Ora, isto é correto, justo e bom. Porém, se algum dia esse amor estiver acima ou à frente do amor que tenho por Deus, ele se torna pecado. Noutras palavras, o problema não é amar Isaque, é recusar-se a oferecê-lo a Deus. Jesus amava Seus pais terrenos, mas sabia que os mandamentos de Deus também têm sua hierarquia. Por incrível que pareça, há mandamentos que, se colocados em choque têm de possuir uma relação de "mais-valia" senão entramos num fosso ético. Note: obedecer às autoridades governamentais é um legítimo princípio bíblico ordenado pelo Senhor (1Pe 2:11-17), mas se essa autoridade me ordenar a adoração do governante como se fosse um deus, ela se choca com o mandamento que condena a idolatria. Logo, neste caso específico, a fidelidade a Deus consiste em "desobedecer às autoridades".
Jesus tinha preocupação com José e Maria. Amava-os profundamente. Mas sabia que, ao receber em Seu coração a ordem do Pai Celestial para testemunhar aos doutores do Templo, não podia deixar de cumprir a vontade de Deus. Como diz Ellen White, "o mistério de Sua missão desvendava-se ao Salvador" (DTN, 67). Ele começara a entender melhor Seu papel neste mundo, e isso vinha em primeiro lugar.
Por outro lado, o texto nos mostra que, mesmo sendo pessoas sinceras e especiais, José e Maria eram humanos e, portanto, sujeitos a falhas, como nós. Vendo que Jesus era um menino esplêndido e sabedores de Sua origem divina, queriam tornar a visita a Jerusalém uma oportunidade de apresentá-Lo aos rabinos e, quem sabe, conseguir destes um interesse para educar seu Filho. Ou seja, eles queriam que os doutos vissem Jesus e Lhe dessem uma "bolsa de estudos". Provavelmente, não o fizeram por aparente falta de oportunidade. E se desanimaram tanto que acabaram deixando Jesus com alguns amigos (ou pelo menos pensaram que haviam deixado).
Embora Jesus fosse obediente às leis de Deus, não estava feliz com as práticas rabínicas e sacerdotais que testemunhara. Pelo toque de Seu Pai celestial, Ele sentia que a influência daquele lugar, por incrível que parecesse, não Lhe seria totalmente benéfica. Exigiria uma submissão aos mestres, e isso entraria em conflito com a submissão a Deus. Novamente, temos dois princípios em colisão onde deveria prevalecer a lei da mais-valia. A submissão a Deus, é claro, viria em primeiro lugar.
Muito provavelmente por isso, e para evitar que Seus pais O repreendessem na presença dos doutores, caso Ele lhes falasse com autoridade messiânica, preferiu ficar sozinho e, no momento, certo "pregar" para aqueles que supostamente seriam os Seus professores.
Portanto, ao encontrar-Se com Seus pais terrenos e ouvir sua queixa, carinhosamente Jesus teve que colocá-los em seu lugar. O amor e devoção deles (perfeitamente compreensíveis) poderiam ser um obstáculo ao Seu ministério. Mesmo sabendo muito bem que Ele era o Filho de Deus, o lado materno de Maria poderia, por vezes, esquecer essa verdade, não desejando que seu amado e único Filho Se arriscasse a sair pelo mundo, pregando uma mensagem que poderia custar-Lhe a vida. Sendo mãe, ela poderia tentar impedi-Lo e, prevendo isso, Ele explicou-lhe carinhosamente que ela não deveria confundir seu grandioso papel de "mãe" com o de "líder" do Filho de Deus.
II – Seria Jesus um neurótico revolucionário?
Muitos confundem autoridade com desespero. Pensam que ficar aos berros, dando murros no púlpito ou soltando palavras de ordem no ar é o que faz delas um(a) revolucionário(a) de Deus.
No episódio do Templo, Jesus certamente estava irado, mas não sem auto-controle. Ele não era um descontrolado emocional. A ira é um sentimento tão legítimo e correto quanto a compaixão. O que a torna boa ou ruim é a certeza de que foi aplicada no momento certo e na dosagem certa. No caso de Cristo, esse equilíbrio era perfeito. Ele não explodia porque perdia a paciência, mas porque, naquele momento específico, essa era, talvez, a única chance de despertar as pessoas. Entretanto, mesmo nessas horas Ele tinha um embargo de lágrimas na voz.
