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Subsídios Para a Lição da Escola Sabatina |
Lição 5 – A inspiração dos profetas |
Pr. Renato Stencel
Diretor do Centro White – Brasil
UNASP – EC
I. Introdução
Uma das mais importantes verdades que encontramos nas Escrituras diz respeito ao infinito amor de Deus, expresso em todos os feitos de Sua criação. De acordo com o Espírito de Profecia “desde o minúsculo átomo até o maior dos mundos, todas as coisas, animadas e inanimadas, em sua serena beleza e perfeito gozo, declaram que Deus é amor”(1). Sua criação e a maneira pela qual Deus Se relaciona com Suas criaturas revelam de forma legítima a essência do Seu caráter. De fato, Deus é o ser mais relacional que existe no Universo. Ele anseia por Se comunicar com os seres humanos e assim tem sido desde a criação de nossos primeiros pais.
Mesmo em face do abismo causado pelo pecado, Deus não rompeu o diálogo com Suas criaturas. Ao contrário, Ele tomou providências para restabelecer a ponte de ligação entre o Céu e a Terra, o Criador e a criatura (Gn 3:9). Desta forma, por intermédio dos profetas, Ele “confiou ao homem finito o preparo de Sua Palavra divinamente inspirada. Esta Palavra, arranjada em livros - Antigo e Novo Testamentos - é o guia para os habitantes de um mundo caído, a eles legado para que, mediante o estudo das direções e a obediência a elas, ninguém perca o caminho do Céu”(2).
Por ser uma inegável fonte de revelação divina, a Bíblia tem sofrido inúmeros ataques ao longo de sua existência. Com o propósito de minar a inspiração da Palavra de Deus, muitos têm colocado em prova sua veracidade. “Nenhum componente da fé cristã tem sido debatido de uma forma tão controvertida nos últimos dois séculos como a natureza e a autoridade das Escrituras. Ao perderem a confiança na Bíblia, muitos cristãos modernos e pós-modernos já não mais a consideram a ‘única regra de fé e prática’”. (3)
No entanto, a despeito dos muitos ataques, críticas e ceticismo, a Palavra de Deus tem resistido a todas as provas. Mediante o poder divino, seu conteúdo tem sido guardado e preservado ao longo dos séculos. E, como uma poderosa luz, a Bíblia tem transformado e enobrecido vidas, conduzindo-as aos pés de Jesus Cristo.
II. A comunicação divino-humana
Para todo aquele que almeja compreender o modo pelo qual Deus Se comunica conosco, é de vital importância examinar os conceitos de revelação, inspiração e iluminação profética. A maneira de entendermos este processo irá influenciar nossa concepção quanto à pessoa de Deus, a maneira de nos relacionarmos com Ele e a forma de manifestarmos e praticarmos nossa fé.
Ao observarmos o processo de comunicação divina, podemos compreender que nosso Deus estabeleceu um modelo de comunicação claro, objetivo e organizado. No entanto, muitos estudiosos divergem na tentativa de compreender esse processo. A lição desta semana enfatiza de maneira mais acentuada o conceito de inspiração, o qual tem sido objeto de muitas dúvidas e questionamentos.
Atualmente, com base em princípios finitos e falíveis, muitas pessoas ousam determinar no conteúdo das Escrituras e do Espírito de Profecia o que é e o que não é inspirado. Tais indivíduos costumam afirmar que alguns profetas foram parcialmente inspirados ao escrever certos conteúdos. Essa abordagem tem conduzido pessoas à descrença e, como conseqüência, a compreensão da verdade tem sido colocada em cheque. Desta forma, os escritos revelados por Deus passam a ser interpretados de acordo com a imaginação e preferência pessoal e, como resultado, a verdade é distorcida.
Antevendo a manifestação desse fenômeno, o Espírito Santo revelou uma mensagem específica ao se referir à maneira pela qual os escritos da Bíblia e do Espírito de Profecia seriam tratados(5):
“Esta é a maneira por que meus escritos são tratados pelos que desejam compreendê-los mal e pervertê-los. Transformam a verdade de Deus em mentira. Exatamente de maneira idêntica por que eles tratam os escritos em meus artigos publicados e nos meus livros, tratam os céticos e os infiéis a Bíblia. Leem-na segundo seus desejos de perverter, aplicar mal, torcer voluntariamente as declarações de seu verdadeiro sentido. Declaram eles que a Bíblia pode provar qualquer coisa e tudo, e cada seita prova que suas doutrinas estão certas, e que as doutrinas mais diversas são provadas pela Bíblia” (Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 19).
Ao tratar do assunto da inspiração da Palavra de Deus, Ellen G. White apresenta alguns princípios e conceitos que nos auxiliam a compreender melhor o processo divino-humano de comunicação. Tais princípios podem ser encontrados no livro Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 15 a 23.
A linguagem que Deus empregou para Se comunicar com o ser humano é uma prova inequívoca de Seu infinito amor para conosco. Ele desceu ao nosso nível a fim de revelar Sua vontade e apresentar o plano de resgate da raça humana por intermédio de Seu Filho Jesus Cristo. De acordo com a revelação do Espírito de Profecia,(6)
“O Senhor fala aos seres humanos em linguagem imperfeita, a fim de os sentidos degenerados, a percepção pesada, terrena, dos seres da Terra poderem compreender-Lhe as palavras. Nisto se revela a condescendência de Deus. Ele vai ao encontro dos caídos seres humanos onde eles se acham. Perfeita como é, em toda a sua simplicidade, a Bíblia não corresponde às grandes ideias de Deus; pois ideias infinitas não se podem corporificar perfeitamente em finitos veículos de pensamento.