Também devemos entender que o comportamento de Jesus teve uma razão cultural de ser. No Oriente Médio, havia o costume do chamado "ato do profeta". É quando um vidente de Deus tomava uma atitude radical ou praticava uma ação inusitada apenas para chamar a atenção para uma mensagem maior que gostaria de transmitir ao povo. Essa mensagem era, portanto, encenada, muitas vezes num estranho ato. Por exemplo, Oséias vai até Gômer, perdoa seu adultério e a aceita – uma atitude impensada para a maioria dos judeus. Mas foi justamente aí, quando tinha atraído a atenção absoluta do povo devido ao ato escandaloso que praticara, que ele pôde explicar sua atitude: "Se é vergonhoso para um homem aceitar de volta uma mulher que o traiu, imagine a vergonha que vocês atribuíram a Deus, levando-O a aceitar novamente uma nação infiel".
Outras atitudes profético-pedagógicas (podemos assim dizer) seriam o fato de João Batista ter ido para o deserto, vestir-se de peles de animais e comer gafanhotos com mel silvestre; ou ainda a de Isaías colocando em seu filho o estranho nome de "Rápido- Despojo-Presa-Segura" (Is 8:3). Todos entenderam perfeitamente a mensagem.
Porém, se viesse hoje, Jesus certamente agiria de maneira diferente, adaptando Seu comportamento a uma linguagem mais condizente com a compreensão moderna.
Outro exemplo de "ato do profeta" no ministério de Jesus seria o estranho episódio dos demônios que saem para os porcos e esses se precipitam ao mar. O motivo primordial de Jesus, conforme a anotação de Ellen White no DTN, p. 324, era mostrar aos criadores de porcos que eles estavam errados em ficar tão presos às coisas materiais. Difícil é saber se aqueles homens eram ou não judeus, mas existe uma pequena possibilidade de terem sido, pois, por incrível que pareça, havia judeus naquele tempo que criavam porcos não para consumo próprio, mas para obter dinheiro com a criação. Seja qual tenha sido a etnia daqueles criadores de porcos, a presença desses animais imundos nos arredores da Galiléia era algo realmente de se admirar. Mostrava, no mínimo, uma tolerância por parte de judeus menos devotos. Aliás, Gadara e boa parte da região de Decápolis era formada por gentios residentes que dividiam comércio com os cidadãos judeus.
Portanto, o ato de Jesus em permitir a entrada dos demônios nos porcos (com o auto-extermínio da manada) é um ato do profeta. É como se Ele dissesse: "Vejam o que vocês estão valorizando mais: porcos endemoninhados em lugar do Filho de Deus!"
E ainda há uma ilustração adicional apontada pela lição e que não contradiz o que até aqui foi dito. O mesmo ato de advertência apontava de modo irônico a excessiva tolerância de paganismos na terra de Israel, o que acabou atraindo o opróbrio romano sobre eles (assim como trouxe os babilônios na época de Nabucodonosor). É que porcos normalmente não pastam em montanhas, conforme o relato de Marcos 5:11. Quem ficava nos montes vigiando as regiões ocupadas eram os legionários romanos. E qual não é a auto-identificação dos demônios senão "Legião"? Também é curioso que, diferente dos outros evangelistas, na versão de Marcos, os demônios pedem para não ser expulsos "do país" (v. 10). Mas depois da ordem de Jesus, eles se precipitam no mar. Era muito clara a alusão à presença romana, odiada por muitos, mas tolerada pelos comerciantes e líderes do povo. Novamente, o episódio histórico serve de símbolo para o fato de que uma legião de romanos (os demônios) e uma multidão de gentios paganizados (porcos) eram mais bem recebidos em Israel que o prometido Messias.
Foi esse o contexto daquele episódio e não uma gratuita "destruição de propriedade" praticada por Jesus. Note que Ele nem tocou nos porcos, nem mandou que nenhum de Seus seguidores o fizesse. Apenas deixou que os demônios se apoderassem deles e fizessem o estrago. Tentou mostrar para todos que o lucro que vem do Diabo também se vai com ele para o precipício.
III – Seria Jesus um desalmado?
Antes de considerarmos Jesus um amigo infiel por não ter ido à prisão visitar João, lembremos que Ele veio à Terra (pior prisão que se pode imaginar) não apenas para visitar, mas para salvar João e toda a humanidade. E essa salvação não custaria nada menos que Sua vida!