III. Teorias de inspiração profética
O Dr. Manuel Angel Rodriguez destaca três teorias de inspiração que têm sido defendidas pelos estudiosos das Escrituras Sagradas na atualidade: (a) inspiração verbal; (b) inspiração do pensamento e (c) inspiração mecânica/ditado(7):
Com base na Bíblia e nos escritos do Espírito de Profecia, a Igreja Adventista do Sétimo Dia adota a inspiração do pensamento como a teoria padrão para explicar o processo de comunicação entre Deus e o homem. Este modelo compreende a união harmônica do divino com o humano, ou seja, a mente e a vontade divina são combinadas com a mente e a vontade humana. Tal fenômeno representa uma ação sobrenatural. “Ao formular ou escolher palavras e expressões para representar os pensamentos recebidos de Deus, o profeta exercita o intelecto e a escolha humana em cooperação com a mente e a vontade divina” (8).
Ellen White compreendia claramente esse processo como algo real e dinâmico que continuava enquanto o profeta permanecia sob a influência do poder divino. Primeiramente, ela reivindicava completa dependência do Espírito Santo para escrever – necessidade da união com a mente e vontade divina. Em segundo lugar, ela afirmava possuir completa responsabilidade e liberdade para escolher as palavras:
“Se bem que eu dependa do Espírito do Senhor tanto para escrever minhas visões como para recebê-las, todavia as palavras que emprego ao descrever o que vi são minhas, a menos que sejam as que me foram ditas por um anjo, as quais eu sempre ponho entre aspas.”(9)
“Significações diversas são expressas pela mesma palavra; não há uma palavra para cada ideia distinta.”(10)
Em suma, Ellen G. White compreendia a combinação divino-humana como um processo progressivo na experiência do profeta. A inspiração guiava o profeta como comunicador, não somente na formulação inicial para transformar pensamentos em palavras, mas também no aprimoramento subsequente de outras expressões de cunho individual ou com o auxílio de outras pessoas.
Modelos de inspiração profética
É notório lembrar que nem todos os livros da Palavra de Deus foram escritos pelos profetas por intermédio de sonhos e visões. Alguns livros da Bíblia foram escritos sob diferentes processos de inspiração, como por exemplo, o evangelho de Lucas.
Nas páginas da Bíblia podemos identificar pelo menos seis modelos, ou padrões, de inspiração. Esses modelos lançam luz para uma compreensão melhor do modo pelo qual Deus Se comunica com a humanidade e nos ajudam também a entender de maneira mais clara e evidente a dinâmica da inspiração nos escritos proféticos de Ellen G. White. Tais modelos foram desenvolvidos pelo Dr. Juan Carlos Vieira em 1996(11):
IV. Fenômenos físicos durante as visões
Cada profeta que é chamado e escolhido por Deus para esse ofício é único, singular. “Ao fazer um profeta, Deus toma a pessoa inteira – corpo, mente, espírito, inteligência, personalidade, fraquezas, forças, educação, características individuais – e depois procura por meio dessa pessoa proclamar Sua mensagem e realizar uma missão especial”.(12) No entanto, a autoridade da revelação encontra-se na mensagem e não no mensageiro. Todavia, isso não elimina a possibilidade de conhecermos a vida e obra do profeta.
Porém, há alguns traços de comportamento que podem ser considerados evidências comprobatórias do ofício profético. Tais aspectos são observados, sobretudo durante o momento em que o profeta vivencia o processo da visão. O Dr. Herbert Douglass relaciona dez características(13). Os profetas:
(1) Têm consciência de que uma Pessoa sobrenatural Se comunica a eles; eles sentem um senso de indignidade;
(2) Frequentemente perdem as forças;
(3) Às vezes, caem por terra em profundo sono;
(4) Ouvem e veem acontecimentos em lugares remotos, como se estivessem realmente presentes;
(5) Às vezes, não conseguem falar, mas, quando seus lábios são tocados, eles conseguem fazê-lo;
(6) Muitas vezes, não respiram;
(7) Não têm consciência do que acontece ao seu redor, ainda que tenham os olhos abertos;
(8) Às vezes, recebem força suplementar durante a visão;
(9) Recebem força e alento renovados quando a visão termina;
(10) Ocasionalmente, sofrem algum tipo de lesão física temporária como sequela da visão.
É necessário compreender que nem todas as características apresentadas acima são observadas a cada visão. Desta maneira, não devemos usar tais fenômenos como a única prova para validar o ofício profético. Sendo assim, a credencial de um profeta deve ser comprovada por vários fatores: (a) seus escritos; (b) o fruto de seu trabalho; (c) a consonância entre a escrita e a prática de vida perante a sociedade, etc.
V. Conclusão
Ao encerrarmos este comentário, precisamos reconhecer que nosso Deus é a fonte de toda revelação pura e perfeita; NEle “não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1:17). No entanto, ao analisarmos o veículo humano (profeta) é necessário considerar a possibilidade de erros e imperfeições, os quais são produtos da ação do pecado durante os quase seis mil anos da história humana.
Entretanto, o Senhor nos surpreende com Seus caminhos maravilhosos e, aos olhos humanos, aparentemente estranhos. Ao Se comunicar conosco, Ele escolhe seres humanos falhos, mas dedicados que usam a linguagem humana imperfeita como instrumento de comunicação de Suas verdades. Devemos ser gratos ainda, pois nosso Pai celestial não escolheu uma linguagem “sobre-humana”, mas optou por usar nosso próprio jeito imperfeito e comum de ver e entender as coisas. Louvemos a Deus por Seu infinito amor manifestado por meio do Seu sistema de comunicação, que nos traz graça, paz e esperança de salvação e vida eterna !
Bibliografia