Naquele caso específico, havia uma questão de autoridade envolvida. Nesse tipo de prisão em que alguém já estava esperando o cumprimento de uma sentença de morte, apenas a esposa, os filhos e os discípulos mais íntimos do condenado costumavam ter autorização para visitá-lo. Não era permitida a visitação aberta para todos, senão poderia haver tumulto. Assim foi no caso de Sócrates e, ao que tudo indica, também no caso de Paulo.
O parentesco de Jesus em relação a João Batista não O incluía entre os que podiam visitá-lo. Ele só poderia visitá-lo como discípulo. Noutras palavras, ir vê-lo significaria reconhecer-Se discípulo de João Batista, o que Ele, definitivamente não era. Além disso, havia por parte dos seguidores de João (e até dele mesmo) um questionamento sobre o porquê de Jesus não ter movido uma milícia para libertá-lo. Assim pensavam porque ainda tinham um conceito equivocado acerca da obra do Messias. Entendiam-nO como um revolucionário zelote disposto a proclamar uma guerra civil, expulsando os romanos, exterminando a ala corrompida do sacerdócio em Jerusalém e purificando o Templo – eventos que tornariam Israel a nova super-potência mundial. Assim, caso Ele atendesse aos anseios de liberdade nutridos por João e seus discípulos, alimentaria também a idéia errada que tinham de messianismo. Nessa ocasião entrou novamente em vigor a mesma lei que orientou Seu comportamento em relação aos pais no episódio do Templo: Ele até desejava libertar Seu amigo João, porém, Sua prioridade no momento era corrigir as distorções messiânicas, conforme a vontade do Pai.
Ao próprio João, Ele tinha que ensinar uma lição semelhante à que ensinou a José e Maria. Por ser Seu parente mais velho, João poderia achar que tinha o direito de dar-Lhe algumas dicas, ensinar-Lhe como realizar Seu ministério. Afinal, ele tinha mais experiência e, na época, bem mais discípulos que Jesus. Ao deixá-lo na prisão e apenas responder por um emissário que os milagres estavam sendo feitos e João deveria descansar nisso, Jesus mostrou quem estava no comando. E antes que alguém pense que isso foi uma fria rejeição ao Seu amigo, é bom lembrar os elogios que Ele pessoalmente elencou em homenagem a esse grande herói, chamando-o de "muito mais que um profeta", "o maior homem da história" (Mt 11:7-19 e Lc 7:24-35).
Mas nenhum desses comportamentos de Jesus pode parecer mais estranho que Seu convívio com os "pecadores", isto é, gente de moral duvidosa com os quais Ele comia e Se confraternizava. Isso porventura significaria que, se estivesse aqui hoje, Jesus estaria numa balada às 3h da manhã, conversando com bêbados e prostitutas numa mesa de bar?
Não confundamos as situações! Em primeiro lugar, naquela época (e até mesmo hoje) comer com uma pessoa no Oriente Médio era sinônimo de aceitação ou rejeição, caso você se recuse a participar de uma refeição comunitária. Lembro-me de várias vezes no Oriente Médio em que fui convidado a comer ou beber um chá com cidadãos que tinha acabado de conhecer. Certa feita, quando meu estômago não mais agüentava tomar chá (que em cada casa ou loja me era oferecido) perguntei a um cidadão do Cairo – que novamente me convidava para uma "canecada" – o que aconteceria se eu me recusasse a beber com ele. Sua fisionomia, alegre até então, se transmudou e ele disse: "Você simplesmente estaria declarando que me odeia!" Não pensei duas vezes e forcei o golo de mais uma xícara de chá.
Nos dias de Jesus, muitos daqueles pecadores eram rejeitados da sociedade. Os mais religiosos não se aproximavam deles, nem aceitavam comer à sua mesa. O problema é que não havia relacionamento sem uma refeição que a acompanhasse. Nenhum ensinamento poderia ser ministrado por um mestre se este não comesse com seus discípulos em potencial. Assim, se Jesus quisesse atingi-los, tinha que ir aonde eles estavam, aceitar comer com eles e, somente depois disso, haveria espaço para ouvir Seus ensinamentos. Não tinha outro modo. Aliás, muitas das histórias e ensinamentos de Jesus foram, justificadamente, dados na hora da refeição – o que era mais natural naquela cultura. Por isso, compreende-se a importância da multiplicação dos pães à multidão que seguia o Mestre – eles tinham de cear juntos. Também se torna claro porque Seus últimos ensinos se deram ao redor de uma mesa (a Santa Ceia). Mesmo depois de ressuscitado, Ele novamente comeu com Seus seguidores ao instruí-los acerca da missão. E no Apocalipse 3:20, Ele usou essa mesma imagem social da época e se portou como um amigo batendo à porta e que, se tiver entrada franca, entra em minha casa e faz a refeição comigo, isto é, me aceita. Não importa se a refeição é oferecida por você ou aceita. O que importa é comer com o outro para que ele realmente se convença de que você é seu amigo. Portanto, essa era uma questão cultural.
Hoje, eu não preciso beber com um grupo de jovens numa festa de Heavy Metal ou participar de um churrasco com traficantes para ter oportunidade de falar-lhes do amor de Deus. Há outros meios culturais de mostrar-lhes sua aceitação no reino de Cristo, caso se arrependam. Mas o que não podemos esquecer é que, mesmo em nossa época, sempre há preconceitos que deveremos quebrar para atingir os que estão fora do nosso rebanho. A pergunta-chave, portanto, seria: até aonde devemos ir para amoldar nosso evangelho à cultura do outro? Afinal, se não aculturarmos nossa mensagem, não atingiremos ninguém que esteja fora dela. Por outro lado, porém, se isso não tiver um fim, seremos nós que mudaremos e não o outro!
Ilustremos a situação da seguinte forma: meu corpo precisa de água para viver assim como a Igreja precisa da evangelização para continuar existindo. Certo? Mas a água não é de graça, ela tem um preço. Se quero e preciso bebê-la, tenho de pagá-lo. No fim da aula, chego a uma panificadora e peço uma garrafinha de água mineral. O preço normal seria um ou dois reais. Tenho o dinheiro para pagar essa justa quantia. Sacio minha sede e até aí, não há nenhum problema.
Mas vamos supor que eu chegue à panificadora e, por uma loucura qualquer do proprietário, verifico que a garrafa d’água custa 200 reais. E o que é pior: ainda que eu tenha esse dinheiro, se usá-lo para comprar uma simples garrafa d’água, vou desinteirar para pagar meu aluguel. A pergunta óbvia, pois, é: compensa comprar essa água, ou seria melhor andar um pouco mais à frente e comprar uma garrafa normal com preço igualmente normal?
Assim é com a Igreja: Para termos pessoas em nosso meio, precisamos pagar um preço. Mas esse preço tem seu limite. Se o montante exigido para ter alguém em nosso meio é que o aceitemos e batizemos, por exemplo, mesmo que esse alguém esteja vivendo maritalmente com outra pessoa do mesmo sexo ou ainda bebendo e se prostituindo, então, por mais que o amemos, devemos admitir que esse é um preço alto demais para se pagar por uma pessoa. Ele é absurdo e "desinteira" o valor de nossa identidade denominacional. Nesse caso, o melhor é ir um pouco mais além e buscar outros de preço mais razoável.
Note que, mesmo Jesus, ao pagar um preço altíssimo em nosso resgate, não tornou infinito esse preço. Ele não nos leva para o Céu "custe o que custar". Existe um limite. Leia em Apocalipse a lista dos que não entrarão ali! Deus Se "aculturou" à humanidade ao Se tornar um de nós e vir ao mundo nos resgatar. Mas, ainda assim, Sua regra é transformar o caráter para moldá-lo ao Céu e não transformar o Céu para torná-lo agradável a um caráter não convertido. Portanto, sempre que alguém fizer uma proposta evangelística de aculturação do evangelho a determinado setor da sociedade, compensa perguntarmos: "Está certo, mas quem evangeliza quem?" Nós mudamos o mundo ou nos adequamos a ele?
Note que, após falar do ato social de Jesus em comer com pecadores, o evangelista Mateus coloca propositadamente os ais de Cristo sobre as cidades que não se arrependeram (Mt 11:20-24). Isso mostra que Seu comportamento, longe de ser uma aproximação comportamental com o mundo, era uma estratégia evangelística bem planejada com princípio e fim. Não era uma atitude insensata de levar pecadores ao Reino, custasse o que custasse, para conduzi-los ao Céu, ainda que não se arrependessem. Ou, pior ainda, tornar-Se um com eles de tal modo que, depois, ficasse difícil retornar ao que era originalmente.